terça-feira, 14 de abril de 2015

O MEU AMIGO ARMANDO

Passei a noite em branco, contei carneiros, sintonizei respiração e números, bebi, fumei, vi filmes, li, vi o sol nascer mesmo ao lado da lua e pensei que estava a enlouquecer. Levantei-me para acordar a filha mais nova, tomei banho enquanto ela se despachava, tomámos o pequeno-almoço, saímos, entrámos no carro, um tipo atravessou-se à nossa frente, o instinto sacou-me a buzina, e a minha filha, ainda traumatizada de um ligeiro acidente de há dias disse, pai, isto anda tudo doido. Deixei-a na escola, fui para o trabalho, recebi os transportadores com a mercadoria, um deles atrasou-se e teve que evitar os seguranças, parecia um rato a fugir da vassoura, largou a mercadoria e no final suspirou, isto anda tudo doido. Fui beber um café, comi também um bolo de arroz, ao balcão comentavam-se promoções, o shopping vazio, a cliente endemoninhada que ameaçou de morte o funcionário da NOS, um segurança meteu-se na conversa e disse-nos que não sabíamos da história nem metade, na verdade eles lidam com situações semelhantes todos os dias, das garagens ao piso da restauração, anda tudo doido. Fumei um cigarro enquanto observava o vento agitar as folhas das palmeiras, mais uma loja que fechou, a vizinha que passeava o cão, os arrumadores de carros a disputar localizações, um velhote que por ali tem passado as manhãs de reforma a cravar cigarros e a apanhar beatas, a trupe cativa a beber as primeiras cervejas e o rapaz da manutenção a peneirar o lago transformado em charco, rosto imundo do consumo carregado de beatas, latas, folhas secas, sacos, até uma porra de um preservativo, anda tudo doido. Abri o antro, comecei a recepcionar produto, entraram os primeiros clientes, pedidos comuns, fáceis de atender, outros mais extravagantes, desafiantes, o costume, um cliente pretendia saber quais os livros que tínhamos sobre o islão, viu vários, folheou, enquanto os folheava dei com meia dúzia de livros desarrumados junto à culinária, estranhamente desarrumados, peguei neles para os arrumar e reparei que tinham sido meticulosamente rasgados da mesma forma e nos mesmos locais, o cliente que queria os livros sobre o islão também viu, olhou para mim, disse-me logo que aquilo só podia ter sido alguém, assim mesmo, aquilo só podia ter sido alguém, e concluiu: isto anda tudo doido. À hora de almoço aproveitei para caminhar um pouco, nem almocei, estava sem apetite, passei pela farmácia para comprar medicamentos para a asma e para as alergias, meia dúzia de pessoas à minha frente, uma delas queria ser atendida primeiro do que as outras, apesar de nem sequer ter tirado senha de atendimento, tinha a máxima urgência em ser atendida, dores insuportáveis, não aguentava mais, os funcionários da farmácia olhavam-na pacientes e explicavam que tinha de aguardar a sua vez, que não podia passar à frente dos outros, assim era pior, atrasava o serviço, ela não compreendeu, levantou a voz, armou escândalo, algumas pessoas predispuseram-se a deixá-la passar à frente, mas ela não quis, saiu a esbracejar e aos berros, ao que um funcionário da farmácia comentou, ó meu deus, isto anda tudo doido. Telefonei ao Armando para saber como anda, na realidade sei que não anda bem, depressão grave, esteve internado uns dias, problemas de esquizofrenia na família, uma tentativa de suicídio, agravam o diagnóstico, carece de cuidados especiais, falámos do Sporting, dos livros que ando a ler, ele não tem conseguido ler nada, sugeri-lhe o álbum do Hanni El Khatib, mas não me pareceu interessado, tinha estado a ver o Interstellar e aquilo era o que o futuro próximo nos reservava, dias de pó, sonhos irrealizáveis, dias sem fé nem esperança nem futuro, apenas nuvens de pó e os pulmões das pessoas todos fodidos, muita gente a morrer de fome porque as pragas iam dar cabo das colheitas, lembra-te de que és pó e ao pó voltarás, bastava ler o Público para perceber que o processo já ia em estado adiantado e não consta que a NASA esteja a preparar viagens para mundos alternativos, mundos paralelos, não consta que existam hipóteses de colonização noutras galáxias, um outro sistema solar onde possamos admirar o canto das gaivotas mesmo quando nos cagam os carros, para não lembrar quando nos cagam a testa, mundos com serras e campos e rios de água pura, isso acabou, não vês Henrique, demos cabo de tudo, e a culpa é também dessa indústria para a qual trabalhas, as toneladas de lixo que se produzem, já viste, já pensaste, quantas árvores é necessário abater para fazer toda essa pasta de papel onde são impressos os livros, e a tinta, a poluição que essa merda gera, os governos querem proibir os putos de beber, deviam era proibi-los de ler, agora vêm com taxas sobre os sacos, as empresas a lucrarem à conta da venda de sacos recicláveis que ainda são mais poluentes, quais sacos quais carapuça, se isto fosse como deve ser nem sequer havia sacos, tudo o que um homem precisa cabe numa mão, para quê os sacos, está tudo ao contrário, fazem tudo ao contrário, depois admiram-se de o mundo andar às avessas, comunistas que agem como capitalistas, olha para a China, capitalistas que agem como comunistas, olha para os impostos que pagas, o peso do Estado, meu, não gostam do Estado, não querem o Estado, mas metem-se todos lá dentro a sufocar o pobre do cidadão, não percebo como pudeste aderir a esse fantasma do comunismo Henrique, isto está tudo fodido, pá, não há salvação, os ovos estão podres e da podridão só nasce mais podridão, lembras-te das discussões sobre a clonagem, da cena da ovelha e dos tipos que queriam fazer uma estação para receber extraterrestres em Israel, esses gajos é que estão certos, ah, ah, ah, extraterrestres em Israel, como se não bastasse o que já têm na terra, só se for para receber os anormais do ISIS e os extraterrestres do Boko Harém, com as suas mil virgens raptadas na Nigéria, enquanto o Barack coça o grelo à Hillary e a Europa se entretém com os faquires da Grécia, isto anda tudo doido Henrique, basta saíres à rua, pá, anda tudo doido.

4 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

Afinal o sudeste só levou foi uns dias a mais até chegar aí...

bea disse...

têm razão, de há uns tempos a esta parte, anda tudo doido.

Gustavo Offely disse...

Gostei.

Anónimo disse...

Gostei muito do título. Sofia