sexta-feira, 1 de maio de 2015

DOIS LIVROS DE RUI BAIÃO

Este texto podia ter o título de “vias para a loucura”. Não seria porém honesto para com o seu propósito. E o seu propósito é organizar algumas pistas de leitura da poesia de Rui Baião (n. 1953), poeta cuja capacidade de me inquietar anda a par da sua absoluta discrição. Basta olharmos para as capas de Rude (Averno, Maio de 2012) e de Insane (Averno, Dezembro de 2014) — título ambíguo, substantivação provável dos adjectivos insaneável e insano — que logo constatamos essa discrição na ausência do nome do autor. Por si só, o gesto pouco significará. Talvez permita concluir haver neste poeta uma preferência pela sombra que o mantém atrás da cortina, indiferente à lotação que ocupa as preocupações da sociedade recreativa e de espectáculos em que se transformou o meio literário no decorrer do último século.
As fotografias de Paulo Nozolino sublinham uma colaboração que não é de agora, destacando-se, nesse domínio, o catálogo da exposição bone lonely (Steidl, 2011). Refira-se, aliás, que uma das secções de Rude, a segunda, corresponde, mais coisa, menos coisa, à versão portuguesa dos poemas incluídos nesse catálogo. Chamo-lhe secções tendo em conta as páginas totalmente negras que pontuam conjuntos de poemas sem título onde pressentimos focos distintos, se bem que no seu todo o livro acabe por resultar num bloco escrito a três tempos. Já Insane escapa a esta descontinuidade, prescindindo-se, por isso, do índice final. Mas porquê “vias para a loucura”?
Baião tem mantido desde a primeira hora uma coerência inquestionável quanto aos pressupostos de uma poesia consciente da corrosibilidade do tempo, recusando manter-se refém dos discursos de sedução que tantas vezes contaminam uma produção poética semelhante à publicitária. A sua obra é difícil, mas não é inacessível. Pelo menos não o é naquele sentido hermético que se protege do leitor esvaziando os versos de conteúdo. Esta dificuldade advém de uma opção pelo confronto com a realidade a partir de imagens onde o declínio e a ruína ressumem a solução final. É uma poesia profundamente marcada pela experiência da morte, na medida em que: «A experiência da morte é a coisa mais vulgar do inconsciente, precisamente porque se faz na vida e para a vida em todas as passagens e transformações, em todas as intensidades como passagens e transformações» (Gilles Deleuze & Félix Guattari, in O Anti-Édipo).
Também tomando Deleuze e Guattari por princípio, poderíamos dizer que esta é uma “literatura” que “armadilha a sua encomenda”, colhendo entre os escombros, os destroços, o entulho, sinais de um tempo histórico decadente. Talvez ela se aproxime das teses decadentistas que em tempos se opuseram, em termos teóricos, ao naturalismo. Assim sendo, deveremos varrer, desde logo, qualquer inclinação nefelibática desta poesia, tal como aspectos simbolistas que apenas secundariam a sua visceral ligação à terra e ao corpo enquanto raízes a partir das quais a ruína se processa. Verificamos igualmente que esta ruína não deve ser circunscrita a cenários urbanos. É, sobretudo, de carácter ontológico, ou seja, inerente à própria condição do ser.
Isto mesmo podemos inferir da figura humana que surge na supracitada segunda secção de Rude, «um nado morto» (p. 42), «Um homem à beira / do fim» (p. 43), «baleado pelas sequelas do tempo» (p. 44), «Um morto / milhares de mortos / por morrer» (p. 51), sendo que «Cada um é para o que morre…» (p. 60) e, acrescentemos nós, a morte é o destino de todos. Mais do que na conclusão, a poesia está no dizer, no modo como se projecta a conclusão. Esta surge de uma posição assumida pelo sujeito poético logo no primeiro poema do livro, o primeiro da primeira secção:

Rever ao espelho pormenores,
dúvidas duráveis
como tudo num charco.
Vertigem confusa
os convertesse em dois
mascarados de coincidência.

Tudo parece vago neste pequeno poema, mas há nele uma força de sentido que se impõe tanto a quem já esteja familiarizado com esta poesia como a quem nela penetre a partir deste livro. Desde logo, devemos reter a utilização do substantivo espelho — objecto que, em sentido figurado, mais não faz do que tudo aquilo que é dado à poesia poder fazer: reflectir, reproduzir, revelar por reflexo. Encontramos por vezes na poesia de Rui Baião evocações desta relação entre o corpo e o seu reflexo, duplicidade identitária onde um devolve ao outro a sua verdade. Dois, «Um defronte da morte do outro» (p. 55), caminham lado a lado nestes poemas. Podemos e devemos imaginar um corpo a observar-se ao espelho, detectando nos pormenores as pegadas do tempo (rugas, estrias, sinais, manchas, cabelos brancos, celulite, cicatrizes); podemos também imaginar um corpo espelhado noutro corpo, por exemplo o corpo do médico espelhado no paciente ou no defunto (perspectiva anatómica a ter em conta). Resultado: «dúvidas duráveis / como tudo num charco».
Mais do que as dúvidas, sempre comuns e inevitáveis, sublinho a palavra charco. É exemplificativa de um complexo lexical pesado (sinónimo figurado de rude), violento, de digestão difícil, composto por vocábulos com conotações negativas, lúgubres, mas fortemente sugestivas: bílis, ruído, asco, estilhaço, raiva, devastação, escombros, danação, miséria, entre tantos outros que é escusado referir. Aquilo que encontramos nestes dois livros é, pois, um percurso que nunca se desviou da sua rota, percurso modelado por uma anti-discursividade fortemente visual, mais ligada às artes plásticas (pintura e fotografia) do que à música. Digo isto por sentir na poesia de Rui Baião uma superação da ideia preconceituosa segundo a qual a poesia se reduz a composições musicais de um único instrumento (a língua) e múltiplas notas (as palavras). Neste caso, a música é outra.
Os poemas curtos de qualquer um dois livros, fragmentários na sua essência, exprimem através de diversas transgressões sintáxicas uma prosódia descompassada que denota uma de duas realidades (ou as duas juntas): despreocupação formal, intensificação de uma saturação conceptual que se está nas tintas para a convencionalidade dos ritmos. Por vezes anafóricos, quase sempre arrítmicos, os poemas de Rude e de Insane colocam-se acima das normas, nem sequer as desafiam, instituem a sua própria gramática sem qualquer tipo de apreensão com o estatuto do leitor. Tomemos de exemplo, pela sua sugestibilidade, este poema de Insane:

Tempos idos nada excluem
e a pouca certeza cansa. Cansa
a pobreza das alíneas à volta da idade,
e a vista não alcança.
Cansam as esferas e o céu, o pagão
nas pedras, a cinza num delírio, a terra
toda. Uma mina pegada cansa
a sombra debaixo do alpendre. Cansa
o trabalho, o usufruto, o verdadeiro cansaço. Cansa
quem cante o degelo nos desertos, o arvoredo
esvaído ao que aqui venha esporrar-se. Cansa
a caveira no lixo, a ilusão, o fim perante. Cansa
a distância no que é estar perto. Cansa
a erva da morte. Maré da sorte,
o nada sem vergonha aí ao debrum.
Cansa o verme na figueira. Cansa
a noite sem assento. Cansa
a carne de palhaço, cansa
a tanta sede sem assunto.
O voo sem para onde ir
é a falta de ar.

É o típico exemplo de um poema desviante, consciente das suas anomalias, as quais se repetem ao longo da obra como curvas e contracurvas nas tais vias para a loucura. Porque o discurso que aqui vamos encontrar é precisamente o discurso irregular do louco, repleto de inversões, cacofonias forçadas — «em cova d’ir, ia» (Insane, p. 31) —, aliterações — «pura e dura, fura» (idem, p. 7) — rimas internas — «A seringa pelas costas, / os insucessos fatais. A medalhinha a dar sorte / a tantos presépios fiscais» (idem, p. 70) — anadiploses (poema supradito)… Os sublinhados são meus. A própria mancha que muitos dos poemas formam na página, de um primeiro verso mais longo a um verso univocabular (ou perto), com aquele aspecto geral de escadaria invertida, remete para uma imagem de queda que reproduz visualmente o recheio mais concreto dos dois volumes.
Há entre a última secção de Rude e os poemas de Insane uma contiguidade que não passa despercebida. São poemas que se aproximam da actualidade com uma veemência expressionista similar à que podemos encontrar, por exemplo, num poeta como Heiner Müller. Não estou a engendrar comparações, estou apenas a referir uma familiaridade que me ocorreu durante a leitura. Tal como em Müller vislumbramos uma erupção dos recalcamentos da sociedade burguesa, nomeadamente o “recalcamento da morte” (vide posfácio de João Barrento a O Anjo do Desespero), também na poesia de Rui Baião se processa esta explosão da moral e dos costumes burgueses (algo que, diga-se de passagem, estigmatizou precisamente toda a arte decadentista em geral).
À questão sobre a possibilidade da poesia depois dos campos de concentração nazis, Baião responde com um inventário de alusões que nos obriga a ponderar o mundo e as suas circunstâncias após esse marco histórico. E a verdade é que depois da Segunda Guerra Mundial já tivemos as vítimas da Guerra Fria, do Vietname, do Kosovo, do Ruanda, do terrorismo religioso nas mais diversificadas formas, temos a Palestina, o tráfico na América do Sul, um mediterrâneo transformado em campo de concentração e o mundo inteiro sob a ameaça dos medievos fanáticos do ISIS. Um continuum de tragédias, fatalidades e misérias do qual a poesia, enquanto reflexo do mundo, não pode alhear-se, sob pena de ser falsa, inautêntica, caricata. Estas circunstâncias contribuem para um curriculum vitae do mal que acelera o processo de degeneração do mundo:

Onde houver um cume aceso, as fauces velhas ou a fatídica
prerrogativa dos cadáveres adjuntos. Onde se revele
a matriz branca do desdém, essas coisas assim
assim… Onde a hora torce o rabo se quiser ser
besta para sempre, ora aí está:
A poesia dos novos padres, de um vagamente
Monsenhor, tal e tal abismo junto ao adro, é só ver
ilustres de perfil, passadeiras vermelhas, capelas
com tecto de abrir, fraude às avenidas novas,
orçamento onde um muro viesse arriscar
a oportunidade e o feno da nação, silos onde
crostas fossem o sal e o joio da má vontade,
bancarrota que alicie a intentona, a ignição
ateada a altares de surpresas no estuário.
Sacristias, sucatas, hortas da minha rua,
saguão aonde ali fosse bater a cauda
do vento. Baldios, arrecadações, garagens
das traseiras aonde ali fossem colmatar
a cabeça, a sombra a andar à roda
de uma vara, ao meio do dia.

Este poema, um dos primeiros da última secção de Rude, é revelador de uma atitude de distanciamento da poesia de sacristia, recentrando o discurso nos males da terra, na natureza corruptível do corpo, na recusa de uma teologia barata que responde aos anseios das pessoas despistando-as dos factos históricos. Inscreve-se nos domínios da arte que esventra a realidade ao encontro dos motivos que geram a superfície dos factos, não procura seduzir através da ironia nem da ligeireza do discurso, não se disfarça com metáforas anódinas sobre o bem que é estar vivo à hora da morte, com a cabeça projectada em futuros paradisíacos. Esta não é uma poética assente na retórica, mais ou menos patológica, dos discursos de sedução. Há nela um desprendimento, um desinteresse publicitário, que a torna especial enquanto reflexo da face mais rude da vida. A tal via para a loucura a que muito provavelmente ninguém escapa(rá).

8 comentários:

Miguel (St. Orberose) disse...

Revela-me poemas e fragmentos interessantes e potentes de um poeta que desconhecia por completo. Por isso fico-lhe grato.

Mas julgo que exagera no que o torna tão especial: a pose marginal afastada da tal poesia publicitária; o pessimismo; a reclusão dele (se interpretei bem as suas palavras); o inconformismo formal (como se o verso livre não fosse o modelo automático de qualquer poeta moderno desde há cem anos para cá, como se a maioria ainda andasse a escrever sonetos e sextinas e a preocupar-se com métrica e rimas e aliterações) - é tudo características convencionais hoje em dia. Todo o poeta quer ser esse poeta que fala da morte sem papas na língua, que não rima, que não dá entrevistas, que se reveste de uma aura de autoridade misteriosa. É tudo tão relações públicas e marketing!

Mas os versos são bons, isso é que importa.

hmbf disse...

Onde se escreveu alho, não se leia bugalho.

Miguel (St. Orberose) disse...

Insinua que tresli?

hmbf disse...

Não tenho esse hábito. É mesmo uma sugestão. Repare: onde é que no meu texto se fala de "inconformismo formal"? Mais: como é que não se falando de "inconformismo formal" se pode chegar sequer à hipótese de que aquilo que aponto na poesia do autor em causa traz alguma novidade quanto a aspectos formais? Depois, as generalizações que faz:

"como se o verso livre não fosse o modelo automático de qualquer poeta moderno desde há cem anos para cá"
Na realidade, não é. Mas o verso livre também está sujeito a técnicas bastante formais, nomeadamente quando se buscam ritmos (prosódia) a partir de tácticas como a anáfora (a mais comum hoje em dia) que o Rui Baião desconstrói (repare no poema citado, o que tem os sublinhados).

"Todo o poeta quer ser esse poeta que fala da morte sem papas na língua, que não rima, que não dá entrevistas, que se reveste de uma aura de autoridade misteriosa."

Espanta-me que saiba o que todo o poeta quer ser, mas não posso deixar de constatar que vivemos em mundos completamente diferentes. O que não falta é o exacto oposto desse poeta (sem juízos de valor, pela parte que me toca, em ambas as disposições).

Miguel (St. Orberose) disse...

Olá,

Quanto ao "inconformismo formal" dou-lhe razão, extrapolei isso das suas palavras sobre poesia publicitária, a qual entendo ser poesia que vai ao encontro da imagem tradicional do poema "bem feito".

Quanto ao domínio do verso livre, ainda que discorde de mim, é o que vejo em toda a poesia que vou lendo: Ferreira Gullar, Herberto Helder, Conceição Lima, Ana Paula Tavares, Valter Hugo Mãe, Nuno Júdice, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, James Merrill, Wallace Stevens, Adam Zagajewski, Zbigniew Herbert, Vasko Popa, Anne Carson, Wislawa Szymborska, para citar uma breve lista. É o estilo por defeito. Contraponha com outros nomes, terei todo o prazer em procurá-los.

Quanto à minha generalização, insisto que vejo uma tendência, não apenas portuguesa mas mundial, para o poeta que adora enfatizar a sua posição marginal e solitária; para o poeta que desaparece sob uma aura de reclusão misteriosa, de onde por vezes pontifica sobre a comodificação da arte.

Não tenho nada contra isso, mas quando tantos adquirem essa persona, começa-me a soar a falso e a marketing.

hmbf disse...

Talvez tenhamos conceitos diferentes de verso livre. Presumo que esteja a referir-se a métricas fechadas, tipo silabas contadas a dedo. Mas o verso livre é mais complexo. Jorge de sena escreveu muito e bem sobre o verso livre. E há aquela citação de António Machado: "verso libre, verso libre... / libra-te major del verso / cuando te esclavice». A poesia contemporânea portuguesa está cheia de versos livres que na realidade o não são, apoiam-se em rimas internas, efeitos tonais com truques de palavras, etc. Depois tem muitos poetas que, ao contrário do que afirma, brincaram às métricas dentro da liberdade dos versos: leia atentamente Ruy Belo, o mesmo Herberto Hélder (neste caso, se começar a contar pelos dedos, vai ter surpresas). Que liberdade há na insistência em anáforas? Dos poetas que cita, Nuno Júdice, por exemplo, tem alguns dos poemas mais "reclusos" da poesia portuguesa actual...

Essa tendência não existe. Existe a tendência da paravalheira, isso sim, e a tendência do snobismo. O que é que poetas como Tolentino Mendonça, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Nuno Júdice, pim, pam, pum têm de "posição marginal e solitária". E não são eles quem mais aparece? Há de facto os tontos, de mentalidade e primária, que se convenceram de que para serem poetas lhes bastava serem arrogantes, burgessos, beberem uns copos, saírem à noite, escrever umas tretas abrutalhadas. Mas esses não contam, são apenas tipos grunhos que escrevem coisas a que chamam poemas. E o mesmo vale para miúdas, uma catrefa, que há-de deixar de escrever assim que encontre o príncipe encantado. É a vida, como diz o outro lá de cima.

Mas quanto a isto estamos muito, diria mesmo longe de longe do poeta aqui em apreço. Você alguma vez o viu para aí a falar dele próprio e a dar ares de marginal (seja lá o que isso for)? Eu não vi. E também nunca o fi em feiras de farturas nem em salões de beleza, ao lado do valter hugo mãe ou do luís Peixoto (para citar dois dos que nomeia).

hmbf disse...

desculpe os erros, escrevo à pressa

Miguel (St. Orberose) disse...

Ah, deixe estar, as pessoas subvalorizam a honestida dos erros :)

Eu realmente não pensava que pudesse haver ambiguidade sobre o conceito de verso livre. Por ele refiro-me àquele tipo de verso que abandonou características e esquemas tradicionais considerados obrigatórios até ao século XX: métrica, rimas, formas fixas como soneto ou sextina.

Vejo que tem razão, quanto à tendência de que falava; confundi alguns casos de poetas monásticos com um fenómeno; infelizmente é como diz, muitos fazem por aparecer e ser muito ouvidos.