domingo, 3 de maio de 2015

ESTE CORPO QUER ESTAR COMIGO?


O tempo desta vida assim
quero estar com este corpo
mas este corpo quer estar comigo?
Helder Moura Pereira

Durante muitos anos olhei para o quadro de Van Gogh e vi um manicómio. Não sei porquê. Era o que via, mesmo vendo a figura com farda policial, os dois indivíduos com chapéus de copa alta.
As grades não são perceptíveis, entre os homens que circulam não há correntes, o rosto iluminado da figura central, porventura o próprio rosto de Van Gogh, parece-me mais o rosto de um louco do que o rosto de um prisioneiro. Mas qual a diferença? O guarda podia ser um enfermeiro, os homens “de” cartola podiam ser médicos, os prisioneiros podiam ser loucos.
Hoje em dia, olho para este quadro de uma maneira completamente diferente. Olho para as paredes de tijoleira, altas e claustrofóbicas, e vejo montras de lojas inexistentes. As janelas são falsas, adereços que simulam uma quimérica ligação ao exterior. Nem sequer são fechaduras por onde se possa espreitar, pois estão a uma altura inacessível. O homem da farda é um segurança do Centro Comercial, os tipos de cartola (já sem aspas na preposição) são gestores ou administradores de visita esporádica ao terreno de jogo.
Em círculos, uns atrás dos outros, caminham os clientes. Cabisbaixos, sinistros, eufóricos, ávidos. Podiam levar saquinhos de compras ou seguir de mãos a abanar. Caminham em círculos, às voltas, observando montras e comentando promoções.
A tal figura central, que tanto podia ser um louco como um prisioneiro, é o colaborador (eufemismo de empregado, vulgo funcionário — aquele que tem por função funcionar). É um louco funcional. Está entre os demais sem estar, está como alguém que cumpre uma função, está por estar, ainda que lhe paguem para estar como se estivesse imensamente feliz por estar, ainda que lhe cobrem uma alegria contagiante.
Podia ser num hipermercado, podia ser numa fábrica, podia ser num local de trabalho onde todos os dias a maioria caminha ao redor do vazio, vigiada por seguranças que se posicionam ao lado dos homens de cartola mas que podiam, também eles, juntar-se à circunferência.
E do vazio emerge uma sombra, aquela sombra que nos protege e motiva, emerge como uma luz, uma sombra-luz, que torna claro o abandono em que caímos quando tropeçámos na barreira da solidão. Digamos que tudo estaria pior não fosse essa sombra, digamos que tudo estaria melhor não fosse a mentira que enraíza tudo isto. É uma mentira óbvia. Razões para iludi-la com poesia, não temos. Nem vale a pena iludir esta mentira com poesia.

Desconfio que a maior parte do tempo que despendemos nas nossas vidas seja assim, em torno de coisa nenhuma, vigiados, uns com as mãos nos bolsos, outros com as mãos atrás das costas, outros de ombros caídos. Ideias de corpo que nada têm de contemplativo, ideias exaustas de “corpo exausto”. Daí que se imponha a pergunta: este corpo quer estar comigo? Quem tem a resposta? 

Nota: Le monde des prisonniers (d'après Gustave Doré). Février 1890 - huile sur toile - 80 x 64 cm - Musée Pouchkine, Moscou. 

1 comentário:

sonia disse...

Acho que o corpo faz parte de um conjunto de elementos que são resgates de vidas anteriores. Mas isso é apenas uma possibilidade e uma opinião que a qualquer momento pode mudar.