segunda-feira, 15 de junho de 2015

#63


E agora? Pela parte que me toca, podem vir todos os especialistas do mundo contradizer o que a pele não desmente: Benjamin Sainte Clementine é um génio. Pode não gravar nem mais uma nota. O que deixou em At Least For Now (2014) é mais do que suficiente para que o entusiasmo não esmoreça. Não escreveu Rimbaud tão poucos poemas? Foi a economia inimiga da perenidade? As onze canções deste disco perdurarão como instantes que penetram fundo o nervo da universalidade, a espinha dorsal da perfeição. Não exagero se disser que a comparação com Antony & the Johnsons é como um 18 na pauta de um aluno com média de 20 valores. Benjamin detém uma voz única, daquelas que emocionam logo à primeira audição como só as melhores conseguem. Lembro-me de Lhasa de Sela, não pelo timbre. Por aquela coisa que arrepia e não se explica senão repousando os olhos sobre a epiderme. Faz-se acompanhar de um piano tocado com delicadeza e aquele feeling de preto que vem dos blues, uma coisa sanguínea, isto é, celestial. Não sei se estão a ver: blues, azuis, céu… ou mar. O fundo do mar onde Cousteau descobriu a melhor das músicas, o silêncio. E a genialidade deste Sainte está também na forma como trabalha os silêncios, na respiração que oferece às notas. À medida que o disco discorre, a gente vai ouvindo as referências que o texto final não encobre: Satie, Nina Simone, Puccini, Nick Drake... Mas ouve-as lá ao fundo, como um som que vem do passado e readquire força, vida, não é um eco perdendo-se na distância, é um eco ressuscitando na proximidade. Capaz de citar Churchill logo no primeiro tema, misturá-lo com George Orwell, cantar como um profeta que traz por companhia o máximo dos mínimos (baixo, percussão, secção de cordas), capaz de nos perturbar com inquietações existenciais, as mais antigas, as essenciais, capaz de penetrar delírios que apenas julgaríamos possíveis a uma mente perturbada como a de Scott Walker, oferecer isso a que alguém um dia chamou “soul” a cada palavra, a cada acorde, porque nestas composições os acordes confundem-se com palavras a vaguear algures entre Londres e Paris, na penúria entre Londres e Paris, uma penúria zen, divina, sagrada, a penúria do santo que caminha descalço sobre a neve e quase nu sob a chuva, vê anjos no caminho, desenha-lhes o mapa como também Wim Mertens desenhou em muitas das suas melhores composições. Exagero?  Ora digam lá se exagero:

2 comentários:

manuel a. domingos disse...

completamente e totalmente e afirmativamente de acordo

http://osalpesjulianos.tumblr .com disse...

para mim? muito exagerado. o instrumental não é nada. vê-se muito melhor por aí, aos pontapés. a voz? para mim, nada de especial. já ouvi melhor. até o Seal, até o Seal, cujos álbuns são sempre medianos, deve ter mais alcance.