quarta-feira, 3 de junho de 2015

DOIS POEMAS COM MANETAS

Chove e há
Turistas musculados de t-shirt
A saírem aos pares
De monumentos nacionais.
 
Há também
Gente autóctone que trabalha
Ali perto
E passa depois do almoço.
 
Todos felizes da vida
Por serem humanos;
Até o maneta,
 
Que atrapalha o trânsito
Com obscenidades
Por não ter nada a perder.
 
(e esse mais do que os outros)
 
Rui Almeida, in Leis da Separação, Medula, Setembro de 2013.
 
***
 
vê-se daqui

um edifício alto batido pelo Sol
a única árvore da rua
a macieira inacessível naquele vazio
entre casas

depois do muro
o recreio de uma escola onde
já se sabe
nada de bom se ensinará

uma loja falida
uma padaria encerrada
a florista de plástico

e na drogaria do maneta uma mão
lava a mesma

vejo-me reflectido no vidro
diáfano defectível:

chegou o tempo dos fantasmas
 
Miguel-Manso, in Persianas, Tinta-da-China, Abril de 2015.

1 comentário:

Jorge Melícias disse...

Neste caso particular a medida do coto é sensivelmente a mesma.