quarta-feira, 10 de junho de 2015

OS CÃES DE PAULA REGO

A figura do cão é bastante frequente na obra de Paula Rego, ocupando um papel central em três ocasiões distintas. Os Cães Vadios (Cães de Barcelona), de 1965, surgiram após uma notícia no The Times que dava conta dos planos municipais para a diminuição do número de cães vadios espalhados pela cidade. A solução, de contornos medievais, estaria em distribuir carne envenenada pelas ruas, sendo certo que alguns cães morreriam entre as pessoas como uma espécie de criminosos acossados e condenados pelas autoridades em pleno espaço público. A violência do processo de alguma forma se reproduz na técnica de Paula Rego, colagens com recortes, golpes, rasgões. A autora «descreveu a sua técnica da altura como orgíaca, visceral e violenta, relembrando que retirava intenso prazer quer da criação das formas quer da prática de violência sobre elas»:



Estes cães são uma representação distorcida de um facto histórico que o conjunto não denuncia com a clareza de trabalhos posteriores, embora possamos imaginar dolorosas contorções no asfalto e as figurinhas aladas que parecem varejeiras em redor de um cadáver sugiram um cenário decadente. «Interessa-me representar a violência!» — afirma Paula Rego a determinada altura, sendo possível acrescentar que essa violência vem tanto de uma observação sobre o exterior como das chamadas zonas obscuras do ser humano. Esta última dimensão aproxima-a do surrealismo, mas a primeira distancia-a dos pressupostos estéticos dessa corrente. Na realidade, trata-se de uma linguagem singular intimamente ligada ao corpo e, por consequência, às suas poderosas forças e impulsos criativos e destrutivos. Por isso não há sofrimento nestas realizações, não tanto quanto se manifesta o prazer das rupturas que geralmente associamos à guerra, à discórdia, à maldade. A arte também é um exercício de maldade, das pequenas ou grandes maldades que destroem preconceitos, paradigmas, estereótipos e, por isso, cometem o crime do desrespeito, da heresia, da heterodoxia, da sátira, da blasfémia. Já na década de 1980, voltamos a ver o cão num destes contextos subversivos:



Este Menina a Levantar as Saias para um Cão (1986) resulta de uma série onde duas figuras claramente delineadas interagem, num grau de abstracção aparentemente inferior à obra supracitada. Aparentemente porque nem tudo é claro nesta relação a dois. O cão tem invariavelmente uma postura doméstica e subserviente, aparece aos cuidados da menina (que o acaricia, dá-lhe de comer, faz-lhe a barba…). São gestos inofensivos que o quadro da menina a levantar as saias subverte, introduzindo entre o animal e a rapariga uma paradoxal disformidade identitária. Ela parece mais animalesca do que ele, como que cede a pulsões sexuais e instintivas que no cão parecem absolutamente adestradas, recriminadas, domesticadas, controladas. O cão é uma entidade amorfa, passiva, a menina é passional. Parece haver aqui uma explosão de prazer que entra em ruptura com a compostura social, uma espécie de desvio capaz de associar, mais uma vez, a violência ao prazer físico: «Gostava de cortar tudo o que estava saliente — também gostava de fazer incisões nos corpos e inserir coisas, por isso havia ali quer passividade quer agressividade, coisas sexuais. Dá-me prazer, é por isso que o faço. Há prazer em magoar as coisas». Repare-se como, posteriormente, aquela que é talvez a mais emblemática das séries de Paula Rego vem traduzir este processo através de uma espécie de metamorfose:




A MulheCão (1994) pode inscrever-se num conjunto de obras narrativas directamente ligadas à exploração de elementos ficcionais provenientes do mundo literário. «Um amigo enviou a Paula Rego uma história sobre uma mulher que vivia sozinha numa casa cheia de animais por companhia. Numa noite de inverno, enlouquecida pelo isolamento e pelo vento a soprar através das dunas, que lhe soa como a voz de uma criança, a mulher põe-se de quatro e devora os seus animais de estimação». É como se a menina que levantava as saias tivesse crescido e, mais velha, porventura mais frustrada e desapontada, tivesse devorado o seu animal de estimação transformando-se num híbrido feroz, grotesco, abjecto no sentido de anómalo. Ana Gabriela Macedo diz que «O uso estratégico e subversivo da violência, como arma de denúncia política tanto ao nível do público como do privado, são uma constante na estética de Paula Rego». O facto de serem mulheres/fêmeas não é, portanto, ocasional, sublinha a noção de uma feminilidade sufocada pelas regras masculinas que dominam o mundo, havendo nelas tanto de solidão e isolamento como de raiva, tanto de desespero como de necessidade. Pode o seu fim vir a ser semelhante ao dos Cães de Barcelona, já que estas mulheres-cão, pelo seu carácter altamente acusador, são também uma ameaça social que um naco de carne envenenada poderia apaziguar. Resta saber se o fato de noiva não é essa carne envenenada:


Fontes: Paula Rego, Fiona Bradley, Tate, 2002, Quetzal Editores, s/d. Paula Rego e o Poder da visão - A minha pintura é como uma história interior, Ana Gabriela Macedo, Edições Cotovia, 2010. 

2 comentários:

MJLF disse...

belo texto! saúde e beijinhos para toda a tribo

hmbf disse...

grato