segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ISTO É PARA SABER BEM?

Pensemos na primeira vez que se fuma um cigarro ou se experimenta uma bebida mais forte: regra geral, é um amigo pouco mais velho que diz, quase em tom de segredo, que todos os adultos fazem o mesmo, oferecendo então um cigarro ou uma bebida; a reação, como seria de esperar, é de desagrado - começa-se a tossir, a cuspir o líquido, e a exclamar: «Isto é para saber bem?» Depois, a pouco e pouco, aprende-se a gostar, e torna-se mesmo um vício. (Acontece algo parecido com a Coca-Cola: quando se prova a primeira vez, percebe-se imediatamente, devido ao seu travo amargo, porque foi inicialmente apresentada ao público como remédio.) Quando se pretende, simplesmente, obter prazer direto, não se recorre a coisas como tabaco ou álcool - um sumo de fruta fresco ou uma bebida de chocolate funcionam melhor. Não se passará exatamente o mesmo com o sexo? Uma coisa diretamente prazerosa será, talvez, o agarrar ritmado de uma parte nossa, talvez a masturbação e, definitivamente, não o esforço complexo de um ato completo de copulação que, uma vez mais, tem de ser aprendido.
 
 
Slavoj Žižek, in Problemas no Paraíso - O Comunismo depois do Fim da História, trad. C. Santos, Bertrand Editora, Setembro de 2015, p. 102. Um livro sobre os vícios do capitalismo.

COISAS MESMO MUITO BOAS

Este artigo de António Araújo sobre manuais escolares, isto é, roubos consentidos.

sábado, 29 de agosto de 2015

9.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Chega de hipocrisia.
 
 
Ainda mal tinha aquecido a cadeira, Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz asseverava que consigo no Ministério da Justiça a impunidade tinha os dias contados. Começámos a contar e ainda não terminámos. Ora, a impunidade não só não acabou como a afirmação da ministra se negava a si própria. Se ela sabia de casos de impunidade antes de ter chegado ao ministério, então a quem os denunciou? Tentei pensar nesta questão por aqui. Mas as afirmações recentes do zelador Paulo Rangel, segundo as quais Sócrates não teria sido detido e mantido meses a fio na cadeia, sem julgamento nem acusação que se saiba, se o Partido Socialista estivesse no Governo, dão nota do esterco onde estes animais rebolam. É verdade que as ilegalidades cometidas na Tecnoforma jamais serão julgadas. Idem para negociatas com submarinos. A impunidade não toca a todos indiscriminadamente, a justiça só é cega de um olho. Este artigo de Pedro Sousa Carvalho também dá conta das sensibilidades da justiça que a ministra von Hafe tanto aprecia. Quiséssemos elencar casos de impunidade, alegada ou presumível, nunca mais acabaríamos. Não o faremos. Preferimos lembrar que esta foi a Ministra do Citius, plataforma que originou denúncias, calúnias, pedidos de desculpa mas nenhuma responsabilização. Em suma, a ministra da impunidade passou impune no processo mais patético que a justiça à portuguesa conheceu até à data.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ANDAR A PAR

Pensar o resultado final de um livro cuja construção se foi, de algum modo, acompanhando, é um desafio que deve precaver-se de duas premissas nem sempre claras: o que conta é o que está; o que não está, mesmo que ecoe, não deve pesar no juízo sobre o que ficou. Andar a Par (Tinta-da-China, Maio de 2015), de José Ricardo Nunes (n. 1964), coloca-me esse desafio. Escutei algumas das primeiras versões destes poemas antes de terem sido organizados como entretanto chegaram aos leitores. A amizade que me liga ao autor, assim como o facto de residirmos na mesma cidade, permitiu essa partilha. E a primeira impressão, que vem da audição dessas primeiras versões e se mantém, não como um eco, mas como uma confirmação, é a de que este livro marca uma inflexão na poesia de José Ricardo Nunes. Fosse num registo mais dissimulador da identidade (conferir Apócrifo), em tom irónico (ver Versos Olímpicos) ou num exercício exaustivo e esgotante da alteridade (regressar a Compositores do Período Barroco), esta poesia manteve sempre com os aspectos biográficos uma relação distante. Não os excluindo, como que os sabotava recorrendo a artifícios poéticos e literários de vários tipos. Neste livro, a máscara como que cai. O biografismo é declarado, desde logo na dedicatória à filha, adensando, porém, uma problematização da identidade que já não se esconde por detrás de personagens que não sejam o próprio autor observando-se reflectido no outro (na filha, carne de sua carne), no espelho, nas águas. Ao contrário do que estas primeiras palavras possam fazer pensar, não se trata de narcisismo poético nem de um ego fechado sobre si próprio. Trata-se de ceder à força da poesia, isto é, à emoção que rompe uma lógica discursiva, que transcende as limitações do racional, que se liberta dos grilhões académicos a que tantas vezes o poeta se sente preso, seja por necessidade de afirmação, seja por determinação de um superego castrador. A sequência de 23 poemas intitulada Andar a Par mostra um poeta no perfeito domínio da sua liberdade, o que, por si só, revela um delicioso paradoxo. Apetece recordar aquela ideia segundo a qual o grande improvisador é o que domina a técnica na perfeição. Este livro, embora não seja, na sua essência, um improviso, denota um domínio da técnica que permite ao autor um discurso muito mais emotivo do que aquele que conhecíamos dos seus livros anteriores, um discurso já não tão concentrado num racionalismo mais ou menos crítico da sensibilidade, um discurso solto, espontâneo e, por isso mesmo, convincente no que respeita à sua autenticidade. A geografia sentimental que percorre o livro manifesta-se tanto na referência a lugares familiares (Alcobaça, Foz do Arelho, Salir do Porto, Peniche, Óbidos, Nazaré…), como nas evocações biográficas e afectivas (a dedicatória à filha, outra aos pais no poema 4, à irmã e aos sobrinhos no poema 6, à ex-mulher no poema 9). A família parece ser o ponto fulcral a partir do qual o livro foi crescendo, mas a família num estado perturbador de desintegração. Curiosa a recorrência a uma ideia de concordância — «erro de concordância» (p. 23), «Eis uma palavra, paixão, que merece / concordâncias» (p. 42), «Preces, / sempre, ainda que desinspiradas, com erros / de concordância» (p. 47) — que nos leva a suspeitar terem sido, como queria Empédocles, o Amor e a Discórdia os princípios fundadores deste Universo. Os poemas depuradíssimos dos livros anteriores dão lugar a poemas longos dentro dos quais vamos descobrindo rimas diversas, algumas até algo desequilibradas, como que dando a entender haver nestes textos um desprendimento forçado pela necessidade de dizer. Alguns versos chegam a ser terríveis no modo como expõem as angústias do sujeito poético: «Ambos sabemos como custa sofrer e a urgência que há / em cada salvação, lá / ou cá, sofremos ambos does iguais a essas / dores. Não fosse Inverno no Largo de São Paulo / e compreenderia que servisses a culpa em doses iguais: / metade para mim, metade para mim» (p. 11). Outros não resistem a dialogar com poetas facilmente identificáveis tais como Herberto Helder (poema 5), Mário Cesariny (poema 18) ou Jorge de Sena (poema 20), mas estes diálogos são sempre contaminados por uma urgência que torna o diálogo pretexto para algo mais. Ou seja, as evocações desses autores são como que uma plataforma a partir da qual a ideia do poema se desenvolve. E essa ideia não tem subjacente tanto o diálogo com o poeta convocado como insinua um diálogo do sujeito poético consigo mesmo. No fundo, são monólogos acerca da solidão causadores de cisões num eu que se atreve a pensar, a questionar, a reflectir, a problematizar a sua própria natureza: «Já não desejo nada para mim, / diz o protagonista de um filme de Tarkovski. / Homem, cão — que bichos pressentem / a morte? Volto portanto ao ínvio tema, / subo o rio, em modo repeat / a gravação e a gravura / a latejar a cada verso meu. Pego no caderno, / olho para longe, fico à escuta. E peço ao artesão / que aqui me deixou a acalentar o favor / de concluir em mim o seu trabalho. / Não é em mim que pego, peço / pela criança, que simplesmente / o bater do coração até ao momento derradeiro / a livre dos perigos» (p. 54). Excelente livro. Para mim, o melhor do José Ricardo Nunes até à data. 

8.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Dar valor à palavra.
 
 
 
Capaz de dizer uma coisa e o seu contrário numa mesma frase, Paulo Portas é como político o que foi como jornalista: um oportunista sem palavra. Isto é, um tagarela. As suas acções valem zero, pois não têm significado. O que diz à segunda, desdirá à terça. A dois de Julho de 2013 presenteou os portugueses com a sua demissão irrevogável (recordar aqui), num golpe de teatro só possível entre criancinhas mimadas e sem carácter. Alguns dias depois, ficámos a saber o que significava irrevogável para Paulo Portas. Tentei explicá-lo aqui. O seu guião para a "refundação do Estado" é bem o espelho do que vale enquanto político: nada, zero, um vazio que nos tem saído caro. Demasiado caro.

JOSÉ MARÍA MERINO

Por razões difíceis de compreender, as editoras portuguesas continuam, na sua generalidade, avessas à publicação de micronarrativa. As que apostam em contistas, fazem-no quase sempre pela via confortável (clássicos, autores contemporâneos relativamente populares…). O gozo do risco não existe, salvo raríssimas excepções. E a vontade de surpreender choca invariavelmente com os valores maiores da aposta comercial certa. Esta atitude leva a que os leitores portugueses passem ao lado de alguns dos textos mais brilhantes que a História da Literatura arquivará nas suas vastas prateleiras. Entre eles, constarão os contos do espanhol José María Merino (n. 1941). Ficcionista exímio, tem um currículo invejável por terras de Cervantes. Começou por publicar poesia, inclinando-se posteriormente para o conto nas suas formas mais breves. Tomemos de exemplo este Cuentos del libro de la noche (Alfaguara, 2005). A epígrafe pedida de empréstimo a Chuan Tzú — «En el libro de la noche / nuestras páginas están en blanco.» —introduz-nos num universo onírico, preenchido por sonhos, alucinações, equívocos, pesadelos, recalcamentos, o universo onde o inconsciente adquire o estatuto de "real absoluto". As quase noventa micronarrativas que compõem o libro vagueiam no mundo crepuscular do sonambulismo, levam-nos a zonas intermédias, paradoxais, transportam-nos para uma realidade efectiva que tendemos a julgar absurda por haver entre as suas imagens e a percepção consciente da realidade uma distorção semelhante à do corpo projectado por reflexo num espelho. No entanto, esse reflexo é experimentado com a mesma intensidade com que experimentamos, através dos sentidos,  o mundo à nossa volta. Daí que a sombra, o fantasma, o espírito, os seres imaginários, as falsificações à Marco Denevi, se conjuguem coerentemente num palco onde o inanimado ganha vida e esta se define por tudo quanto se faça presente nas múltiplas formas que um ser tem de se apresentar. Noutras ocasiões, é simplesmente a noite enquanto geografia onírica que serve de palco a personagens ambíguas e obscuras. Arrisco uma versão de Micronovela, homenagem declarada a Horacio Quiroga:

MICRONOVELA


   Ela chegou na embarcação de sexta-feira à tarde, quando o sol recortava no pinhal uma sombra suave e ocre. Levava uma pequena bolsa onde guardava o telemóvel, manipulado amiúde com impaciência. Ele percorria a ilha imerso num ensimesmamento que o afastava das praias e dos bares. O seu telefone também não lhe servia para conseguir a comunicação apressadamente tentada.
   Encontraram-se naquela mesma noite, junto a uma das tabernas do porto pesqueiro. Estavam sós no extremo do paredão e a proximidade dos seus corpos despertou em ambos a vontade de uma companhia.
   Ela mostrou-se despreocupada, jovial, e não lhe contou a verdade sobre a sua origem. Ele também aparentou serenidade e mentiu ao falar da sua vida quotidiana. Tais dissimulações serviram, porém, para que descobrissem um no outro um certo à-vontade na noite. Passaram-na juntos, assim como os dias seguintes.
  Na segunda-feira, a meio da manhã, quando estavam deitados na praia, o telemóvel dela tocou. Pegou nele para falar, a voz excitada. Ele começou a observá-la com estranheza, como se nunca a tivesse visto antes. Nessa mesma tarde, o telemóvel dele recebeu uma chamada que atendeu com alegria. Ao pôr-do-sol, enquanto ela subia para a embarcação, ele aguardava a chegada de um avião.
   Nunca mais voltaram a ver-se.

Noutros contos, José María Merino reinventa a realidade. Como quando a observação de uma fotografia antiga instiga uma história, colocando-se o narrador na posição do especulador que imagina os factos originais aquele registo da realidade. Há momentos cómicos, outros verdadeiramente poéticos. E há apontamentos quotidianos de uma perspicácia reveladora da perícia do contista:

SENHOR E CÃO

   Uma promoção importante na sua carreira, com mudança para a cidade grande, levou-o a instalar-se num bairro distinto. Ao entardecer, via os vizinhos elegantes, circunspectos, passearem os seus cães pelas ruas íntimas do bairro. Aqueles homens e mulheres pegavam na trela com os olhos perdidos, andando ensimesmados, e ao comparar tal impavidez com a vivacidade dos animais que os precediam ocorreu-lhe que aqueles cães de raça, aqueles exemplares valiosíssimos, é que levavam de passeio os donos. O passatempo dos seus vizinhos levou-o um dia a entrar num canil para solicitar um cão. Trouxeram-lho esta tarde a casa e ambos têm estado a observar-se demoradamente. O cão é peludo, com enormes mandíbulas alargadas e pequenas orelhas bicudas. Muito jovem, salta à sua volta. Subitamente deixa de saltar, busca uma cinta no cesto onde o transportaram e aproxima-se com ela na boca. Vamos passear, supõe que pense o cão, e ele, abanando as nádegas num impulso repentino, responde com um latido radiante.

COISAS MESMO MUITO BOAS

Valupi a escrever sobre o Sporting:
Jesus é o tipo de treinador que dá por si a não esperar que a equipa adversária marque. E isto estando ela a jogar com 11 jogadores, em casa e com talento igual ou superior à equipa que calhe estar a treinar. Essa consciência poderá ser a mesma que o leva a esperar que a sua equipa também não marque, como assumiu ao dizer que pensava ir para prolongamento. Como se chegará a tal estado de compreensão dos mistérios do jogo da bola? Duvido que seja possível descobrir os processos mentais do fenómeno. Mas podemos reflectir sobre as suas consequências. Por exemplo, tivesse ele esperado o contrário, que o CSKA ainda marcasse enquanto o árbitro não desse os 90 minutos por terminados, se calhar teria feito qualquer coisa para evitar tal desfecho. Umas substituições. Ou umas mudanças tácticas. Ou umas trocas posicionais. Ou uma reza. Só que isso, lá está, implicava ter outro tipo de treinador a treinar o Sporting, não este tipo. O tipo que ganhou por milagre ao Tondela e empatou com o Paços de Ferreira em Alvalade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

7.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Pelo respeito à Constituição da República Portuguesa.
 
 
 
O XIX Governo Constitucional de Portugal entrou em funções a 21 de Junho de 2011. A 22 de Outubro de 2012, ou seja, um ano e meio depois, o Ministro de Estado e das Finanças Vítor Gaspar pedia a demissão. Porquê? Por causa de um acórdão do Tribunal Constitucional (TC). Esquecendo-se de que os Governos estão obrigados a respeitar a constituição, este XIX bateu todos os recordes no que respeita a chumbos do TC. O desrespeito pela CRP era evidente. Gaspar acabaria por sair do Governo a 1 de Julho de 2013, divulgando uma carta de demissão com dois parágrafos que hão-de fazer história. Depois de todos os cortes, de todas as medidas de austeridade impostas aos portugueses, o Ministro de Estado e das Finanças Vítor Gaspar concluía:
 
O incumprimento dos limites originais do programa para o défice e a dívida, em 2012 e 2013, foi determinado por uma queda muito substancial da procura interna e por uma alteração na sua composição que provocaram uma forte quebra nas receitas tributárias. A repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto o Ministro das Finanças.
Os grandes custos de ajustamento são, em larga medida, incontornáveis, dada a profundidade e persistência dos desequilíbrios, estruturais e institucionais, que determinaram a crise orçamental e financeira. No entanto, o nível de desemprego e de desemprego jovem são muito graves. Requerem uma resposta efectiva e urgente a nível europeu e nacional. Pela nossa parte exigem a rápida transição para uma nova fase do ajustamento: a fase do investimento! Esta evolução exige credibilidade e confiança. Contributos que, infelizmente, não me encontro em condições de assegurar. O sucesso do programa de ajustamento exige que cada um assuma as suas responsabilidades. Não tenho, pois, alternativa senão assumir plenamente as responsabilidades que me cabem.
 
Os sublinhados são meus. Vítor Louçã Rabaça Gaspar, «alcunha de "Salazarinho" entre os seus colegas do Governo» (conferir aqui), «foi nomeado pela administração do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o cargo de director do departamento de assuntos orçamentais da instituição, lugar a que se candidatou depois de sair do Governo no Verão». Uma questão de credibilidade.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

HOJE

É o Dia Mundial do Cão. Este ainda ladra.

UM EXEMPLO A SEGUIR

   A Coreia do Sul tem a maior taxa de suicídio do mundo [...] O suicídio é a segunda causa de morte  mais comum para cidadãos abaixo dos 40 anos [...]. Curiosamente, o número de suicídio na Coreia do Sul duplicou durante a última década. [...] na perspectiva de entrada de dinheiro, nutrição, liberdade e possibilidade de viajar para lá das fronteiras, as condições de vida melhoraram substancialmente no espaço de duas gerações. Mas o preço desta melhoria foi a destruição da vida quotidiana, a hiperaceleração de ritmos, individualização extrema do percurso individual e a precariedade laboral, o que também significa competição desenfreada [...].
   O capitalismo high tech implica naturalmente um aumento constante de produtividade e uma intensificação incessante dos ritmos de trabalho, mas é também a condição que tornou possível um aumento impressionante da qualidade de vida, da alimentação e do consumo [...]. Mas a atual alienação é um tipo diferente de inferno. A intensificação do ritmo de trabalho, a desertificação da paisagem e a virtualização da vida emocional convergem para criar um nível de solidão e desespero que é difícil recusar e a que é difícil criar oposição de modo consciente [...}. O isolamento, a competição, a sensação de falta de significado, de compulsão e de falhanço: anualmente, 28 pessoas em 100000 têm sucesso na sua tentativa de fuga e são muitas mais as que a falham.
 
 
Franco Berardi, citado por Slavoj Žižek, in Problemas no Paraíso - O Comunismo depois do Fim da História, trad. C. Santos, Bertrand Editora, Setembro de 2015, pp. 16-17. O livro resulta de uma série de palestras dadas em Seul. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

6.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Ter o sentido do ridículo.
 
 
 
Seria simples provar a falta de sentido do ridículo do XIX Governo, liderado por Pedro e Paulo. A 26 de Maio de 2012, ainda mal o pano tinha sido levantado, ilustrei aqui a palhaçada. Mas a 1 de Julho de 2013, o demissionário Vítor Gaspar (lá iremos) partilhou com os portugueses uma carta comovente onde afirmava, e passo a citar, que «o nível de desemprego e de desemprego jovem são muito graves». Isto depois de alguém se ter lembrado de fazer face à gravidade com o Impulso Jovem (aqui) e de, na sombra das boas ideias, alguém se ter lembrado de inventar umas medidas para incentivar o regresso de emigrantes depois destes terem sido incentivados a emigrar. Resta avaliar o sucesso do Programa VEM, designação que em si mesma seria um tratado de comédia não tivesse sido pensada num país onde são mais os portugueses que emigram do que aqueles que nascem. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

EPIFANIAS #14

14

                                               [Dublin: na casa dos Sheehy, Belvedere
                                               Place]

Dick Sheehy — O que é uma mentira? Sr. Presidente, tenho de perguntar. . .  
Sr. Sheehy — Ordem, ordem!
Fallon — Bem sabe que é mentira!
Sr. Sheehy — Sugiro-lhe que se retire, senhor.
Dick Sheehy — Como eu ia a dizer. . . .
Fallon — Não, recuso-me.
Sr. Sheehy — Apelo ao ilustre membro
         de Denbigh. . . . Ordem, ordem! . . .


James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

5.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Aquela coisa chamada honestidade.




Entre as figurinhas mais desastrosas da coligação, o ex-braço direito de Pedro Passos Coelho ocupa um lugar cimeiro. Alvo de chacota no país e arredores, Miguel Relvas conseguiu recentemente uma espécie de encosto reabilitador com a publicação de um livreco desses que agora está na moda qualquer político com ambições publicar. Foram grandoladas, esperas, serenatas, cartazes no Tour de France e mais não sei o quê até que Relvas se demitisse. Resta saber se para estudar. Passos aguentou-o até poder. Helena Roseta explicou porquê: aqui. A prescrição fez o resto. 

COISAS MESMO MUITO BOAS

Ler os Sonhos de Tipo D do Lourenço: aqui.

domingo, 23 de agosto de 2015

ŽIŽEK PERGUNTA

«(...) e se, no nosso mundo pós-moderno de transgressão ordenada, no qual o compromisso marital é visto como algo ridiculamente fora de época, aqueles que se agarram a ele forem os verdadeiros subversivos? E se, nos dias de hoje, o casamento hétero for «a mais obscura e ousada» das transgressões?»

Slavoj Žižek, in Problemas no Paraíso - O Comunismo depois do Fim da História, trad. C. Santos, Bertrand Editora, Setembro de 2015, p. 12. O livro é dedicado «às prostitutas do Café Photo em São Paulo». 

O MESTRE

Há uma relação de causa e efeito entre a morte de um escritor e a ressurreição dos livros que publicou em vida. Daí que comece a ser hábito, quando morre um escritor, as livrarias reservarem um canto para as obras do defunto. Disponibilizam, desse modo, aos clientes/leitores interessados o labor do finado, geralmente, com etiqueta de desconto. Não demos por isso com o desaparecimento de Ana Hatherly (1929-2015), talvez por não se tratar de uma autora cuja popularidade justificasse a homenagem interesseira. No entanto, títulos como Tisanas (em construção desde 1969) ou os exercícios de auto-análise levados a cabo em Anacrusa, mereciam estar ao alcance dos leitores para que a produção multifacetada de Hatherly não ficasse reduzida à poesia e a experiências mais ou menos inacessíveis. E o que dizer de O Mestre (5.ª edição, Ulisseia, Novembro de 2010), novela singular vinda a lume, pela primeira vez, em 1963?
É certo que Ana Hatherly ficará na história da literatura portuguesa como um dos nomes a quem devemos as primeiras incursões pela chamada poesia experimental, na senda do que no Brasil se verificou com o grupo dos poetas ditos concretos. Mas o experimentalismo português nunca almejou por cá a influência que o concretismo teve no Brasil. Talvez isso explique o interesse brasileiro nesta novela, declarado e explicitado, por Simone Pinto Monteiro de Oliveira, no segundo prefácio à terceira edição. Objecto de discussões académicas, O Mestre originou «artigos, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado ou de Livre Docência» focados em diferentes aspectos. Por cá, a recepção foi mais discreta. Trata-se, no entanto, de um pequeno livro inesgotável, à semelhança de outros de cariz surrealizante e simbólico que enriquecem a nossa literatura mais heterodoxa. Penso, a título de exemplo, em Apenas Uma Narrativa (1942), de António Pedro, no tratado de Alberto Pimenta intitulado Discurso Sobre o Filho-da-Puta (1977) ou mesmo em Titânia (1994), de Mário Cesariny.
Em qualquer um dos “exemplos” aludidos, a componente mitológica sobressai enquanto território onde a metamorfose do real se legitima. No prefácio à segunda edição de O Mestre, Maria Alzira Seixo afirma que «a mitologia está (…) muito presente no intertexto» da narrativa hatherliana, tratando-se esta de uma «sátira do ensino como círculo vicioso, como entronização da ignorância ou do psitacismo, como figura da autoridade». Já no primeiro prefácio à terceira edição, Silvina Rodrigues Lopes estabelece entre Janus, o deus bifronte, e o Mestre, personagem da novela escrita por Ana Hatherly, uma aproximação de carácter: «não devemos querer desfazer os enigmas». É precisamente este aspecto enigmático o que mais sobressai da interacção entre a Discípula e o Mestre, numa novela pautada pela construção dramática e dialogal, de tipo platónico, mas nada idealista, onde a ambição, a ânsia, a paixão, a pretensão da Discípula, «convencida de que há ideias mestras» (p. 75), colide com o riso do Mestre.
O riso desafiador do Mestre (e de O Mestre) gera frustrações na Discípula, a qual tenderá a considerar o mestre «um falsário, um Judas da Arte» (p. 85) sem respostas para perguntas que exigiriam outra mestria que não apenas a do riso. A simplificação levada a cabo pelo Mestre (que não quer ser tratado enquanto tal) leva a Discípula a um estado histriónico de pura tagarelice, mais atenta aos seus pensamentos, cativa da sua necessidade de afirmação, do que aos gestos simplificadores do seu interlocutor. Múltiplas leituras se tornam possíveis, podendo elas circunscrever-se ao campo das dificuldades de comunicação em contexto pedagógico ou especularem sobre uma sátira anti-malebranchiana onde a Discípula representasse o papel do Ocidente face a um Oriente incarnado na figura Zen do Mestre: «Os Mestres disfarçam rindo e com um ar benévolo, complacente, paternal, batem nos ombros dos discípulos e dizem: / — Mais tarde, quando fordes Mestres, sabereis!» (p. 74)
Alguns aspectos absurdos e excêntricos, quer relacionados com o estado desequilibrado da Discípula, quer desmistificadores do Mestre, temperam a narrativa com um jogo de sedução que parece ter por fim último a queda das máscaras de ambos os protagonistas. Ou, pelo menos, da matéria superficial que os estereotipa. Talvez o conhecimento se manifeste nisto mesmo, nos muros derrubados ou ultrapassados a partir do conflito estabelecido entre duas figuras tipo: a de Mestre, a de Discípulo. E como na relação entre ambos cada um deles vai, de algum modo, assumindo o papel do outro sem deixar de ser “si próprio”. O Mestre sobre os olhos da Discípula: «Os olhos dos discípulos são muito indiscretos — não há nada mais perturbante que a candura. Alguém que nos admira e nos coloca num pedestal é o nosso maior inimigo — a gente nunca tem possibilidade de se apear do plinto e comer amendoins» (p. 96). Um condiscípulo: «Quando dez anos depois a gente encontra o nosso condiscípulo que era o melhor aluno do curso e um exemplo para os outros, descobre que ele é caixeiro numa sapataria. Nada mau» (p. 100).

O tom realista surgiu num país que nunca conseguiu estabelecer entre o ontem e o hoje uma ligação de aprendizagem, estando e sendo a mesma dificultada pelos parâmetros que opõem a Discípula (messiânica) ao Mestre (ausente). De algum modo esta dificuldade metaforiza um país que mantém como caixeiros de sapataria os seus melhores alunos, replicando os mesmos erros, insistindo nas mesmas metodologias, olhando com desdém as atitudes, os gestos, os actos, que livremente se oponham ao statu quo dos discípulos precavidos ante mestres indefesos. É um país que não aprende porque quem está na posição de aprendiz estará eternamente à espera, com tacanha subserviência, que por ele outros decidam o que, afinal, só ele, autonomamente, poderia decidir se aprendesse alguma coisa. Vale a pena ler ou reler, se for caso disso, O Mestre

4.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Estar cansado de mentiras.


Seria fastidioso enumerar as mentiras do Governo de Pedro e Paulo, o qual teve no actual primeiro ministro um praticante insuperável. Recordar os momentos aqui registados para concluir da desfaçatez do protagonista. O Youtube disponibiliza montagens de antologia, basta googlar Pedro Passos Coelho + mentiroso (epíteto associado a Passos Coelho pela maioria dos inquiridos nesta sondagem). Para a história ficará o desabafo de D. Januário Torgal Ferreira: "Este Governo é profundamente corrupto. (...) Eu não acredito nestes tipos. Porquê? Porque lutam pelos seus interesses, porque têm o seu gang, porque têm o seu clube, porque pressionam a comunicação social. O que significa que os anteriores, que foram tão massacrados, eram uns anjos ao pé destes diabinhos negros que acabam de aparecer". 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

COISAS MESMO MUITO BOAS

A Dismaland do Banksy: aqui. (via Maria João)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

3.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF


Dar sentido à rua.
 
Lembram-se? As maiores manifestações contra o Governo de Portugal desde o 25 de Abril de 1974. Deixei aqui a convocatória. Estive lá e em algumas das seguintes. Passaram três anos. Vamos deixar cair esta indignação em saco roto?

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

CONTAMINAÇÕES


Eu vi herberto uma actriz a incendiar palavras num palco quarto de hotel
as palavras dadas e as outras caladas num lugar saturado de vapor de água
e aquelas gravadas na calçada perdidas a tentar perceber como se escreve
um nome gritando um nome para a voz encurralada abandonar a cabeça

eu vi a cerzidura de cada palavra a resistir à dor à tristeza ao cansaço
de outras palavras arrancadas da sua pele na passagem dos dias
palavras que se contaminam e se perdem sem ela saber já de quem são
os rostos de mortos e vivos atropelados num caderno imaginário

eu vi um corpo curvado subitamente brilhar num campo de madressilvas
lá longe onde os amantes caminham sem rumo atrás de sombras amarelas
onde os amantes se perdem em dobras de esquinas e espelhos e olhares
os corpos traídos pela inesperada declinação da luz dos seus ombros

eu vi uns cabelos negros tornearem uma lágrima que escurece o dia
escurece a claridade de um gesto que vem de longe e se imobiliza
talvez uma borboleta negra como as que de dia nos dizem da noite
e nos fazem estancar o sangue que corre nas veias ávido de água e luz

eu vi resistir um corpo branco amarelecido por uma luz que não há
rodar na direcção da toscânia à procura da noite que nunca tem fim
porque há uma noite eterna para os que acreditam na noite sem fim
nos fios invisíveis que tecem palavras e pétalas de rosa e desejos

eu vi umas mãos delicadas a tomarem em cuidados uma menina perdida
a da memória emprestada daquele em quem as palavras são salvação
perdidos eu tu e ela em enredadas palavras demasiado frágeis para a verdade
num tempo em que já não florescem infinitos embrulhados em laços azuis

eu vi o horizonte recortado pela deusa magoada pelo amor que já não há
ou nunca houve e o silêncio a encher o quarto e a coarctar o sangue nas veias
subitamente substituído por um líquido verde que renova mitos e mundos
caminhos ladeados por anjos esquálidos e deuses de olhos vazados

eu vi a alegria quando se pensa que a tristeza são uns olhos castanhos
marejados de lágrimas ou apenas a aflorarem o lado mais difícil de dizer
do amor que já não virá das ilhas rodeadas por mar e por ilhas de ilhas
olhos castanhos a desafiarem deuses e os vazios oceânicos das distâncias

eu vi os teus olhos surpresos surpreenderem um homem sentado no sonho
das palavras que se misturam umas com as outras como contas coloridas
com imagens intermináveis semeadas de sonhos com plantas carnívoras
sonhos que invadem as noites e nos empurram para o sol que nos cega

eu vi nos teus olhos a ternura que submete os corações de touros selvagens
a frescura e a luz que inundam as terras devastadas e estéreis dos desamores
e resgatam da sombra das águas extenuadas as algas e os líquenes precisos
à renovação das palavras deslumbradas esmagadas por securas e tédios

eu vi a tua água límpida inundar os caminhos secos das nossas memórias
a seiva que limpa as veredas escuras do nosso sangue em vão derramado
o mel que suaviza as nossas gargantas secas e exaustas pelo inenarrável
o sangue rejuvenescendo que expulsa das nossas veias o lixo do passado

eu vi a tua boca proferir fórmulas mágicas "Obedece-me, meu coração. Eu
sou o teu senhor. Enquanto estiveres no meu corpo não me serás hostil."
e eu sentado no chão a mimar o canto mágico furtado ao livro dos mortos
com a esperança de acender na noite palavras e corpos e olhares novos

eu vi os teus olhos no chão à procura de sinais cifrados
de enigmas que iluminem um pensamento novo ainda que breve
uma luz que obscuramente possa desvendar as trevas do mundo
e eu atarefado a desenhar no ar criptogramas para te oferecer

eu vi aproximares-te de mim arrastando uma longa cauda de fogo frio
e as tuas mãos a trespassarem sem dor o meu corpo desabitado e dócil
os meus pensamentos desenhados pela mão esquerda de uma criança
a minha alma que teimosamente busca ainda na lama as pérolas puras

eu vi e não vi tudo o que vi ou imaginei ou não imaginei e vi-te e não te vi
sonhei-te talvez só no meu sonho vagabundo de inventar seres e sonhos
fechado no quarto de hotel palco onde tu és verdade isso é mesmo verdade
tu em estado de graça a incendiar palavras que estalam como sal queimado

eu vi uma actriz a incendiar palavras
em estado geral de graça
a ser feliz
eu vi.


Carlos Alberto Machado (n. 1954), in A Realidade Inclinada (2003). Com obras publicadas nos domínios do ensaio, teatro e ficção, reuniu a poesia, em 2009, num volume intitulado Registo civil. « A escrita de Carlos Alberto Machado é um  labor orquestral, onde baralha as fronteiras entre a poesia e a prosa, a linguagem de todos os dias e a literária. Tem um "piloto automático" que lhe desencadeia a escrita num jorro, quando é preciso, mas o trabalho no teatro ensinou-lhe que a grande liberdade e o rigor não são incompatíveis e se complementam. / Nele tudo está entrançado: os tempos mais recuados da sua vida, o amor, a morte e a escrita. O vivido em Carlos Alberto Machado é sempre um ponto de passagem para o seu direito de mentir, de construir campos de virtualidade e de possíveis. A tensão deste perpétuo jogo entre o verdadeiro e o virtual. A realidade inclinada. A ventilação da vida, a sua energia transbordante» (s/a, in Portugal, 0, 7).

COISAS MESMO MUITO BOAS

Eduardo Pitta iniciou, no Da Literatura, uma nova secção a que deu o título genérico Convinha reeditar. Convém ir acompanhando. Até à data, foram mencionados os livros Discurso Sobre a Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, A Bastarda, de Violette Leduc, e Os Sete Pilares da Sabedoria, de T. E. Lawrence.

2.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Não aceitar um país com portugueses de primeira e portugueses de segunda.
 
Tudo começou com a desvalorização das dívidas ao Fisco contraídas por Francisco José Viegas, então Secretário de Estado da Cultura (cargo que abandonou, a 25 de Outubro de 2012, por “razões graves de saúde”), e acabou com a novela em torno das dívidas à Segurança Social acumuladas por Pedro Passos Coelho (sobre a qual Joaquim Vieira escreveu uma crónica que devia ser de leitura obrigatória: aqui). Pelo meio, houve outros exemplos que provam como este Governo instaurou no país dois pesos e duas medidas. O Governo do confisco desvalorizava as dívidas dos seus actores principais enquanto penhorava, de Norte a Sul do país, os portugueses de segunda, ou seja, os cidadãos com dívidas ao Fisco que não estivessem no poder ou não fossem das relações.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

1.ª RAZÃO PARA NÃO VOTAR PAF

Provar que temos memória.
 
 
 
Nota: escrevi isto a 1 de Junho de 2011. Não mudo uma linha, conto acrescentar mais. As que de 2011 até hoje podem explicar isto: Desde 2011, a percentagem de trabalhadores a ganhar o SMN subiu 73,6%. Ganhou-se competitividade à custa de salários baixos. Ou seja, isto: Maiores fortunas de Portugal têm na sua posse 14,7 mil milhões de euros, cerca de 8,5% do PIB nacional.

 

JULHO

Mas Junho já passou?

COISAS MESMO MUITO BOAS

Ouvir a rádio do Pedro. Experimentem: aqui.

BUKOWSKI, O CRÍTICO

Entre os variadíssimos temas que pulverizam a obra bukowskiana, estão inúmeras referências aos ódios e às paixões literárias de estimação. Charles Bukowski daria um excelente “microcrítico literário”, de garras afiadas e com sarro suficiente para que não lhe descortinemos qualquer compromisso. Não obstante, por vezes aproveita-se de elementos ficcionais para lançar farpas sub-reptícias. No romance Mulheres, a crítica exerce-se de um modo enviesado mas ao mesmo tempo sugestivo:

Chamava-se Randy Evans, e estava demasiado ligado a Kafka para conseguir escrever algo de interessante.

Ou:

A culta viajante do mundo tinha as Irmãs Brönte sobre a mesa de cabeceira. Ambos gostávamos de Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter. Dei-lhe três ou quarto de seguida e ela gemeu.

Numa outra passagem, ficam claras as preferências do autor:

Encontrei uma pedra grande e comecei a bater contra o cadeado. Ele não cedeu. Meu Deus, o que teria feito Jack London? O que teria feito Hemingway? E Jean Genet?

As três referências surgem como uma espécie de trindade no meio de uma situação caricata. São referências para e na vida da personagem central, o alter-ego Henry Chinaski. Algo semelhante sucede num conto de Histórias de loucura normal:

o que esperaria agora de mim o grande editor? o que é que o Hem teria feito? o Dos Passos? o Tom Wolfe? o Creeley? o Ezra?

A este tipo de alusões deveríamos juntar as considerações sobre a entidade do escritor, quase sempre depreciativas ou, pelo menos, nada glorificantes. Interessam-me mais as referências directas, as declarações de amor ou de ódio. Nelas o desprezo latente à actividade literária como que trai a postura distante do marginal. Como interpretar o capítulo 83 de Mulheres, quando Chinaski está num quarto ao lado de Burroughs e evita o encontro alegando interesses mais prementes tais como a ausência de frigoríficos nos quartos ou a ansiedade pelas corridas de cavalos? Desinteresse ou orgulho? Algumas páginas depois, abordado por uma professora de literatura e pela sua aluna bucha, lá vai respondendo:

«Qual é o seu autor preferido?»
«Fante».
«John F-a-n-t-e. Ask the Dust, Wait Until Spring, Bandini».
(…)
«Porque é que gosta dele?»
«É a emoção absoluta. Um homem muito corajoso.»
«Quem mais?»
«Céline.»
«Porquê?»
«Arrancaram-lhe as tripas e ele riu-se, e fez com que eles se rissem também. Um homem muito corajoso.»
(..)
«Hemingway?»
«Não.»
«Porquê?»
«Demasiado terno, demasiado sério. Um bom escritor, frases interessantes. Mas para ele a vida foi quase uma guerra total. Nunca saía, nunca dançava.»

A última consideração parece contraditória com a alusão anterior ao mesmo escritor. Bukowski era mais esquivo do que parecia. E a páginas 247, novamente uma referência aparentemente contraditória. Desta feita, a Céline (nome de alucinação no extravagante romance Pulp):

Refiro-me ao Voyage ao bout de le nuit. Depois deste livro, ele perdeu a mão, tornou-se fraco, começou a enganar os editores e os seus leitores. É uma verdadeira pena. O seu talento desapareceu.

Já no romance da infância, Ham on Rye, o episódio onde se relata a descoberta do gosto pela leitura nas bibliotecas chega a ser comovente. «O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva». Seguem-se referências sucintas a Sinclair Lewis: «Ele desmontava a hipocrisia inerente às pessoas. Mas faltava-lhe paixão». A Josephine Lawrence, a D. H. Lawrence, a Huxley, a Dos Passos, Dreiser, Sherwood Anderson, e, novamente, Hemingway:

E depois apareceu Hemingway. Que maravilha! Esse sim sabia como escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse.

Bukowski relata uma descoberta da infância, é natural que com o tempo a primeira impressão tivesse desvanecido. Seguiram-se os russos Turguenev e Gorky, «G. B. Shaw com a sua mente tacanha sempre a bater no fundo, com aquele seu humor elaborado que no final se tornou um fardo, impedindo-o de sentir alguma coisa, com o seu brilhante discurso transformado em aborrecimento, arranhando a inteligência e os sentidos». Já Pulp, o mais alucinado dos romances de Bukowski, está pejado de referências lacónicas a escritores tais como Céline, Faulkner, Carson McCullers, Hemingway, Thomas Mann, Kant, Dante e Fante (num diálogo que parece ter surgido de uma ressaca de ácidos)… Mas Pulp passa ao lado deste domínio das considerações críticas, tal como Correios – onde, estranhamente, não encontramos uma única referência às inclinações literárias. Se quisermos encontrar tais referências, o melhor é frequentarmos as colectâneas de contos. Em A Sul de Nenhum Norte, no conto intitulado Classe, desafia Hemingway para um combate de boxe, num episódio que tem qualquer coisa de metafórico:

   Tinha encostado Hemingway contra as cordas. O homem não podia cair. Sempre que começava a cair, endireitava-o de novo com outro soco. Era um massacre. Death in the Afternoon.
   Recuei alguns passos e o sr. Ernest Hemingway caiu de borco, completamente fora de combate.

Há também histórias de escritores obscuros onde vislumbramos protótipos de uma degradação que tem sempre na mira a coragem enquanto virtude, a cobardia como o maior dos vícios. O conto Foi isto que matou o Dylan Thomas é exemplar de uma espécie de código (a)moral onde a crítica se exerce, também, de uma perspectiva autocrítica:

Chamo-me Henry Chinaski e sou poeta, sou profundo, sou magnífico, isto é, tenho colhões, tenho colhões. Bem, é isso mesmo, sim senhor, tenho uns colhões do caralho.
(…)
Mas cautela com as armadilhas, Chinaski, cautelinha. Foi preciso lutar muito durante muito tempo para dominares a palavra como querias, do modo que querias. Não vás permitir que um pouco de adulação e uma câmara de cinema te levam a pôr um pé em falso. Lembra-te do que dizia Jeffers – até os melhores se deixam apanhar, como Deus, quando um dia desceu à terra.
(…)
Marionetti voltou com um gajo do S. F. Chronicle que escreveu na coluna dele que eu sou o melhor contista desde Hemingway. Digo-lhe que está enganado; que não sei quem é o melhor desde o Hemingway, mas que, de certeza, Chinaski não é. Sou demasiado descuidado a escrever. Não trabalho que chegue. Estou muito cansado.

Nas Histórias de loucura normal repetem-se menções a leituras de D. H. Lawrence, Hemingway, Faulkner, Mailer, entre declarações radicalmente heterodoxas: «Estiquei o braço, abri o livro a meio, e comecei a ler o Guerra e Paz do Tolstoi. Nada tinha mudado. Continuava a ser um péssimo livro». E mais: «Falámos sobre Kafka. Dos. Turgenev, Gogol. As secas todas». Perante isto, títulos como Cona e Kant e um lar feliz ou Os grandes poetas morrem em fumegantes tachos de merda são todo um programa. Aparece novamente o mais perturbador dos mestres:

existe actualmente um suspeito menosprezo pelo Hemingway por parte de críticos que não sabem escrever, e o barbaças até escreveu coisas más do meio para o final, mas a cabeça dele começava a desaparafusar-se, e mesmo assim fazia com que os outros parecessem meninos da escola a levantar a mão para pedir licença para um chichizinho literário.

A poesia também não escapa:

aí passadas umas 3 ou 4 cervejas e um banho e depois de ter tentado ler uns livros de poesia por lá, achando-os naturalmente não muito bem escritos, os livros puseram-me a dormir: Pound, Olson, Creeley, Shapiro.

Ou, mais benevolente:

quase todos os grandes nomes morreram recentemente: o Frost, o cummings, o Jeffers, o W. C. Williams, o T. S. Eliot, os restantes. há umas noites, o Sandburg. (…) o Lowell é suficientemente interessante para não nos pôr a dormir, embora suficientemente difuso para não ser perigoso. as primeiras ideias que nos vêm à cabeça após lermos a obra dele são: este menino nunca falhou uma refeição nem nunca teve um pneu furado nem uma dor de dentes. o Creeley é uma similitude próxima, e imagino que os poderes instalados tenham andado algum tempo a equacionar entre o Creeley e o Lowell, tendo finalmente optado pelo Lowell porque o Creeley não parecia ser um chato lá muito bom (…).

São imensas as alusões, menções, referências congéneres nos contos de Charles Bukowski, fazendo esta penetração pelos terrenos do “mexerico literário canalha” pensar num marginal que não era bem um marginal, era antes um solitário que calhou encontrar-se rodeado de indivíduos decepcionantes, mais compenetrados numa ascensão entre pares do que na expurgação de vidas inúteis. Note-se como a coisa aparece explanada num conto de Música para Água Ardente:

Pegou em Resistance, Rebellion and Death… leu algumas páginas. Camus falava sobre angústia e terror e sobre a miserável condição do Homem, mas falava de uma forma tão confortável e floreada… na sua linguagem… que se ficava com a sensação de que as coisas nem o afectavam a ele nem à sua escrita. Por outras palavras, as coisas até podiam estar bem. Camus escrevia como um homem que tivesse acabado de comer um belo jantar de bife com batatas fritas e salada, acompanhado de uma garrafa de bom vinho francês.

Talvez toda a crítica literária devesse ser assim, escritores aludindo a outros escritores nas entrelinhas dos seus contos, poemas, romances. Oferecendo às suas personagens os seus ódios mais estimados, as suas paixões mais secretas. Enquanto leitores, não precisaríamos de muito mais. Apenas uma declaração de gosto autêntica, um juízo afiado. Ou, pelo menos, aparentemente autêntica. A capacidade de dizer gosto ou não gosto sem sentir necessidade de explicar porquê com tratados incompreensíveis, rebuscados, repletos de frases feitas e carregados de muletas jornalísticas. Uma boa frase chegaria, uma ideia em vez de colunas repletas com citações tantas vezes descontextualizadas, truncadas, até mal intencionadas. Enfim, uma crítica que soubesse chamar chato a um chato sem esperar que o chato compreenda porque é chato.


- Mulheres, trad. Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 2.ª edição, Junho de 1992;
- A Sul de Nenhum Norte, trad. Manuel Resende, Relógio d’Água, Outubro de 1997;
- Ham on Rye – Pão com Fiambre, trad. Manuel A. Domingos, Ulisseia, 1.ª edição, Setembro de 2010;
- Histórias de loucura normal, trad. Vasco Gato, Alfaguara, Outubro de 2013;
- Música para Água Ardente, trad. Rita Carvalho e Guerra, Antígona, Março de 2015.

domingo, 16 de agosto de 2015

ANA HATHERLY (1929-2015)


Um poema e breve nota biobibliográfica (aqui), uma leitura de A Neo-Penélope (aqui), uma leitura de 463 Tisanas (aqui). Porque o trabalho de tradutora também deve ser referido, uma leitura de O Vagabundo do Dharma (aqui). A reler: O Mestre, 5.ª edição, Ulisseia, Novembro de 2010.

PRAGAS DE VERÃO

São imensas as pragas deste Verão. Algumas vêm repetindo-se fastidiosamente ao longo dos últimos anos. Assim de repente, ocorrem-me as festas temáticas tipo anos 80 ou a beatífica noite branca para expurgar paixões assolapadas e traições balneares. Sem esquecer, como é óbvio, as inumeráveis recriações medievais que poluem o país de Norte a Sul. Combinadas, até porque faz sentido combiná-las (tipo recriação medieval dos anos 80 em noite branca), temos o Inferno à porta. Presumo que no bar deste Inferno a caipirinha tenha sido destronada pela moda do Gin, preparado com mais hortofrutícolas do que álcool. A saúde agradece. E por falar em saúde, lembrando que há muito declarámos o desinteresse das pessoas saudáveis, não podemos deixar de referir uma das pragas mais terríveis deste ano, a qual se manifesta em duas vertentes: a dos masterchefes e a dos nutricionistas. Onde quer que estejamos, temos de aguentar a bronca. Em cada português parece existir hoje um cozinheiro de primeira e um especialista em vida saudável, nomeadamente no que respeita a produtos alimentares. Ao pé disto, os cartazes do Partido Socialista são um entretém para distraídos. Só quem não percebe ou não quer perceber a sociedade em que vive é que pode julgar foleiros aqueles cartazes, eles limitam-se a reproduzir o universo de palermice em que vamos orientando as nossas vidinhas inúteis. Que melhor prova disto mesmo podemos exigir? O tempo perdido a discutir os cartazes quando devíamos andar a discutir políticas? Se não chega, façam uma pausa, sentem-se na esplanada mais próxima, e observem o rol de tatuagens pindéricas que proliferam pelos corpos dos portugueses. Há toda uma conceptualização da inestética que se expõe e patenteia da nuca com diabinhos aos calcanhares com ramos de noiva. Mas entre tamanhas pragas, a mais ameaçadora é a dos surfistas. Milhares de pranchas espalhadas entre a Praia do Amado e Monte Clérigo assustam qualquer veraneante habituado a mais do que dois centímetros quadrados de areia onde estender toalha e enfiar um chapéu-de-sol. A gente olha para as praias do alto da mais alta falésia e parece que foram invadidas por enxames de mosquitos que bóiam nas águas. O espectáculo é tanto mais degradante quanto podemos verificar não terem tais águas quaisquer ondas onde os "mosquitos" possam fazer aquilo que era suposto fazerem, ou seja, surfarem. Porque, se bem entendo, surfar é um tipo apanhar o balanço de uma onda e meter-se de pé, tal homo erectus, em cima de um pedaço de madeira especificamente preparado para o efeito. Ou então estou desactualizado, talvez com o acordo ortográfico surfar tenha passado a ser uma designação para boiar em águas mansas, sugerindo-se indumentária a preceito, jipe de tracção nas quatro rodas e amigas muita doidas no lugar do pendura, produzidas para a praia como se fossem para a festa da noite branca, carregando nos sacos floridos variadíssimos bronzeadores e um exemplar de A Dieta dos 31 Dias - já que o personal trainer não coube no saco, teve de ficar no ginásio onde as meninas passaram o resto do ano a enrijecer músculos entre os quais caibam cuecas fio dental. Hippies no Verão, yuppies durante o resto do ano, poderão pelo menos por alguns dias desfrutar do melhor que a Natureza tem para nos oferecer. Onde não se inclui, claro está, o preço da imperial no bar ao lado da escola de surf

CITAÇÃO

Fui ver o que é que o Público pensa de tudo isto (o Público é um jornal que tem sempre jornalistas a voar para o Rio na cola de escritores muito lá de casa) e descubro o quê? A preocupação número um dos portugueses é o cinema francês, a quem o jornal dedica hoje dez páginas (4-13), entre reportagem, entrevista, gráficos, estatísticas e opinião. Sobre Dilma nem uma linha.

Eduardo Pitta, aqui. O sublinhado é meu.

AFORISMO

Weblogger que é blogger diz que não lê weblogs. Talvez leia blogues