quinta-feira, 27 de agosto de 2015

ENTÃO DIZER

 
Então dizer que amámos como a estrada começava, começámos numa contracurva de apertos, toponímia de ruas ao abandono, casas devastadas pela deserção das famílias, dizer que seguimos pela rua estreita desconhecendo o fim a que nos dirigíamos, caminhando apenas passo a passo com o rosto um do outro na memória, alguns versos pronunciados em voz alta para que os pássaros se espantassem de nos ouvirem, porque mais ninguém poderá compreender esta língua de silêncio que nos liga, apenas os pássaros que em bando cumprem seu destino

 
colhendo das silvas amoras de sonho, as primeiras chuvas fertilizando o voo, enquanto por terra nós fingimos alegrias breves, então dizer que inda ontem fomos felizes nos braços um do outro, mesmo quando tremíamos junto aos precipícios do Verão, a luz enchendo-se de ânsia, o regresso a 350 dias de espera por 15 dias de encontro, num passar de horas tão estendido pela amargura que nos escraviza, ruínas de nós próprios a formarem-se no corpo quando ao espelho nos olhamos e assistamos às manchas

 
que se espalham pela pele deixando os olhos em agonia, então dizer que respigamos júbilo na estrada que começa onde o amor consume a saudade, e que dia a dia procuramos motivos para amar cada dia que passa por nós como se fôssemos nós a passar pelos dias, enterrados no lodo da espera, a música do vento com suas migrações embalando a fome, nós tão longe uns dos outros, contaminados pela distância, dizendo então como desejaríamos ser breves e honestos nesta confissão

 
aplacada pelo registo fotográfico do sossego, mas ameaçada pelo registo diário das notícias, dizer por isso que prescindimos das novidades, ou que somos fortes o suficiente para aguentar o estrondo da novidade, lutando por dias limpos, dias verdadeiramente limpos onde possam ser construídos ninhos de ternura, dias insustentáveis como tudo o que nos alegre, dias que felicitaríamos com a mais eloquente das paixões, dias onde estender a estrada que sabemos amar como se estivéssemos a começar


dias repletos de noite, sem fronteiras nem tapumes, dias onde então dizer: eu vivi com paixão, vi pássaros a nascerem na ponta das árvores, li em voz alta estes e outros poetas que espantaram de alegria seus frutos cantados, mergulhei profundamente num abismo consolador, aquele onde a dor consola o luar com o sol das manhãs, ergui-me cheio de força e fui do tamanho de um pinheiro, erva daninha transcendendo-se no charco que abrigava rãs, insectos, suas cantatas tingidas de ironia, então dizer sim, aceitar prazenteiramente o fim último da vida, consolado de a ter vivido e grato por ter passado.

2 comentários:

sara rocio disse...

É bom voltar a esse lugar que partilhamos, mas que este verão me ausentei por opção premeditada. Porque há momentos que só sozinhos podemos sentir mais longe.
Obrigada por o trazeres, quase lhe sinto cheiro da manhã, da terra e do mar em pontinhos de felicidade momentâneos e fugazes.

hmbf disse...

Olá Sara. Este ano passou tudo muito rápido. Parece que agora passa tudo muito rápido. Saúde,