Um homem chega a um Hotel no meio do nada. O plano é
suficientemente absurdo para julgarmos ter sido colocados numa qualquer dimensão
onírica da personagem. Olhamos para o edifício enorme em tons celestes, rodeado
de areia e de vento, e somos interpelados pela improbabilidade do cenário. O
homem está cansado, entra no Hotel e pede dois quartos, quatro banhos quentes e
jantar para quatro pessoas famintas. Transporta consigo, numa carroça de prisioneiros,
três mulheres com graves problemas mentais. Dizem-lhe que o Hotel está cheio. O
homem pergunta: cheio de quê? O dono do Hotel é chamado e explica que aguardam
a visita de uma dúzia de potenciais investidores. Enquanto se explica, uma
empregada compõe a mesa do banquete perante o olhar faminto do homem que acabará
por ser expulso. O homem afasta-se a rogar pragas horríveis que o empresário e os capangas escutam com indiferença. Regressará ao Hotel posteriormente,
numa sequência nocturna subitamente iluminada pelo edifício em chamas. De uma
das janelas vemos um corpo a cair e a gritar em agonia. É difícil assistir a
esta sequência do filme The Homesman/Uma Dívida de Honra (2014) sem que venham à
memória certas imagens dos atentados de 11 de Setembro. Com uma diferença
chocante, a nossa simpatia recai sobre o terrorista. Não se pretende adivinhar na
sequência uma qualquer leitura política, nem colocar sobre os ombros do
realizador o peso de metáforas acidentais. Toda a sequência parece filmada a
partir da perspectiva do espectador. É como se o realizador pretendesse
assistir ao desempenho do actor no lugar do espectador, quando, na
realidade, ele é ao mesmo tempo quem realiza e quem representa. Tommy Lee
Jones, actor por demais conhecido e muito justamente oscarizado em papel secundário,
tão justamente quão injusta vai sendo a não atribuição da estátua dourada para
actor principal, conseguiu com esta segunda incursão atrás das câmaras uma
nomeação para a Palme d’Or. Infelizmente a crítica não acompanhou o entusiasmo.
Resta saber porquê. O filme conta a história do transporte de três mulheres
capturadas pela loucura. Entre a paisagem desoladora do Nebraska e a sociedade
segregacionista do Iowa, somos levados a entender tanto a loucura das mulheres
(iluminada com o recurso a flashbacks) como o pragmatismo utilitário do homem a
quem caberá a missão do transporte. George Briggs é um desertor solitário sem
qualquer fé na humanidade até se cruzar com uma mulher de seu nome Mary Bee
Cuddy, uma arrepiante Hilary Swank onde se adivinha um precipício interior evitado
pela prática do bem e de uma música imaginária que o teclado de pano estendido
sobre a mesa emite. É muito provável que um dia olhemos para este filme como
hoje olhamos para os clássicos. E isso deve-se a alguns planos absolutamente poéticos,
como o das três mulheres nuas a serem lavadas num rio ou o do rosto aflito de
Swank perdida no deserto a meio da noite. Curioso que já noutras ocasiões
tenhamos visto Tommy Lee Jones embrenhado em situações onde a fé e a
dificuldade do amor são o maior desafio que se coloca ao homem numa sociedade
onde o mal em privado se disfarça com a hipocrisia dos comportamentos sociais. Não
foi assim no monumental In the Valley of Elah/No Vale de Elah (2007) ou no western
The Missing/Desaparecidas (2003)? Simplesmente neste filme tais questões
fazem-se acompanhar de uma desconstrução do imaginário épico instituído por um género clássico do cinema norte-americano. Jones olha para o passado contemplando apenas o que no presente merece
ser contemplado, não estabelecendo, evitando mesmo estabelecer, diferenças essenciais
que expliquem os comportamentos humanos. Ou seja, o que determina os comportamentos não
é a paisagem. Podemos até dizer que os comportamentos condicionam a paisagem.
No fundo, a humanidade mantém-se inalterada, com suas dúvidas e preconceitos, com
suas muletas e disfarces. Tanto o bem como o mal são inerentes à condição
humana e nada no mundo parece indicar que possamos alterar o que quer que seja
a esse nível. Talvez a educação pelo exemplo, a determinação em amar e ser generoso que
corroeu Mary Bee Cuddy mas libertou George Briggs. Será esta a mensagem que
Cristo pretendeu deixar quando estava na cruz? O que fez Roma com essa
mensagem?
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
UM POEMA DE AIMÉ CÉSAIRE
A RODA
A roda é a mais bela descoberta do homem e a única
existe o sol que roda
a terra que roda
existe o teu rosto que roda sobre o eixo do teu pescoço
quando choras
mas vós minutos não enrolareis na bobina da vida
o sangue lambido
a arte de sofrer aguçada como cotos de árvore
pelas facas do inverno
a corça louca de sede
que vem mostrar-me à beira de água
teu rosto de escuna desmastrada
teu rosto
como uma aldeia adormecida no fundo de um lago
e que renasce na manhã da relva
semente dos anos
Aimé Césaire, im Antologia Poética, selecção e tradução de Armando da Silva Carvalho, Cadernos de Poesia, 16, Publicações Dom Quixote, Dezembro de 1970, p. 21.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
UM POEMA DE VITOR SILVA TAVARES
Como se alguém teimosamente mudo
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
Vitor Silva Tavares, in Púsias, capa de Luís Henriques, Edições 50kg, Fevereiro de 2015, p. 10.
FECHAR UMA JANELA
Esta fotografia, partilhada pela Sara na sua página de
Facebook, traz-me muitas e boas memórias. Regresso a 2001, quando os Ventilan
se reuniram pela primeira vez, por iniciativa do Nuno Moura, e a convite do
Miguel-Manso, para celebrarem o encerramento da Taberna Toino da Cunha em
Almeirim. Microfone e guitarra directamente ligados ao amplificador, o saxofone
e os pífaros do Pedro Serpa tal como vieram ao mundo. Éramos todos mais magros
(excepto o Pedro, cuja elegância se mantém inalterada) e o Nuno ainda não
precisava de óculos para ler poemas como este:
VAI PARA CASA
Cais do Sodré de manhã, ela diz
para um homem: vai para casa, tomar banho,
desmaquilhar-te. O homem pergunta e ela responde sim,
que se notava até demais.
O homem encosta-se à caixa multibanco e dividem.
Ela também não quer mais, o homem pode beber o resto da
lata,
matar o cigarro.
A beata sai do vento dos dedos como um berlinde, faz um fogo
no eléctrico parajado, o homem diz: viste como ela me levou
para o quarto, pela mão?
Vi, vi também 11 garrafas amarrotadas no meu caixote do
lixo,
dois filtros tesos no cinzeiro, tu a entrares pela mão
no quarto dela.
As árvores do largo deixaram as toalhas na relva quente
e pincharam no rio, o homem disse: não viste,
mas ela sentou-me na sua cadeira mais rente,
disse para eu estar quieto que agora me ia pintar
e abriu um coração verde com um espelho em cima,
não viste.
Vi um riso. Vi terra amanhada por unhas manicuradas.
Não vi estas lágrimas.
A marreta de uns olhos fechados dirigiu a tangueta da clássica
dos meninos verdes – o coro das orcas, o tacto dos cegos
- o homem disse: que neve pura me limpe.
No pontão as árvores alouravam.
Um camarário de vassoura e atrelado susteu seu escarro,
passou a mão pela febre, puxou do baton.
Nuno Moura, in Soluções do Problema Anterior, capa de Maria Alcobre,
composto e paginado por Manuela Perdigão, & etc, Abril de 1996, pp. 54-55.
Alguns anos depois, decorria o mês de Abril de 2005, os
Ventilan “partiram em digressão” para o Porto. Na bagagem, algumas molduras
preciosas com os originais que estiveram na origem das capas da & etc. Vítor
Silva Tavares não foi, mas levámos de boleia mestre Rui Caeiro. Exposição na
FNAC de Santa Catarina, apresentação memorável dos Ventilan com Rui Caeiro a
permanecer no palco durante toda a actuação. Esta fotografia foi registada
nesse dia. Quem estava na plateia era a poeta Inês Lourenço, que acabara de
publicar Logros Consentidos. Capa actualíssima e poema muito a propósito:
Toponímia
Mudam-se os tempos. Já
não sabemos as matinais canções
nem habitamos vilas morenas.
Toleramos serventes de pedreiro louros,
de preferência não legalizados. Queremos
um grande apartamento em condomínio
fechado, um ferrari, uma piscina, um topo
de gama de uma coisa qualquer.
Temos ruas, temos praças e pontes
com nome de revolução. Como todos
os países temos hino — nação valente
imortal. Tivemos canela e diamantes,
santos, barregãs e dinastias de
tiranos e servos. Andámos muito
no mar, trocando rotas e poderes,
escravos, inquisições e cruzes.
Agora, neste estreito
quadrilátero, de onde saímos
e mal regressámos, sem índias nem
quinto império — salvou-se o manuscrito do
Luís Vaz, a nado — restam-nos a sardinha
e a conquilha — ao que consta cercadas
de barcos espanhóis — o bacalhau
que já não vem da Terra Nova, a memória
dos pescadores de baleias, esgotada a captura
nas ilhas.
Também temos o treze
de Maio, o negócio clandestino
das abortadeiras, a broa de Avintes,
os tintos, por enquanto, de marca e
o leitão da Bairrada e o Benfica e
o Sporting e o Futebol
Club do Porto.
Temos ruas, temos praças e
pontes com nome de revolução,
topónimos nebulosos que a distância
apagará. Apenas aquela rua
chamada Cantor Zeca Afonso
poderá surpreender o transeunte
se acrescentarem o aviso:
Nunca quis uma rua
só para si.
Inês Lourenço, in Logros Consentidos, capa de Pedro Proença,
composto e paginado por Olímpio Ferreira, & etc, Março de 2005, pp. 47-48.
Nesse mesmo ano de 2005 o improvável aconteceu. Os Ventilan
voltaram a reunir-se, desta feita no Museu de História Natural. O programa
incluía mesas redondas, das quais nos abstivemos ou fomos inteligentemente excluídos, sobre os exageros do PREC. Organização:
associação Abril em Maio. Foi a primeira vez que tivemos na plateia o Vítor Silva
Tavares, que aguentou do princípio ao fim sem esboçar embaraço ou desconforto. O
som estava péssimo, o ruído e o feedback sobrepunham-se aos versos, eu dei cabo
de uma guitarra e o tipo da mesa de som não deve sequer ter reparado (como, muito
provavelmente, não chegou sequer a reparar que estávamos ali). Voltámos a merecer a
presença do Vítor Silva Tavares em 2013, aquando de uma actuação na Livraria Sá
da Costa. A fotografia da Sara regista o momento. E já este ano, no mês de
Abril, lá estava ele, O fã, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul. Estivemos
sentados numa mesma mesa, trocámos algumas palavras sobre a Carbonária, reunimos
esforços para fechar uma janela. Sobre esse dia, escrevi umas coisas no diário
que não são para revelar. Mas ninguém me roubará a humilde alegria de um dia
poder vir a contar aos netos: eu fechei uma janela com o Vítor Silva Tavares.
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
BOSQUEJO DA RUPTURA INAUGURAL
Pouco ou nada jubiloso afirmou Mário Cesariny ter havido no século XX duas revoluções falhadas: o surrealismo e o comunismo. Aqui, por comunismo, entenda-se o regime implementado na Rússia pela chamada Revolução de Outubro - essa que a um tempo eliminou aristocratas e clérigos, plutocratas e terratenentes (a velha ordem feudal) mas também o republicanismo parlamentar de Kerenski e, sobretudo, as veleidades «utópicas» do comunitarismo autogestionário. Colectivizando a propriedade e os meios de produção numa lógica de capitalismo de Estado, o novo poder político, com e a partir da ascensão de Estaline, degenerou numa ditadura pessoal e aparelhística tenazmente repressiva quando não criminosa. Quanto ao surrealismo, de início herdeiro da subvenção Dada a que somara novos modos operatórios e novas fronteiras de linguagem pela incursão sem censura no subconsciente e na libido, os seus propósitos fundadores disparavam assim, naturalmente, para a «libertação integral do Homem» (não podendo haver revolução sem liberdade segue-se que esta, antes de ser política, é dinâmica de cada indivíduo), mas cedo foi também afunilado pela premência do combate à mancha negra dos fascismos: de aí a tentação (e o equívoco) de se colar ao Partido Comunista Francês, organicamente estalinista, para o qual o sem-limite da imaginação como força libertadora não passava de diversão de pequenos-burgueses mais ou menos histéricos e avessos ao modelo do «homem novo», proletário obediente, que ele procurava disseminar por «todo o mundo». A colagem (com esforçada reserva mental) foi de curta duração mas acabou por constituir, somada ao centralismo de capela por e à volta de Breton, factor de desagregação do movimento que se queria grupal e só assim potencialmente revolucionário. Também ele objecto de «expulsões» no seu núcleo (caso mais gritante: Antonin Artaud, se bem que mais tarde «reabilitado»), incapaz de assimilar dissidências por mais circunstanciais, espartilhado por dogmatismos antagónicos cerceadores do livre-arbítrio, o surrealismo veio afirmar-se, com maior ou menos «êxito», afinal como mais um paradigma estético, pelas intervenções daqueles seus membros com maior aptidão «artística», desde logo redutora e à mercê, seria fatal?, do canibalismo mercantil. Se uma, ou a, Revolução tem a ver com todos e com cada um, aqui o todos foi para o maneta e ficou cada um entregue ao seu destino - revolucionário talvez mas sem revolução.
De facto, tudo leva a crer que não houve comunismo algum na União Soviética quanto mais fora dela (o centralismo funcionário, onde quer que se imponha, é geneticamente anticomunista) e a revolução surrealista, ao pôr-se «ao serviço» (sic) mais da projecção de um desejo, ou de uma utopia, do que das práticas políticas já implantadas no terreno (perseguição e aniquilamento de todas as vozes socialistas discordantes da óptica dos senhores do Kremlin), estreitou o seu carácter implosivo - transformar o Homem - e explosivo - mudar o Mundo - para se entreter em esoterismos de redoma e excentricidades formais que servem hoje à maravilha a publicitários e politólogos palrantes.
Restam, claro que restam, obras literárias e plásticas genuinamente «surrealistas», restam até alguns adeptos desse movimento de sobremaneira galvanizador - como ainda haverá por aí assumidos «comunistas» que teimam a coerência possível, na menor contradição possível, entre as rodas dentadas da engrenagem capitalista, tirania global.
Contrariando parcialmente a afirmação de Mário Cesariny, apetece dizer que a revolução comunista não falhou pela simples razão de não ter sido revolução nem comunista. Já o contributo para cada um da Grande Razão surrealista vai na direcção de uma luz inextinguível - a desejada libertação integral do Homem.
*
Sabe quem sabe que o denominado neo-realismo português foi expressão adoptada para iludir, se é que iludiu, os censores da Ditadura. Correcto será chamá-lo realismo socialista, esse mesmo, o emergente da filosofia, e do ditame, estalinista (oficial às ordens: Jdanov) para o campo das «artes». Teriam estas de muscular operários, soldados e camponeses, copiados do «real», a foçarem todos, formiguinhas ladinas, para a emancipação dos espoliados e ofendidos, para a construção da Grande Pátria Socialista... sediada nos gabinetes do Kremlin: lá iam pois, cantando e rindo, abençoados pelo Pai dos Povos. Os vanguardistas russos, esses que haviam aderido com fervor à (ideia da) Revolução, são silenciados, ou suicidam-se: estavam fora do baralho.
Não vá sem se dizer, opinião pessoal, que o neo-realismo português, sobretudo nas artes plásticas, fosse ainda assim subsidiário dessa hagiografia «materialista», ou dessa épica de pacotilha mais conforme à propaganda. Temos de convir que ele mais se mostra de raiz expressionista, quer nas suas deformantes ousadias estruturais quer na veemência indignada da sua exposição. Influências, aqui mais próximas, vêm todas de Cavalcanti e Portinari, de Siqueiros e Rivera. E se na literatura não raro descambou num maniqueísmo rasante (cultivado sobretudo pelos incendiários teóricos que se puseram a garatujar prosas e poemas sequer académicos porque aflitivamente toscos - «quem não sabe da arte não na estima», palavras de Camões), certo é que os seus mais probos cultores, herdeiros do realismo social de Zola, mas também de Dickens, de Gogol ou de Dostoievski, continuadores do empenhamento de romancistas como Assis Esperança, Aleixo Ribeiro, Aquilino ou Ferreira de Castro (menos exemplos à mão, que isto daria pano para mangas), puderam reequacionar ideologia com exigência estética - casos de Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio ou até mesmo o Redol dos últimos livros - e produziram obras de inegável sinceridade e recorte interventivo.
Mas o país era, e é, subdesenvolvido - falhara-lhe a revolução industrial e, com ela, o capitalismo «moderno», tão rapace como os seus predecessores porém mais urbano e cosmopolita. A Primeira República, tida por «jacobina» mas nas suas cúpulas essencialmente conservadora e, claro está, repressora dos movimentos operários, afundara-se na chicana política (mal endémico da partidarite) e na corrupção financeira que engordava alguns para deixar o Tesouro a tinir (onde é que eu já ouvi isto?), acabando por justificar, por sucessivas subtracções da esperança nela depositada, a bota «salvadora» da Ditadura. A força de trabalho, de fraca expressão operária, assentava no mundo rural - este de todo desequilibrado entre o latifúndio e as micro-áreas sem hipótese de sobrevivência económica mas também pelas monoculturas dos cereais, da vinha, do pinhal. O analfabetismo grassava a par do trabalho braçal, da insuficiência alimentar (leia-se em maiúsculas: FOME) e da mortalidade infantil. A padralhada ultramontana, passado o surto, e o susto, anticlerical, impunha a moral e os bons costumes (leia-se: o obscurantismo, a castração sexual, a submissão de rebanho assente na superstição, na idolatria e no temor do castigo eterno) e, irmã-gémea do fascismo político, estruturava-se pilar do Estado. Cereja em cima da bosta, a censura dos coronéis logrou amordaçar, com maior incidência na Imprensa - esta, aliás, quase toda conivente, ai não -, as vozes daqueles jornalistas e intelectuais não obrigatoriamente marxistas mas relapsos ao conformismo, à passividade ou à subserviência interesseira. E quanto à cultura de e para «as massas» (o bom povo que não fazia ondas e balia més e améns), temos conversado: para quem é, bacalhau basta. Bacalhau nacional, aliás da Terra Nova: artesanatos e ranchos folclóricos inventados pelo Goebels da propaganda local António Ferro, fados gemidos e cançonetas amorudas, quadros patrióticos do teatro de revista, gerifaltadas «vicentinas» para os putos da Mocidade, fitas de encher o papo a rir, enfim, tudo para comer e calar. Política do Espírito proíbe pensar. Certo que havia que alimentar os bestuntos mais ilustrados (monarquistas ainda, tipo integralistas lusitanos, ou burgueses com pedigree fascistóide); proceda-se então à lavagem recuperadora do primeiro modernismo português - Amadeo, Almada, e o Pessoa da Mensagem - rebuscando-lhe épicas patrioteiras sob a farda de vanguardismos futuristas, ou isso. Estéticas mui brumosas & dissolventes também eram apreciadas, vá lá - do telúrico e místico Pascoaes aos rapazes da presença, estes a atirar ao psicologista (leia-se: umbilical) e todos entregues à arte-pela-arte p'ra que não mais se sentissem sós. Dolce fare niente para os coronéis do lápis azul. Cultura em português suave. Feira cabisbaixa (A. O'Neill).
A geração neo-realista intentou, e para muitos conseguiu, afrontar, romper, com este estado de coisas. A ruralidade (como todo o trabalho não «qualificado») quando não pacoviamente glorificada por gente medíocre que lá ia papando os seus lagostins, enquanto penografavam, pornografavam, gestas heróicas, sempre pôde ser denunciada nos seus contrastes brutais, essa carne para canhão alheia a qualquer contrato social. Nos interstícios da vigilância censória algumas vias foram abertas - fendas na muralha - para a consciencialização dos fenómenos políticos (luta-de-classes versus exploração capitalista e repressão social) e, por que não dizê-lo?, da criação artística, ainda que difusa, camuflada ou perturbada por disfunções ideológicas que iam de braço dado, na alienação (qual «revolução proletária» num país quase sem operários e com milhares de micro-proprietários que não cediam uma gota de regueiro ou uma semente de nabo nem à lei da bala?), como os seus exactos opositores, molecularmente reaccionários e, como tal, «tradicionalistas».
A acção persistente dos intelectuais engagés encontrou eco, e difusão, em editoras, páginas culturais de jornais e revistas, folhas clandestinas (do P.C.P.), cineclubes, pequenos grupos de teatro, tertúlias de cafés tristes. Até que esta resistência, conquistando público, começou a render - se não dinheiro, «prestígio». (Notícias do bloqueio: bloqueou-se a fortaleza.) De modo que, também aqui, quem não é por nós é contra nós. Também aqui, não são toleradas dissidências ou heterodoxias, entendidas como «traições». Também aqui, olha-se de lado ou «expilsa-se» todos quantos ousem afastar-se do modelo, do cânone, da cartilha - fugas desde logo consideradas como saltos para o «outro lado» da barricada, logo, fazendo o jogo do Inimigo. O fascismo não passarava? Outro fascismo, ou algo por demais parecido (como entendê-lo, como justificá-lo sem distorções dialécticas?) se ia instalando - e se instalou, com armas e bagagens. Não: o chumbo e a cinza do presídio salazarento, do portugal dos pequeninos, não explicava tudo, não explicava nada.
Entrará aqui a «polémica» neo-realismo/surrealismo. Não sendo irrelevante que este negue o positivismo matricial daquele e solte as suas linguagens (ditas de «automatismo psíquico puro», ou seja, sem censura da mente) aos domínios próprios do «irracional», do «delírio» e das incursões oníricas que rasgavam, rasgam, novos horizontes do «real», sucede que os dissidentes de um primeiro grupo autodenominado surrealista (António Pedro em chefe-de-fila), que chegara a expor pinturices macaqueadas do Dali nos salões do Secretariado da Propaganda Nacional (depois S.N.I.) para, só após, aramar ao pingarelho «oposicionista» (aquando da candidatura do general Norton de Matos à chefatura do Estado), haviam sido pelo menos companheiros de jornada daqueles intelectuais de formação marxista que fundiam acção cultural com intervenção política. Dê-se a palavra a Cesariny: «1944-1947 - A vitória das democracias moveu profundamente a oposição portuguesa, sendo o fim da guerra assinalado por espontâneas e irreprimíveis manifestações de rua que em todo o país vitoriavam a derrota do nazi-fascismo, criando-.se o momento encessário à organização do Movimento de Unidade Democrática, que lutaria dificilmente pela legalização das várias correntes anti-salazaristas, e alimentaria esperanças que o decorrer dos acontecimentos se encarregaria de esfomear.
Mário Cesariny, Vespeira, Pedro Oom, José Leonel Martins Rodrigues e António Rodrigues aderem ao partido marxista-stalinista português, do qual aceitam a práxis e a responsabildiade. José Leonel Martins Rodrigues, a contas com a polícia, perde a razão. Mário Cesariny pronuncia conferências no mais populoso núcleo proletário do país (Barreiro) e na cidade de Évora, aqui com Júlio Pomar, Lima de Freitas e Mário Ruivo. No jornal A Tarde, no Porot, estes e ainda Fernando José Francisco, em página semanal coordenada por Júlio Pomar, escrevem artigos totalmente politizados.» (in «Para uma cronologia do surrealismo em português», as mãos na água a cabeça no mar, ed. Assírio e Alvim.)
Quanto pois a antifascismos, nada de mais claro. E quanto a militâncias na poética neo-realista, aí temos Pedro Oom (o mais pulsionado dos «ortodoxos» surrealistas em termos de rigor ideológico) a publicar versos «puros e duros» em publicações como a Seara Nova, O Diabo (da primeira série) ou o Sol Nascente, tendo deixado inédito, por corte total e definitivo, o volume Escadaria do Negrume, título que já de si era todo um programa.
Mas tal interessou pouco, ou mesmo nada, aos instalados na corrente monopolizadora das «ideias progressistas» e das estruturas que as divulgavam. A «desobediência civil» dos surrealistas teria de ser diabolizada para depois ser remetida, como foi, ao silêncio... dos culpados, ao gueto dos marginais.
Os rumos estavam traçados e a ruptura inaugurada.
Vítor Silva Tavares, in PREC - Põe, Rapa, Empurra, Cai, propriedade da Abril em Maio, número zero, Novembro de 2005.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
CINCO "FÁBULAS"
Estes cinco textos, numerados pelo punho de Svevo, constituem o elemento central de um dossier por ele organizado, ao que se supõe, 30 anos depois, intitulado "Fábulas". No entanto, não ordenou os elementos desse dossier, sendo evidente que não considerava o conjunto pronto para publicação, mas apenas um projecto em curso.
A menção irónica no fim da 5.ª fábula ao filósofo Herbert Spencer (1820-1903), partidário do evolucionismo radical em todos os domínios (economia, sociedade, moral), fornece provavelmente a chave para compreender a profunda coerência destes cinco textos "pessimistas" que mostram a influência de Darwin sobre o pensamento de Svevo.
1
Um professor de zoologia explicava aos alunos como é que o pombo que dá cambalhotas descende do pombo bravo. Dizia ele que, durante muitos séculos, a fantasia do criador havia elegido para a reprodução indivíduos que possuíam essa insólita qualidade. Deste modo pôde vir ao mundo o estranho animal, assanhado a dar cambalhotas a ponto de se matar.
"Oh! Que infâmia!" disse um dos alunos.
"Não é infâmia, observou o professor. É a vida." A selecção entre os humanos, também ela, é hoje em dia feita de tal maneira que não são os melhores quem sobrevive, mas os que melhor sabem cabriolar. Se as coisas continuarem assim, sabe-se lá que louco animal resultará daí.
2
Um malfeitor, a quem a má natureza havia impelido a assassinar um homem indefeso, tomou consciência da enormidade do seu crime; arrependeu-se e foi rezar a uma igreja.
Foi distraído da sua fervorosa oração por um pregador que exclamava do alto do púlpito: "Regozijai-vos com a existência dos fracos e dos pobres, pois, ao praticar gestos de caridade para com eles, podeis alcançar o reino dos céus."
"Oh! mentiroso!" pensou o pecador. "Os pobres e os fracos causam a nossa desgraça. Se a minha vítima não fosse fraca, ao defender-se poderia ter-me impedido de a matar e de assim perder a paz da minha alma."
3
O Senhor Deus fez-se socialista. Aboliu o inferno e o purgatório e pôr toda a gente no paraíso, em pé de igualdade. Aí gozava-se o bem-estar de uma beatitude eterna.
Num dado momento morreu um Creso: ficou estupefacto por ser acolhido no paraíso. Mas logo se habituou à sua nova existência e bem rapidamente começou até a queixar-se.
"O que é que te aflige?" perguntou o Senhor, colérico.
"Ah, Senhor! Manda-me para a terra! Aqui não é o verdadeiro paraíso; aqui não se vê ninguém sofrer."
4
Um herói salvou uma fada de um perigo grave. Reconhecida, a fada disse-lhe: "Pede-me o que quiseres, obtê-lo-ás."
Sem hesitar, o herói respondeu: "Dá-me glória!"
A fada ofereceu-lhe ouro: "Com isto ser-te-á fácil alcançá-la."
O herói reflectiu, e depois disse: "Pois bem, dá-me amor."
A fada repetiu o mesmo gesto: "Isto dar-te-á quanto amor quiseres.
- Se glória e amor são ouro, declarou o herói, não quero nem glória nem amor. A felicidade tranquila me bastará, a vida contemplativa. Garante-ma.
- És mesmo louco! exclamou a fada, sorrindo. Toma este ouro, pois ele é necessário até para a simples contemplação."
5
Sem que de modo algum fosse culpa sua, um homem perdeu todos os seus haveres e ficou na mais cruel das indigências. De idade já bastante avançada, não tinha a menor esperança de algum dia voltar a levantar a cabeça. Todavia continuou vivo. Muitas vezes desejou morrer, mas apesar de tudo nunca o desespero foi suficiente para armar a mão contra si próprio.
Um dia, encontrou por acaso Herbert Spencer que lhe explicou porque é que o seu infortúnio era consequência evidente da incapacidade própria, e por que razão não merecia compaixão nem ajuda, pois esta, a ser-lhe dada, teria corrompido a lei social, que exige a eliminação do vencido.
Então, à laia de conclusão, o pobre homem matou-se imediatamente.
Trieste, Dezembro de 1897
Italo Svevo, Fábulas, tradução de Célia Henriques, capa e desenhos de André Ruivo, composto e paginado por Olímpio Ferreira, & etc, Dezembro de 2001, pp. 15-25.
"NÃO PRECISO DE BENGALAS"
Queres fazer um documentário sobre Mário Cesariny? Fala com Vítor
Silva Tavares. Vais fazer um documentário sobre Luiz Pacheco? Tens de ouvir o Vítor
Silva Tavares. Precisas de um depoimento sobre Herberto Helder? Pede ao Vítor Silva
Tavares. Andas a preparar a biografia do João César Monteiro? Entrevista o Vítor
Silva Tavares. Recentemente, ao assistir a um documentário sobre Ruy Belo que
passava na RTP2, lá estava ele, mais uma vez, o inevitável Vítor Silva Tavares.
A questão agora é com quem falar se quisermos falar sobre Vítor Silva Tavares? Alberto
Pimenta e Rui Caeiro foram cúmplices muito próximos. Paulo da Costa Domingos,
que coordenou a edição de & etc – Uma Editora no Subterrâneo (Letra Livre,
Novembro de 2013), extraordinário livro sobre “a mais singular editora
portuguesa”, é outra fonte inevitável.
Lembro-me dele também por causa de ARA,
uma publicação rara onde se sacrificaram textos de Rui Baião, Vítor Silva
Tavares e Paulo da Costa Domingos. A edição é Frenesi, embora a relação de
proximidade com a casa & etc seja assumida: «este décimo sexto volume pode
ser adquirido através da casa & etc rua da emenda 30, subterrâneo 3, 1200
lisboa. Preço de capa 150$00»:
(…)
Todos os sábados, no baile dos bombeiros, desaparecem
pernas, diz-se que trituradas pelo crocodilo americano. A bruxa desmente,
diplomada em parapsicologia e macrobiótica. Nos jardins infantis ninhos de
larvas artilham-se para a militância: é a bomba mística a espalhar confetti. Nem
um esgar na câmara de vácuo. O laboratório incha como a rã da fábula, as máquinas
registadoras vêm-se».
(…)
Estávamos em 1984,
mal suspeitaríamos o quão valiosíssima viria a ser esta pequena publicação. Desde
logo por assinalar uma das raras aparições de VST enquanto autor, raridade explicada posteriormente por ter o homem mais que fazer: «Tenho mais que fazer porque vivo intensamente a noite, os meus
amores, vivo intensamente os meus amigos. Para mim, isso é prioritário. A
literatura vem depois». E veio, muitas vezes emocionalmente misturada com esse
valor superior da amizade. É o caso de Tanto Fogo e Tanto Frio (& etc.,
2008) homenagem sentida à colaboração gráfica do saudoso Olímpio Ferreira. Dá-se
o caricato de na loja on-line Wook Alberto Pimenta ter sido convertido em
Albino, um lapso cuja graça não morre solteira. Ainda ontem, no jornal on-line
Observador atribuía-se a Artaud a autoria de A Cona de Irene.
Equívocos destes temperavam
o discurso de VST sempre que soltava mais uma história sobre X, Y, Z. O
caricato está entre nós como uma espécie de guia, prova-nos o quão ridícula
e saborosa é a vida. Veja-se isto. Revista LER – Livros & Leitores, n.º
119, Dezembro de 2012. Sophia, agora publicada pela Porto Editora, na capa. As restantes chamadas são um retrato fiel da parvoeira literária: Philip Roth diz que não escreve mais, José Luís Peixoto conta segredos da Coreia do Norte, a parangona do inédito de Sophia faz salivar o leitor consumista. Na contracapa, um autor
recém-adquirido pela casa faz o frete. A imagem de Valter Hugo Mãe a segurar
a caixinha Book Gift, onde podemos ler os nomes de José Luís Peixoto, Luís
Miguel Rocha, Fernando Pessoa, Dan Brown, Danielle Steel, Paulo Coelho, Luís
Sepúlveda, Kafka e Don Delillo é todo um programa acerca da estupidificação do
mundo. Uma caixinha onde cabe tudo como se não existisse diferença alguma entre
o que se mete lá para dentro, o livro convertido em caldo Knorr. No miolo da
revista, uma entrevista de Carlos Vaz Marques a Vítor Silva Tavares ilustrada
pelas fotografias de Pedro Loureiro. Vale a pena recordar um breve trecho:
Qual foi o livro mais importante que editou, aquele a que
atribui mais valor?
Isso é irrespondível. Não faço a mínima ideia. Nunca, ao
publicar o livro A ou B… Não me passam coisas dessas pela cabeça.
A posteriori, há certamente livros que gostou mais de
editar.
Tocou num ponto que é esse a posteriori. Ora, eu não sei o
que é isso do a posteriori. Ora, eu não sei o que é isso do a posteriori e
vou-lhe já dizer porquê: eu não olho a vida com o olho do cu. Para trás, eu não
vejo nada, pá.
Talvez seja difícil compreender alguém que não olhe hoje a
vida com o olho do cu, de tão induzidos e impelidos que somos a fazê-lo. Por
isso era suposto que o editor tivesse as suas preferências, tal como é suposto
que no fim de cada ano se escolham os livros do ano, e é suposto comprarmos
todos essa estupenda novidade que aparece em todas as capas de jornais e
revistas, e é suposto sermos todos amigos uns dos outros no Facebook, e é
suposto votarmos de quatro em quatro anos, e é suposto termos um emprego que dê
para pagar contas da água, da luz, do gás, da gasolina, da Internet e da puta
que os pariu. Vivemos num mundo de suposições, à espera
de que tenhamos todos vidas, no mínimo, muito parecidas e indiferenciadas. É suposto sermos todos o mais parecidos possível uns com os outros. Porque
não é suposto vivermos de forma diferente. É suposto obedecer aos padrões, respeitar
as teses, fazer como se costuma fazer, o hábito, a tradição, o comum, o
costume. O que torna especiais então certas pessoas? Talvez o inusitado das
suas vidas, o improviso, a estupenda alegria dos gestos livres, das acções esquisitas
e insólitas. Ou seja, nelas haver muito pouco do costume. Marginais? Alternativos? Simplesmente paralelos:
Não tem automóvel.
Não.
Não há nenhum computador nesta sala.
Não. Há uma frasezinha do Marx, acho que ainda não é
proibido citá-lo, que diz: «…a cada um segundo a sua necessidade.»
«De cada um segundo a sua possibilidade…»
Nem mais. Aí, na batatolina! Eu não me limito a fazer citações,
está a ver? Ou bem que eu intestino qualquer coisa que tenho na minha cabeça,
podem ser até versos de canção, e então torno-os meus. E portanto não vou botar
ciência: como disse este, como disse aquele. Não sou o Ramalho Eanes, não sou o
Cavaco, não é Kierkegaard para aqui e para ali, não preciso de bengalas.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
JORNAL PARA LER E NÃO PARA OLHAR
ASSIM COMO ASSIM
Em 1965 o poeta (sem farda) Pedro Oom escreveu o poema «excessivamente assim assim». Na sua antinomia o título puxa pela meninge e pode servir de chave para se abrir leve levemente a porta do quarto escuro da nossa fenomenal actualidade. Tão-somente para satisfazer qualquer eventual curioso, transcreve-se esta passagem: «todavia / a actividade frenética / entre as rugas / da perplexidade / e o desejo / venal / de exibir / a mão direita / hermeticamente / fechada / segundo / o código / denominado / "ESCARRO" / enquanto / o avanço / é mínimo / será (sempre) / de êxito / duvidoso».
Premonitório? - Nem nesses idos, que o país é tão conservador que retém na tripa aquilo que a gente sabe.
Apesar do grosso dos indígenas (os que vão à bola e espreitam reality-shows) não ligar pêva ao faladrar ou escripturar de jornaleiros & comentadores (muitos todos ex-radicais reconvertidos à moeda única se bem que não descurem a libra ou o dólar - recebem qualquer coisinha), insistem estes até à esganação e respectivo escarro nas desgraças, nas tragédias que nos (nos?) aconteceram em 1975, o fatídico, o horrível, o execrável, o excomungável ano do PREC. Coitados, fartaram-se de penar. E, se não penaram como se diz na carne (inda eram pequeninos, inda mal abriam olhos), tomam para eles as dores alheias (dos infortunados Mellos, Espíritos Santos, Champalimauds & Filhos) e vá de apostrofar da penúria em que tropas de mentes esquentadas e barbudos histéricos mai'las companheiras de buço na venta deixaram «o País» ao entreterem-se a nacionalizar bancos & empresas satélites, a ocupar à maluca prédios e coutadas de caça, a sanear cidadãos muy leais ao bem da nação, a bolsar inomináveis heresias comunas em comícios e manifes, enfim, a pintar a manta com tal gana, com tal frenesi que a Pátria vacilou nos seus egrégios avós e até ia escorregando numa anarqueirada do caneco, numa guerra civil aí de peito-feito o santo condestável da democracia soft jorrar qual fonte luminosa a palavra refrescante «Basta!»
(Uf!, o parágrafo ia-me exaurindo a caneta quanto mais a molécula ofendida!)
Cá por mim sempre vos digo que me dei muitíssimo bem com tais desmandos. Por um lado, é certo que não tinha nada a perder (e quantos comigo?), por outro, vero é também que não almejava ganhar o que quer que fosse, na esfera pfinanceira como na cama elástica da «política», a não ser liberdade - essa trivial de pensar, escrever e dizer o que me viesse à pinha sem ter de fintar censores ou mirar de viés a ver se havia pide, mosca varejeira no horizonte breve.
Só por isto, em absoluto simples ainda hoje grato estou à militarada (que querem?, também eu sou conservador) o ter corrido com a cambada do Dinossauro antes de, por sua vez, ser ela corrida pela cambada que lhe cavalgou a crista, virou para o oco pós-moderno os seus intuitos democratizantes e refundou, repimpada, a Estabilidade, a velha Estabilidade ora cosmetizada dos plutocratas, vulgo, homens da maçaroca (os Mellos, os Espíritos Santos, os Champalimauds, acrescentados dos abrilistas Amorim, Berardo, Roquete, Coutinho e o Belmiro dos 1,2 milhões de euros ganhos honradamente com o suor do seu rosto coriáceo).
Mas então ia eu a dizer que me regalei com aquela borbulhagem, aquela brotoeja, aquele acne «revolucionário». Doenças infantis venham mais dessas que farto de respeitinhos andava eu, já não podia ver à minha frente tanto marmanjo com cara de gravata. Se é verdade que me mingua a índole de marchista (sou um rapaz tímido até), se aqui confesso à puridade não me sobrar pulmão para pavarotizar no calor da horda morte a isto e àquilo ou força força companheiro Vasco, não deixe de se enfatizar que sim senhor exultei com a balbúrdia geral, a chinfrineira desbocada, o inchaço das «tomadas de posição», a cantoria como arma, as épicas pintuas murais repletas de soldados & operários & camponeses a espantar pardais argentários, o sangue na guelra de cardumes de carapaus de corrida... e o valentíssimo cagaço da burguesada bem-vestida que até arrancara a gravata para se mostrar também ela «filha do povo» e, como tal, acertar o passo - esquerdo, direito - rumo ao «socialismo», viu-se, vê-se. Sabe quem me conhece que gostei sempre de teatro: nesse de palco e plateia cheguei mesmo a fazer uma perninha.
De modos que, caros leitores (estás aí?), quanto aos referidos cujos malfadados «excessos» vamos lá com calma. Mortos, que tivesse sido apenas um já seria demais- é o meu bom coração a manifestar-se. Mas foram poucos, português suavemente poucos, para tão vergônteo estardalhaço «revolucionário», tanta espingarda distribuída, diz-se, por tanta mão solícita. Fogos da reacção, lá para as bandas da Maria da Fonte - alguns, uma caquinha ao pé dos de hoje, climatéricos. Cabeças rachadas, luxações, entorses - avonde. Cargas policiais em reivindicativos exaltados (fascismo, nunca mais) - qb. Assassinatos políticos - a direita encarregou-se. Cercos ao Parlamento, ao Palácio de Belém, ao Palácio de Cristal, ao jornal República do dinheiro da social-democracia alemã - um dó li tá. Mas quem viu têvê, ouviu gralhas radiofónicas ou leu os jornais de então (como pode ler agora os apanhados retrospectivos) é de pôr os cabelos em pé, ai jesus santa maria santíssima: rios de sangue nas calçadas, turbas a incendiar igrejas e a violar as servas e servos do senhor, homens de leis e proprietários varados à metralhadora, campónios a esventrar agrários honestos, generais a deixar crescer patilhas, pobrezinhos a salvaguardar pratas da família no aeroporto da Portela aguardando exílios em goulagues distantes, mulherame de mau porte a exibir descaros mamários, pilhagens, assaltos à mão armada, fuzilamentos, criancinhas espavoridas, ó mãe, ó maãe. Como na Revolução Francesa, que também «caiu na rua», o Terror alastrou de norte a sul, cabecinhas ao cesto. Traduza-se: torrentes da primavera, inflamações retóricas, zaragatas inflacionadas pela rapaziada merdiática à espera de melhores empregos, de mais lustrosas escravaturas voluntárias. Excessiva quando muito só a esperança de alguns ostensivos relapsos ao oportunismo furta-cores num Portugal-outro, numa terra de gente até que enfim à altura de ser livre e solidária. Apesar do som e da fúria, o impulso disparado nas várias frentes do «processo revolucionário» não passou de assim assim. A mim não se me dava que tivesse havido mais. E por muita verborreia que me fure os tímpanos sobre o advento de uma outra ditadura, dita «social-fascista», acontece que não sou daqueles que engravidam de orelha. Capítulo ditaduras, que dizer do império do betão, da praga do automóvel, da parafernália de tralhas «indispensáveis» (incluindo as «culturais»), da futebulite epidémica, da anestesia geral televisiva, da espionagem vigilante para minha «segurança», do medo instalado nos locais de trabalho, do massacre publicitário do «admirável mundo novo» virtual e da partidocracia metastizante que reduz o Estado a uma tribo de empregados de escritório ao serviço da «Economia»? Que dizer, afinal, da ditadura sem rosto visível que nos enleia com «liberdades», «cidadanias», «desenvolvimentos», «modernidades», «desafios», mas que a todos toma por gado imbecilizado? Domesticada embora, ou se quisermos silenciada pela incontinência verbal virada para o interior do vazio, a indignação hiberna sob um céu de chumbo.
*
Após a rectificação do 25 de Novembro, que varreu a tripa para o caixote do lixo dos quartéis e arrecadou na prateleira (ou na prisão) os mais atrevidos dela, e os retornados dos Brasis às suas posses, e os pides às pensões por bons serviços, e os trabalhadores aos sindicatos ordeiros, e as elites aos conselhos de gestão, e os pintores às fundações, e os escritores ao prémio (para consolação), e o socialismo à gaveta, retornou tudo aos eixos e navegou-se que navegar é preciso rumo à «pacificação da família portuguesa» que tão abalada fôra pela luta-de-classes (de tanto hematoma esgotara-se o hirudoid) e à Estabilidade, inevitavelmente democrática. Já foi esta melhorzinha, parece, não havia tanto aperto, pagara-se ao FMI e ao Banco Mundial, nossos mecenas, umas tantas barras de ouro (vão-se os anéis...), a gasolina pingava mais em conta, de maneira que a malta, em transição de remediada a upa! classe média, ia ao amendoim e à imperial, a águas na Costa ou às couves nas berças, ao empréstimo pechincha para a casinha e para idem. Os dois dias desta vida a decorrem pacatos, fofos, com polícias nas ruas e nos espíritos. Como não há bem que sempre dure, chegou entretanto a hora do choque petrolífero (malditos árabes) e dos ataques à má-fila da China e da Índia (hão-de pagá-las) à cristiana economia ocidental. De supetão, a CRISE. E a doer: estatísticas de matar um morto (3,4 doentes per capita! 7,8 de subsidiodependentes!, -14% de exportação de tremoços!), dirigentes de cariz severo e investidores polidos lacados com arengas de apocalipse, comunicação sucial aflitíssima com os azares do patronato, fogo no porta-aviões da segurança social pública (a privada recomenda-se e a caridade faz o resto), submarino do desemprego a pique, três tiros no cruzador da República, dois no da Democracia, um míssil terra-ar no Estado de Direito, uma bomba de hidrogénio nos Valores Pátrios. Ó da guarda!
As máquinas reprodutoras ideológicas da velha e da nova oligarquias (que não têm ideologia - vade retro! -, foi esta para o penico da pós-modernidade) não nos dão repouso, martelam-nos dia e noite a nossa culpa: gastamos demais. É que graças aos generosos donativos da Multinacional sediada em Bruxelas (que em troca só pulveriza o que resta do tecido produtivo) importamos tudo ou quase tudo do que realmente necessitamos ou do que nos impelem a necessitar - dos clips ao papel higiénico, dos neo-escravos negros e eslavos aos preservativos, sem contar com as couves galegas, os maltes escoceses, os telemóveis, os futebolistas, o café solúvel, os sistemas de gestão ( ou as 100 maneiras de cozinhar despedimentos), os bailados da Pina Bausch e os projectos do Gehry, os computadores, os óculos de sol, o peixe congelado, os piercings e as tatuagens, os buracos do golfe, que sei eu?, os próprios buracos do Orçamento, que chegam de longe como a fama do Porto Sandeman.
Acresce que, latinos, somos atavicamente calaceiros, isto é, fazemos tudo para não fazer nenhum. Competitividades, produtividades, rentabilidades, sustentabilidades, é isso léxico (algo minimal-repetitivo, convenhamos) dos nossos senhores formatados nas Saxónias, que bem precisam recorrer a tais mezinhas se querem o bólide metalizado da praxe anual. Acresce ainda que estamos todos muito mal habituados aos privilégios das «conquistas de Abril» e à fartura que nos chegou dos cofres de Bruxelas. A choldra não tem juízo e o corpo (do Estado) é que paga, que é como quem diz, o Estado é que assume, corda ao pescoço, o ónus da dívida. Ora o Estado - vem nos livros - somos todos nós, logo, também cá o rapaz deve aos accionistas de Bruxelas uma pancadaria de massa: quem é que me mandou reciclar o Mercedes em B.M.W. e passar férias em Honolulu, quem é que me mandou vender a minha rica empresa aos espanhós, quem é que me mandou fazer mão-baixa aos cofres do Tesouro para depois perorar que ele está falido e concluir ipso facto que só o meu músculo liberal (o bom coração, ainda e sempre) é salvador? Assim, está visto, naufragam os Valores: do Legado Histórico (as Brumas da Memória), da Cidadania, do Civismo, da Qualidade de Vida. E até a Língua Portuguesa, the last stronghold os Portuguese Identity, está entregue a bichos como eu e o Lobo Antunes que a continuar na mesma ainda é castigado com o Nobel que ele tanto persegue, coitado.
Ah!, meus amigos (continuas aí?), a Pátria submerge num mar que já nem é nosso (chora agora lágrimas comunitárias), a juventude cafrealiza-se na maior, os velhos do Restelo recolhem às Galinheiras, o Abrunhosa deixou de talvez foder e mostra o rosto sedutor a impingir empréstimos bancários, o Mourinho vira Marca Registada, o Balsemão travestiza-se em Lili Caneças, esta em Freitas do Amaral, este em Inês Pedrosa, esta em Almirante Reis (com bigode), este em Agustina Bessa Luís, esta em Chouriço de Sangue, este em Padeira de Aljubarrota, esta em Eduardo Prado Coelho, este em Bolacha Au Beurre, esta em Cavaco Silva, este em Gomes de Sá (com 2 azeitonas), este em Custódia de Belém, esta em Mário Soares, este em Zita Seabra, esta em Maria Albertina (com sua filha Vanessa), esta em Vasco Pulido Valente, este em D. Maria II, esta em Olívia Palito e eu próprio em maoísta arrependido antes do parto (sem dor) para Estrasburgo. A promiscuidade. O pântano.
O HORROR.
Face a isto, e ao muito mais que nos espapaça as células grises e nos leva de charola aos libriuns dos psis, q'é dos excessos de Abril, q'é deles, tão líricos, tão festivos, tão assim assim? Que é da turba-multa tão emp(r)enhada em «mudar o Mundo» e agora empenhada à banca e ao fisco?
- Uma saudade de pedra.
Mas coragem Portugueses!: assim como assim podemos sempre desenrascar-nos com a economia pirata - não é só o ladrão de Bagdad a ter direito. Pirata ou «paralela», como também é alcunhada, só no infinito encontrará a outra, a «legal» - di-lo a geometria.
O inferno é os outros. «Senhores Passageiros, cuidado com as carteiras» - estação Senhor Roubado.
Vítor Silva Tavares, in PREC - Põe, Rapa, Empurra, Cai, propriedade Abril em Maio, número zero, Novembro de 2005.
O MEU PRIMEIRO & ETC
A questão deve ser colocada nos seguintes termos: um amador
de livros jamais poderá ignorar o trabalho realizado por um projecto editorial como o & etc. Pequeno, mas influente. Em diversas perspectivas. Influente
porque deu a conhecer o desconhecido, ora traduzindo textos e autores ignorados
pelos educadores das massas, ora projectando novos autores do seu próprio país.
A determinada altura, para as hostes algo neuróticas da poesia portuguesa,
publicar no & etc foi um atestado de competência. Muitos o desejaram,
alguns o conseguiram, outros fizeram-se à vida por caminhos e atalhos
alternativos à alternativa. Confesso que um dia me passou pela cabeça fazer
chegar às mãos do editor aquele original, o livro que podia levar o selo. Confesso
que me passou pela cabeça, felizmente como um relâmpago passa pela paisagem. O
não seria demasiado doloroso, catastrófico, pelo que me precavi de tais
horrores metendo a intenção na gaveta. Isto vinha de um culto que começou a ser
alimentado com um livro adquirido na extinta Assírio & Alvim da Rua Miguel
Contreiras (Cinemas King). Foi-se o cinema, foi-se a livraria, ficaram os
livros. Em Plena Noite ou o Bluff Surrealista, de Antonin Artaud, mais uma vez
traduzido e prologado por Paulo da Costa Domingos. Capa e cortinas de Carlos
Ferreiro. A data de edição é de Novembro de 1988, mas devo tê-lo adquirido quando
comecei a frequentar as salas dos cinemas entretanto desaparecidos. Lá pelos 90
e tais. Em Plena Noite ou o Bluff Surrealista, 2 Cartas Sobre o Ópio, O Suicídio
e Eu Tratei Antonin Artaud pelo Dr. Gaston Ferdière introduziram-me no universo
& etc e marcaram-me para a vida. Poderia eu ter escrito Suicidas sem antes
ter lido as palavras de Artaud?: «A matar-me não será no intuito de
destruir-me, mas sim para me reconstituir, o suicídio será para mim unicamente
um meio de me reconquistar pela violência, de fazer uma irrupção à bruta no meu
ser, de ganhar a pouco segura vantagem de Deus» (p. 37). Talvez, mas seria tudo
diferente. Depois deste, seguiram-se outros. Muitos. E foi sempre um prazer
escrever sobre eles, neste ou noutros espaços de partilha. Deixo links para
alguns desses textos, focados em livros tais como Imitação de Ovídio, de Alberto Pimenta, Negrume,O Ano da Morte de José Saramago e Açougue, de Amadeu Baptista, A Neo-Penélope, de Ana Hatherly, Marias Pardas, de António Ferra, Learicks, de Edward Lear, Vida Extenuada, de Fátima Maldonado, Fialho Negro, de Fialho d'Almeida, Boca do Inferno, de Gregório de Matos, Logros Consentidos e A Disfunção Lírica, de Inês Lourenço, Blues Para Uma Puta Velha, de Jorge Fallorca, Sr. Porco, de Jorge Roque e Guilherme Faria, Obsessão, de José António Almeida, Diário Íntimo, de Luís Amaro, Alçapão, de Manuel Cintra, Curso Intensivo de Jardinagem e Sorte de Principiante e, de Margarida Ferra, À Barbárie seguem-se os Estendais, de Miguel Cardoso, Cancioneiro da Trafaria e Cova Funda, de Nunes da Rocha, Londres e K3, de Nuno Dempster, A Escrita e Averbamento, de Paulo da Costa Domingos, Linhas de Hartmann, de Paulo Tavares, A Máscara da Anarquia, de Percy B. Shelley, Vigaristas, Ladrões e Assassinos, de Raymond Hesse, Zaroff, de Richard Connell, Manifesto da Mulher Futurista, de Valentine de Saint-Point, Bagagem de Mão, de Vítor Nogueira, A Beleza da Vida, de William Morris, 20 Poemas a Anton Webern, de Zé Luís Costa. Outros se seguirão.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
UM POEMA DE AMADEU BAPTISTA
PENA AGRAVADA
(para Vítor Silva Tavares)
Estou a cumprir pena perpétua.
Na infância, uns filhos da puta rodearam-me
com triângulos escalenos e não pude
fazer mais que emocionar-me. Nesse tempo,
a minha ocupação eram as luzes coloridas e um rio
em que as barcas abrangentes conduziam as almas
para o inferno, sem que dessa escuridão se suspeitasse.
Nos anos cinquenta a miséria absoluta confrontava-se
com um menino inocente, que o alarido dos vizinhos
amedrontava, sendo que alguns deles sangravam dos ouvidos
e dormiam ao relento sob as árvores, e bebiam
até que pelas veias corresse apenas álcool. Com cuidado,
olhava-os nos olhos, a fazer do silêncio um primeiro
recorte obsessivo de palavras, películas vermelhas
que invadiam a nítida frescura do meu pátio.
Estava ali e queria persistir, talvez porque pensasse
que há lugares ilesos um pouco para além
dos gemidos da noite e do chicote
com que a turbulência arrasa certas vidas
que não podem mais que o pão quotidiano,
sobretudo se o desamparo é não o ter.
Agir, por essa altura, era crescer, embora o crescimento
seja uma fortuna inverosímil, que se pega
ao corpo a assinalar o teor que há na dor
de modo mais profundo e explícito, em que a morte
é como um sinal de perigo, mas não exactamente
uma ameaça. Fazia sete anos e era pastor aquando
do passamento da mulher amada, a quem chamei avó
e sei que é um álamo verde nestas margens
em que me reduzo a pó nesta memória
de a lembrar agora a inscrever nas praças do seu tempo
um menino escandaloso de passar por elas
com os cabelos soltos e a anca em fogo.
Compôs-se então de treva a claridade e aprendi a ler.
Foi-me tormento a escola e o terror
de ter por mestres gente que batia nas crianças
e andava curvada sobre o tempo
que se estendia cinzento sobre os dias,
sem qualquer alegria que a tristeza anódina
dos que perderam para sempre a macieira
mágica. Cheguei a presumir que nos temiam,
sendo as nossas certezas tão escassas
mas tão vociferantes essas figuras
que nos faziam crer que compensava o crime
de nos manterem reféns no estrado,
completamente prontos para a impunidade
de uma régua mortífera nos nós dos nossos dedos.
Mijávamo-nos de pavor pela violência inumerável
da aprendizagem, onde o fulgor coalhava
com notícias do céu tão abstractas
como o facto de sermos navegantes
há tanto tempo que não o lembrávamos.
Até que um dia, já adolescente,
descobri o poder da poesia que, a par com o mar,
aprendi a fitar com imprudência, por serem
revoltosas essas águas em que o dia
e a noite se confundem. Era essa imprudência
o desassombro de ouvir o longínquo e o genesíaco,
com homens e mulheres a recortar-se
da imensidão dos tempos, a cantar a dolência
e o sublime, a invectivar o mistério e a ampliar
o enigma que há entre os enigmas, ou o surto
de sentidos que, num sopro, agrega ao infinito
o infinito, para que haja mais infinito no sentido.
No meu país, então, grassava a guerra
e para os da minha idade só havia
essa promessa como compromisso,
que abarcava a morte pela extorsão
e a posse da terra, e a escravatura
de outros homens em tudo iguais a nós.
Longos anos durou essa aflição, até que um dia
o mais cruel dos meses comportou
a amenidade esperada, dando à paz
um fugaz clarão de expectativa.
Por essa estrada ia a descobrir os gregos
e não tardei a ver com que punhais
trabalhava a insídia e aos abutres
se não devem confiar os braços levantados
para a prece comum. Os pobres
estão mais pobres do que nunca e despojado
o mundo pelos roubos que, entre acerto e desacerto,
cada um de nós vai consentindo, por cobardia,
fraqueza, ignomínia. Ainda assim eu quis resistir.
E li mais gregos, e instintivamente olhei o mar.
E fui, contra a corrente, nessa corrente
de vozes subterrâneas e ventanias densas
que me tornaram órfão de tudo quanto amei
e perplexo amante de um recontro tenso
com o poema oculto no poema
em que, mais do que o amor, surpreendi a morte
com que, fora de mim, por dentro me revejo,
agora que, ungido pelo vazio, só mesmo a poesia
sobrevem. Triângulos escalenos trouxeram-me a este cais
e, tal como na infância, uns filhos da puta me rodeiam.
Não posso fazer mais que emocionar-me.
Amadeu Baptista, in Antecedentes Criminais - Antologia Pessoal 1982-2007, Quasi Edições, Abril de 2007, pp. 9-11.
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