quarta-feira, 16 de setembro de 2015

SÓ VOS FALTAM AS VIRTUDES


No início do século XX, os alemães começaram a referir-se aos judeus como a origem de todos os males. Eram uma praga que devia ser exterminada, a bem da saúde ariana. O resto é história, campos de concentração, extermínio, êxodo, holocausto. Em Portugal, na década de 1960, os africanos que lutavam pela libertação dos seus países, países que nós colonizávamos, eram por cá chamados de terroristas. O meu pai foi para a Guerra a pensar que ia combater terroristas. Na década de 1990, o mundo espantava-se impávida e serenamente com o genocídio ruandês. Hutus contra tutsis faziam esquecer o que ainda há pouco se passara em Sarajevo durante a Guerra da Bósnia. O século XXI foi inaugurado com os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001. O inimaginável acontecia. Seguiu-se a Cruzada contra o Terror, primeiro com a invasão do Afeganistão, posteriormente com a Invasão do Iraque, alimentando extremismos, inflamando ódios.
Em 2015, há muita gente a falar como falavam os nazis, outros fazem-nos pensar que não aprenderam absolutamente nada com a sua própria história, ouvem-se discursos em alguns portugueses que parecem saídos da boca de um hútu fanático. Todos estes conflitos nos explicam e provam que a segregação nada resolve, que quanto mais marginalizamos, isolamos, abandonamos, pior estamos a fazer à doença. O mundo nunca foi um paraíso, a história é feita de conflitos. Mas há males maiores que podem ser evitados. Apesar de tudo, temos evoluído qualquer coisa. Mas sempre que evoluímos foi na base de uma atitude solidária, impelidos por um esforço de compreensão do Outro e por uma natural vontade de integrar.  
Seja pelo famigerado gene egoísta, seja por frustração, seja por ignorância, o medo do Outro surge sempre como o principal motor da xenofobia. Um medo de ser absorvido pelo diferente, pelo Outro, o desconhecido, que raramente se manifesta quando o Outro é um entre os nossos. Daí que não observemos grande preocupação dos portugueses relativamente aos seus governantes, aqueles que mais nos têm aterrorizado com medidas próprias de um certo universo terrorista fiscal. Os grandes ladrões da nossa comunidade jamais nos preocuparão tanto como os desgraçados das comunidades desconhecidas. Estes podem chegar com paus secos, os outros podem ter armas poderosíssimas; nós, os amedrontados, sentiremos sempre mais medo dos que têm os paus. Porquê? Porque nos querem dominar, porque querem invadir um espaço que temos como nosso e impor-nos as suas regras.
Não deixa de ser irónica esta lógica no ano em que por todo o lado se celebra a tomada de Ceuta pelos heróicos navegadores portugueses. Mas há um lado infantil, muito infantil, neste medo. Ele é quase compreensível e até aceitável, de tão infantil que se nos apresenta. No universo comercial, uma das formas mais eficazes de ludibriar o consumidor é indo ao seu encontro reproduzindo-o, ou seja, seduzindo-o pelo reflexo, como Narciso espelhado nas águas, fazendo do anúncio, do cartaz, do slogan, uma espécie de espelho que colonize o alvo. Na propaganda política faz-se exactamente o mesmo. A discussão sobre os cartazes que ocupou os portugueses durante este Verão chega a ser sintomática de uma doença patética, como se, subitamente, a criança ficasse muito feliz por descobrir que era criança. Ao saber que os rostos daqueles cartazes eram o que sempre foram, imagens tipo meramente ilustrativas, o povo acordou por instantes para a sua própria realidade e sentiu-se feliz, sábio, conhecedor.
Mas e se em vez do reformado limpo, de cabelos brancos e pele clara, alguém se atrevesse a colocar uma imagem real? Por exemplo, a de um homem desdentado, indigente e imundo, a viver debaixo de uma ponte? Desconfio que a simpatia da generalidade dos portugueses, que se tomam por brancos de pele clara, não seria a mesma. Mas um dia, talvez não muito distante, os portugueses vão realmente acordar. Vão olhar-se ao espelho e vão verificar, com espanto, que, na realidade, não são brancos de pele clara. São o resultado de uma mixórdia de etnias onde, espantem-se, os árabes deixaram um legado impressionante e impagável. Daí que, ao serem xenófobos, os portugueses dão razão a tipos como Byron, para quem nós éramos uma raça servil que nem merecia ter o paraíso de Sintra. Ao serem xenófobos, os portugueses colocam-se, talvez sem se aperceberem, no lugar do objecto ao qual direccionam os seus ódios. Odeiam-se a si próprios. Está explicado o fado.

3 comentários:

Inév Vie disse...

Ah! ah! ah!, levanto-me da cadeira e digo em voz alta, foda-se! foda-se! foda-se! obrigado.

e eu que vim aqui, como venho faz meses, todos os dias, só aqui, não leio mais nada, não tenho pachorra! e eu que vim aqui com vontade de partilhar, e assim sendo cá vai,

uma gaja alemã disse-me que adorou a sua primeira visita a Portugal, e o que mais gostou foi das pessoas.
Como é possível, pensei, esse tormento diário que me persegue, essa dor, esse desconsolo. Como em quase tudo, nos outros países é ainda pior! concluí.

forte abraço, Inév

hmbf disse...

Grato pelo comentário.

Claudia Sousa Dias disse...

vou partilhar, Henrique.