quarta-feira, 23 de setembro de 2015

UM POUCO ACIMA DA MISÉRIA

Com seis livros publicados na & etc nos últimos dez anos, Amadeu Baptista é um dos autores mais representados no catálogo da editora de Vítor Silva Tavares. Recordemos os títulos: Negrume (Março de 2006), Os Selos da Lituânia (Janeiro de 2009), Escalpe (Outubro de 2009), O Ano da Morte de José Saramago (Setembro de 2010), Açougue (Junho de 2012) e Um Pouco Acima da Miséria (Agosto de 2014). Julgo ser possível falar de um tom comum a todos eles, sem que tal referência pressuponha qualquer tipo de exclusão da restante obra (a qual é vastíssima e diversa). Mas entre Negrume e Um Pouco Acima da Miséria há em todos estes livros uma atitude declarativa que não se limita a testemunhar um tempo, avançando para uma interpelação desse mesmo tempo com gestos de acusação e de denúncia. Isso sucede, inclusivamente, quando o poeta envereda por percursos mais autobiográficos (Os Selos da Lituânia e Açougue) ou mesmo quando solta o discurso na direcção de um longo poema erótico (Escalpe). Ora na primeira pessoa, ora convocando personagens históricas diversas, Amadeu Baptista pratica uma poesia tumultuosa que se revolta contra as injustiças e a desumanização do mundo. O tal mundo pós-histórico e pós-humano precipitadamente anunciado por Francis Fukuyama revê-se nos poemas de Um Pouco Acima da Miséria a partir de retratos que encenam cartas, falas, declarações, sonhos, apontamentos, murmúrios, memórias, considerações, esboços de personalidades históricas estigmatizadas pela tragédia. O suicídio é uma temática recorrente, acompanhada de linchamentos, exílios, expatriações, torturas, execuções, que trazem para cima do palco a memória das atrocidades e das misérias cometidas durante o século XX e que o século corrente, por ser fraca a memória, parece apostado em repetir. Ao olhar para trás, o autor questiona-se acerca da dignidade do poeta e interroga-se sobre o lugar da poesia num mundo configurado por uma aparente ausência de beleza . O desassossego é uma constante que atravessa os poemas, geralmente longos e de pendor narrativo, perspectivando a existência de um modo trágico, referindo-se, desde logo, a esse «terrível inferno que é viver» (p. 11). No entanto, pressupomos entre os escombros de torpor e de tristeza um fogacho de esperança. A dedicatória à memória de Aristides de Sousa Mendes insinua uma tomada de posição ética que os poemas problematizam. A prática do bem não absolveu Aristides de um destino miserável, embora aceitemos que em si mesmo o bem é uma recompensa. Ao questionar o sentido da morte em vez do sentido da vida, como Amadeu Baptista faz no poema que evoca Emílio Salgari, as pedras recolocam-se no tabuleiro, ou seja, já não estamos no plano da vida enquanto aprendizagem da morte, mas no plano da morte enquanto aprendizagem da vida: «E há-de ser a vida esta cegueira ímpar, a de irmos cegando / para vermos melhor, a confirmar no corpo a extenuação / e abrindo com ele um trilho para o espírito, este fogo, esta estirpe, / este furor» (p. 18). O mais longo dos poemas do conjunto, dedicado a Vítor Silva Tavares, retoma esta mesma questão para reforçar, então, o lugar do poeta como estando «um pouco acima da miséria» que é a vida na sua genérica aparência. Nâzim Hikmet, em Frente, de Novo, ao Monte Uludag diz: «Agarro-me ao concreto, estou a nascer, / os meus ossos estão, ainda, em formação, / quando tiver dentes porventura alguém mos partirá, / esta viagem é extravagante, não se sabe / o que decide a sorte de um poeta, serei um cão, uma raposa, uma cegonha, / nunca se sabe o que será um poeta quando alguma coisa falta ao mundo, / e, entretanto, passam uns anos na minha juventude e morre-se» (p. 76). Se compararmos estes versos com outros de livros tais como Negrume ou Açougue, entenderemos o processo de identificação processado na confusão de vozes encenada no livro de Agosto de 2014. Sendo Nâzim Hikmet quem fala, não deixa de ser Amadeu Baptista quem ainda respira. E nos seus poemas acompanha as “personagens” neles renascidas como a máscara acompanha o actor. Não sei até que ponto será correcto considerar este livro um livro da desesperança. A mim parece-me mais um livro de expiações, consciente de que à poesia cabe mais transportar os males do mundo do que disfarçá-los com rendilhados inverosímeis.  

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