sábado, 31 de outubro de 2015

FIRECREEK (1967)



Com um percurso invejável no território das séries televisivas, o realizador Vincent McEveety (n. 1929) nunca logrou um lugar ao sol nas salas de cinema. Firecreek/Hora da Fúria (1967) foi a sua primeira longa-metragem, filme repleto de citações (High Noon à cabeça) com um elenco incapaz de relegar para segundo plano uma obra perdida algures num tempo em que o western resistia, enquanto género, apoiado nas encenações da violência de Sam Peckinpah e nas óperas visuais de Sergio Leone. McEveety desviou-se do seu tempo optando por um tom eminentemente trágico, à maneira dos clássicos alicerçados em conflitos morais e paradoxos axiológicos. Para o efeito rodeou-se de actores que, quer num primeiro plano (James Stewart e Henry Fonda), quer num segundo plano (Dean Jagger e Jack Elam), carregavam sobre os ombros um legado perfeitamente identificável no domínio das recriações do Velho Oeste. Henry Fonda surge, tal como em Once Upon a Time in the West (1968), num raríssimo papel de vilão. É o líder de uma quadrilha em fuga que pára na pacífica cidade de Firecreek para se recompor de uma ferida aberta. Firecreek, palavra que podíamos traduzir como “vale do fogo”, é uma cidade parada no tempo, calma, demasiado calma, onde tudo está arrumado no seu devido lugar, habitada por gente acomodada à perspectiva de um lugar seguro, um refúgio onde ninguém tenho pelo que lutar nem pelo que competir. O xerife da cidade é um humilde agricultor, nomeado interinamente e sem vocação que não seja a sua honestidade, a sua normalidade, a sua postura pacificadora. Usa escondida na lapela uma estrela de lata, recortada pelos filhos, onde se lê a palavra Sheraf. 


O plano da estrela é especialmente simbólico do clima social contrafeito que a quadrilha do pistoleiro Larkin se encarregará de humilhar, uma sociedade erigida sobre estacas rudimentares, de costas voltadas para o futuro, aparentemente satisfeita com a razoabilidade inquestionável das horas previsíveis e das expectativas tão baixas que impossíveis de gorar. O grupo liderado por Larkin será o elemento perturbador no centro da geometria social. McEveety filma as suas personagens pelas costas, oferece-nos ângulos de visão impensáveis, espreita pelas brechas frustrações recalcadas no fundo das acções. Que pretende mostrar-nos ao filmar a jovem fogosa Leah (Brooke Bundy) a contemplar-se a um espelho que são os nossos olhos? Talvez o desejo e a paixão castrados pela presença de uma mãe remoída, que não sabemos se solteira, se viúva, se abandonada, mas que sabemos de mal com os homens. Há uma personagem secundária em Firecreek que sintetiza bem o ambiente do lugar. O senhor Hall é típico, anda de uma lado para o outro a atormentar o pobre agricultor indigitado para protector da cidade com questões sobre os forasteiros, com sugestões sobre o que deve e não está a ser feito, delegando nos outros, constantemente, a responsabilidade por acções que ninguém ousa praticar. É o tipo de pessoa que em vez de agir espera que os outros actuem por ele. E há o ex-advogado ali sediado, dono de uma retrosaria, a observar impavidamente o medo de todos e a questionar-se sobre a sua vinda para aquele lugar. O que ele deixou para trás foi o desconforto da luta, trocando-o por uma vida em que, ao não ter que lutar por nada, só será perdedor por não ter de agir. São todos bem sucedidos na inacção, são todos perdedores (loosers, frouxos) quando toca a dar um passo em frente, quando toca a decidir. Eis os conflitos íntimos que levarão Johnny Cobb (James Stewart) a agir, depois de ouvir a sua mulher, prestes a dar à luz, falar-lhe do passado e dos sonhos que ficaram por realizar. As suas dúvidas espoletarão a raiva que se esconde por debaixo da frustração: «Por que não continuámos? Por que nos contentámos com menos do que queríamos?» Podemos ver aqui tanto um elogio da ambição como uma censura do contentamento. Um contentamento que apodrece a paixão e usurpa sentido à vida. Daí que entre Larkin (o pistoleiro interpretado por Fonda) e Cobb (o agricultor interpretado por Stewart) não exista grande diferença, são ambos, à sua maneira, desonestos. Um para com os outros, o outro para consigo próprio. A fotografia de William H. Clothier (trabalhou com Ford em O Homem que Matou Liberty Valance) e a música de Alfred Newman são mais dois argumentos técnicos para não deixar cair no esquecimento a estreia de Vincent McEveety. 

UM HINO DE NOVALIS

SAUDADES DA MORTE

Desçamos ao reino terrestre,
Deixemos império de Luz.
Sinal de partirmos alegres
Das mágoas são golpes e fúria.
Varemos estreito batel,
Veloz, nas margens do Céu.

Louvados noite e o sono,
Eternos e sempre louvados.
O dia deu-nos calor,
Secura dão-nos cuidados.
Errantes seremos não mais,
Buscamos a casa do Pai.

No mundo, então, que faremos
Com tanto amor, tão fiéis?
Se põem de lado o velho,
O novo o que nos reserva?
Mas que só, desconsolado,
O devoto do passado!

Do tempo em que altas brilhavam
As chamas da luz dos sentidos,
As mãos do bom Pai e o Rosto
Do homem eram conhecidos.
Ainda à sua imagem feitos,
Tantos espíritos eleitos.

Do tempo em que ainda floriam
Antigas estirpes magníficas,
O reino do Céu pretendiam
Crianças pelo martírio.
Mil corações d'amor rasgados,
Outros só a prazeres dados.

Do tempo em que jovem e ardente
A Si mesmo Deus se mostrou.
À morte tão cedo consente
Dar vida tão doce de amor.
Penas nem medos afasta
Porque ser fiel lhe basta.

Mas vê temerosa saudade
Estarem na noite encobertos.
Jamais a transitoriedade
Acalma sede que aperta.
Nós vamos voltar à pátria,
Ver esse tempo sagrado.

Já tarda nosso regresso,
Repousam há muito os Amados!
O túmulo a vida nos fecha,
Agora são dores e os medos
Nada quer o coração
Tão farto em mundo tão vão.

Secreto, infindavelmente, 
Um manso arrepio perpassa.
Parecendo-nos que se sente
Funéreo eco de mágoas.
O hálito da saudade
Vem daqueles que amámos.

Descer até à doce Noiva,
Até Jesus — nosso Amado.
A paz de quem ama e sofre
É sol poente iluminado.
Um sonho desprende laços,
O Pai nos cinge nos braços!


Novalis (Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg) (n. Wiederstedt, Alemanha, 2 de Maio de 1772 - m. Weißenfels, Alemanha, 25 de Março de 1801), in Os Hinos à Noite, tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, edição bilingue, colecção Gato Maltês, n.º 20, Assírio & Alvim, Setembro de 1988, pp. 55-59.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

AQUÁRIO

Depois de A Ilha de Sukkwan (Edições Ahab, Junho de 2011) e de A Ilha de Caribou (idem, Abril de 2012), David Vann (n. 1966) regressa às livrarias portuguesas com Aquário (Relógio D’Água, Outubro de 2015). De lamentar a tradução, de José Lima, seguindo o novo Acordo Ortográfico, não porque seja má, mas por se tornar risível, a espaços, por culpa de um acordo criminoso. A diferença entre pára e para é só uma das tragédias mais gritantes, tornando por vezes a leitura deveras desconfortável. Para leitores que dominem o inglês, fique a nota: preferível será, creio, apostar na versão original. Os restantes, façam o esforço (se for caso disso). O livro de Vann bem o merece, como tinha ficado patente nas obras anteriores. Tanto a palavra ilha como a palavra aquário remetem para uma noção de isolamento, não sendo alheia a ambas, de igual modo, um certo sentimento protector. Mais no caso da palavra aquário do que na palavra ilha, é certo. Ainda assim, esta protecção advém do isolamento, ou seja, de certo distanciamento dos elementos agressores. Mas não é bem assim. Os dramas familiares encenados por David Vann nos seus romances encarregam-se de nos provar o contrário. O que haveria de insular e de protector na família, transforma-se, por via dos desencontros, dos desentendimentos, dos traumas, dos segredos, dos recalcamentos, das amarguras caladas, num palco aterrador de verdades eruptivas. As ilhas de David Vann não são locais idílicos para os quais levaríamos os objectos da nossa predilecção, são condições existenciais dentro das quais se forma a nossa personalidade. De modo similar, o aquário em Seattle que a jovem Caitlin visita diariamente não é apenas e tão-somente um reservatório de espécies protegidas. É, por outro lado, o microcosmo a partir do qual a existência pode ser entendida por comparação com as características das espécies ali preservadas. Como se toda a nossa vida fosse também uma luta pela preservação do que consideramos merecer tal esforço. A personagem central de Aquário é uma jovem de doze anos prestes a entrar na vida adulta pela via sempre dolorosa da verdade, uma via da qual os homens fogem por nela ser terrível confrontarem-se com as suas debilidades e contradições. Sobretudo com os seus medos, encarnados aqui na figura de um avô ausente que pretende reabilitar-se enquanto homem de família, através da neta, após dezanove anos de abandono. Remorso, raiva, ódio, rancor e amargura, misturam-se no coração da mãe de Caitlin, mãe solteira, estivadora, a fazer pela vida num meio inóspito e agressivo. Quem pode julgar quem neste aquário, onde cada espécie se afirma pelas suas características únicas e singulares, onde cada espécie parece em contradição com o mundo ao mesmo tempo que o define? O dispositivo encontrado por David Vann é magnífico, ele coloca-se e coloca-nos perante as suas personagens como a jovem Caitlin perante os peixes: «O problema com o aquário era que não podíamos ir para o pé deles» (p. 13). Em termos narrativos acaba por não haver problema algum, este distanciamento permite ao autor não transformar as emoções e os afectos num espectáculo degradante de sentimentalidade gratuita, mesmo quando coloca na boca da mãe de Caitlin a essência da realidade: «Bem-vinda ao mundo dos adultos, não tarda muito. Eu trabalho para poder trabalhar mais. Procuro não desejar nada para talvez conseguir alguma coisa. Passo fome para poder ser menos e mais. Tento ser livre para poder estar só. E nada disso faz sentido» (p. 25). O anúncio é desesperante, coloca no leitor as expectativas que desfazem a personagem. “Não tarda muito”, tanto nós como Caitlin ficaremos a saber, de facto, onde estão as brechas do refúgio, por que fenda entram os monstros que nos aguçam medos e temores. Seria contraproducente fazer aqui revelações sobre uma história que tem tanto para contar, mas não é displicente assinalar, mais uma vez, a importância dos contrastes na escrita de David Vann, sobretudo quando usa a dimensão mais agreste da natureza para sublevar os comportamentos humanos. Entre o homem e a floresta já não há apenas uma natural relação de continuidade, é como se o homem tivesse sido amputado dessa sua condição selvagem e, por consequência, se tivesse transformado num peixinho de aquário em busca de uma saída para o vasto Oceano. Esse mesmo Oceano onde a maior revelação é a descoberta de um «caminho para o perdão» (p. 219), o perdão que permitirá reunir o que foi afastado pela discórdia. Aquário é um excelente romance sobre a entrada de uma jovem na vida adulta, sobre a descoberta de um caminho para o perdão.

MULHERES

Depois de dois casamentos e três uniões de facto, só lamentava uma coisa na vida: não ter nascido gay.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

VIDA PRÓPRIA


Se não estiveres aí, é
como se estivesses, digo
na mesma o que tiver para dizer:
dormem as barcas nas enseadas,
rebenta a luz nas onze horas
da noite, um livro insignificante
chama do nada, como ao acender
de um cigarro distraído, adoeces
sem saber e a televisão ladra,
de madrugada, com um filme
abrasivo. Há pelo menos um
anormal que continua a pensar
em cenários. Deixá-lo a pensar.
Descanso em saberes
que te dispenso, te convoco
para a tarefa cruel de juntar
sentidos, como numa cerimónia
calculada para anéis e grinaldas,
com limusina e inimigo, camélias
onde largo, displicente, algum
desdém. Proponho
que sigas em frente, dobres
o teu enorme passo, vás
aos cafés onde se pode fumar,
não tenho nada a ver com isso.
Calo, na mesma, o que devo
dizer: tenho metade em ti,
sou todo teu. O que é certo
é que nunca mais te livras
de ir queimar ao sol, pelo menos,
alguma sombra de que precisas.
Vida imprópria.


Manuel Fernando Gonçalves (n. 1951), in A Realidade dos Factos (2008). Revelado em meados dos anos 1980, pratica, desde a primeira hora, uma poesia que desafia o leitor «a entrar no jogo de ficções que toda a poesia acaba por ser por mais confessional que se apresente» (Fernando J. B. Martinho, in Colóquio Letras). «Esta poesia é determinada pelas condições pragmáticas do discurso, pelo facto de haver sempre um interlocutor (...). O que há é uma espécie de jogo teatral, em que a vida se move entre as sombras e os fantasmas, entre o mundo e a casa, e o jogo do mundo é para ser observado com ironia. Uma ironia que nada tem de interrogação infantil e, pelo contrário, torna manifesto o carácter niilista da reflexividade» (António Guerreiro, Expresso). 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

FIM DO FINANCIAMENTO ÀS TOURADAS

Por momentos, juro que me ocorreu a ideia de haverem dissolvido o Parlamento Europeu. Afinal é a Áustria que vai construir um muro na fronteira com a Eslovénia. Com bandarilheiros destes, quem quer saber do grupo de forcados da Moita?

UM POEMA DE WERNER ASPENSTRÖM

Depois de ter lido 73 (óptimos) poemas sobre Ícaro
desejo dizer uma palavra a favor do seu primo da província
o pequeno Granito, deixado para trás no campo.
Falo também em nome dum tufo de erva
que goza de protecção tanto da sombra como do vento.

Depois de ter lido 73 poemas sobre o voo e sobre as asas
desejo fazer o meu elogio à planta do pé,
alma voltada para baixo, à arte de permanecer
e ter peso — como o pequeno Granito
ou a sua irmã, a celibatária Menina Abeto
baça mas sempre verde.


Werner Aspenström (Norrbärke, Dalarna, 13 de Novembro de 1918 - Estocolmo, 25 de Janeiro de 1997), in 21 Poetas Suecos, antologia coordenada por Ana Hatherly e Vasco Graça Moura, trad. Ana Hatherly, Vega, s/d, p. 16.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

DÁDIVAS DE J. W. GOETHE

XÉNIAS MANSAS


Ille velut fidis arcana sodalibus olim
credebat libris, neque si male cesserat usquam
decurrens alio, neque si bene; quo fit ut omnis
votiva pateat veluti descripta tabella
vita senis.

Horácio, Sermones, II, 1 v.30 e.c.

*

Quem vive na história do mundo,
Pelo instante se há-de reger?
Só quem aspira e olha os tempos bem fundo
É digno de falar e escrever.

*

Um velho é sempre um rei Lear, amigo!
Os que contigo trabalharam e lutaram
Resolveram partir;
Os que contigo amaram e sofreram
A outro lugar foram parar;
A juventude vive para si, consigo,
E estultícia seria pedir:
Anda, envelhece comigo.

*

De homens santos e de pensamento
Nunca recusei o ensinamento.
Mas tinha de ser curta a lição,
Não me agrada a prolixa oração:
A que devemos, mais que tudo, aspirar?
A conhecer o mundo e não o desprezar.

*

«Como consegues suportar tão calmo
A arrogância da juventude instável?»
Insuportáveis seriam, de facto,
Se eu não tivesse sido também insuportável.

*

Haverá conversa sem falsidade
Mais ou menos disfarçada?
Um tal guisado de mentira e verdade
É o prato que a mim mais me agrada.

*

Onde mais contradições houver,
É por aí que mais gosto de andar;
Ninguém está disposto a conceder
— Curioso! — ao outro o direito de errar.

*

De ideários e idealismos,
Que levo quando me for?
Nunca fui escravo de Ismos,
Fui sempre o eterno amador.

*

«Tão calado e pensativo!
Tens algum problema? Qual?»
Eu estou satisfeito, amigo,
Mas assim sinto-me mal!

*

Liberdade, doce, da imprensa,
Finalmente rejubilo!
Nas feiras marcas presença
In dulci jubilo.

*

Vamos imprimir sem peias,
Tudo e todos dominar;
Mas não venha com ideias
Quem como nós não pensar.

*

Que vantagens e frutos vos oferece
A sagrada liberdade de impressão?
Um sintoma já, seguro, aparece:
O desprezo da pública opinião.

*

Vós, poetas, sois mansos
Nas alturas que convém!
Eles vão domar-vos todos —
Ao Shakespeare também!

*

Se eu conhecesse do Senhor a via,
Em verdade, de bom grado a seguia;
Se à casa da Verdade fosse dar,
Por Deus vos juro que a não ia deixar.

*

Virar do avesso é ilusório:
Alegremente viramos
A meia ao contrário,
E assim a usamos.

*

Nada é mais sensível que o passado;
Pega-lhe como em ferro incandescente:
E num instante ter-te-á provado
Que também vives num tempo escaldante.


Se os nossos olhos não fossem solares,
Nunca o Sol poderiam ver;
Se não tivéssemos de Deus os poderes,
Como nos iria o divino extasiar?

*

O que em mil livros, no papel,
Verdade ou lenda te parecer,
É uma torre de Babel
Se o amor o não quiser unir.

*

Deixai as xénias mansas em acção,
Que não se dobra o poeta, em verdade!
No Werther louco não tivestes mão,
Pois vede agora como é louca a idade.

*

Porque agrada, neste mundo moderno,
A anarquia tanto a este meu génio?
Se cada um vive como lhe apraz,
Também a mim isso jeito me faz.
Deixo que cada um faça o que quer,
Para também eu a meu gosto viver.

*

«Ela enganou-te o tempo que quis,
Agora vês que era pura ilusão.»
Conheces tu a realidade? Diz:
Foi menos minha por essa razão?

*

Vede como vou vivendo,
Aceitai-me, tal e qual;
Há quem curta o sonho dormindo,
Os meus, pu-los no papel.

*

Une-nos muito a religiosidade,
E ainda mais a incredulidade.

*

Verás como erram os homens inteligentes,
Nas coisas, claro, em que são incompetentes.

*

Ó críticos miudinhos,
Não piqueis tudo miúdo,
Que os poetas mais mesquinhos
São vossos mestres em tudo.

*

Cometem um dos velhos pecados:
Tomam o cálculo por invenção, coitados!

*

O poeta não ofende,
Lançado em seu voo, sozinho;
Se a tua ideia é diferente,
É bem largo este caminho.

*

A estatura vem-me do pai,
Mais a seriedade na vida;
O ar jovial é da mãe,
E a fantasia desmedida.
Do bisavô conquistador
Alguma coisa me ficou;
A bisavó gostava de ouro,
Eu também atreito lhe sou.
Se do todo não há jeito
De os elementos separar,
O que há então neste sujeito
Que original possa ser?

*

Como irei partilhar
A vida entre fora e dentro, 
Se a todos tudo quero dar,
Para viver sob um só tecto?
Toda a vida tenho escrito
como penso, como sinto,
e assim, meus caros, me divido,
Sou sempre um só, e não minto.

*

«Como conseguiste tu
A este ponto chegar?»
Meu filho, eu só fui sensato:
Nunca pensei no pensar.

*

Uma réstia de honra, um pouco de fama,
Como isso vos mata, como vos agrada!
Mas eu, se não fosse o que o mundo me chama,
Se não fosse Goethe, então... antes nada.

*

Estais loucos? Que quereis com esse jeito
De o velho Fausto renegar?
É um mundo, o diabo do sujeito
Que tantos contrários pôde juntar.

*

As belas mulheres, velhas e meninas,
Não foram feitas para sofrer,
E se tu, nobre herói, não o empinas,
Cá estão os tansos para as aquecer.

*

Amor e honra e outras coisas que tais —
Não te apoquentes, deixa dizer quem diz!
Uma verga às direitas, e não mais,
É quanto basta para a mulher ser feliz.

*

E que nos resta da vida
Quando tudo se desfaz,
Quando a honra está perdida
E o esforço pouco nos traz?
Mas nada abaixo te deita
Se, sempre co' a morte à bica,
Seguires, fiel, a receita:
Primeiro copos, depois crica!

*

Irão votar tanto tempo, e como sacos
Rotos palrar — voltamos aos cossacos:
Livraram-nos do tirano, é verdade,
E inda nos vão livrar da liberdade.

*

A mulher só ao marido deve dar gozo, eu sei.
Mas dessa ando à procura, e inda não encontrei.

*

Que seja o diabo má rês e coisa feia
Não me convenço, nem de boca amiga:
Pois um sujeito que toda a gente odeia
Há-de ter que se lhe diga.

*

Epitáfio
Composto por A.v.I.

Muita coisa ele viu bem, já se vê,
Mas outra coisa devia ter querido.
Foi lacaio de príncipes: porquê?
Nosso lacaio deveria ter sido.


J. W. Goethe (Frankfurt am Main, 28 de Agosto de 1749 - Weimar, 22 de Março de 1832), in Obras Escolhidas de Goethe - Poesia, selecção, tradução, prefácio e notas de João Barrento, Círculo de Leitores, Maio de 1993, 191-197.

Nota: As xénias (etimologicamente: «presentes», «dádivas»), poemas satíricos que Goethe havia já escrito de parceria com Schiller em 1797 (esta primeira série foi então publicada no número desse ano do Musenalmanach), são retomadas na última fase pelo poeta (que as vai escrevendo a partir de 1814), e apresentam-se agora sob a designação de «mansas» (na verdade, uma contradictio in adiecto), num segundo momento deste tipo de intervenção através da escrita epigramática. As xénias mansas, que Goethe escreve às centenas, foram publicadas num primeiro conjunto de seis secções entre 1820 e 1827, a que a edição de última mão acrescenta mais três grupos. Esta segunda série de xénias tem um tom menos agressivo que a primeira, diversifica as formas utilizadas (as de 1797 foram todas escritas em dísticos) como faziam as primeiras, à elite cultural da nação. A epígrafe de Horácio refere-se ao poeta satírico Gaio Lucilio (muito lido pelo Goethe velho), e diz: «Ele confiava os seus segredos pessoais aos livros como a amigos fiéis, e não procurava outro refúgio, nem nas boas nem nas más horas; por isso, toda a vida do velho se apresenta aí como se fosse pintada num quadro votivo.»

NÁUSEA

Algo de muito estranho está a suceder na Europa. Há pouco mais de um ano, as notícias eram estas: 
A Frente Nacional de Marine Le Pen venceu as eleições francesas com cerca de 26% dos votos... 
O partido de extrema-direita na Áustria (FPO) deve conseguir 20% dos votos nas eleições europeias... 
Aurora Dourada (neonazi) que alcança um resultado entre os oito e os 10% e a possibilidade de eleger dois eurodeputados... 
Já na Inglaterra a vitória sorriu aos eurocépticos do UKIP, que quer a saída da União Europeia e controlos mais apertados da imigração... 
Muitas vozes se levantaram sobre o rumo político da União Europeia, preocupações diversas se manifestaram em espaços de debate público. Vem agora o Presidente do PPE manifestar a sua enorme preocupação com a possibilidade de uma coligação à esquerda em Portugal. Extraordinárias preocupações vindas de uma bancada onde se sentam lado a lado, todos os dias, os "democratas" do Fidesz – União Cívica Húngara e os cristãos-democratas da Europa preocupada. Parece-me legítimo perguntar por que treme mais a Europa democrata cristã com uma possível aliança à esquerda em Portugal do que com os muros erguidos na Hungria pelos seus camaradas do Fidesz, os quais acabaram de regozijar com a vitória dos nacionalistas eurocépticos na Polónia. Por que não são Viktor Orbán e Beata Szydlo tão preocupantes quanto Catarina Martins e Jerónimo de Sousa? 
Desconfiamos que os mercados tremam de horror perante a possibilidade da esquerda começar a unir-se na Europa, como não tremem face ao crescimento e à união da extrema-direita, por haver na esquerda reivindicações sociais que põem em causa o projecto europeu dos fabricantes de automóveis com dispositivos que manipulem as emissões de poluentes. Mas depois um néscio como eu olha para a síntese do contexto polaco e pasma:
«A economia polaca tem crescido acima dos 3% ao ano na última década – e o facto de não estar na zona euro permitiu-lhe passar ao lado da recessão que afectou a maioria dos países europeus, em 2009 –, mas isso não bastou para que a Plataforma Cívica renovasse a confiança dos eleitores. Apesar do sucesso dos números, muitos dos 38 milhões de polacos continuam sem sentir melhorias nas suas carteiras, devido à precariedade do trabalho e aos baixos salários, algo que tem sido aproveitado pelo populista Lei e Justiça. Marcadamente católico, o partido propõe a redução da idade da reforma de 67 para 65 anos entre os homens e para 60 anos entre as mulheres (para que possam passar mais tempo com a família); o aumento do salário mínimo; e o aumento das taxas de impostos para os bancos».
Onde é que já ouvimos isto? A Polónia é, pois, um caso à parte. Não integra a zona euro, pode crescer e propor medidas impensáveis dentro do Tratado Europeu tais como as sublinhadas acima. E os mercados não tremem. Nem o senhor Presidente do PPE fica com gripe. Temos assim à vista de todos uma realidade estranhíssima. O que amedronta a direita dita democrata e cristã é a possibilidade das políticas de esquerda travarem a Europa dos muros, a Europa xenófoba, a Europa dos pigs, a Europa com filhos e enteados, uma Europa de países subalternos, feridos na sua independência, incapazes de crescer e de se afirmar porque sufocados por tratados castradores. 
Os mercados não se ressentem quando a Europa vende armas a regimes obscuros nem quando trata refugiados como se fossem terroristas nem quando importa automóveis para a China, os mercados não se ressentem quando a Europa levanta a saia aos olhos voluptuosos das economias emergentes. Mas ressentem-se imenso quando a esquerda portuguesa se aproxima e abre as portas da esperança a um país sangrado nos últimos quatro anos como nunca em regime democrático. Se isto não é para rir, só pode ser para nausear. Vivam os mercados, morra a Europa!

«E AGORA, VAMOS AO QUE MAIS IMPORTA»


«E agora, vamos ao que mais importa»:
saber, na escrita, devolver
aos outros a força perdida
neste tempo sujo. Recuperar até
o som das tempestades, algum cheiro
a serra, campainhas, guizos.
E agora, vamos recomeçar as histórias
das fantasias todas no lameiro ou
na nespereira. Se não há bosque, já,
nem milho alto, perto da ribeira,
importa voltar a sentir
a força da isolada aldeia.
Subir ao monte e raspar a mica.
«E agora, vamos ao que mais importa».

*

«Vamos jogar de propósito destinado»
e recuperar o forte jogo da bilharda.
Ajudem-nos então a escancarar portões
de gonzos ferrugentos. Vamos voltar a encher
a loja de estrume fumegante. Abrir
as tulhas e caiar paredes. Reconstruir
canastro e pôr as telhas novas. Trazer
os gatos para fugirem ratos. Abrir
o forno para cozer o pão. Levar os potes
para o fogo da lareira. Ferrar cavalos,
ensinar os cães. Plantar árvores,
semear os campos. E sobre a casa,
como em tempos outros, erguer o ramo
de nova construção.

*

«E assim prosseguimos o volteio»,
no sábio ensinamento doutros mestres.
Franciscanos dizem que já somos,
quando apenas queremos dar as mãos.
E as mãos se juntam, ainda não
em prece, mas em trabalho. No reconstruir
a pedra da linguagem, o desejo
de um altar feito de pão que ainda
temos que amassar. A oferta somos
nós — assim nos damos. Bom começo
para quem muito quer andar. Peregrinos
seremos, mas mais tarde. Nómadas, errantes,
profetas se o quiserem. Mas agora,
com o mestre, prosseguimos o volteio.

*

«Cada mensagem é uma abertura
para o Ser». Obscuros são certos dizeres
mas a fria claridade também cega.
Não há cavernas, nem oiro, nem o raio
que ilumine de súbito a multidão.
Cada mensagem nossa é curta, mas é nossa,
mesmo no tremor com que dizemos certos
versos. Melhor assim: melhor a abertura
para o Ser. O outro ainda não sabe,
nem conhece. Está longe, na bruma
do riacho, ou nas torres medonhas
das cidades. Façamos lume com as
pedras, para aprendermos a incendiar
também nossas palavras novas.

O título desta série de poemas, assim como as frases que aparecem entre comas, foram retirados do livro de Eudoro de Souza, «Mitologia». Trata-se, portanto, de uma homenagem. 

Eduardo Guerra Carneiro (n. 1942 - m. 2004), in Contra a Corrente (1988). Os anos vão passando, e a voz de Eduardo Guerra Carneiro teima em não se fazer escutar. Poeta deixado na penumbra sem perdão, estreou-se na segunda metade da década de 1960. Foi um excelente cronista, como atesta o volume O Revólver do Repórter (1994). De resto, a sua poesia transporta igualmente o olho do repórter. Sem ocultar «a liberdade das imagens e das evocações naturais e espontâneas» (Cristina Cordeiro Oliveira), desenvolve em cada um dos seus livros um “fio narrativo” onde pressentimos a nostalgia do mundo rural num sujeito poético acossado pela agressividade da paisagem urbana. Inúmeras evocações afectivas surgem num contexto sugestivo, raramente declarativo, nos seus versos, os quais denunciam uma emotividade que por vezes se camufla por detrás da cortina rústica que subsidia parte da sua poesia. Sobre ele, em texto de contracapa, escreveu Manuel João Gomes: «Poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna, em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões, recordações da terra natal, paisagens, retratos.»

domingo, 25 de outubro de 2015

MAUREEN O'HARA (1920-2015)



Diz que era a mais bela ruiva da era dourada. Estrelou em inúmeros westerns e foi uma das divas de John Ford, que a destacou para obras-primas como How Green Was My Valley (1941) e Rio Grande (1950). Uma curiosidade, o filme Lisboa (1956). 

UMA VIAGEM DE MATSUO BASHÔ

SOSSEGO NUM TEMPLO DA MONTANHA

   Em Yamagata há, na montanha, um templo chamado Ryusyaku. Fundou-o o grande bonzo Jikaku e é um lugar tranquilo. Recomendaram-me que fôssemos vê-lo. Para isso tivemos que regressar a Obanazawa e caminhar perto de sete «ri». O sol não se ocultara ainda e pudemos escolher uma pousada num templo que se encontra na falda da montanha. Depois subimos ao Santuário que está no cume. A montanha é um amontoado de rochas e penhascos, entre as quais crescem pinheiros e carvalhos seculares; as pedras estavam cobertas de musgo suave. O templo foi construído sobre o rochedo. As portas estavam fechadas e não se ouvia nenhum ruído. Dei uma volta por uma escarpa, trepei pelos penhascos e cheguei ao Santuário. Perante a beleza da paisagem, o meu coração serenou:

                                          Quietude:
                                          as cigarras escutam
                                          o canto das rochas.


Matsuo Bashô (n. 1644, Ueno, província de Iga, Japão - m. 1694, Osaka, 12 de Outubro), in  O Caminho Estreito Para o Longínquo Norte, versão de Jorge de Sousa Braga, 2.ª edição, Fenda, Julho de 1995 (1.ª edição na Fenda: 1987), p. 37.

JÁ ANTES ERA TUDO BOM


Copiei a imagem do Da Literatura, desconheço o contexto em que a afirmação foi proferida. Mas é uma daquelas afirmações típicas de uma direita que viveu privilegiadamente durante os tempos da ditadura sem fazer a mínima noção do que era o país real. Toda a minha família, que viveu isolada no país real, tinha muito a contar a esta gente sobre portugueses de primeira e de segunda. Começamos a ler a biografia de Marcelo e fica tudo claro: Filho de Baltasar Leite Rebelo de Sousa (1921-2002), médico e político do Estado Novo, e de sua mulher, Maria das Neves Fernandes Duarte (1920-2003), assistente social; irmão de António Rebelo de Sousa e de Pedro Rebelo de Sousa; foi padrinho de casamento dos pais o professor Marcelo Caetano, que esteve também para ser o seu padrinho de baptismo. Perguntem-lhe como era antes do 25 de Abril, perguntem-lhe se antes não se dividiam os portugueses entre bons e maus. E perguntem-lhe também, já agora, o que é que ele fez durante os primeiros 26 anos de vida para combater esse maniqueísmo político instalado na sociedade portuguesa e para o qual tanto contribuiu e continua a contribuir a benemérita e misericordiosa ICAR.