domingo, 25 de outubro de 2015

#67



Dada por encerrada a actividade com os Red House Painters, o escritor de canções Mark Kozelek formou os Sun Kil Moon. Universal Themes (2015) é a sétima colectânea de estúdio, dando continuidade a um processo de composição que tem na sua base melodias para guitarra clássica sobre as quais Kozelek canta, lê, sussurra letras intermináveis de índole biográfica. Nos textos, absolutamente confessionais, cabe de tudo, desde memórias de infância a tarefas domésticas, viagens, namoradas e amigos, referências a músicos e escritores, concertos, apontamentos da vida quotidiana e os desencontros familiares, projectos, um opossum ferido que surge enquanto se amanha o jardim de casa, uma amiga doente que não se pode socorrer por causa do trabalho, saudades do lar durante as digressões, histórias trágicas de bairro. Mas a moral fica logo definida no primeiro tema: «I want to grow old and to walk the last walk knowing that I too gave it everything I got that against all roadblocks and obstacles I fought for to live another day is much better than to not», ainda que a este optimismo devamos acrescentar o sal da realidade: «it’s hard to handle but I just keep keepin’ busy travelin’ and playing and writin’ ‘till I’m fuckin’ dizzy some people love what I do and some get fuckin’ pissy but I don’t give a fuck one day they’re all gonna miss me». Kozeleck ama a natureza e o conforto do lar, dá graças pelos amigos e pela família, declara-se perdido e saturado com as partidas e a distância, refugia-se em memórias acolhedoras, por vezes cantando, quase sempre recitando, noutras ocasiões simplesmente falando. Por debaixo de todo o discurso, descobrimos melodias minimalistas atravessadas por cortes e interlúdios súbitos, canções muitos degraus acima da vulgaridade com que a maioria relaxa os ouvidos e amolece a inteligência:


1 comentário:

Ivo disse...

Desde que em 2001/2002 o ouvi pela primeira vez, com Have You Forgotten, do álbum Songs For A Blue Guitar - posso dizer com toda a certeza - fiquei agarrado. Impossível passar os olhos pela minha coleção naqueles dias em que "apetece-me algo", isto é, nos dias de desespero, e não pensar em ir ao S, ao R ou ao M...