quarta-feira, 28 de outubro de 2015

IMAGENS DE ARQUIVO

 
A natureza tem o seu alfabeto próprio, feito de curvas e de recantos, signos desenhados pela chuva, pelo vento, que escutas enquanto caminhas ofegante, só, entregue apenas à tua respiração e aos passos lentos que sobre a terra pronunciam línguas de sonho…
 
…nomeamos as árvores, os pássaros, as plantas, para cada coisa temos um nome guardado, mas nada decifra ou define esta ligeira inclinação do silêncio dentro dos olhos, quando te voltas para dentro e o corpo se distancia da cidade, metido apenas entre árvores e os sons distantes que denunciam haver vida entre os dentes…
 
...então dizes para que só tu possas ouvir: um cão ladra, inúmeros pássaros desconhecidos, voos invejáveis, os insectos, o motor de um tractor, a avioneta riscando o céu por entre nuvens carregadas de trovões, os primeiros pingos que caem sobre as ervas e a chuva que ameaça o vento ao redor…
 
…não chega aos peixes que debaixo de água se protegem de molhas súbitas e indesejáveis, um frio que escutas no caracol arrastando-se sobre as ervas, esta humidade, esta idade de húmus que alimenta a vida, um caracol por certo apartado de tudo e de todos quantos como ele caminham lentamente com o mundo às costas…
 
...para entre mato vislumbrarem sinais, a presença de alguém que se esconde por detrás de um marco, esta terra é minha porque sobre ela caminho e sobre ela respiro e penso e sobre ela digo o quão sós estamos todos se entregues apenas à vontade de fazer, esta terra é minha porque sobre ela desisto momentaneamente de interpretar…
 
…e sobre ela sigo apenas para onde me mandam os passos, a esmo como uma folha levada pelo vento e contigo sempre no pensamento de mãos dadas ao início das manhãs, sombrias manhãs que o fruto amargo desconhece, fruto esquecido, por colher, alimento da terra e porventura de um bicho que passe assaltado pela fome…

...um bicho nobre e majestoso de olhos pousados no desfile das árvores, árvores despidas, árvores revestidas, árvores lado a lado com plumas de gelo, minhas queridas árvores, literalmente abraçadas pelos olhos de quem dia a dia enraíza a solidão em horas desesperadas, horas frugais de tédio remansado, para aqui chegar num cansaço que pede repouso e por tal silêncio gratifica a dádiva.

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