O coaxar dos sapos noite dentro, numa rotunda de Caldas da Rainha.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
"AQUILO É UMA VIDA COMPLETAMENTE PERTURBADA" #6
Imagem de uma fábrica em Savar, Daca, capital do
Bangladesh, onde se fabricava roupa para marcas tais como Benetton, Mango,
Primark... O título cita Medina Carreira, a propósito da paralisação de
Bruxelas.
CANCELAR O NATAL
Celebremos o bom senso no mundo secular. O director de uma
escola italiana cancelou a festa de Natal por respeito às religiões que não o
celebram, poupando assim todas as criancinhas, católicas ou não católicas, à
representação sempre algo ridícula das figuras do presépio. Lembro-me do trauma
que me causou, em tempos, fazer de burro, sentado ao lado de uma vaca (a
Belinha), atrás do meninos Jesus nas palhas deitado (o Gonçalo, que era anão),
e com a Maria a fazer de Maria e o José a fazer de José. Tristes cenários da
infância que fizeram de mim ateu quando ainda não sabia sequer o que era negar
a existência de Deus. Hosanas, portanto, ao director do Instituto Garofani de
Rozzano. Antes de começarem para aí a falar de medo e de relativismo cultural e
de coiso, pensem bem no que podemos evitar no futuro com gestos tão simples como
este de poupar ao ridículo crianças sensíveis. O primeiro passo está dado,
falta o resto: cancelar todo o Natal por respeito, vá lá, ao Jesus.
domingo, 29 de novembro de 2015
GLOSA
Mote: a União Europeia deu três milhões à Turquia para conter
fluxo de refugiados.
Na minha terra havia um tipo com uma loja de pneus. Um
dia alguém descobriu que andava sempre com pregos no bolso.
sábado, 28 de novembro de 2015
"AQUILO É UMA VIDA COMPLETAMENTE PERTURBADA" #5
Imagem de Al-Mashtal, em Bagdad, capital do Iraque. O título cita Medina
Carreira, a propósito da paralisação de Bruxelas.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
"AQUILO É UMA VIDA COMPLETAMENTE PERTURBADA" #4
Imagem de Freetown, capital da Serra Leoa. O título cita
Medina Carreira, a propósito da paralisação de Bruxelas.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
UM POEMA DE HERMAN MELVILLE
O TUBARÃO DAS MALDIVAS
Rodeando do Tubarão, fleumático,
Ébrio pálido do mar das Maldivas,
Os pequenos, insinuantes peixes-piloto, azuis e esguios,
Quão alerta o seguem.
Da sua boca serrilhada, do seu estômago sepulcral
Nada têm a temer
Mas liquidamente deslizam sobre o seu pálido flanco
Ou frente à sua cabeça gorgónea;
Ou abrigam-se no porto de seus dentes serrilhados
Em brancas triplas fileiras de cintilantes cancelas,
E aí encontram protecção quando o perigo espreita,
Um asilo nas fauces das Parcas!
São amigos; e amigáveis conduzem-no à presa,
E porém jamais partilham o festim —
Olhos e cérebro para o rabugento, letárgico e torpe,
Pálido devorador de hórrida carne.
Herman Melville (n. 1 de Agosto de 1819, Manhattan, Nova Iorque - m. 28 de Setembro de 1891, Nova Iorque), in Poemas, selecção, tradução e introdução de Mário Avelar, Assírio & Alvim, Março de 2009, p. 51.
"POSTAIZITOS ATREVIDOS"
José Pimentel Teixeira deixou neste post um comentário
acintoso, acusando-me de demagogia e constatando, isso não lhe perdoarei, o óbvio:
que não percebo nada do mundo. Quem perceba que atire a primeira pedra. De
facto, não percebo nada do mundo em que vivo. É uma declaração de princípio, não
é sequer uma confissão. E não tem absolutamente nada de demagógica. É assim
mesmo. Não percebo nada, não consigo. Mais ou menos 10 anos a trocar galhardetes, salvo seja,
permitem-nos tais extravagâncias. Fico sempre grato a quem me comenta com
inquestionáveis fleuma e veemência (perfeitamente compatíveis em universo
bloguístico). Permito-me, porém, contextualizar a origem dos "postaizitos
atrevidos", advertindo, desde já, que terão continuidade. Ando a ler um livro
sobre o Estado Islâmico repleto de informações, notas de rodapé, envios, o que
me impeliu a consultar inúmeros sítios e a ver variadíssimos vídeos disponíveis
no Youtube. Não me refiro ao marketing da violência de que o EI se serve para causar
temor nuns e simpatia noutros, não me refiro à propaganda de terror com
registos macabros de execuções várias. Refiro-me a peças jornalísticas,
documentários sobre o quotidiano nesse tal Estado disseminado algures entre o
Iraque e a Síria, mas, para mal de todos, cada vez mais presente nas nossas
vidas. Afectado pela informação, porventura excessiva (não ajuda à saúde de
ninguém olhar para o mundo), observava há dias Medina Carreira e o General Loureiro
dos Santos num bate-papo entretido, moderado por Judite Sousa, acerca dos
desenvolvimentos mais recentes em matéria de ameaça terrorista na Europa.
Medina perguntava se não seria mais eficaz atirar sobre as filas de camiões com
petróleo que sustentam os terroristas do que bombardear as cidades sírias, o
General respondia-lhe aludindo a interesses subterrâneos e obscuros. Ao
ouvi-los, ocorreram-me imensas imagens. Lembrei-me dos méritos da
Realpolitik, da comitiva de 50 empresários portugueses de visita à Arábia
Saudita há dois anos, com os nossos governantes de serviço, de dentadura
branqueada, a pousarem para fotografias onde o fausto era evidente, lembrei-me
do nosso ministro Machete com a mulher envolta num lençol, salvo erro, algures
no Irão, lembrei-me de Muammar al-Gaddafi ao lado de José Sócrates antes de ter
sido vítima de sinusite durante a Primavera Árabe, lembrei-me do que
era discutir a invasão do Iraque na blogaria em 2003 e de como estávamos todos muito
certos de que a verdade mentia naquela fotografia ridícula das Lajes, e
lembrei-me do receio que temos de falar em vidas que podiam ter sido poupadas e
que podem vir a ser poupadas se não cometermos os mesmos erros que foram
cometidos no passado, embora já não me reste grande esperança, pois sempre que
falamos no mundo com a ingenuidade de quem para ele olha declarando que não
percebe nada o mais que podemos esperar é que nos julguem demagógicos. Mas,
enfim, cumpro o meu simples papel de cidadão ao informar-me e ao espantar-me,
na base dessa informação recolhida, com o quão banal é sobreviver no mundo
entre destroços, no meio de ruínas, rodeado de lixo e de mortos e de destruição. Num
dos documentários a que assisti recentemente, filmado em pleno território sírio
dominado pelos criminosos do EI, o que mais me chocou foi a normalidade da vida
quotidiana. O homem do talho, as crianças a brincar no rio, as escolas, o
funcionamento dos tribunais, o comércio, a vida a rolar entre destroços com seres
humanos decapitados na praça pública sob um mundo que rodava como roda quotidianamente
o mundo. Não era a banalização do mal de que falava Hannah Arendt, era uma coisa diferente, mais perversa ainda, como se a psicose tivesse passado a lei e a psicopatia fosse ensinada nas escolas como o mais virtuoso dos padrões éticos e morais. A frase de Medina Carreira que escolhi para legendar os postais é
sobre isso mesmo, sobre a relatividade das vidas perturbadas que me leva, como
escrevi aqui, a questionar todos os dias, sempre que deixo a minha Beatriz na
escola, como será o dia-a-dia de uma criança na Faixa de Gaza. E sempre que me questiono dou graças sei lá eu a quê por ter a sorte de ter nascido num país onde ainda é possível assistir ao meu Sporting disparar quatro torpedos em plena Moscovo, entre amigos, de mini na mão, a sorrir com restos de tremoços nos dentes. Preocupa-me
tanto que sejamos obrigados a interromper o nosso modo de vida como me preocupa
a insensibilidade que há muito vamos demonstrando ter, com a puta da Realpolitik,
para com o modo de vida daqueles que, infortunadamente, têm de caminhar
diariamente entre escombros. Talvez seja a isto que chamam o remorso do
ocidental, uma espécie de sentimento de culpa herdado pela História. Ou então é
apenas, como dizia Cesário Verde, O Sentimento Dum Ocidental (porventura demagógico):
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
"AQUILO É UMA VIDA COMPLETAMENTE PERTURBADA" #3
Imagem de Beit Lahia, cidade na Faixa de Gaza. O título cita
Medina Carreira, a propósito da paralisação de Bruxelas.
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
A LEI (PARTE V DE BIOGRAFIA)
we were suddenly aware of ourselves
standing there, staring at the future
blindfolded.
Deborah Eisenberg
Em criança fui um homem sozinho numa casa de mulheres.
A excepção do meu pai, à excepção do meu avô e do meu irmão,
fui um homem sozinho numa casa de mulheres
que se vestiam de vermelho e, em segredo,
usavam nomes de princesas antigas
para que o sonho coubesse todo na sua absurda forma de cristal.
Às vezes sozinho, sem nunca as entender,
falava a sua própria língua, como se fosse acreditar sempre
que a minha mãe e as minhas irmãs inventaram, só para elas,
todo o pranto e todo o silêncio que cabem no mundo.
Um dia Raquel ensinou-me a brincar com bonecos vestidos de púrpura
e a imaginar neles Hannah, em oração, quarenta anos mais nova,
na sua cama rodeada de arame farpado, a apaixonar-se pelo senhor F.
e pelos seus olhos cinzento-anjo.
Foram de longe os anos mais felizes da minha vida,
os que antecederam a clausura do Inverno no meu peito,
no dia em que o meu avô morreu.
Só então chorei, quando vi o meu pai aproximar-se do corpo
para o tapar, antes que os corvos lhe ensinassem
o que há que fazer àqueles que morrem.
Mal se suspendeu o céu fez-se negro o seu rosto.
Comprei-o, comprámo-lo caro com o trabalho doloroso das nossas mãos.
Aquietaram-se as árvores, o vento, as mudanças
e os pássaros puderam enfim repousar do seu voo de séculos.
Trinta dias de sol e secura se seguiram e, à primeira gota de chuva,
o meu pai abriu as portas de casa e houve festa.
O meu pai abriu as portas de casa e saíram as mulheres
e entraram os senhores da lei. Disseram
Sempre que invocarmos o teu nome virás a nós e nos abençoarás
Nessa mesma noite ensinaram-me
que Deus desenha o tempo à régua e nunca ao compasso
e que para Ele os olhos têm horizonte.
Anos mais tarde, quando já nenhum homem se importava
que chovesse ou não, deixei os meus antepassados sozinhos,
uns com os outros, a escrever e a pensar a lei e o sangue,
como se isso fosse pelo menos metade da vingança que o Senhor nos merece.
Uma fé inexistente talvez tivesse sido uma fé melhor,
no extenso bosque do meu peito negro,
com o meu avô, com o meu pai e com os seus olhos vazios virados para Leste.
David Teles Pereira (n. 1985), in Biografia (2010). Não é
comum um autor com tão pouca e restrita obra publicada alcançar a atenção que
David Teles Pereira conseguiu nos media mais atentos à produção poética
nacional. Co-fundador, com Ana M. P. Antunes e Diogo Vaz Pinto, da revista
Criatura, começou por aí afirmar uma poesia que, aliando o poema longo a versos
incisivos, se afastava do tónico naturalista predominante na geração anterior à
sua - e do qual David Teles Pereira se declarou publicamente devedor. Biografia
acentuou a opção por um pendor narrativo mais interessado em ficcionar a
realidade do que em testemunhar os diversos aspectos do quotidiano, num registo
onde a auto-ironia, a par da assimilação de múltiplas influências
internacionais, gera retratos genéricos de um tempo onde a identidade resulta de
uma complexa reunião de estilhaços multiculturais, sociais e políticos. Com o primeiro verso daquele que é,
porventura, o seu poema mais citado — «Sou filho daqueles que lutaram no dia 25
de Abril de 1974» (in Elegia Cor-de-Rosa) —, o próprio resolveu dialogar com o
primeiro verso do seu único volume individual publicado até à data — «Sou
bisneto de um tal Ishmael Veilchenduf, judeu germânico-falante» —, denotando um
autocentrismo estético que o futuro se encarregará de aprofundar ou desfazer.
"AQUILO É UMA VIDA COMPLETAMENTE PERTURBADA" #2
Imagem de Porto Príncipe, capital do Haiti. O título cita
Medina Carreira, a propósito da paralisação de Bruxelas.
AINDA O PROBLEMA DA JARDINAGEM
Numa avaliação pormenorizada da pena capital, Rudolph J. Rummel estima que 19 milhões de pessoas tenham sido executadas por ofensas triviais entre a época de Jesus e o século XX. Ofensas que eram outrora punidas com execução incluíam o roubo de pão e a crítica aos jardins reais. As execuções públicas eram vulgares e muitas vezes realizavam-se numa atmosfera de festa...
Jessica Stern e J. M. Berger, in Estado Islâmico:
Estado de Terror, tradução de Rita Carvalho e Guerra e Pedro Carvalho e Guerra,
Vogais, Abril de 2015, p. 243.
ARRANJA-ME UM EMPREGO
A 25 de Outubro do ano corrente, Alexandra Figueira assinou
no JN uma notícia com o título Uma centena de nomeados com o Governo já em gestão. Pode ler-se aqui. Um mês depois, a 25 de Novembro, Ana Suspiro assina no Observador uma notícia com o título 100 nomeações para o Governo PSD/CDS no dia em que
Costa foi chamado. Não sabemos até que ponto possa haver aqui uma troca de
datas ou certa lentidão nas observações do Observador. Não havendo uma coisa nem
outra, 100 + 100 = 200. Há gorduras do Estado que jamais perturbarão os
mercados. Já agora, recorde-se esta lista do DN em Agosto de 2011. Levava o
anterior Governo menos de dois meses em funções.
LANÇAMENTO
27 NOV Musicbox 23h - Concerto
Mia Soave (livro + cd) #03
BRUTA - CD - (Ana Deus e Nicolas Tricot), poemas de Ângelo de
Lima, Stela do Patrocínio, António Gancho, Mário de Sá-Carneiro, Sylvia
Plath/Regina Guimarães/Ana Deus, António Maria Lisboa, Manuel Laranjeira;
DOUTOR TRISTEZA - Livro - poemas de Augusto dos Anjos (antologia organizada e
prefaciada por Henrique Manuel Bento Fialho), Ângelo de Lima, Nunes da Rocha e João Paulo
Esteves da Silva.
Ilustrações de Alice Geirinhas, grafismo
e paginação de Pedro Serpa.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
"AQUILO É UMA VIDA COMPLETAMENTE PERTURBADA" #1
Imagem de Alepo, cidade no norte da Síria. O título cita Medina Carreira, a propósito da paralisação de Bruxelas.
JARDINAGEM
A propósito das brigadas electrónicas do Estado Islâmico, disseminadas pelo Twitter, pelo Facebook e quejandos, J. M. Berger escreve o que poderíamos afirmar acerca de muita coisa na vida:
São ervas daninhas.
Nenhum jardineiro espera que as ervas daninhas desistam depois de serem arrancadas uma única vez. A jardinagem é um processo que requer cuidado e manutenção. Um jardineiro persistente não permite que as ervas daninhas invadam o seu terreno.
Jessica Stern e J. M. Berger, in Estado Islâmico:
Estado de Terror, tradução de Rita Carvalho e Guerra e Pedro Carvalho e Guerra,
Vogais, Abril de 2015, p. 208.
CAVACO: OS TABUS, OS SILÊNCIOS, AS ESPERAS
De que nos vamos lembrar quando nos lembrarmos de Cavaco? De
que raramente se enganava e nunca tinha dúvidas? De que comia bolo-rei? Do
espanto com o tamanho da banana madeirense e com o sossego das vaquinhas no
momento da ordenha? Talvez nos lembremos das declarações de confiança no BES,
dos inúmeros tabus, de que não lia jornais e não era político profissional. Cavaco,
o Presidente da República que não façará comentários. Mas façará longos e confrangedores
minutos de silêncio antes de declarações patéticas. De que nos lembraremos
quando nos lembrarmos de Cavaco? De Cavaco não será, certamente.
A NOTÍCIA
Não sei o quão relevante possa ser a cor da pele da ministra, mas percebo que se lhe faça referência para realçar algo que poderia passar despercebido. O que não compreendo é a ausência de referências ao estrabismo de Vieira da Silva, à calvície de João Pedro Matos Fernandes, Capoulas Santos, Azeredo Lopes e Augusto Santos Silva, o que faz deste, muito provavelmente, o governo mais careca na história da democracia portuguesa. A palidez de Tiago Brandão Rodrigues, disfarçada por uma barba completa, também não foi mencionada, para não referir a cova no queixo de Eduardo Cabrita e a papada de João Soares. Enfim, é o jornalismo que temos.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
ÊXTASE
Em toda a parte onde reinou a doutrina da espiritualidade pura as suas enchentes destruíram a força humana: ela ensinava a desprezar o corpo, a negligenciá-lo ou a atormentá-lo, e a atormentar e depreciar o próprio homem, por causa dos seus instintos; produziu espíritos sombrios, tensos, oprimidos que acreditavam conhecer a causa do seu sentimento de infortúnio e talvez o meio de o suprimir! «É no corpo que reside a infelicidade! Ele ainda se desenvolve demasiado!» - assim concluíam eles, enquanto o corpo protestava continuamente pelas suas dores contra os sucessivos ultrajes que lhe infligiam. Um hiper-nervosismo geral e crónico tornava-se então apanágio destes virtuosos espíritos puros: eles só conheciam o prazer sob a forma de êxtase e de outros fenómenos de demência, - e o auge do seu sistema era atingido quando o êxtase se tornava o objectivo supremo da vida e o critério permanente para condenar todas as coisas terrestres.
Friedrich Nietzsche, in Aurora, trad. Rui Magalhães, RÉS Editora, colecção substância, n.º 22, Setembro de 1977, pp. 37-38.
ALERTA MÁXIMO
Uma praga de chefs invadiu o país, muitos deles improváveis
e quase todos indigeríveis. Os portugueses gostam de comer e de beber. Metam mesa
onde seria suposto haver apenas a mais chata das actividades, tipo literatura,
e os portugueses aderem. Vão pela mesa, ainda que digam ter ido pela
literatura. Agora passeiem pelas livrarias e dêem-se conta do fenómeno. Depois
de Clara de Sousa ter bisado com A Minha Cozinha (bastante recomendáveis), não
há jornalista que não pretenda levar-nos o garfo à boca. Entre os congéneres,
referiremos a título turístico Ir é o Melhor Remédio (factual), de Teresa
Conceição, e Mesa Nacional, de Paulo Salvador. A Deliciosa Cristina é uma xaropada
sem sentido, facilmente ultrapassada pelo inesperado A Dieta Ideal, de
Francisco José Viegas. Sénior nestas andanças, Manuel Luís Goucha oferece-nos
As Receitas lá de Casa; e Miguel Sousa Tavares propõe a Cozinha d’Amigos (clássico). A
cereja no topo do bolo, este ano, é A Viagem do Salmão, obra escrita a duas
mãos (ou a dois pés) por Henrique Sá Pessoa, o escritor, e José Luís Peixoto,
o cozinheiro. Com tanta comezaina, não pode o livreiro preocupado deixar de
sugerir para cuidados vários A Vida Secreta dos Intestinos, O Intestino – O Nosso
Segundo Cérebro, O Intestino Feliz ou qualquer outra peroração intestinal que
nos ajude a tratar estômagos sensíveis. É que isto anda mesmo tudo ligado. Bom Natal!
domingo, 22 de novembro de 2015
COISAS MESMO MUITO BOAS
A imagem não é do jogo de ontem, embora ontem não tenha sido diferente. Islam Slimani, internacional argelino ao serviço do Sporting Clube de Portugal, agradece a Allah poder trabalhar com Jesus.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
UM POEMA DE CZESŁAW MIŁOSZ
ISTO
Que eu pudesse, enfim, dizer o que trago dentro de mim.
Gritar: gente, mentia-vos
Ao dizer que não tenho ISTO em mim,
Quando ISTO permanece cá de dia e de noite.
Embora, justamente graças a ISTO
Soube descrever as vossas cidades inflamáveis,
Os vossos breves amores e jogos desfazendo-se em pó,
Brincos, espelhos, uma alça que caía,
Cenas em quartos e em campos após a batalha.
A escrita era para mim estratégia de camuflagem,
De apagar vestígios. Porque não se gosta daqueles
Que aspiram o proibido.
Socorro-me dos rios nos quais nadava, dos lagos
Com uma passagem entre os juncais, do vale,
Onde o eco da cantiga é secundado pela luz do ocaso,
E confesso que os meus elogios extáticos da existência
Poderiam ser meros exercícios de estilo elevado,
Mas por baixo estava ISTO que não sou capaz de nomear.
ISTO é comparável aos pensamentos do desabrigado
Quando vai pela cidade gélida e estranha
E ao instante em que o judeu acossado vê aproximarem-se
Os pesados capacetes dos gendarmes alemães.
ISTO revela-se também quando um príncipe vai à cidade
E vê o mundo real: a miséria, a doença, a velhice e a morte.
ISTO está igualmente no rosto petrificado de quem
Descobriu que foi para sempre abandonado.
E nas palavras do médico sobre a sentença sem recurso.
Porque ISTO significa o esbarrar contra o muro,
Sabendo que ele não cederá a quaisquer implorações nossas.
Czesław Miłosz (n. 30 de Junho de 1911, Šeteniai, Lituânia –
m. 14 de Agosto de 2004, Cracóvia, Polónia), in Alguns gostam de poesia –
Antologia, selecção, introdução e tradução do polaco de Elżbieta Milewska e Sérgio
das Neves, Cavalo de Ferro, Março de 2004, pp. 93-95.
VOYEURISMO
O Público disponibiliza na sua página aquilo a que chama As
Histórias das Vítimas de 13 de Novembro, um mosaico de fotografias, porventura
recolhidas nos perfis de Facebook das vítimas, transformado numa espécie de cemitério
virtual. Somos levados a “clicar” nas imagens como quem espreita para dentro de
um caixão. Nas lápides, apenas duas datas e a nota sentida dos que ficam. Aqui,
dados biográficos que não definem vidas nem sequer contam histórias. Não gosto,
sinto até um certo desprezo por mais este triste exemplo de escusado voyeurismo
jornalístico (se é que tem alguma coisa de jornalístico).
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
UM POEMA DE EDGAR ALLAN POE
O TEMPORA! O MORES!
Ó Tempos! Ó Costumes! A meu ver, parece
Que mudais, por má sorte, as vossas fronteiras...
Quero dizer, cessou o reino das maneiras,
Pois não as há... ou só maus modos prevalecem;
E se dizem alguns, no que aos Tempos respeita,
Que esses «bons velhos tempo» foram os piores
(Sentença que me guia, e é bom o seu preceito),
Creio porém que os nossos são algo inferiores.
I've been a thinking — não é assim que se diz?
...Aprazem-me as palavras, os modos yankees...
Que seria melhor? Ando eu a cogitar...
Levar o mundo a sério ou a brincar;
Chorar como fazia Heráclito, o sombrio,
Até a vista arder, em cego desvario,
Ou então rir com ele, o estranho Pensador,
Demócrito de Trácia que, sem rancor,
Via passar a vida e sorria da sorte,
Como quem diz: «Mas que diabo me importa?»
Este é um impasse... oh, Céus!... deveras espinhoso...
Nos livre Deus de o ver em garras judiciosas!
Job não vê dois lados à questão, mas oito,
Valendo cada um por quatro horas de intróito.
O que fazer?... senão deixá-la em suspenso
E abordar o assunto em tempo mais propenso?
E no entretanto... não quero eu dissabores,
Não rio com o primeiro nem com o outro choro,
Não quero nem calúnias nem adulações...
Limito-me a rosnar sem melindrar facções.
«Ah, rosnar...», diz-me o amigo, «Pois bem, e a quê?»
Oh, quase me esqueci, é verdade... bem vê...
Mas, rais' partam, senhor, acho eu indecente
Que ousem as criaturas olhar-nos de frente,
E andar por aí, com vénias e achaques,
E pretendam ser homens com ar de macacos.
Perdoa-me, leitor, aquele palavrão
Por causa do macaco a que tenho aversão...
O meu estilo, bem sei, parece descuidado...
Mas oh, não desesperes... Daqui a bocado
Eu mudo... e faço como os estadistas inanes:
Emendo os meus costumes e os meus ditames.
Vi muitas das cidades que no mundo há
(Pois como a si, meu caro, a viagem me apraz...);
Não recordo uma só, isso juro a pés juntos,
Que, atendendo a tudo no mesmo conjunto
(Como no Parlamento se usa o juízo,
Pois se pode quebrar caso esteja diviso),
Fosse como esta tão mimosa, ai! tão condicente
Com o brio dum caixeiro de garbo e talento!
Pois aqui poderá divagar a contento
Em nadar como peixe em seu próprio elemento,
Arredar as melenas, tão belas, da testa,
E pular aos balcões com donaire de Vestris,
Acabar à tardinha o dever matinal,
E dançar com donzelas mais logo no baile,
Que não vão desdenhar, apesar de enganadas,
A mão grácil que vende os enfeites rendados,
E nenhuma é tão fria que rejeite, ingrata,
Esse jovem que avia laços para os sapatos!
A mim me coube em sorte, Deus meu, conhecer
Um dos peixes que falo, e belo a valer...
Pelo menos de vista... pois sou recatado
E não gosto de rir e de ser incorrecto...
Mas a quem lhe falar, lança ele tal esgar
Que nenhum rosto humano se mantém
circunspecto.
Por ele as damas todas de amores se travam,
E no lindo sombrero os seus olhos se cravam...
E nas abas de grilo... de alta estimação...
Tais olhos, oh! não hão-de caçar um varão.
A voz dele é melodia de embalar,
A figura, entrevista, é já parte do olhar;
Em suma: o colarinho, a postura, o aspeito
São o beau idéal de um Adónis perfeito.
Há muito que os Doutos entre si contendem
Se pensam só os homens, ou bestas também,
Mas de que estas são capazes de pensar
É coisa em que o galã faz prova exemplar;
E embora cada tempo tenha as suas crenças,
Um facto assente vale mais que dez sentenças.
Porque ele pensa... ainda que eu, incerto, hesite
Sobre o preciso objecto em que tanto cogita.
Ah, sim!... o pé e o tornozelo delicados...
É neles que a razão assenta a morada:
Se, claudicante, um sábio abana a cabeça,
Logo ele abana o pé, e nunca tropeça...
Será que eu, por tal pé, sofrerei algum dano
(O que prova que pensa, e nisso não me engano)
Por lhe mostrar ao espelho seus olhos de gato
Onde pode mirar-se o asno caricato?
Tirará, julgo eu, as parecenças tão óbvias...
Mas, caso o não faça, o estulto pacóvio,
Não há-de a charada deixá-lo inquieto,
Pois com o nome Pitts o retrato completo.
Edgar Allan Poe (n. 19 de Janeiro de 1809, Boston - m. 7 de Outubro de 1849, Baltimore), in Obra Poética Completa, tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato, ilustrações de Filipe Abranches, Edições Tinta-da-China, Março de 2009, pp. 191-193. Nota: «A personagem ridicularizada neste poema foi identificada como Robert Pitts, empregado numa loja de venda a retalho em Richmond, que se relacionava com alguns políticos influentes e arrendava um quarto numa casa onde residiam também vários juristas (donde o emprego de termos legais no poema)».
COISAS MESMO MUITO BOAS
Espantosa história de vida, a do Barão Bodo Von Bruemmer e dos vinhos do Casal Santa Maria (aqui). Sugerido pela Maria João Lopes Fernandes.
UMA ENTREVISTA
O único mercado que está a crescer é o dos pobres. De
repente torna-se muito importante alimentar os pobres. Isto é cíclico. De
tempos a tempos, quando o mercado precisa de se expandir, preocupamo-nos muito
com os pobres. Actualmente, a pobreza está a crescer 13% ao ano e não podemos vender-lhes
iPads ou carros Tesla. Mas podemos vender-lhes comida, sementes e fertilizante.
Há muitos monopólios hoje: o das sementes, o dos supermercados, as instituições
como o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos [USDA na sigla inglesa]
que é global. As regras em vigor são as dos acordos de comércio livre, a da
Política Agrícola Comum na União Europeia ou a do Farm Bill nos Estados Unidos
[lei agrícola]. Determinam o preço das sementes em todo o mundo e nada disto é
democrático, não o votámos. Nada disto é feito por necessidade e há [795
milhões] de pessoas com fome no mundo.
Para ler na íntegra aqui, com um agradecimento ao Rui Almeida pela sugestão de leitura.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
DESTAQUEM PARA LÁ O GORDO
A ver e a ouvir na TVI 24, tanto quanto possível, uma conversa
sobre os ataques em Paris. Carlos Abreu Amorim é o cómico de serviço, uma arma
demagógica em massa. Ou estamos com os franceses ou estamos contra os franceses,
sentencia à melhor maneira do velho companheiro Vasco. Tenho uma sugestão:
calcem-lhe as botas da tropa, vistam-lhe o camuflado e enviem-no já para a
frente de combate. Os valentes Peshmerga precisam urgentemente de heróis com a
determinação do mata-mouros.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
A PORRA DOS ACENTOS
Um dos weblogs que mais gosto de acompanhar anda com um problema nos acentos. Sinto-me à vontade para o denunciar porque muitas vezes tenho eu padecido do mesmo problema. Seria injusto observá-lo e não o dizer. Se o faço aqui, é porque além não há caixa de comentários onde possa dizer que Ana Cristina Cesar não é César. No meu caso, o erro foi ainda mais grave. Saiu em livro. E Herberto Helder é, de facto, Hélder. Mas sem acento. Assunto trivial? Seja. Mas uma mulher tem direito a ser chamada pelo próprio nome e um Deus não deve ser invocado em vão.
[QUARENTA POR CENTO DE ÁLCOOL NO SANGUE]
Quarenta por cento de álcool no sangue. Choro em barda sem ninguém saber. O propósito é desmaiar. Sem saber se volto.
Não devia beber vinho, mas a verdade é que acredito nele. Piamente. O chá não me aquece: incendeia-me. Uma prisão.
Apanhar um susto no espelho. Semente imprópria. Medo da impossibilidade. Eu já não tinha medo. Deus, além de ornitólogo, deve ser caçador de borboletas. Alfinete no centro e espetar na parede.
Fumo cigarros, bebo, imagino estrelas cadentes às cinco da tarde de Maio e não desejo nada. Fumo cigarros, bebo. Não volto a cruzar-me com o espelho. Ele tem fantasmas nas mangas prontos para me aniquilar. Eu faço isso, não preciso de ajuda.
Há cigarros, há álcool, há estrelas imaginárias e depois há eu. Há eu. Cadente. Nenhum desejo.
Saltar de um avião, seja isso o que for.
Útil.
Nervoso.
Negro mágico.
Patrícia Baltazar (n. 1977 - m. 2019), in Catapulta (2014). Publicou Ré
Menor (2010), Fumar Mata (2013) e Catapulta (2014). A sua poesia denota uma
clara inclinação narrativa, centrada no Eu e no inventário de dores e de
alucinações que o enformam. Aproximando-se de um tom tão absurdo quão
heterodoxo, usa uma linguagem fragmentada composta de notas soltas e de fogachos
que sugerem performances vocabulares algo neuróticas em busca do apaziguamento
catártico oferecido pela liberdade poética e pela beleza das imagens convocadas
(pássaros, flores, borboletas). Dirigindo-se, por vezes, a um outro concreto
(filha, irmã…), alcança momentos de inegável emotividade lírica. «A morte, o
silêncio, a dor, a tristeza, a agonia: há um fundo negativo de onde estes
poemas nunca descolam e que lhes fornece o tom para uma espécie de monólogo
interior que não se quebra mesmo quando há a invocação de um Tu. Mas este
fechamento existencial, claustrofóbico, não impede que a voz íntima ganhe uma
dimensão que não é a do confessionalismo que tornaria esta poesia vulgar» (António
Guerreiro, Expresso).
A FACE CARICATA DO TERRORISMO
De todos os afiliados, a al-Qaeda na Península Arábica era aquela que a al-Qaeda Central controlava de forma mais directa, e era a mais activa nas conspirações contra o território dos Estados Unidos. Contudo, embora rapidamente tivesse conquistado, entre os políticos e os analistas de terrorismo, a reputação de «mais perigoso» dos braços, talvez até mais do que a própria al-Qaeda, os recursos que lhe eram atribuídos pela central eram escassos.
Num avião em direcção aos Estados Unidos, um bombista suicida não conseguiu mais do que ferir as suas partes pudendas, quando a sua «roupa interior-bomba» se incendiou mas não detonou. Após um atentado a um avião de carga ter falhado, a Inspire, a revista de propaganda em inglês do grupo, pôs na capa a história do frugal orçamento da operação — 4200 dólares — em vez de usar o número de mortos (porque dessa feita houve zero baixas).
Jessica Stern e J. M. Berger, in Estado Islâmico: Estado de Terror, tradução de Rita Carvalho e Guerra e PEdro Carvalho e Guerra, Vogais, Abril de 2015, pp. 84-85.
domingo, 15 de novembro de 2015
MUNDO DO CRIME, CRIMINOSO MUNDO
As pessoas que acusam a Europa de não se comover tanto com
os atentados fora da Europa como se comove com os atentados na sua própria casa
partem de princípios estranhos à natureza humana. O grau de comoção é
proporcional à proximidade. É Natural que um português se sinta mais próximo de
Paris do que de Nairobi, assim como muitos de nós se sentirão mais próximos de
Maputo, por razões históricas óbvias, do que de Oslo. Eu sinto mais a morte de
um familiar do que de um estranho. Por mais que o exijamos, a política também
não escapa a esta lógica que separa os nossos dos outros. Condenável é quando
ensaiamos um julgamento dos outros a partir de premissas absurdas. Por exemplo,
as pessoas que aquando dos atentados ao Charlie Hebdo diziam que aqueles
humoristas estavam a pedi-las e as que agora questionam, cinicamente, a previsibilidade
dos atentados em Paris. Estavam à espera de quê? — perguntam, aludindo ao
acolhimento de refugiados como uma via aberta para a entrada de terroristas na
Europa. A premissa está errada, desde logo, porque mesmo reconhecendo que entre
os refugiados existam terroristas infiltrados, isso não justifica que
condenemos à morte milhares de vidas que fogem, justamente, do terror que nós
voltámos a sentir agora. Fogem em cenários que nos são, felizmente,
inimagináveis.
Quem tenha estômago para ver o “marketing da selvajaria”
propagado pelo ISIS (corpos esventrados, cabeças espalhadas pelas ruas das
cidades, massacres organizados sob a forma de ritual, pessoas arremessadas de
edifícios altos, cabeças espetadas nas pontas de lanças…), pode ficar com uma
ideia, uma mera ideia, do Inferno que os refugiados conseguiram deixar para
trás. Os poucos que conseguiram, já que, na realidade, são muito poucos se os compararmos
com os milhões que não conseguem fugir e têm de se sujeitar àquela barbaridade.
Da mesma forma, quem associa o ISIS ao islamismo pretendendo lançar sobre o
Islão toda uma campanha difamatória omite o óbvio: isto pouco tem que ver com
religião. Sendo eu ateu, preferindo o pensamento à oração, julgo que num mundo
sem Deus não estaríamos livres de nos acontecer algo semelhante. Porquê? Porque
a questão religiosa, neste caso, serve apenas para recrutamento, é o argumento
falacioso do paraíso na eternidade junto de quem se sente injustiçado na terra,
é o argumento de uma putativa causa que vai ao encontro da raiva sentida pelos
humilhados e pelos ofendidos. É um argumento que facilmente seria substituído
pelo desejo de fama e poder que aliciou tantos dos maiores criminosos no mundo
secularizado.
Estamos, em boa verdade, a falar de um tenebroso mundo do crime
com vista ao controlo e tráfico de oleodutos e gasodutos. O perfil de Abu Musab
al-Zarqawi, fundador do que hoje conhecemos como Estado Islâmico, é o de um brutamontes,
arruaceiro, que bebia muito, tinha o corpo coberto de tatuagens, que se
dedicava a traficar droga e a roubar lojas (tudo práticas proibidas pelo Islão).
É a história típica do criminoso em ascensão que vislumbra na jihad uma
oportunidade para formar um exército a seu serviço. Quando ouço dizer, e
ouço-o, que estes tipos que tanto mal nos querem foram por nós alimentados no
passado (e no presente) não posso deixar de concordar, embora com reservas
sobre o tipo de alimentação em causa. É que os próprios reconhecem que a invasão
do Iraque foi uma dádiva para o crescimento do movimento: «Abu Musab al-Suri,
um dos estrategas mais proeminentes da jihad, alegava que a guerra no Iraque
salvara, quase sozinha, o movimento». Alimentou o ódio e o fundamentalismo
contra o ocidente, ao mesmo tempo que os países ocidentais se entretinham com
baralhos de cartas onde estampavam o rosto dos seus supostos inimigos e
continuavam a vender armas e a estabelecer protocolos e a fazer negócio e a
apertar a mão a nações patrocinadoras do Daesh ou Daash ou EI ou ISI ou ISIS.
Portanto, em vez de perdermos tempo com questões que pouco ou nada servirão para
travar este problema talvez fosse mais útil, enquanto cidadãos europeus, exigir
aos nossos governos que parem de alimentar o monstro. Como? Perguntem a quem
vende armas e a quem compra petróleo.
sábado, 14 de novembro de 2015
UMA QUIMERA DE NERVAL
VERSOS ÁUREOS
Mas como! tudo é sensível!
Pitágoras
Oh! homem pensador, julgas que é em ti somente
Que há a razão neste mundo onde em tudo arfa a vida?
Das forças que tu tens tua vontade é servida,
Mas dos conselhos teus o universo está ausente.
Respeita no animal um espírito agente:
Cada flor é uma alma à Natureza erguida;
Um mistério de amor no metal tem guarida;
«Tudo é sensível!» Tudo em teu ser é potente.
Teme, no muro cego, um olho que te espia:
Pois mesmo na matéria um verbo está sepulto...
Não a faças servir a alguma função ímpia!
No ser obscuro às vezes mora um Deus oculto;
E, como olho a nascer por pálpebras coberto,
Nas pedras cresce um puro espírito desperto!
Gérard de Nerval (pseudónimo de Gérard Labrunie, n. 22 de Maio de 1808, Paris, França - m. 26 de Janeiro de 1855, Paris, França), in As Quimeras, tradução e introdução de Alexei Bueno, Hiena Editora, Julho de 1995, p. 41.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
UM SONETO DE AUGUSTO DOS ANJOS
A MÁSCARA
Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.
No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.
Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.
E entre a mágoa que másc'ra eterna apouca
A Humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.
Em 1901
Augusto dos Anjos (n. Vila do Espírito Santo, Paraíba, 20 de Abril de 1884 - m. Leopoldina, Minas Gerais, 12 de Novembro de 1914), in Eu e outras poesias - edição especial revista e ampliada, 48.ª edição, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2010, p. 248.
AGORA A SÉRIO
Ao ouvir falar num concurso para a mais bela vagina do
mundo, Maria Adélia disse: olho para a minha e não vejo um caralho.
É A JUVENTUDE, ESTÚPIDO!
Um mês depois de uma campanha eleitoral marcada pelo uso
indevido de fotografias em cartazes e pelo recurso a bancos de imagens
comerciais, a escolha imponderada de uma foto histórica veio embaraçar a
Juventude Social Democrática nas redes sociais. Em causa está a capa do perfil
daquela jota no Facebook: Catarina Martins, António Costa e Jerónimo de Sousa
sobre a pergunta ‘Foi nisto que votou?’. Em pano de fundo, uma ilustração de
Vladimir Lenine e uma foto do estandarte soviético num mar de ruínas. A
intenção, presume-se, é evocar a memória das atrocidades de regimes comunistas.
O problema está precisamente nesta última imagem, que tem o efeito contrário.
Trata-se de uma das mais icónicas fotografias do século XX – o içar da bandeira
sobre o Reichstag em Berlim, momento simbólico da queda do regime nazi
germânico às mãos das tropas soviéticas a 2 de Maio de 1945.
O resto vem aqui (é só rir).
JOGO DO BERLINDE
Pedro e Paulo estavam a jogar o berlinde. António,
Catarina e Jerónimo assistiam. António perguntou a Pedro e Paulo se podia
jogar. Pedro e Paulo disseram que não, aquela barroca era só deles e só para
eles. António, Catarina e Jerónimo continuaram a assistir, até que resolveram
abrir uma barroca e começaram a jogar juntos. Pedro e Paulo voltaram-se indignados
para António, Catarina e Jerónimo. Convidaram António a jogar com eles. António
disse que agora já não queria jogar com eles, preferia jogar com Catarina e
Jerónimo. Pedro e Paulo ficaram muito chateados e disseram que ele não podia
ser amigo de Catarina e de Jerónimo. António disse que era amigo de quem
quisesse jogar com ele o berlinde. Então Pedro e Paulo uniram esforços no
sentido de impedirem que António, Catarina e Jerónimo pudessem abrir uma
barroca e jogar o seu próprio jogo. Fizeram tudo o que estava ao seu alcance
para impedir que os três novos amigos jogassem o berlinde, até propuseram uma
revisão constitucional extraordinária.
ANTICOMUNISMO PRIMAVERIL
Não é para qualquer um assumir-se anti o que quer que seja. Ser-se anti não é apenas assumir-se uma posição contrária a, é ser-se pela negação do objecto que se despreza, é colocar-se numa posição de cegueira e de ódio. A ser anti qualquer coisa, eu seria, desde logo, antianti. Mas sem ponta de cinismo posso afirmar que sou anti-racismo, antimachismo, sou anti-homofobia. Pouco mais. Até a estupidez eu consigo admirar em certas circunstâncias, e frequentemente me rio de certas misérias alheias. São poucas as coisas no mundo, sobretudo as humanas, que me merecem desprezo. Adoptei o espírito do romântico e idealista Novalis. No mundo das ideias, aceito tudo e o seu contrário. Os opostos desafiam-me, não me inspiram ódios. As antinomias, os maniqueísmos, estimulam-me. De que me vale ser anti-nazismo? Não sou. O nazismo existe, tento compreendê-lo, esforço-me por estudá-lo para poder contradizê-lo. Não o aceito, mas não lhe tenho ódio precisamente para que nada de mim se possa rever nessa abjecta ideologia.
Clara Ferreira Alves, a dias de lançar o seu primeiro e
mitologicamente aguardado romance na Fundação José Saramago, repito, na
Fundação José Saramago, resolveu declarar-se anticomunista. Se eu fosse do tipo
escorpião, diria que Clara se colocou ao nível de um José Rodrigues dos Santos.
Ou seja, em vésperas de livro novo adianta uma polémica qualquer para dar nas
vistas. Os editores dizem que ajuda às vendas. Dar nas vistas ajuda às vendas.
Acontece que eu sou mesmo escorpião, mas não julgo ter sido essa a intenção
daquela a quem Vasco Pulido Valente em tempos chamou santanete. O resto do
perfil mantém-se disponível aqui. Na realidade, eu sou mesmo do tipo escorpião. Mas julgo que Clara Ferreira Alves
se colocou antes ao nível de um 2.º Conde de Guedes, mais popularmente conhecido por
António de Sousa Lara, o ex-Subsecretário de Estado da Cultura que conseguiu
com o seu anticomunismo primário impelir para fora do país José Saramago. Repito, José
Saramago: escritor, comunista, único Nobel da Literatura
português, que ofereceu o nome à Fundação onde a anticomunista primaveril Clara vai lançar
o seu aguardado (pelos amigos) romance.
O mais palerma da anacrónica crónica não é a declaração
de princípio, nem a reflexão “existencial” (?) — por certo mais ao estilo de Camus
do que de Sartre —, nem o delírio teológico. A autora está no direito de se declarar o que bem entender que nós não temos nada que ver com isso. Sucede que Clara Ferreira Alves não leu o
programa do PCP que eu li, não leu aquele artigo 22.º sobre os benefícios da
crítica e da autocrítica (devia), não leu absolutamente nada sobre o que no
programa está escrito acerca de matéria económica — Um desenvolvimento económico
assente numa economia mista, dinâmica, liberta do domínio dos monopólios, ao
serviço do povo e do país —, são tão facciosas e preconceituosas as suas
afirmações que nos é impossível entendê-las senão aceitando a total ignorância
de quem as profere. Enfim, podia até não perder tempo com leituras que
porventura considerará fastidiosas. Bastaria perguntar aos seus amigos
comunistas, por certo todos eles muito boas pessoas (não por serem comunistas,
mas por serem seus amigos).
Ao dizer que é anticomunista e que tem e teve amigos
comunistas, Clara Ferreira Alves lembra-me o tipo que não é racista, mas odeia
ciganos, a tipa que não é homofóbica porque até tem amigos gays. Presume-se a fadiga da escritora, labutou imenso nos últimos anos para poder dar à luz o oneroso romance
que lhe pesava sobre os ombros. Desenterra patéticas notas biográficas para
justificar a formação do seu ódio, vindo de um tempo em que, enfim, ninguém
poderia como a Clara o fez agora publicar uma crónica com o título “Antifascista,
obrigado!”. E se o pode, muito o deve à luta dos comunistas portugueses que
sacrificaram as suas vidas, repito, as suas vidas, por um país livre. É que uma
coisa é dar o peito às balas, sacrificar a vida, sair da zona de conforto,
outra coisa é andar atrás do prejuízo e outra ainda, bem diferente, é a gente
adaptar-se à situação em função das circunstâncias enquanto brincamos à política em Associações de Estudantes. A isso chama-se
oportunismo, o qual anda sempre de mão dada com o ilogismo.
Repare-se nos chavões utilizados por Clara Ferreira Alves
para formular a sua história vivida (à distância) do país. Quem não era pelos comunistas era
contra os comunistas, frase feita para denotar um maniqueísmo que, afinal, é precisamente
do mesmo tipo daquele em que a autora do artigo se coloca. Só não entendo por que motivo não caiu o país numa guerra civil?! Deve ter sido por mero acaso. Enfim, o que ela crítica
nos comunistas, partindo de pressupostos subjectivos, acaba por ser o norte da
sua pragmática declaração: sou anticomunista. Podem ser contra mim, claro, mas ou são anticomunistas ou não são democratas. Patarata. Pior ainda quando omite por completo «que
ao lento e duríssimo processo da democratização de Portugal» teve atrás de si
40 anos de ditadura fascista, não começou nem se encerrou no PREC, esse
terrífico período que Vítor Silva Tavares, por certo bem mais embrenhado nele
do que a Clara, sintetizou eloquentemente deste modo:
Mortos, que tivesse sido apenas um já seria demais - é o
meu bom coração a manifestar-se. Mas foram poucos, português suavemente poucos,
para tão vergônteo estardalhaço «revolucionário», tanta espingarda distribuída,
diz-se, por tanta mão solícita. Fogos da reacção, lá para as bandas da Maria da
Fonte - alguns, uma caquinha ao pé dos de hoje, climatéricos. Cabeças rachadas,
luxações, entorses - avonde. Cargas policiais em reivindicativos exaltados
(fascismo, nunca mais) - qb. Assassinatos políticos - a direita encarregou-se.
Cercos ao Parlamento, ao Palácio de Belém, ao Palácio de Cristal, ao jornal República do
dinheiro da social-democracia alemã - um dó li tá. Mas quem viu têvê, ouviu
gralhas radiofónicas ou leu os jornais de então (como pode ler agora os apanhados
retrospectivos) é de pôr os cabelos em pé, ai jesus santa maria santíssima:
rios de sangue nas calçadas, turbas a incendiar igrejas e a violar as servas e
servos do senhor, homens de leis e proprietários varados à metralhadora,
campónios a esventrar agrários honestos, generais a deixar crescer patilhas,
pobrezinhos a salvaguardar pratas da família no aeroporto da Portela aguardando
exílios em goulagues distantes, mulherame de mau porte a exibir descaros
mamários, pilhagens, assaltos à mão armada, fuzilamentos, criancinhas
espavoridas, ó mãe, ó maãe. Como na Revolução Francesa, que também «caiu na
rua», o Terror alastrou de norte a sul, cabecinhas ao cesto. Traduza-se:
torrentes da primavera, inflamações retóricas, zaragatas inflacionadas pela
rapaziada merdiática à espera de melhores empregos, de mais lustrosas
escravaturas voluntárias. Excessiva quando muito só a esperança de alguns
ostensivos relapsos ao oportunismo furta-cores num Portugal-outro, numa terra
de gente até que enfim à altura de ser livre e solidária. Apesar do som e da
fúria, o impulso disparado nas várias frentes do «processo revolucionário» não
passou de assim assim. A mim não se me dava que tivesse havido mais. E por
muita verborreia que me fure os tímpanos sobre o advento de uma outra ditadura,
dita «social-fascista», acontece que não sou daqueles que engravidam de orelha.
Capítulo ditaduras, que dizer do império do betão, da praga do automóvel, da
parafernália de tralhas «indispensáveis» (incluindo as «culturais»), da
futebulite epidémica, da anestesia geral televisiva, da espionagem vigilante
para minha «segurança», do medo instalado nos locais de trabalho, do massacre
publicitário do «admirável mundo novo» virtual e da partidocracia metastizante
que reduz o Estado a uma tribo de empregados de escritório ao serviço da
«Economia»? Que dizer, afinal, da ditadura sem rosto visível que nos enleia com
«liberdades», «cidadanias», «desenvolvimentos», «modernidades», «desafios», mas
que a todos toma por gado imbecilizado? Domesticada embora, ou se quisermos
silenciada pela incontinência verbal virada para o interior do vazio, a
indignação hiberna sob um céu de chumbo.
Clara Ferreira Alves sabe o que o doutro Cunhal queria fazer,
está absolutamente certa de intenções e de processos de intenção jamais
confirmados, Clara Ferreira Alves vaticina, adivinha, é uma espécie de Maya, de
Maria Helena, tem lá os seus anjinhos com quem fala sobre estas coisas e sobre
os segredos de Fátima, ela chega ao futuro por A + B fugindo do presente e
fintando o passado. Tem pinta. Lamento apenas não poder ir à Tate Modern para
confirmar as razões de Clara. É de facto uma chatice Portugal não estar
representado por lhe ter faltado a anarquia pop, o protesto pop, a arte pop. Cinzento país, que de pop só mesmo o detergente. Este
país é, de facto, uma tristeza de modernistas e de presencistas e de neo-realistas
e de surrealistas e de palermistas com fartura. Afirmar que «devemos isto ao
PCP e à hegemonia do PCP num país pequeno e sem mercado de ideias, vinculado ao
Estado e aos ditames e subsídios e cargos do Estado» é a prova disso mesmo, na
medida em que se atribui ao PCP um poder que, por certo, gostaria de ter mas,
infelizmente, nunca almejou porque, et voilà, sempre respeitou a vontade
popular expressa nas urnas de voto. Não foi assim? Não é assim?
Lê-se com espanto, a boa crónica, quando o tema é cultura. Lê-se com pena, a boa crónica, quando o tema é política. Pena da ignorância e do preconceito, espanto do absurdo. Clara Ferreira Alves tem da cultura portuguesa a perspectiva do constitucionalista. É tudo prémios e prebendas, é tudo régua e esquadro, é tudo História da Literatura e currículo escolar, é tudo escolástico. Não se distancia nem um milímetro do chamado cânone, de facto muito pantanoso (embora não se veja como por culpa do PCP, esse devorador de criancinhas e, pelo visto, de intelectuais). Clara ignora o “underground” português porque ele nunca ascendeu nem quis ascender aos salões onde a Clara bebe o sumo de laranja natural e come o rissol no decorrer da vernissage. Bastaria ter tido em conta, para não ir mais longe, os catálogos da Afrodite ou da &etc para ficar com uma perspectiva um pouco mais abrangente da cultura portuguesa (em sentido lato). A panorâmica por certo se alteraria, quisesse o preconceito fazer o esforço. Mas não quer. Finda a leitura, aguardemos pacientemente o novo capítulo anunciado: «o PCP sempre foi ferozmente antigay. Só se mudaram. Já lá iremos». Ainda não foi, mas há-de ir se Deus quiser. Assim tenha saúde e o Senhor a proteja dos comunistas. Não agradeça.
Lê-se com espanto, a boa crónica, quando o tema é cultura. Lê-se com pena, a boa crónica, quando o tema é política. Pena da ignorância e do preconceito, espanto do absurdo. Clara Ferreira Alves tem da cultura portuguesa a perspectiva do constitucionalista. É tudo prémios e prebendas, é tudo régua e esquadro, é tudo História da Literatura e currículo escolar, é tudo escolástico. Não se distancia nem um milímetro do chamado cânone, de facto muito pantanoso (embora não se veja como por culpa do PCP, esse devorador de criancinhas e, pelo visto, de intelectuais). Clara ignora o “underground” português porque ele nunca ascendeu nem quis ascender aos salões onde a Clara bebe o sumo de laranja natural e come o rissol no decorrer da vernissage. Bastaria ter tido em conta, para não ir mais longe, os catálogos da Afrodite ou da &etc para ficar com uma perspectiva um pouco mais abrangente da cultura portuguesa (em sentido lato). A panorâmica por certo se alteraria, quisesse o preconceito fazer o esforço. Mas não quer. Finda a leitura, aguardemos pacientemente o novo capítulo anunciado: «o PCP sempre foi ferozmente antigay. Só se mudaram. Já lá iremos». Ainda não foi, mas há-de ir se Deus quiser. Assim tenha saúde e o Senhor a proteja dos comunistas. Não agradeça.
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