terça-feira, 3 de novembro de 2015

JOHN JACOB NILES



Às vezes, depois do café e dos licores, ouvíamos discos de John Jacob Niles. O nosso preferido era I Wonder as I Wander, cantado numa voz aguda e límpida, com um trémulo e uma ondulação muito dele. A vibração metálica do seu saltério nunca deixava de causar êxtase. Niles tinha uma voz que suscitava recordações de Artur, Merlin e Guinevere, havia nele algo de druida. Como um salmodista, entoava os seus versos num cântico etéreo que os anjos transportavam pelos ares para o assento da Glória. Quando cantava acerca de Jesus, Maria e José eles tornavam-se presenças vivas. Um movimento rápido da mão e o saltério produzia sons mágicos que aumentavam o brilho das estrelas, povoavam os montes e os prados de figuras prateadas e faziam os regatos balbuciar como bebés. Continuávamos sentados, muito depois da sua voz se ter extinguido, a falar do Kentucky onde ele nascera, das montanhas da Blue Ridge e da gente do Arcansas. Marjorie, sempre a cantarolar e a assobiar, começava subitamente a cantar uma canção popular simples, uma melodia que conhecíamos desde o berço.

Henry Miller, in Plexus, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, s/d, pp. 53-54.

Sem comentários: