sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ESPELHOS

Levanta-se e vê-se ao espelho. O espelho boceja, ele ajeita o colarinho do pijama. Dirige-se à casa de banho e detém-se por minutos defronte ao espelho. Sente-se perdido sempre que desvia o olhar de si próprio. Salta para a banheira, abre a torneira de água quente e vê-se reflectido no metal do chuveiro. Faz caretas, tenta convencer-se de que entre os contornos disformes e a realidade vai uma enorme diferença. Mas não vai. Enquanto limpa o corpo, mira-se de esguelha no espelho embaciado. Limpa a superfície vidrosa com os dedos e deixa a escorrer no vapor o seu próprio nome. Novamente no quarto, veste-se sempre a olhar-se no espelho do guarda-fatos. Compõe as calças na cintura, a camisa nos ombros, o casaco, a gravata. Deixa depois o casaco pendurado no bengaleiro, arranja a franja ao olhar-se no espelho estrategicamente colocado no hall de entrada, por cima da credência. Não tem espelhos na cozinha, mas tem os metais, os vidros, a janela húmida. Consegue ver-se reflectido na água que deita para o copo e que bebe de um trago. No elevador, dá pela primeira vez os bons dias à sua figura meticulosamente estudada. Hoje será dia de ser ele próprio, a ver-se ao espelho. Enquanto desce a rua, finge olhar as montras. Na realidade, olha-se a si próprio reflectido no vidro impecavelmente limpo das montras. E seja nos transportes públicos ou na sua viatura pessoal, não perde de vista o retrovisor. Gosta de mirar-se a si próprio, aprecia-se constantemente, mede cada ponta do cabelo para verificar se tem a cabeça à altura dos ombros.

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