domingo, 31 de janeiro de 2016

EUROPA

Se há característica que pode diferenciar a nossa época das épocas que a precederam, então essa característica é uma tendencial aceleração dos ritmos de vida. Tal aceleração acarreta consequências, sendo talvez a mais visível uma percepção do tempo diferente da que pautou os ritmos no passado. Aquilo a que alguém chamou o “império do efémero” é o reinado da desatenção, do imediatismo, de uma natural incapacidade para assimilar tudo quanto vemos porque tudo quanto vemos é muito e passa muito depressa. O que é notícia hoje, amanhã deixará de ter interesse. O que nos choca agora, daqui a pouco ficará submerso nos pantanais da futilidade. A história perspectiva-se com esforço, o ócio vive sob ameaça, trazendo, por consequência, ameaças sobre o pensamento e sobre a capacidade que cada indivíduo desenvolve para observar e analisar pausadamente o mundo à sua volta.
Como entender Europa (Tinta-da-China, Dezembro de 2015), o livro com que Rui Cóias (n. 1966) regressa à publicação após 10 anos de “silêncio”, numa época assim? A pergunta justifica-se quando somos confrontados com a exigência determinada pelo volume. O livro exige-nos tempo, pausas, exige-nos uma disposição para reflectir e para contemplar cada vez mais ausentes da epidérmica poesia contemporânea, por culpa, lá está, dos ritmos acelerados com que preenchemos a vida (e não é também a poesia um reflexo da vida?). Exige-nos um entendimento sobre o que nele há de uno e único, a cultura que nos unifica e contamina por misteriosos trilhos. Europa é um livro exigente, não tanto pelo que nele se apresenta de novo (muito pouco), como pela reorganização do que da poesia de Cóias já nos era conhecido.
Até porque nada informa o leitor sobre o facto, diga-se que o grosso deste livro consiste num processo de reescrita e de reorganização dos poemas anteriormente publicados nos livros A Função do Geógrafo (Quasi Edições, Dezembro de 2000) e A Ordem do Mundo (idem, Setembro de 2005). Podemos especular sobre a razão de ser desta opção, sendo provavelmente mais lógico supor por detrás deste dispositivo uma concepção que o próprio autor terá da (sua) poesia. À semelhança do que por vezes sucede com outros poetas, talvez Rui Cóias seja autor de uma obra só (única, una). Nesse caso, a sua produção poética resulta de uma reescrita do fôlego original, ao qual se vão anexando novos fragmentos que com o passado estabeleçam uma unidade temática e formal. Não obstante, não sendo exactamente novos, estes poemas, pela menos a sua maioria, sofreu um processo de transformação de ordem sintáxica que lhes confere renovadas respirações. Seria incorrecto falar de novos teores ou de novas temáticas, mas não é indiferente mencionar uma reorganização, distribuída por cinco conjuntos de poemas, das paisagens que conhecíamos dos livros anteriores, agora em relação com outros textos, ao que julgo saber, nunca antes publicados em livro.
Entre esses destacam-se alguns poemas do quinto conjunto — Doces lágrimas de guerra, Somme, 1916 — que têm por cenário uma das mais sangrentas batalhas na história da humanidade, a Batalha do Somme, ocorrida em 1916 durante a Primeira Guerra Mundial. São poemas que acrescentam à cosmogonia desenvolvida no passado um factor histórico perturbador, manifestando-se através dele as cinzas de um continente afastado das premissas sobre as quais o pensamento se desenvolveu em busca da misteriosa “ordem do mundo”. O sujeito poético deambula pelas paisagens, capta-lhe as vozes, recebe sinais das ruínas sobreviventes à completa extinção, recolhe vestígios, escuta as pedras com que se cruza no caminho, deixa os monumentos falarem por si. Consciente de si: «Na verdade, esta é uma imagem da escrita literária que o mundo moderno coíbe e recusa, um vagaroso afastar de cortinas que deixa entrar a secreta e palustre candeia a gás em detrimento da faustosa e matutina lâmpada de tungsténio, o que para estes fins significa que o objecto importa muito menos do que o fosso da pergunta, uma vez que a resposta, seja qual for a língua em que está escrita ou a cal em que é caiada, deve ser constantemente corrigida e ilustrada e, portanto, expressa e interposta através da nossa pálida e fria presença no mundo» (p. 102).  Este processo constante de indagação e de procura, desde sempre presente na poesia de Rui Cóias, permite-lhe colher numa certa tradição cultural, porventura de pendor romântico, os pontos cardeais que orientam uma produção empenhada na compreensão do tempo a partir do que as representações da paisagem podem acerca dele revelar.
Europa encerra com um ensaio intitulado O Fugaz Tremor dos Campos, ilustrado por imagens que, à maneira do que outrora foi feito por um autor como W. G. Sebald, permitem reencontrar um tempo só aparentemente perdido, na medida em que esse tempo não é um tempo fenomenológico, sujeito às descontinuidades da História, mas sim o tempo ontológico onde tudo se interliga: «na essência, a ênfase de uma obra ou composição artística não reside na experiência retórica, cega, da apreensão contingente, traduzida em palavras rasas, articuladas de acordo com a obediência aos factos ou convicções, mas, por contrário, na marca de uma corrosão, na incidência de um vestígio cuja vista se restringe a partir do sulco da evocação, ou seja, a partir das unidades que se encontram segmentadas pelo curso que as circunda em torno do segredo» (p. 100). Altamente evocativa, esta poesia demarca-se, porém, das práticas mais usuais na contemporaneidade pela aceitação de um mistério que se sobrepõe à racionalidade. Mesmo no seu aspecto formal, com frases extensíssimas desafiando a respiração da leitura, ela advém de uma reflexão e de uma contemplação, ou talvez de uma reflexão contemplativa, sobre o gesto de quem tanto acena à partida como à chegada, tornando assim perto o que parece distante, ligando tudo numa misteriosa unidade:

DOCES LÁGRIMAS DE GUERRA
SOMME, 1916

7.
No Man’s Land

But many there stood still
To face the stark blank sky beyond the ridge
Knowing their feet had come to the end of the world.
Wilfred Owen
Regimento de Manchester, 5.º Batalhão
Sambre-Oise Canal, Novembro, 1918


Agora que estamos sós, no gume que obedece ao eixo pelas chamas,
saltemos sem escrúpulo para o vagão do pó da terra anónima,
pois as palavras da noite dissiparam-se, e o mapa aferroado ao sol foi aberto.

Longas papoilas deitam-se juntas, despertam nos cerros de lã púrpura, à tarde
galgamos o cume, corremos assim na gravilha das pastagens
com os pés tropeando, sem parar, como éguas malhadas.

Partimos, virados apenas a uma direcção, passamos por ela
cobrindo a cabeça, respirando ao largo cada momento que lá chegara,
e sob o primeiro floco caído das lágrimas

que são para nós uma derradeira morte própria
vivemos como por entre o torpor da Primavera, da guerra e da inocência
em que os homens predestinam o que, lentamente, escutam pelos vales.

É um voo sibilante este profundo desígnio,
e também a voz em que marulha a janela de um véu de gerações
é a juventude como o cabelo solto das nossas mentes.

Porque o passado conduz-nos de uma oliveira erguida por nossos pais,
e um dia lutamos na sombra para a abraçar,
e lutamos, folha após folha, ano após ano, rumo ao espinho de outras derrotas. 

ÚLTIMOS DIAS DA PRIMAVERA


Nicolas Poussin (1594-1665), Et in Arcadia ego (1637-38)

7

Et in Arcadia ego


Que longe, entre os relvados
quando a alma avultava nos vigorosos pensamentos, e ficava ilesa
eu seguia imune os solitários vidoeiros
do céu cardado na medusa soerguida, da chama do ouro inútil
da cidade da Arcádia.
E por ser-nos indiferente a juventude, e por esse
amor aos belos, pela noite fátua submissamente isolada na mudez, a vida
porque tão perto do que passa
era aquilo que o futuro ainda desconhece, iludindo o fim desse futuro.

Mas nós somos atraídos aos mortos jovens: amamos
com qualquer desdém a vida breve
ardendo, beijada de dentro, na flor ainda prematura
e caímos exaustos, sem negação, e no engano: — ela, como escuras sebes,
concilia o ânimo sobre o peito — e o erro
por ser o derradeiro, o que culmina, a voz raspada noutra voz, esse coração
nosso que não pensa no que nasce
deixa ao caminho uma rosa possessiva, e julga o amor
pelo mesmo pensamento.


Rui Cóias, in Europa, Tinta-da-China, Dezembro de 2015, p. 19. 

sábado, 30 de janeiro de 2016

PROCURA-SE AMOR


PALAVRAS NOCTURNAS


1

Palavras nocturnas
murmuradas
palavras como borboletas
ofuscadas
palavras de amor
afogadas
na madrugada nascente

2

Angústia clara
de cinzas dispersas
esta mesa taças copos
e o teu rosto do outro lado
longe longe

As tuas mãos
peixes opacos
perdidos no fumo do cigarro
do outro lado

longe longe

do outro lado

3

Em águas profundas
o silêncio do teu rosto
afunda palavras
flores perdidas
na calma parada
Docemente o sol
nasce nas minhas mãos

4

Se alguém hoje te beijar
esse alguém tem a minha boca
eu serei todos os rostos
de olhos ávidos
serei a própria noite
que te apertará a garganta
como um assassino
até que a manhã te leve e te adormeça
longe de mim

5  

Encontros que não marcaste
em ruas que desconheces
eu esperarei
até que as noites deslizem
sobre mim
e eu fique transformada
em árvore

6

Eu hei-de ser um dia
para ti
espuma e vento
e talvez uns olhos fechados.
Mais tarde
apenas uma curva indecisa
na noite

7

Mais uma vez
o tempo estilhaça-se
nas minhas mãos
mais uma vez
tu serás o silêncio
à minha volta

8

Esquecer
o rumor de pinheiro
do teu cabelo
e os teus olhos
de pedras negras
Esquecer
estes dias petrificados
longe de ti

9

Eu serei água
água verde
parada
opaca
e estagnada
Eu serei água
onde só tu poderás
reflectir-te
mais nada


Isabel Meyrelles (n. 1929), in Palavras Nocturnas (1954). Escultora por vocação, Isabel Meyrelles foi a figura feminina por excelência do movimento surrealista português. A obra poética, reunida pelas Quasi Edições em 2004, resume-se a 4 livros publicados entre 1951 e 1976, o primeiro dos quais intitulado Em Voz Baixa (1951). Ainda na década de 1950 fixou-se em Paris, não sem antes escandalizar os cafés lisboetas enquanto fumava o seu cachimbo. Adoptando a língua francesa, alguns dos seus poemas foram posteriormente traduzidos para português por Natália Correia. «Embora Isabel Meyrelles não use da escrita automática nem inunde os poemas de livres associações, há sobre a sua poesia uma pele surrealista. Símbolos e figuras, cores. Um certo tipo de humor e um certo tipo de amor. Um certo tipo de desconstrução. / No movimento, de ida e volta contínuo como quem está no mar, para lá de qualquer coisa - das nuvens, do sonho, do espelho -, o poeta entre num mundo que junta sonho e realidade, ou melhor, num mundo em que não faz diferença se está ou não em vigília, ou melhor ainda, num mundo que cria» (Susana Moreira Marques, Público, 30 de Julho de 2005). 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

JACQUES RIVETTE (1928-2016)

ESCONDER AS PARTES


Christo e Jean-Claude redescobriram recentemente em Roma todo um novo mercado.
(Ao alto, uma das magníficas intervenções do casal em Berlim: Wrapped Reichstag, 1971-95.)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

C DE CULINÁRIA

Vai fazer três meses, referi-me aqui ao nobre proveito alimentício da ficção. Partilhei alguns exemplos da culinária que podemos encontrar entre as histórias que vamos lendo. Deparei-me, entretanto, com um outro tipo de culinária, de tipo nonsense, para usar a terminologia adoptada pelo grande Edward Lear. No livro Jacobo e Outras Histórias (1981), Teresa Veiga incluiu três textos intitulados de Culinária 1, Culinária 2 e Culinária 3. São textos eivados de ironia e com um tom absurdo que não destoa na sua escrita lúcida, embora perversa. No primeiro deles fala-nos de pão fresco e dos seus paradoxais adoradores: «O verdadeiro adorador de pão fresco (e por aqui se vê como a mente humana é cheia de contradições) leva o requinte ao ponto de não desaproveitar nenhuma porção da fornada da véspera». No segundo, porventura o menos interessante, fala-nos de bogas e da fixação do seu tio Alfredo, que azucrinava a tia Zizi com o facto de as bogas serem peixe de água doce. Não interessa revelar como a tia Zizi se vingou do chato tio Alfredo e da sua desgraçada fome de coelho, mas podemos partilhar o terceiro e mais curto dos textos:

CULINÁRIA 3

   «Bom dia, senhoras donas de casa. Hoje vou dar-lhes uma receita muito simples que me foi sugerida por uma pessoa, chamemos-lhe assim, modesta, muito modesta… Isto é para não dizerem que só dou receitas caras.
   A coisa tem a sua piada. Quando cheguei à varanda da minha casa para me despedir do meu marido que ia para o aeroporto no nosso BMW, reparei numa velha sentada a uns metros da minha porta, em frente do gradeamento do jardim, a devorar, reparem, a devorar o conteúdo de uma tigela que me pareceu ser um soufflé muito leve. Ora todas sabem como eu sou perdida por receitas novas… Além disso a velhota parecia maluca com o petisco. No fim do repasto lambeu a tigela, desculpem que o diga mas é verdade, lambeu a tigela e deu um fenomenal, com a vossa licença, um fenomenal arroto de satisfação. Antes que se fosse embora chamei-a da varanda, ela, coitada, lá entrou com muita cerimónia para a cozinha e depois de muito espremida, mal se percebia o que dizia, consegui enfim saber a receita.
   Agora atenção, preparem os vossos lápis e cadernos…
   Compram-se cem gramas de toucinho rançoso, duzentos gramas de carolos de milho e escolhem-se uns talos de couve que convém serem muito secos. Esmaga-se tudo debaixo de uma pedra, deita-se um fiozinho de água, bate-se com as mãos até engrossar e está pronto para ser comido, frio ou quente. Garanto-lhes que é delicioso como acompanhamento de um frango aux champignons.
   Escrevam-me a dizer se apreciaram. E por hoje é tudo. Chauzinho!»

Quem tenha lido ou simplesmente folheado, por mera curiosidade, o injustamente mal afamado Livro de São Cipriano sabe o quanto são úteis estas receitas em tempos de indigência. Oremos para que nunca cheguemos aos extremos propostos por Jonathan Swift em Uma Proposta Modesta, texto incluído por André Breton, muitos anos depois de ter sido originalmente confeccionado, na sua Antologia do Humor Negro, talvez por não ter o surrealista percebido que nesse texto havia tudo menos humor. Escrito em 1729, com meia Irlanda a definhar de f-o-m-e!, a proposta de Swift revela um verdadeiro sentido pragmático da sobrevivência:

   Irei agora, portanto, propor humildemente as minhas próprias reflexões, que espero não sejam susceptíveis da menor oposição.
   Tendo-me sido assegurado, por um americano muito sábio, em Londres, que uma criança saudável e bem alimentada é, com um ano de idade, uma comida deliciosa, nutriente e completa, seja estufada, grelhada, assada ou cozia; e não tenho dúvidas de que poderá ser igualmente servida em fricassé ou guisada.
   Assim, ofereço humildemente à consideração pública que, das cento e vinte mil crianças já contadas, vinte mil podem ser reservadas para procriação, das quais apenas uma quarta parte serão machos; o que é mais do que permitimos às ovelhas, gado bovino ou suínos; e a minha justificação é que estas crianças raramente são fruto do casamento, uma circunstância não muito observada pelos nossos selvagens; portanto um macho será suficiente para cobrir quatro fêmeas. Que as restantes cem mil, com um ano de idade, sejam oferecidas para venda a pessoas de qualidade e fortuna por todo o reino; sempre advertindo a mãe para que as deixe mamar profusamente no último mês, de modo a torná-las rechonchudas e gordas para uma boa mesa. Uma criança comporá dois pratos para uma refeição de amigos; e quando a família jantar sozinha, os quartos anteriores ou posteriores fornecerão um prato razoável e, temperado com um pouco de pimenta ou sal, ainda fará um bom cozido ao quarto dia, especialmente no Inverno.

Por falar em fricassé, quem soube antever-se transformado em refinada iguaria foi o padre Jean Meslier, contemporâneo de Swift, que nas suas saudosas memórias deixou à humanidade a seguinte premonição:

   Que os padres, que os pregadores, que os doutores e que todos os que propagam mentiras, esses erros e essas imposturas se escandalizem com isso e se zanguem o que quiserem depois da minha morte. Que me tratem então, se lhes apetecer, de ímpio, de apóstata, de blasfemo e de ateu. Que profiram contra mim nessa altura as injúrias e as maldições que quiserem. Isso não me perturba nada, pois não me provocará a menor inquietação. De igual modo, que façam nessa altura do meu corpo tudo o que quiserem. Que o despedacem, que o cortem aos bocados, que o assem ou o façam de fricassé, e que o comam mesmo, se lhes apetecer, com o molho que quiserem, pouco me rala.

A mesma atitude não teve Herman Melville, o que se compreende e aceita, quando vivinho da silva se achou entre canibais numa ilha isolada. Tivesse nascido uns séculos antes, poderíamos supor ter sido ele o americano com quem Swift falou. Mas só um milagre no tempo o permitiria. Ainda assim, no romance de estreia Taipi«a palavra «Taipi», no dialecto marquesano, significa aquele que gosta de carne humana» — deixou-nos um relato vivo dos seus anfitriões numa ilha do Pacífico. Ameaçado pela fome, foi sobrevivendo à base de sementes, goiabas e fruta-pão, até ter descoberto várias mistelas com cocos e, mais tarde, carne de leitão. O canibalismo é abordado mais de um ponto de vista sociológico do que gastronómico, mas são inúmeras as receitas proveitosas que podemos recolher nesse belo livro de estreia. Entre elas, até pela simplicidade, a minha preferida é a de peixe cru:

   Lamento relatar um facto muito desagradável, mas os habitantes de Taipi tinham o hábito de devorar o peixe do mesmo modo que um ser civilizado come um rábano e sem preparação prévia. Comem-no cru: escamas, espinhas, guelras e toda a polpa. Seguram o peixe pela cauda, introduzem a cabeça na boca e o animal desaparece com uma rapidez que a princípio quase leva a pensar que o próprio se lançou inteiro pela garganta abaixo.

Nada disto é tão absurdo quanto Melville nos garantir que o seu amorzinho na ilha apesar de comer peixe cru como todos os seus conterrâneos, o fazia com modos muito civilizados. Ora, são precisamente esses modos britânicos que me remetem, mais uma vez, para o bom e velho Edward Lear, ao qual dediquei em tempos uma brevíssima nota de leitura. E depois de ter partilhado aqui uma das suas receitas nonsense, gostaria de terminar repetindo a faceta com uma saborosíssima receita para culinária doméstica:

PARA PREPARAR COSTELETAS MIGALHOSAS

Arranje algumas tiras de carne de vaca e depois de cortá-las em fatias minúsculas continue a cortá-las ainda mais pequenas, oito vezes ou talvez nove.
   Quando tudo estiver assim picado, escove tudo rapidamente com uma escova de fatos nova e mexa rápida e caprichosamente com uma colher de café ou uma concha de sopa.
   Deite tudo numa caçarola e coloque num local ao sol — digamos, no telhado de casa, se este estiver livre de pardais ou de outros pássaros — e deixe-a lá ficar durante cerca de uma semana.
   Ao fim desse tempo, acrescente um pouco de lavanda, algum óleo de amêndoa e umas tantas espinhas de arenque; depois cubra tudo com 4 galões de molho migalhoso clarificado, estando pronto para servir.
   Corte no feitio das costeletas normais e sirva numa toalha de mesa limpa ou num guardanapo.


Bibliografia sumária:

LEAR, Edward, Learicks, trad. (livre) de Célia Henriques com a supervisão literária de Vítor Silva Tavares, & etc, Lisboa, Março de 2005;
MELVILLE, Herman, Taipi, trad. Telma Costa, Editorial Teorema, Lisboa, Junho de 2001;
MESLIER, Jean, Memória, selecção e apresentação de Armand Farrachi, trad. Luís Leitão, Antígona – Editores Refractários, Lisboa, Janeiro de 2003;
SWIFT, Jonathan, Uma Proposta Modesta / Um Argumento contra a Abolição do Cristianismo, trad. Pedro Costa, ilustrações de Frederico Penteado, Alfabeto, s/l, Fevereiro de 2011;
VEIGA, Teresa, Jacobo e Outras Histórias, 1.ª edição – 1981, Biblioteca Editores Independentes, n.º 084, Lisboa, Junho de 2010.

UM POEMA DE JORGE DE LIMA

O FILHO PRÓDIGO

Nas engrenagens das fábricas
bolem como vermes — dedos decepados de operários.
Há intestinos rotos de crianças
nos vais véns do correiame das oficinas.
A cor e a alegria das moças empregadas
dissolve-se na algazarra monótona dos teares.
O avião comeu a saudade das mães
que a distância separou dos filhos vagabundos.
Há máquinas que cegam os adolescentes
ansiosos de ver o progresso do mundo.

Um homem teve medo de enlouquecer
perseguido pela força e pelo orgulho
das máquinas assassinas.

Cadê a luz trémula de vela
para alumiar o meu poema antigo?
O lirismo perdeu a sua liturgia.
As lâmpadas Osram velam funebremente a poesia.

Ah! que existe uma tristeza na terra
que nem lágrimas produz
de sua esterilidade tão seca.

Eu sou um corpo distraído.

Boiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto perto das estrelas.

Vovozinha venho de longe
ando há muitos séculos a pé.

Ensina-me de novo a ficar de joelhos
que já é tarde e eu quero-me deitar.



Jorge de Lima (n. 23 de Abril de 1893, União dos Palmares, Alagoas, Brasil - 15 de Novembro de 1953, Rio de Janeiro, Brasil), in revista Presença, n.º 33, 1931, posteriormente antologiado por Adolfo Casais Monteiro, in A Poesia da "Presença", 3.ª edição, Livros Cotovia, Outubro de 2003,  pp. 108-109.

EMENDA

As ameaças de Bruxelas, a troika de novo a meter o bedelho, Dinamarca a confiscar refugiados com o apoio maioritário da sua população, Itália vergada ao presidente do Irão, Trump na América, milícias armadas nos EUA, os refugiados e um brutal silêncio sobre Darfur, Ucrânia, Síria, Iraque, Palestina, Tchetchênia... Perder tempo com palermices?

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

COISAS MESMO MUITO BOAS


As canções de José Afonso, todas sem excepção, não conheço uma menos boa, chega a ser frustrante. Dá-se até o caso de algumas delas soarem bem mesmo quando são mal interpretadas. Era Um Redondo Vocábulo, por exemplo. Soa sempre bem, mesmo quando está mal.

COMEÇAR POR AQUI

Ao longo da viagem, cruzamo-nos com certas personalidades que são, em si mesmas, a prova do quanto vale andar por aqui a remoer sucessos e insucessos, reconhecimento público, prebendas, elogios. Vale nada. Quem fixa um nome? Com que critérios se impõe à história uma poesia em detrimento de outra? Por que são reeditados, acarinhados, estudados certos escritores e não outros? Quem determina a relevância de uma obra? Dir-me-ão que é o tempo, mas dentro do tempo não palpita um coração nem um cérebro funciona. É tudo humano e reles, deveras humano e reles. 
O ano passado desenterrei dos arquivos António de Navarro, propondo-me fazer com ele algo semelhante ao que um ano antes tinha feito com António Pedro. Levei-os à praia, andámos de mão dada pelas ruas, sentámo-nos numa esplanada a saborear palavras, café e aguardente. De António Pedro relembrei o Protopoema da Serra D’Agra e Apenas uma Narrativa, obras que levaram Jorge de Sena a falar do autor como «o primeiro português distintivamente surrealista». Mas fui mais longe, ao colocá-lo aqui numa ponte possível entre o modernismo e o surrealismo. Com António de Navarro talvez faça sentido falar de um “segundo modernismo”, o qual foi reinventado pelas múltiplas vozes da revista “Presença”. Entre elas, a de Navarro com Poema do Mar é uma das mais inquietantes. Bastaria este Dístico para o confirmar, sendo igualmente útil uma perspectiva mais alargada a partir de Metal Translúcido
Mas nem os elogios de Jorge de Sena nem as palavras de Adolfo Casais Monteiro chegaram para conquistar um lugar de memória a este poeta:

Pouco mais que um desconhecido, tendo uma obra extensíssima quase inédita, da qual os seus raros livros publicados nem sempre dão a melhor imagem, António de Navarro é talvez, de todos os poetas portugueses contemporâneos, aquele que está mais longe de ter encontrado a audiência que o melhor da sua poesia lhe faria merecer (…)

Ultimamente, o nome de Afonso Duarte tem aparecido amiúde. Serafim Ferreira dedicou-lhe um texto memorável neste Sombras e Lugares, surgindo Afonso Duarte regularmente na companhia de outros poetas como figura influente. Jorge de Sena cita-o a propósito de João José Cochofel ou Papiniano Carlos, sendo que Óscar Lopes e A. J. Saraiva não deixam de o referir quando escrevem sobre Carlos de Oliveira. Quem lê hoje Afonso Duarte (n. 1884 - m. 1958)? Onde andam os seus livros? Quem foi, o que fez, por que a ele se referem tantos poetas? Quem ou o que o calou?

CALAI

Calai os versos abstractos
e a mansidão dos olhos que têm os bois pacatos.

Calai tanto, tanto espírito na terra
e a cristaníssima paz que nos faz guerra.

Calai, promessas d’anjo, o céu sublime,
quando as mãos, cheias de oiro, trazem máscaras de crime.

Calai loas d’amor às crianças maltrapilhas
que esses farrapos d’alma não lhes cobrem as virilhas.

Calai as lágrimas à beira dos enfermos:
prefiro a solidão que é soluço nos ermos.

Calai, palhinhas de Jesus, que sois ai de quem ama:
paz na Terra e no Céu: ao cristão, ao judeu, e à gentílica moirama.

Calai-vos, bêbados aos bordos nas estradas:
para matar tristezas, Nª Sª das Dores com suas sete espadas.



Coimbra, 1935

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

HÁ VIDAS ASSIM

Há vidas assim, desaparecem sem que delas tenhamos notícia. Só o acaso nos recorda o rasto que deixaram, e pelo rasto vamos em busca de nada. Talvez mais uma demonstração do quão vã é aquela vaidade que pressupõe eternidade onde tudo é efémero. Foi por acaso que soube da morte de Serafim Ferreira (n. 1939 - m. 2015), ao abrir Editor Contra e aí me deparar com a notícia. Que tenha dado por isso, ninguém se lhe referiu nos tradicionais obituários que é costume enaltecerem as virtudes dos mortos e omitir-lhes os vícios que praticaram em vida. Excepção feita a Baptista Bastos, que numa crónica do Jornal de Negócios, datada de 6 de Março de 2015, recorda: «O último grande militante da literatura, e da cultura de uma forma geral, morreu na quarta-feira. Chamava-se Serafim Ferreira, tinha 75 anos, e passou a vida a falar dos outros, a escrever dos outros, a promover os outros». Há vidas assim. Esta vocação para falar dos outros ficou patente em muitos dos seus livros, entre os quais Sombras e Lugares (Editorial Escritor, Outubro de 1993) surge agora com inquietante actualidade. Nesse livro, o autor de Noite de Libertação (1960) entra em diálogo directo com os mortos. Com os seus mortos. As dedicatórias são, talvez, testemunho de afinidades e proximidades (Ramiro Teixeira, Vergílio Ferreira, Raul de Carvalho, Herberto Helder, António Fernando, Alfredo Martins, Luís Pignatelli, António Augusto Menano, Albano Martins, Luís de Miranda Rocha), mas a escolha dos interlocutores sugere algo mais. Motivado pelos lugares e pelas situações, Serafim Ferreira divaga e delira em diálogo directo com Cesário Verde, Raul Brandão, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Ângelo de Lima, Almada Negreiros, Manuel Laranjeira, Afonso Duarte, Raul de Carvalho e Aureliano Lima. O autor chama-lhes ficções, mas estas evocações extravasam o domínio ficcional. Penetram a biografia no que ela tem de mais profundo e existencial, não sendo ocasional a quase omnipresença de um pendor desassossegado que tem na solidão e no abandono as chaves mestras para o entendimento de certo desencanto que, perdoem-me, oferece à vida daquele que cria o encanto da criação. Cesário morreu, aos 31 anos, tuberculoso e ignorado. Não viu sequer o seu livro publicado em vida. A desilusão foi companheira para a vida e para a morte. Raul Brandão, o autor de Húmus (1917), foi em si mesmo a personificação de um certo sentir português, melancólico e inquieto, desamparado. O Álvaro de Campos de Fernando Pessoa  oferece a Serafim Ferreira a imagem possível de um país que é o nosso: «— Portugal é uma plutocracia financeira de espécie asinina. É, como todos os países modernos, excepto, talvez, a Itália, uma oligarquia de simuladores. Mas é uma oligarquia de simuladores provincianos, pouco industriados na própria histeria postiça. Ninguém já engana ninguém — o que é tristíssimo — na terra natal do Conto do Vigário» (p. 50). Atrevam-se a definir quem aqui fala. Logo a seguir, aparece-nos Mário de Sá-Carneiro. Matou-se antes de completar 26 anos de idade. Sobre Ângelo de Lima, Serafim Ferreira ensaia um testemunho para guardar entre os melhores que conhecemos acerca do poeta louco de Rilhafoles. A poesia enquanto refúgio, o desespero, uma profunda desilusão, não são marcas de um homem só, muito menos de um único homem só tomado por louco. São a marca essencial daquele que cria. Que loucura é esta nossa que, acossados pelo tédio, lhe declaramos guerra como loucos, desesperados da alegria que a todo o momento a desilusão nos furta? Há, pois, entre Serafim Ferreira e os seus interlocutores uma sombria cumplicidade, uma identificação íntima que o sentido prático da vida se encarregará de ora disfarçar, ora evidenciar. Com Almada faz um ajuste de contas. Manuel Laranjeira, outro que se suicidou na flor da maturidade (tinha 35 anos), é o rosto do tédio assaltado pela depressão. Afonso Duarte «simbolizava, para quem desejava ser aprendiz de feiticeiro, a bandeira da coerência e do civismo, o exemplo de partilhar com os outros, mesmo no arrepio da doença e da perseguição política, esse sonho de liberdade gritada e revivificada na dorida experiência de tantos dissabores e martírios» (p. 121). Ficções, pois bem, mas também biografia e memória, a vida própria repassada como uma espécie de Frankenstein composto de valores e de atitudes, de gestos e de inclinações, de predisposições morais e de tendências existenciais, de paixões e de medos, de tudo quanto, ao fim e ao cabo, descamba em solidão e esquecimento. Mas uma solidão que nunca está definitivamente só, por se fazer acompanhar, lá está, das sombras que a revisitam através dos lugares que as sugestionam. O texto acerca de Raul de Carvalho é exemplar nesse sentido, também por nele ser evocado o lugar mais próximo da sombra: «A casa do poeta é quase sempre (nos casos verdadeiros de ser poeta) o reflexo mais exacto da sua imagem: sem ele querer, assim constrói (e se constrói) o «círculo» em que se movimenta, onde faz entrar os seus fantasmas e com eles se entende, quando preenche com sangue, raiva e desespero o papel em branco da própria amargura» (p. 132). De reflexos de sombras, se enche, portanto, este belo livro de Serafim Ferreira, sobre cuja perda, além de Baptista Bastos, conhecemos apenas mais um testemunho, o que Júlio Conrado assinou a 30 de Julho de 2015: «Em certo sentido, Serafim Ferreira era a réplica nortenha do lisboeta João Gaspar Simões enquanto presenças constantes e interventoras na cena literária doméstica, e não raro as suas opiniões sibilinas exasperaram alguns monstros sagrados do neo-realismo ou aparentados, dos quais recolheu a sua ração de ódio e vindicta». Há vidas assim.

PRESIDENTE ENGRAÇADINHO E POPULISTA



Nunca como hoje o discurso politicamente correcto teve tantos zeladores, perversamente convertidos a um moralismo hipócrita e oportunista. Num ambiente destes, qualquer afirmação pública (e não só, tal é a facilidade com que se torna público o que era privado) vê-se agrilhoada ao banal e ao previsível, escrava de uma razoabilidade que é determinada pelos grandes chavões do moralismo vigente. Entre eles, o da paridade e o da igualdade. Se me irrita tanto o discurso populista anti-partidos é precisamente pela mesma razão que me irrita o discurso castrador daqueles que vivem tão obcecados com a igualdade que nem se apercebem da contradição em que caem quando tratam da mesma forma o que é desigual. Quero com isto dizer que acho de um vitorianismo insuportável pretender colar estas afirmações a uma qualquer atitude ou pensamento machistas, quando não se tem a mínima hesitação em sublevar uma candidatura pelo simples facto de a candidata ser mulher. Comparar isto com o discurso machista, esse sim, machista, de Pedro Arroja acerca das “esganiçadas” do BE é um insulto à inteligência de qualquer pessoa. Jerónimo pode ter sido injusto na leitura irónica que fez da candidatura do BE (que certamente obteve o seu resultado não apenas por conta de um discurso populista e dos atributos físicos da candidata), mas foi um momento de ironia, só isso, que em nada desrespeita os atributos intelectuais de Marisa Matias e a forma como esta se bateu. É curioso, até, que algumas das mulheres que noto irritadas com a declaração de Jerónimo não tenham hesitado em soltar o seu piropo aos cartazes da CDU aquando da candidatura de João Ferreira às europeias. E fizeram muito bem, que o rapaz é realmente giro. Passamos a ter dois pesos e duas medias no que respeita à legitimidade dos piropos? As mulheres podem comentar a beleza física de um candidato e um homem não se pode referir à beleza de uma candidata? Posso comentar a beleza de Iúlia Timochenko ou a de Cristina Kirchner? Será displicente considerar que essa beleza ou, se quiserem, o bom aspecto das protagonistas pode ter dividendos eleitorais? Ao afirmar o que afirmou, Jerónimo quis sublinhar a dimensão mais importante do candidato apoiado pelo PCP: era um candidato de causas. Mais do que pôr em xeque o desabafo no rescaldo das eleições, deve pôr-se em causa esse dado muito objectivo de que o currículo humanista de Edgar Silva, de combate efectivo pelos mais carenciados e de afronta aos poderes instalados, não mereceu tanta simpatia como hoje merecem outros predicados, porventura mais facilmente rentabilizáveis num mundo onde o que conta é a imagem. Tino de Rans, a fazer buracos na areia, teve quase tantos votos quanto o candidato apoiado pelo PCP. Isto obrigará a uma leitura, sendo certo que a solução não deverá passar pela cedência aos mínimos de exigência política hoje reclamados por quem vota. Muito mais importante será reconquistar quem não vota, fazendo da abstenção, e não dos piropos, o principal inimigo da democracia. Há, pois, nesta afirmação uma leitura do mundo e da actualidade que as pessoas não querem debater, preferindo desviar as atenções para aspectos completamente fúteis. Repare-se como ela é igualmente válida para o candidato vencedor. Que as pessoas se foquem “na engraçadinha” é um sinal da sua falta de disposição para o debate político, sendo-lhes preferível perder tempo com o superficial e assim fortalecerem candidatos engraçadinhos e populistas que até chegam a Presidente da República. Só a título de exemplo, repare-se no que para a mesma pessoa é um disparate grosseiro e uma afirmação merecedora de aplausos:


Clique na imagem para ver melhor. Perante tamanha coerência, mais comentários para quê?

NOJO MESMO

Segue-se um programa de tortura e de expiação nas redes sociais. As patrulhas moralistas estão em brasa, já prepararam o pelourinho e afiaram os chicotes. Giro, giro, era um processo tendo por base aquela coisa do piropo. Mas primeiro vejam as imagens, metam a mãozinha na boca antes que vos salte o perdigoto, e digam-me lá se há alguma malícia na afirmação e no contexto em que é proferida. Contexto esse, de resto, mas não por acaso, completamente adulterado pela imagem reproduzida acima. Na íntegra, o que Jerónimo diz é: Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, portanto, enfim, com um discurso ajeitadamente populista que pudesse aumentar o número de votos. São opções e eu não quero criticá-las. Ouvir aqui. Mas é óbvio que há um interesse muito mais básico no decalque truncado das afirmações. O Marcelo sabe qual é, percebe do assunto.

ARRANJEM-ME UMA 1.ª DAMA



   À hora a que escrevo, está 1 freguesia por apurar. Marcelo Rebelo de Sousa sucederá a Cavaco Silva enquanto Presidente da República Portuguesa, numas eleições onde metade dos eleitores não votou. Fixe.
   Se somarmos brancos e nulos à abstenção temos a módica percentagem de 52, 1%. 4805540 votos contra os 2397508 que elegem o Presidente. Podem os especialistas falar da desactualização dos cadernos eleitorais, da emigração, etc.. A verdade, crua e dura, parece-me outra: a maioria dos portugueses está-se marimbando para o assunto, mesmo com "candidatas engraçadinhas".
   Ainda ontem falei com pessoas (duas) que nem sequer estavam a par das eleições. Não censuro essas pessoas. Lamento o seu desinteresse, tanto quanto lamento a ausência de um contributo sério para que algo mude na mobilização do eleitorado. Repito: contributo sério.
   De um modo geral, os dez candidatos eram fracos. Não querendo parecer sectário na análise, prefiro concentrar-me na figura de Marcelo. Há 15 anos que o homem visita semanalmente os lares portugueses, 15 anos de exposição mediática que fizeram dele uma estrela do comentário político, um produto televisivo de extrema popularidade ao qual ninguém resistiu quando foi necessário vender o seu peixe. Nem Daniel Oliveira, o ex-comunista, ex-bloquista, que requisitou os serviços do professor para o lançamento do seu livro A Década dos Psicopatas
   Como é óbvio, tanta simpatia pela personagem seria difícil de combater agora por uma certa esquerda que nunca aprendeu a nadar no caudal das suas próprias contradições - como há muito o Professor demonstrou saber fazê-lo.



   Não duvido que Marcelo venha a ser o Presidente de todos os portugueses e de todas as portuguesas (divisão deveras irritante, sobretudo na boca de quem não tem uma 1ª dama para nos oferecer). Tenho é sérias dúvidas de que a sua leitura do que e de quem são os portugueses seja a mais honesta, isenta e inclusiva. 
  Mesmo com tanta popularidade, repare-se que Marcelo consegue um resultado muito inferior ao que foi sendo alvitrado pelas sondagens, um resultado ao nível do de Cavaco em 2006 ou do de Mário Soares na histórica 2.ª volta de 1986. Isto só prova que foi a opção possível, uma espécie de mal menor no ranking das afectividades. 
   O povo que oferece 151781 votos a Vitorino Silva tem toda a legitimidade para se interrogar sobre quem é Sampaio da Nóvoa. E de facto quem é Sampaio da Nóvoa? Alguém sabe? Temos uma ideia vaga de quem sejam Marisa Matias, Maria de Belém e Edgar Silva, mas não temos nenhuma ideia de quem seja Sampaio da Nóvoa. Fazendo uso de uma sagacidade política que ninguém lhe nega, Marcelo apoiou-se precisamente nesta fraqueza do seu principal opositor. E ganhou. 
   Ganhou, deste modo, apoiado no seu mediatismo e na ausência de mediatismo do seu principal opositor. Mais do que ser de todos os portugueses, este será, pois, o Presidente dos mass media, de um país reduzido à lente dos meios de comunicação social e aos filtros interesseiros e tendenciosos de uma imprensa cativa de audiências. 
   De resto, não é por acaso que o popularucho Tino de Rans almeja um resultado a par do de José Manuel Coelho em 2011. Ou que Marisa Matias, favorecida pela boa imprensa do BE, com o seu próprio professor de apelido Louçã, alcança um resultado histórico. O peso da televisão e dos meios pelos quais hoje a televisão se repercute é inegável nestes resultados. 
   Um dado curioso, que talvez mereça alguma reflexão futura: Marisa Matias + Edgar Silva conseguem 14,02% dos votos, ou seja, praticamente o mesmo que, em 2006, conseguiram Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã – 13,96%. Estes números reflectem um peso relativo da esquerda nas presidenciais, as quais continuam a jogar-se no “centrão” do terreno político. 
   O mais que a esquerda pode conseguir em eleições desta natureza é tempo de antena para todas aquelas questões que não interessa discutir nas presidenciais, as questões que realmente importam. O grosso da campanha foi um novelo de bitaites e soundbites sem qualquer conteúdo político relevante. Isto é, a praia predilecta do candidato vencedor.
   Mas há um lado positivo no dia de hoje que não devemos descurar, vamos livrar-nos de um coador de livros em horário nobre. Finalmente libertos das sugestões do simpático Professor, poderemos reforçar a nossa esperança na reconquista de uma certa independência e autonomia de gosto que tem faltado aos portugueses. Valha-nos isso.


P.S.: analisem-se estes números, por favor. Isto é a falência da democracia em marcha.

domingo, 24 de janeiro de 2016

CARTA


Por mais que me asfixies de sombra
não impedirás que eu encontre a custódia
onde o meu amor entesourou divindades
nem que tuas impressões digitais
dancem no meu ar como poeira de abelhas
Por mais que te aumentes de silêncio
não conseguirás calar a tua voz
que ceifa num clarão a seara dos meus desejos

Podes entrançar cordas de distância no rumo decidido
que as nossas vidas terão as mesmas fronteiras
e registado na eternidade ficará o nosso abraço incomum

Se foste meu mestre
eu ensinei-te uma linguagem sem símbolos e sem intérpretes
Se foste meu deus
eu criei-te um universo e um infinito que te batem no pulso

Se teu riso com espadas de carne
punha meu corpo tenso em volutas de êxtase
o meu riso com sirenes de sangue
cobria-te de polpas frescas e saciava-te de dia

Podes multiplicar teus sonhos como hipóteses
que a realidade é eu ser gémea da tua realidade
E se não venço a dor de me saber póstuma em ti
lanço lavas astrais na minha caravela
que sulcará para sempre a tua água inaugural!


Leonor de Almeida (n. 1915 - ? ), in Terceira Asa (1960). Não é fácil encontrar informação sobre Leonor de Almeida, misteriosa poeta, nascida no Porto, representada na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (M. Alberta Menéres, E. M. de Melo e Castro) e na Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (Natália Correia). Publicou Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953), Terceira Asa (1960)... Colaborou com vários jornais (Diário de Lisboa, O Primeiro de Janeiro, Diário do Minho, Jornal de Notícias...). O que dela se conhece sugere, pelo menos, uma vontade de conhecer mais.  «Leonor de Almeida, que António de Serpa classificou de nossa primeira poetisa, é, de facto, diferente de todas. Uma vocação, onde há, por vezes, laivos de genialidade; uma sensibilidade que dir-se-ia captar os inaudíveis ultra-sons do mistério, do amor, do sofrimento, uma dádiva plena, não, apenas, à vida, mas ao universo cujos elementos percorrem e cantam neste seu belo livro «Caminhos Frios» (aqui)». 

sábado, 23 de janeiro de 2016

PERÍODO DE REFLEXÃO


Estou a reflectir. Completamente mergulhado em reflexões.


Calma, filha, deixa-me pensar mais um bocadinho.


Pronto, convenceram-me. Vou votar no Edgar.

O LADO DE LÁ

Interessante, este artigo sobre o peso relativo das candidaturas no Facebook. Podemos até vislumbrar nele uma premonição, o futuro ali escancarado à nossa beira. Há-de chegar o tempo, até por razões de poupança, em que as urnas serão enterradas. Vencerá quem tiver mais likes na página do Facebook. Segundo o artigo, o vencedor estaria garantido. Mas entre os likes e a realidade há uma ponte chamada ilusão. Isto é como criar um evento onde 1000 manifestam intenção de ir. Aparecerão 10. A métrica da amizade também não anda longe disto, permitindo-me ser ainda mais incrédulo. Há tempos, um escritor amigo, amigo de amigo, dizia-me ter largas centenas desses coisos na rede. Publicou um livrinho de poesia, do qual se fizeram 100 exemplares, e convidou toda a gente. Apareceram 12 pessoas. Nada mau. O livrinho levou dois anos e meio a esgotar. 100 exemplares. Este admirável mundo novo é uma maravilha, releva ainda mais aquele poema do Álvaro de Campos sobre os príncipes na vida. Do lado de lá da ponte da ilusão é só campeões, do lado de cá o ridículo dá porrada. Não admira que tanta gente se entusiasme com o lado de lá.

BESt friends forever


Palavras para quê? Portugal vai a votos.

DISFUNÇÃO OPINATIVA


Medina Carreira diz: Isto pode ficar ainda pior.
Vasco Pulido Valente acrescenta: É o degredo total.
António Guerreiro cita: Como diria Walter Benjamin.
António Barreto pergunta: Alguém sabe onde fica o WC?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

PENTEAR MACACOS


E agora imaginem que em vez de uma cabeça tinham um par de tomates. E que em vez de uma cabeleireira tinham os pentelhos de Eduardo Catroga. Et voilá, aí têm o futuro Presidente da República de Portugal a pentear os pentelhos do presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP. Só lhe falta fazer política. 

RELATIVA LOUCURA

   — Olha, Ângelo, ainda ontem na paragem do autocarro, na avenida que tem o nome de Miguel Bombarda, sem atinar as razões de tão súbito destempero, um jovem de cabelo rapado, todo vestido de negro, desatou aos insultos de «cabrão», «cornudo», «filho da puta», só porque alguém lhe passou à frente. Talvez não gostasse de estar em bichas, no mesmo aperto em que te puseram no átrio do Teatro Dona Amélia.
   Se acaso não fossem agora tão brandos os nossos costumes e outro qualquer Bombarda espiolhasse o passado do jovem de quem te falo, certo e sabido que o internariam no Júlio de Matos e ali o tratariam como alienado, mesmo que raivosamente gritasse, como tu fizeste:
   — Eu não estou doudo!
   E, sabes, nada lhe aconteceu.


Serafim Ferreira, in Sombras e Lugares, Editorial Escritor, Outubro de 1993, p. 88.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A PROPÓSITO DE CENTENÁRIOS

Manoel de Barros (19 de Dezembro de 1916 - 13 de Novembro de 2014), Budd Boetticher (29 de Julho de 1916 - 29 de Novembro de 2001), Mário Dionísio (16 de Julho de 1916 - 17 de Novembro de 1993), Léo Ferré (24 de Agosto de 1916 - 14 de Julho de 1993), Álvaro Feijó (5 de Julho de 1916 - 9 de Março de 1941), Unica Zürn (6 de Julho de 1916 - 19 de Outubro de 1970), Cabaret Voltaire... Foi também em 1916 que se suicidou um dos maiores poetas portugueses de sempre: Mário de Sá-Carneiro.