quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

#71


Já não me recordo onde nem quando, e não estou para verificá-lo, mas uma vez assisti a um concerto do californiano Ben Harper e fiquei surpreendido com a chinfrineira que abafava por completo a actuação do músico. Foi num desses concertos em que, por ser demasiado o ruído de um público desinteresso e indiferente, ficamos a apreciar mais o músico asfixiado. (Nota de rodapé: aconteceu-me o mesmo com uma Laurie Anderson a abrir para Bob Dylan em Cascais, num concerto que era para ter ocorrido em Belém com Sérgio Godinho a abrir). Welcome to the Cruel World (1993), o álbum de estreia, tem mais de vinte anos, mas olhamos para a imagem do protagonista reproduzida no interior do libreto, de punho erguido sob uma mira ameaçadora, e percebemos quão pertinente era o manifesto. Harper apresenta-se ao público sentado, a tocar slide guitar com ritmos e melodias respigadas no cancioneiro reggae, folk, blues, soul, acrescenta-lhe letras com uma forte consciência social, numa altura em que os escritores de canções preteriam tudo o que cheirasse a intervencionismo em favor de poemas melodramáticos sobre paixões desfeitas. Ainda para mais, confundem-se nas suas canções as dimensões espiritual e social, sendo as mesmas indissociáveis de um modo de olhar para o mundo que resgata o pacifismo e a mensagem libertadora das décadas de 60 e de 70. O vídeo que a seguir se reproduz celebra 20 anos de mundo cruel, com uma serenidade que chega a ser desconcertante para os dias que correm. É ouvi-lo e, tanto quanto possível, fazer disso inspiração:


1 comentário:

Diogo disse...

http://osalpesjulianos.tumblr.com/