sábado, 30 de janeiro de 2016

#74


Em 1994 eu ia fazer 20 anos, frequentava o segundo ano de uma licenciatura em Filosofia, passava muito tempo nas livrarias e nas discotecas (estabelecimentos onde se comercializavam discos). Curiosamente, já ouvira falar do malogrado escritor de canções Tim Buckley. Mas nunca me interessara verdadeiramente, não a ponto de lhe procurar os discos nas discotecas. Só mais tarde, só mais tarde. Já depois de ter pasmado com a estreia de Jeff Buckley (1966-1997) neste gracioso Grace (1994). As versões de Hallelujah, original de Cohen, e de Corpus Christi Carol, de Benjamin Britten, conferiam uma espiritualidade ao conjunto ausente na maioria das bandas bem sucedidas à época. Mas o mais impressionante era a voz de Jeff Buckley, um murmúrio a ser esticado até ao limite, sem nunca quebrar, sem nunca deixar cair uma das palavras inacreditavelmente equilibradas no timbre. Um cantor de primeira, a varrer para um canto muitos dos melhores que então se apresentavam no universo rock. Talvez apenas Thom Yorke, dos Radiohead, pudesse ser equiparado. Mas as canções de Grace, sobretudo as assinadas por Buckley a título individual (Last Goodbye, Lover, You Should’ve Come Over, Eternal Life), eram de uma depuração emocional que não podia confundir-se com explosões sentimentais mais ou menos nevróticas. Jeff Buckley morreu cedo, conseguindo ainda assim o que poucos conseguem andando por cá uma vida inteira. Deixou algo que perdurará para lá das nossas vidas:

3 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Um dos discos da minha vida (não é que goste muito da expressão, mas, no caso, é mesmo assim).

hmbf disse...

Pois é, Carlos, também não aprecio a expressão, mas é mesmo assim. Tenho estado a ver vídeos do Tim Buckley no Youtube e sugiro vivamente. Ora vê lá esta entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=p4CCuJblouo .

Carlos Azevedo disse...

Muito obrigado, Henrique; vou ver.