terça-feira, 19 de janeiro de 2016

É PRECISO SER PEDRA


Uma das tragédias que as redes sociais trouxeram ao mundo manifesta-se na influência exercida sobre a forma como os meios de comunicação procuram responder às ansiedades do público. Há muito que sabemos ser popularíssimo o negócio da pornografia, pelo que não estranhámos nunca o sucesso dos reality shows. O problema está em que as redes sociais transformaram a nossa vida, em parte, num reality show. Tudo se mostra, tudo se vê, tudo se exibe, tudo se comenta, tudo vale desde que seja para aparecer e sacar seguidores (forma moderna de subscritores) e likes. Gente sábia, culta e inteligente deixa-se enredar no jogo, não lhe resiste nem se lhe opõe. A verdadeira democratização destas redes é a forma como coloca todo e qualquer ser humano ao mesmo nível, deixa de haver diferenciação, distinção, baseada na cultura, no saber, no conhecimento. Somos todos espectadores de um Big Brother a céu aberto, somos todos espectadores das nossas próprias vidas. Estamos todos num baixo nível, diria mesmo rasteiro. Como respondem os meios de comunicação a isto? Como sempre respondeu quem luta pela sobrevivência. Li há dias que ao ter ficado no desemprego um grande ilustrador sobreviveu a publicar revistas pornográficas. A pornografia e a prostituição são um negócio sempre em expansão, sendo que nem sempre se circunscrevem à temática sexual. Há muita pornografia baseada na morte, na perda. Em torno de guerras e de atentados, alimenta-se imensa pornografia. O mesmo se faz quando desaparecem figuras públicas. A pornografia explora as emoções e os sentimentos mais básicos, ou seja, aqueles sentimentos e aquelas emoções que fazem de nós seres humanos, que coloca a todos ao mesmo nível, precisamente os sentimentos e as emoções que mais validam a nossa presença na grande comunidade do tal Big Brother cibernético. Perante a ausência de quaisquer valores que configurem o campo de acção e interacção nessas redes, podendo tudo ser resumido a um simples gosto, os valores mais altos que aí se impõem são os das emoções básicas. Gosto. Não existe sequer o desgosto. A ausência de gosto é mera ausência, um vazio do tamanho do esquecimento. Só o gosto conta. Emociona-me, não me emociona. Diverte-me, não me diverte. Seduz-me, não me seduz. Excita-me, não me excita. E na base disto circulam milhões de imagens, pseudonotícias, vídeos, partilham-se milhões de ficheiros sempre com as mesmíssimas intenções. Os meios de comunicação respondem a isto fazendo igualmente parte disto, alimentando isto com as suas futilidades, com o que pode gerar no imediato as reacções mais acéfalas. Um fenómeno curioso neste início de ano foi assistir à proliferação de notícias acerca do desaparecimento de figuras públicas. Depois de ter morrido David Bowie, tem sido um ver se te avias de figuras públicas a morrer. Acontece que algumas delas já desapareceram há anos. Assim, lamenta-se a morte de Vasco Granja como se tivesse morrido ontem. Ravi Shankar morreu hoje. O saudoso Engenheiro Sousa Veloso há dias. E ninguém falou do assunto, lamenta-se. E ninguém diz nada? Critica-se. É, de facto, um insulto à nação e uma ofensa à memória dessas pessoas que a sua morte passe despercebida. Nem que seja anos depois de ter acontecido. A cereja no topo do bolo neste frenesim mediático é o Correio da Manhã a anunciar o desaparecimento de Capoulas Santos. Podia ser só uma gralha, não fosse mais uma prova do desastroso mundo em que vamos sobrevivendo. Fica-se sem saber em que acreditar. Será que Almeida Santos morreu mesmo? Terá morrido hoje, ontem, há um ano? Enfim, é preciso ser pedra para resistir a tudo isto. Só mesmo sendo pedra se pode resistir a tudo isto. Há dias, em conversa com um amigo, comentávamos que Ana Hatherly tinha desaparecido como se nada tivesse acontecido. Sobre a perda de Jorge Fallorca caiu um silêncio aterrador. Só agora, ao ler Editor Contra, me apercebi do desaparecimento de Serafim Ferreira. Enfim, perguntar-se-ão: quem era Serafim Ferreira? Talvez não interesse, talvez não importe. Não era ninguém. Deixou coisas vivas e nelas há-de perdurar para lá de um tempo que já não será nosso. Nós é que já estamos todos mortos, pelo menos um bocadinho, aquele bocadinho que faz de nós pedras para que seja possível sobreviver a tudo isto.

12 comentários:

Anónimo disse...

Mas Capoulas Santos morreu mesmo ou não? Depois de ver este post fiquei na dúvida. Se sim é muito azar para o PS pois acaba de perde Almeida Santos.

hmbf disse...

"A cereja no topo do bolo neste frenesim mediático é o Correio da Manhã a anunciar o desaparecimento de Capoulas Santos. Podia ser só uma gralha, não fosse mais uma prova do desastroso mundo em que vamos sobrevivendo."

Anónimo disse...

Não é gralha? Paz à suas alma.

MJLF disse...

nas redes sociais tanto circula necrofilia, como imagens de comida. saúde bjs para toda a tribo

hmbf disse...

O que é quase a mesma coisa. Mas o que circula, pouco importa. O que importa é como se expõe o que circula e como os media, cuja função, presume-se, ainda seja informar, se deixam arrastar para a circulação perdendo toda a sua identidade, confundindo-se com quem circula.

Ivo disse...

Não estava a ouvir a CM tv neste momento, mas do que vejo nesta imagem noticiava a morte de ambos.
Já raramente vejo um jornal televisivo, tal é a dose de vazio que tentam inflacionar. À hora de almoço então é incrível o nada de nada que conseguem acrescentar com diretos de todo o lado. Tem-me acontecido pensar se é real o que estou a ver e a ouvir ou se é apenas um sketch cómico non sense.

MJLF disse...

O Correio da Manhã é um must em matéria de desinformação.

hmbf disse...

Muito útil quando se leva o cão à rua.

Claudia Sousa Dias disse...

Este último comentário, Henrique...! Priceless.

hmbf disse...

:-)

Anónimo disse...

Obrigado Henrique por ir escrevendo estes desabafos. Não é que concorde com todos mas sinto-me sempre melhor depois de o ler. Refrescam. Sofia

hmbf disse...

Grato pela visita e pelo comentário. Saúde,