terça-feira, 5 de janeiro de 2016

HANS ARP E STEVEN SPIELBERG


Mountain, Navel, Anchors, Table (1925)


   Artista e poeta (em sentido real) é Hans Arp, que colabora na fundação do Dadaísmo, em 1916, e do Surrealismo, em 1925. As suas composições associam na forma mais concisa elementos orgânicos existentes no crescimento ou na construção — pólos da realidade orgânica, que se realizam na alternância de evoluções de formas côncavas, convexas e novamente côncavas, apresentando-se entumecidos, como se fossem «frutificar». A um alto-relevo em madeira pintada, exposto num museu de Basileia, chamou Ordenado Segundo a Lei do Acaso, também chamado Pontos e Círculos, esclarecendo igualmente o quadro pela ironização posterior contida no título. Também aqui existem desenhos pictóricos simples, pontos e vírgulas que devem ser entendidos quase caligraficamente, mas a «lei do acaso» leva-os a uma relação necessária como causa e efeito. Arp não compreende o «acaso» como aquilo que se designa normalmente por «casual», mas sim, no sentido mais amplo, como o âmbito do não desejado e do não reconhecido, que nem por isso segue leis severas. Assim, agrupa os elementos gráficos, pontos e vírgulas, num desenho em que novamente as experiências de atracção, fusão e repulsa se tornam um acontecimento, movido a partir da dinâmica das tensões côncavas e convexas. 

Hans H. Hofstatter, in Arte Moderna - Pintura, Desenho e Gravura, tradução de Mercedes Gallis Rufino, Editorial Verbo, 20 de Maio de 1984, pp. 167-165. Sublinhado meu.


Close Encounters of the Third Kind/Encontros Imediatos do 3.º Grau (1977) é o meu filme preferido de Steven Spielberg (n. 1946). Numa das sequências mais marcantes, Roy Neary, interpretado por Richard Dreyfuss, está à mesa de casa a servir-se de puré de batata durante uma refeição. O acaso, aquilo a que chamaríamos acaso segundo a concepção de Arp acima aludida, faz com que ao cair no prato o puré assuma formas que Neary se apresta a explorar. Enquanto enche o prato de puré, a família do protagonista olha-o como se estivesse a olhar para um louco. Estamos perante um enquadramento extraordinariamente inteligente. Numa cena aparentemente banal, Spielberg mostra-nos a sociedade (família) a olhar desconfiada para o artista, o louco que não pára de colocar puré de batata no prato até conseguir a forma pretendida. No entanto, há já no gesto de Neary uma pretensão, um desejo, uma intenção que nega o acaso. Daí que ele salte do gesto espontâneo para a construção reflectida da obra. Ao dar conta do olhar incrédulo dos filhos e da mulher, Neary chora. O artista está só, mas não desistirá. Algo estranho está a suceder com o pai, mas está tudo bem. Não consigo descrever o que estou a pensar e a sentir. — diz ele à família, tentando ao mesmo tempo explicar-se e sossegar o olhar preocupado da mulher e dos filhos. O puré será substituído por outros materiais, até o significado do que estava a ser pensado adquirir um sentido final. Talvez tenha sido este o salto operado entre o dadaísmo e o surrealismo, um salto do acaso espontâneo para uma reflexão sobre o acaso, já carregada de sentidos e de significados. As formas emassadas e líquidas de Hans Arp são como o puré de batata de Roy Neary, um artista em busca do lugar onde poderá encontrar-se, já de um modo imediato, com uma outra dimensão da realidade. A arte é a linguagem que estabelece a ponte entre o normal e o anormal, entre o convencional e a liberdade, entre o previsível e o desconhecido. Daí que tantas vezes a associemos à loucura.  

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