domingo, 17 de janeiro de 2016

PEDRA ANIMAL


Ai se elas soubessem quão humanas são suas dores tremendas, enquanto o vento fustiga o rosto de quem espera e no alto dos céus o voo desafia a tempestade, ai se elas pudessem saber quanto de nós há neste instante, quanto de nós perdura neste instante em que do nada irrompem formas aflitas, desenhos convexos com vozes por dentro, e se por dentro pudéssemos nós andar do martírio das pedras como se fôssemos seu sangue, como se fôssemos seu sangue.


Por quem olham estas duas mulheres à sombra de uma cruz? Que velórios trovejam nos seus desgrenhados cabelos? Ao largo o coração da Terra rebela-se e deixa-nos desprovidos de geometria, desenhamos nas águas a circunferência assimétrica de uma noite humana, afastamos do pensamento tudo o que seja: estilo, pose, equilíbrio, estio, dose, frio. Há tantas gravatas nesse silêncio, mulheres, há tanta estética nessa idealização das sombras. Deixai que sobre nós troveje e tombe pedra, abraçai sem preconceito a imagem desfasada do relâmpago.


Tudo quanto fere nos inquieta, tudo quanto quebra, racha, rompe, nos desassossega, nada do que atravessa a superfície lógica do olhar nos emociona. O número afadiga-nos, a palavra reconforta-nos. Por isso buscamos o quanto de nós é o sangue das pedras, o quanto de nós palpita no imo da matéria morta, o quanto de nós percorre as ruas ao encontro do fundo mais fundo dos céus: o voo. Eu sou a janela que espreita o mundo e do mundo recebe o eco das estações, por mim tudo passa e atravessa e trespassa, tudo o que soa e ressoa, por mim, ao largo das mulheres que velam o canto à sombra da cruz, por mim, casa, janela, edifício, por mim tudo passa.


E dizê-lo com clareza, com a máxima simplicidade humana, é o guião da nossa espera: ai se elas soubessem quão humanas são suas dores e quanto de nós dentro delas transita, ai se as pedras soubessem quanto de nós é o sangue que dentro delas circula, quanto de nós é o voo da luz, o canto do vento, este instante parado em que tudo dormita como se não fosse já o clamor tempestuoso da espera.

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