segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ALFORRECA FEROZ

Chamemos-lhes plaquettes, folhetos, opúsculos ou simplesmente cadernos, os pequenos formatos em literatura são quase sempre olhados de revés. Existirão variadíssimas razões para que assim seja, muitas delas tão pueris quão mal-intencionadas. No universo da poesia, por exemplo, tais formatos são já uma tradição, não se entendendo por isso os cuidados e os receios tantas vezes aludidos face a tais objectos. Tomemos de exemplo duas publicações relativamente recentes onde os atributos do conteúdo apenas saem ampliados pela escassez de páginas. 


Comecemos por Fera Oculta (Douda Correria, Novembro de 2014), de Vasco Gato (n. 1978), poema dividido em cinco partes com uma componente fortemente emotiva que facilmente se dispersaria caso o poema tivesse sido incluído numa colectânea mais extensa. Publicado isoladamente assume a relevância da sua singularidade no contexto de uma obra com vários focos de interesse desde a estreia com Um mover de mão (Assírio & Alvim, 2000). De resto, já antes o autor tinha optado por formatos similares. Recordemos Lúcifer (Alexandria, 2003) ou 47 (Edição do autor, 2005). Em Fera Oculta a segunda pessoa a que geralmente os seus poemas se dirigem é facilmente identificada pela presença de um terceiro elemento que congrega o emissor e o receptor da mensagem: «Ouço-te nadar sempre nestes meus dias / de náufrago posto em estrela / sobre as águas / e assim estarás tu também / no teu elemento / os dois talvez quietos / e ser ela quem nos encurta aos dois / para o seu ventre alucinado / a mulher que transpôs comigo / o limiar do cinismo / a angústia do salão espelhado / a tua mãe» (s/p, II parte). O tema do pai que se dirige ao filho por nascer não é inédito na poesia portuguesa, embora por vezes a missiva pareça mais um pretexto para esconjurar a situação pessoal daquele que vê chegar a um mundo hostil o fruto de um amor sob ameaça. A última estrofe da IV parte (no livro, a numeração romana saiu traída e onde devia estar um IV está um VI) é especialmente reveladora deste posicionamento do progenitor: «Que se foda a época / digo-te já / que se foda a sépia dos futuros / eu quero aparecer no dia / do teu nascimento / desarmado como uma árvore / sem outra missão que não / amparar-te o susto / e dizer-te baixinho / bem-vindo ao continente dos frágeis / podes parar de nadar». Portanto, o tom do poema distancia-se da sentença moral ou da intenção iniciática que quase sempre contamina este tipo de elocução. Pelo contrário, quem aqui se prepara para nascer é um pai. É na confissão da sua fragilidade que vislumbramos o maior ensinamento. 


Deveras diferente é Canto da Alforreca (Douda Correria, Janeiro de 2016), de José Luís Costa. Afastando-se da realidade palpável, aquele que outrora era Zé Luís Costa dá continuidade a uma deriva pelos territórios do nonsense iniciada com 20 Poemas a Anton Webern seguido de Aventuras (& etc, 2005). Também aqui o pequeno formato se mostra favorável por evitar uma tão previsível quão indesejável saturação do texto num campo hipotético de desenvolvimentos desnecessários. As micronarrativas ou, se preferirem, os pequenos poemas em prosa que compõem este improvável canto recusam ao longo de pouco mais que trinta páginas quaisquer possibilidades de sentido, concentrando esforços numa arquitectura de personalidades (Messias, Tininha, Charadista, Barba Azul, Bogusław Sonik, Xai Lô) envoltas em situações absurdas e anedóticas, na melhor tradição “dadaísta”, ou seja, sem qualquer respeito por um esforço literário vigilante:

UM SONHO EM ALTO MAR

Nós dois num bote, ora dia, ora noite. Amuos alternam com gargalhadas, há sempre o que pescar. Lembro-me de quando foste dar sangue, o braço que ofereceste à agulha, o teu dói-dói que quero cuidar. Sem mudas de roupa, trazes o vestido das anchas flores encarnadas, que torce o pescoço às esferas. De repente, das águas ergue-se Neptuno, vestido de contabilista, tridente à mesma. Exige-nos palavra-passe para prosseguirmos. Sabemos que é «um brinde aos beijos».

Nem sempre estes sonhos nos levam por altos mares, por vezes arrastam-se no comezinho dos salões domésticos, trocam as voltas ao heroísmo com pequenas anomalias (imaginemos um Messias com rinite), mas sempre nos brindam com uma linguagem viva e multicolorida, repleta de vocábulos acrobáticos que transformam o sentido num exigente equilibrista e privilegiam as dimensões onírica e imagética da linguagem. A magia destes textos não está no que pretendem revelar, pois, em boa verdade, talvez eles não pretendam revelar nada. É uma magia anterior às revelações, residente no espaço aberto e livre da imaginação, protegida por enigmas porventura indecifráveis mas muito estimulantes para quem ainda se permita encantar com o flanco mais plástico das palavras:

COMPOSIÇÃO

A professora anuncia: o tema é tremendo e intimida — Deus, quando Tininha tem mais jeito para o desenho. «Um dia vi-O e tinha cara de minúscula mirrada. Enxotei-O para lá da muralha dos brinquedos. No dia seguinte, baixou a bolinha: deixei-o sermos amigos, até a mamã chegar. Prefiro não lhe dar muita confiança. Às vezes poisa no limão, às vezes vai-se». Não escreve bem o que quer. Um eco, ou electricidade estática, força-lhe gralhas no lapso, por lápis.

METAPHORIA II


The artists:
Norbert van Ackeren, Michel Blazy, Ceal Floyer, Gereon Krebber, Ugo Rondinone, Karin Sander, Gregor Schneider, Michael Staab, Nisrek Varhonja, Lawrence Weiner.


Curated by:
Silvia Guerra (Paris) and Michael Staab (Cologne)



Based on a poem of Rui Costa, Portugal.


Mais informações aqui.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

DESENCONTROS

Temas que acalentam a chusma: um cartaz psicadélico aludindo à filiação de Jesus, as fotografias da deputada numa coisa chamada Tinder. Confesso a deslocação, estou para Jesus como essa coisa chamada Tinder está para mim. Nem sabia que existia. Mas gosto de hordas ofendidas, exigindo pedidos de desculpa. Quanto tempo tivemos de esperar pelos pedidos de desculpa da Igreja à humanidade sobre temas bem menos graves tais como Inquisição? Ainda não fiz as contas, tenho andado ocupadíssimo com as fotografias da deputada. Mas é fazê-las, as contas. Porreiro, pá. Ocorreu-me, no entanto, a possibilidade de inscrever Jesus no Tinder. É provável que se desse bem com a deputada, mas mais provável ainda é que se desse bem com o pasquim matutino. Já estou a ver a parangona: Jesus adere a site de encontros e partilha fotografias ousadas na rede social, entre elas uma em tons psicadélicos a informar de que tem dois pais. Outra ideia que me ocorreu foi inscrever o próprio pasquim, se é que não está já inscrito. O pasquim ou o seu director ou algum dos acólitos com a divina missão de espiolhar a vida alheia. Tristonhas profissões, estas de Jesus, da deputada e dos mexeriqueiros (não lhes chamem jornalistas, por favor). Um a foder, outro a ser fodido, outro a ver quem fode. Venha o povo e escolha.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

[PUTAS]



Caem nelas como buracos no dia,

arregaçam o pêlo, chegam-lhes fodidos
mamam-lhes as tetas, gritam de bestas

o caralho teso espetado nelas, e se riem
coram de pavor, e depois sentem desgosto

vão-lhes ao cu, fodem de arremesso
a memória delas no fedor dos camaradas,

a pele nua esmagada de chumbo

e vomitam curtos, esporram delas
como água das mães,

vozeados no corpo, tristonhos
ficam de narinas consumidas, os dedos afilados

a carcela aberta no cheiro das conas.

Existem deles com o osso preso à roupa
a prega aflita na blusa, a boca escanzelada

elas rasas deitadas nos colchões

roubam-nos aos pares, se os abraçam
deixam-nos morrer, eles calmos nos lençóis

depois soltos, abrem-lhes as fuças,
ficam nelas a chorar, pedem-lhes colo
enrolados como filhos findos

as mamas inchadas de sangue
encostadas ao corpo deles,

as mãos desmazeladas nos pulsos
onde desmancham os cabelos.

Deitam o odor contra a parede,
iminentes delas em raiva que perdessem

os corpos vão por elas como golpes
a cama desmedida à cor do sémen,

o colo em sangue, o véu desfeito

têm os dias sobre a profusão do corpo
são vestidas magras a fio e eito,

trazem o nome deles no ventre
porcas, desinfestadas às esquinas

os cabelos desgrenhados de doença
raiva que as vem esperar às camas,

preparam o parto ligeiras na praga,
escorrem miudezas de mulher

fracturam o corpo nas águas,
caídas como ramos nos rios.



Alexandre Nave (n. 1969), in Vão Cães Acesos pela Noite (2006)Dois livros publicados no início deste século, Columbários & Sangradouros (2003), Vão Cães Acesos pela Noite (2006), permitiram a Alexandre Nave afirmar-se como uma das vozes mais promissoras da poesia portuguesa contemporânea. Pelos impulsos expressivos, pelo culto de imagens eminentemente carnais, pela índole metafórica de uma linguagem visceral, Luís Miguel Nava seria talvez o poeta com o qual melhor dialogaria esta poesia. Mas se neste havia uma discursividade narrativa, nos poemas de Nave essa discursividade é desconstruída por uma sintaxe onde cada verso insinua rajadas violentas e impetuosas de um complexo lexical despudoradamente hostil. Certas imagens remetem para um homoerotismo que facilmente associaríamos a autores como Pasolini ou Genet, embora o eco de Céline se faça ouvir amiúde por entre paisagens que exprimem uma dimensão sombria e vertiginosa da existência do indivíduo violado pela comunidade que o marginaliza.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

COISAS MESMO MUITO BOAS



Já é possível acompanhar on-line a Douda Correria indo por aqui. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

SÍNDROME

Por esta altura, já milhares de pessoas viram e outras tantas partilharam o vídeo de um directo da Póvoa de Lanhoso efectuado pela TVI. Certo indivíduo, claramente perturbado, comenta um homicídio. O jornalista interroga-o como se estivesse a interrogar a vizinha do lado. É-lhe indiferente quem tem defronte. As pessoas acham piada ao indivíduo. Eu próprio, num primeiro momento, achei. Mas depois parei para pensar um bocadinho, só um bocadinho. E acabei a ver um homem mentalmente perturbado. A dúvida, por certo para um milhão, é a seguinte: tivesse o homem Síndrome de Down, será que as pessoas lhe achariam a mesma piada e ocupariam o mesmo tempo a gozar com a criatura?

COISAS MESMO MUITO BOAS




P.S.: explorem o sítio convenientemente, da primeira à última imagem. Ainda não cheguei a meio, mas vale mesmo a pena. :-)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

UM POEMA DE OSCAR WILDE

DÉSESPOIR

As estações deixam, ao passar, sua ruína,
E pois, na Primavera, o narciso que abre
Só murcha quando a rosa em chama rubra arde,
E as violetas roxas florem no Outono,
E o croco faz no Inverno a neve estremecer;
Assim hão-de florir de novo os lenhos nus
E este barro gris enverdecer de chuva
E dar boninas, que um moço há-de colher.

Mas que dizer da vida cujo mar faminto
A nossos pés escorre, e das noites sem sol
Toldando os dias de que não resta esp'rança?
A ambição, o amor, tudo o que penso ou sinto,
Cedo é perdido, e há que achar prazer tão-só
Nas espigas ressequidas da morta lembrança.


Oscar Wilde (n. 16 de Outubro de 1854, Dublin - m. 30 de Novembro de 1900, Paris), in Poemas, tradução, posfácio e notas de Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água, Setembro de 2005, p. 125.

ESFORÇO

Tenho feito um certo esforço para me abstrair. Trabalho, leio uns livros, vejo uns filmes, vou a concertos e exposições, ando a pé, cozinho, bebo. Mas por mais que me esforce, às vezes é impossível ficar indiferente à bestialidade de certas figuras. Acabei de ler agora mesmo no Facebook a frase que reproduzo ao alto. Duarte Marques não é inédito em patranhas do género. Há uns tempos, exprimia-se à pimba (aqui). Depois andou pelas televisões a tentar morder as canelas de Pacheco Pereira, acabando por ser enxotado com uma elegante indiferença. Enfim, tem um rosto e um currículo. O rosto é este. O currículo é a merda do costume, uma merda que de algum modo fundamenta a citação reproduzida ao alto, pensada, escrita e publicada, a frase de um burgesso ao seu mais baixo nível. Esqueçam a frase, fixem bem o rosto. É de porcaria como esta que o nosso Parlamento está cheio. Não admira que o mestre Bordalo lhe chamasse pocilga.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

O MEDO (2) [fragmento]


   22 de fevereiro
   quando era criança ouvi contar que deus se escondia por todo o lado; nas águas turvas de sabão, nos poços, na folhagem espessa do loureiro ao fundo do jardim, no florir das acácias ou na corola violácea de uma rosa. no entanto, parecia-me que o lugar mais provável era o cimo das árvores — não sei porquê — talvez por achar que deus tem de manter uma certa distância da terra, do estrume. nunca consegui uma explicação para a escolha que fizera: deus escondia-se no cimo das árvores, porque achava um pouco exagerado que ele se encontrasse em tudo e por todo o lado, não era possível. se assim fosse, onde poderíamos nós esconder-nos dele?
   subia às árvores e ficava horas a fio acocorado na folhagem, em silêncio esperava que deus se me revelasse.
   um dia surpreendi um melro no ninho e, repentinamente, veio-me à ideia que deus se escondia dentro de um ovo. o melro, coitado, ao ver-me voara assustado. agarrei no ovo e trouxe-o para casa.
   conservei-o guardado muito tempo depois de ser criança, dentro duma caixinha com algodão. às vezes vigiava-o durante a noite, até que o esqueci, deixou mesmo de me aparecer em sonhos; o ovo que, julgava eu, continha deus.
   anos mais tarde, numa mudança de casa, reencontro a caixa no fundo duma gaveta. o ovo estava aparentemente intacto, mas mal lhe toquei desfez-se, cheirava mal. deus, com o tempo, também tinha apodrecido no meu coração.


Al Berto, in O Medo, Contexto/Círculo de Leitores, Outubro de 1991, pp. 364-365.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

ESCULTURA EM PEDRA COM PAPAGAIO LÁ DENTRO QUE VOA E ATERRA DE BICO*


Tinha começado a construir uma casa pelo telhado, portas no lugar das janelas, um hall de entrada por onde tudo saía, um hall de saída, uma saída de entrada decorada com o trabalho braçal dos inquilinos, pás embutidas em blocos de cimento, pás verticais, pesadas como homens gregos a dar as boas vindas a quem saísse momentaneamente de si próprio


era uma casa com portas por cima das lareiras, na sala de estar os convidados aqueciam-se a queimar pedra nas bocas de incêndio com que trabalhavam os ornamentos, os inquilinos ornamentavam as divisões da casa com convidados de espanto, voltavam as costas a paredes negras e respigavam nos quintais matéria morta rejuvenescida, matéria viva 


quem circulasse pelos corredores estenderia o olhar às paredes, e nas paredes vislumbraria os instrumentos de trabalho com que se constroem as casas, esta era uma casa casa, um santuário de coisas ressuscitadas, porque as casas deviam ser como os corpos humanos que transportam seus próprios órgãos, as casas são corpos humanos e transportam seus próprios inquilinos 


as casas não deviam ser habitadas por elementos estranhos, como sombras de pessoas pálidas e homens gregos, só compreendo uma casa cujas paredes possam ser decoradas com o chão, o chão deve poder elevar-se acima da sua condição funcional, não faz sentido condená-lo a ser eternamente espezinhado, os homens deviam poder andar nas paredes e pendurar quadros no chão


se a arte é o que embeleza a casa, se a arte é o que limpa a casa, então por que não permitir que o que limpa a casa seja arte? a arte não é o que embeleza, a arte não é o próprio, é o porquê? e por que não pendurar num cabide a alcatifa da casa soalhada? a função dos objectos pode ser estabelecida a partir da relação que estabelecem com o espaço, diz o crítico. mas isto é uma esfregona, o génio da casa, a esfregona é o génio da casa, percebes crítico?


quando um homem sonha... os seus circuitos internos saltam para fora do corpo, quando um quarto sonha há um emaranhado de artérias que se manifestam, do efeito visual provocado pelo entrelaçamento das artérias podemos construir uma metáfora acerca do sonho, um quarto a sonhar é em si mesmo uma metáfora, é um labirinto que consideramos caótico por nos ser leve a escravatura da geometria


falemos de casas, dizia o poeta, imaginemos uma casa iluminada por fragmentos de alcatrão, imaginemos que as auto-estradas entravam dentro das casas, as atravessavam como fachos de luz num dia de sol, imaginemos que o alcatrão era a luz que ilumina as casas, o alcatrão sobre o qual transitam carrinhas abandonadas no pátio das casas 


seria irónico ver uma casa atravessada por uma estrada, os homens constroem casas para se afastarem das estradas, os homens caminham como as casas, é da sua natureza impedirem o acesso ao céu com escadas atravessadas, os homens têm várias escadas que se atravessam umas nas outras e impedem os homens de subir, eu vejo nisto uma casa a subir sobre si mesma, uma casa a trepar as suas próprias paredes, como um homem que tenta chegar ao mais alto de si mesmo


a geometria é a mais bela dimensão de tudo quanto pode ser dividido, é o fumo que sobe pelas chaminés, a geometria é na cabeça dos homens gregos o fumo que se evacua  pelas chaminés, por isso desenhamos círculos dentro de quadrados, quadrados dentro de triângulos, e dizemos que esses desenhos têm um sentido oculto, um significado simbólico


o significado é: a pá não ser uma pá, ser uma escultura, o chão não ser chão, ser um quadro, o lixo não ser lixo, ser arte, a estante vazia não ser uma estante vazia, ser uma infinidade de palavras silenciosas a provocarem-nos pensamentos e ilusões, desconstruções do espaço, da relação que o espaço estabelece com quem o habita, a parede não ser uma parede, ser chão, em suma a casa não ser uma casa, ser a rua



por isso apontamos o carro de mão carregado de cilindros e dizemos: eis o homem grego, o equilíbrio das formas, um belo homem grego enferrujado, gracioso e monumental como um deus doméstico, um deus capaz de trazer a rua para dentro das casas, um deus robustamente estético, capaz de nos expulsar de nós próprios e de nos aceitar enquanto inquilinos de mais uma bela subversão. 



* Exposição de Vasco Costa e Paulo Barros na Casa Bernardo. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

HARPER LEE (1926-2016)


Um livro: To Kill a Mockingbird.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

UMA ESPÉCIE DE PORTUGAL


Sou a terra do mar impune: a extirpação do negro cósmico
e o adormecimento mágico da lava nos seus estertores seculares.
Sou a extremidade fértil da imensidão plana do tempo, a genitalidade larvar
que faz o belo das flores e o canto surdo das filosofias do irracional.
Mais que o Ocidente sou a Terra do Oriente Distante,
          da luz aberta às viagens longínquas,
          a terra de passagem como o desejo de um porto,
          de um reduto intensamente íntimo e avesso à claridade.
Sou a ilusão do movimento ascensional do mundo
e o cérebro telúrico que pensa a complexidade das sombras,
a ordem da deriva dos solos
e todas as catastróficas violações de todas as ordens.
Sou a arquitectura dos jardins desfeitos. 
O amor à degradação depois do êxtase.
O pântano do retorno
          ao promíscuo incesto
                     violento e criador
                               entre a Ásia e o mar
                                          cujo aborto triunfa.

Fazem-se noites de uma extrema ductilidade
                       que desculpa a ignorância mais selvática.
As palavras então murmuradas são intensamente verdadeiras e reconciliadoras.
As tribos do norte chegaram
           como se as procurassem
                      e logo se descobriram encurraladas.
Combatiam à semelhança do mar,
bravamente fechadas numa loucura, circular e mansa
como o apagamento dos trilhos numa paisagem cercada
                                           de paraísos invisíveis.
É sempre inútil falar de identidade nacional - como se a noção da substância
se partilhasse, mero efeito de rugosidade no fim da Europa.
Em mim se concentraram os que se queriam esconder,
          os escorraçados de um mundo com pujança disputado,
          os amantes incomodados com a plana transparência do ar,
todos os que se infiltraram brandos para, num contágio renhido com as ondas,
          iniciarem umbilicais navegações em torno da esperança
                    de outra nação eternamente em levitação poética.

Gente imóvel para sempre submersa,
para sempre perplexa com a variedade do mundo:
           os trajectos inglórios,
           as incansáveis renúncias no auge das colheitas,
           a festa, o vinho,
           a orgia de vencedores por amor à derrota,
a obstinada memória das viagens de tantos antepassados sem nome,
           metafisicamente sós
           numa desenfreada correria ultramarina
           para alimentar as mercearias europeias.
Os guerreiros despiram as couraças.
Como os comerciantes, amaram generosamente
a terra indígena, e nus aprenderam tudo de novo.

Cristo era a deusa do ventre do mundo donde todo o comércio brota,
deusa do pragmatismo e da eficiência doméstica,
e o Virgem Negra o profeta das singulares demandas,
          dos modestos suplicantes,
          o pai dos poetas actuais.
Todos os descendentes ficaram cúmplices: os nomes que transportam,
hoje ainda, devaneios subtis que por negligência policial têm ficado,
são uma maneira própria de fazer as coisas prosaicas
           - e quase tudo teve que ser no mar reinventado.

A invenção do mar foi a glória do ódio
          ao confinamento
e a magnética repulsa libertária por um feudalismo impossível de traduzir.
Da vertigem do fundo
decorre a imaginação que cohabita esta conjurada mansidão anti-calvinista
como se fosse uma cultura perdulariamente negativa,
                                          isto é,
           onde o amor paralisa
                     e absorve metade do movimento primaveril da luz
                                 no contorno temível da serra.
Refiro-me a todas as perguntas insensatas,
            à magia que o sexo não explica,
            à ânsia que a entrega não cura.
Na volúpia da montanha a língua indiferencia-se,
           abarca todos os antónimos
           e nivela-os numa contemplação estupefacta já próxima da loucura.
Não se pode falar de filosofia neste país de desportistas de fundo: a poesia
é uma eminência parda e amoral que perverte as ideias restantes,
adormecidas na barriga de especialistas do hoje.

Terra de demasiados portugueses. Furiosos empreendedores de sonhos,
(no seu parco amor próprio tanta ignorância por lamentar,
as raízes carcomidas pelos miasmas da vergonha)
sempre dispostos a partir e, contudo,
           portugueses indeléveis
                     na mendicância de subjugados ou no grotesco despotismo
                               de quem, por curiosidade,
                                ocupa um poder doméstico
e o dilata sentenciosamente sem outro desígnio
           que a eternidade esgotante da utopia.

Leviana Lisboa, lúbricos fluxos
venéreos de velha senhora nunca convenientemente amada.
Velha parideira de logros, contorcidas ruas de tanta heroína
e vómitos cénicos em plena pilha funerária.
Em ti saboreia-se
          o apagamento da história
                     e, em vez da decadência cíclica de outra ideia,
                               uma saudade cantada,
                                         negação de memórias pertinentes,
                                                   e, depois, alguém,
sempre alguém a partir de quem a lisibilidade das coisas se organiza
como se um local centuplicasse o sexo do mundo: o ondulado das colinas,
lânguido no corrupio das gentes, das subterrâneas águas,
e a derrocada nocturna, clandestina e coreográfica.

As abóbadas de cada metrópole coalescem - desfiam uma ideia de perfeição
            que tecnocientificamente reconstitua o imobilismo clestial.
Acredito nessa irmandade cimentada em guerras de séculos: associação
de heterotéticos alquimistas, de senhores da matéria,
de náufragos da fé na opulência do seio triunfante.
Consomem todas as palavras no luxo de dissonantes solfejos:
muito presunto, poucas quimeras - julgam que tudo lhes é permitido.
Acredito na espionagem que mantém o nexo fiduciário do espectáculo:
adoradores de ouro coroam a virulência humana
            em toda a extensão do mundo
contaminando o solo planetário até ao interior de cada cérebro.

O real é interactivo, repito.
Atemoriza-me, a sul, o fanatismo e o deserto.
Conformam-se no horizonte as hordas que incendiarão a cidade.
Reconheço os profanadores, os irreconciliáveis guerreiros do despojamento.
Outrora, entre os trovadores, havia príncipes e homens aéreos.
Foi para esses que mais se alterou o mundo: pássaros mortos,
solo inundado, florestas incendiadas.
Perante a eternidade
estão cansados uns, outros ludibriados.
Ergue-se uma estatuária laudatória,
apontam-se heróis insignificantes
          - e é o retículo persuasivo de uma economia da loucura
          a tutelar a nação
apesar das negaças dos poetas mais afoitos
e dos fotógrafos na sua ânsia de verificação,
           de legitimação ingénua
                                dos desvios,
                                dos desviados,
                                dos desviantes
à falsa brandura das tradições.

Sou hoje uma terra cansada, céptica e incapaz
          senão para moda,
aparatoso e digestivo cimento do Estado.
Eu própria sou a reinvenção utilitária da história,
          a direcção das balas perdidas,
          o incógnito que, através do céu, mata sem discriminar
          o amanhecer visionário e os seus relâmpagos sonâmbulos,
          o ruidoso progresso e as reaccionárias canções
                                a branco e negro embandeiradas.
A atmosfera clara e a superfície das praias fertilizam a imaginação:
tornei-me a pátria sub-reptícia dos líderes apátridas da pirataria legalista.
Nunca satisfeita, a população porfia,
           sua e morre numa espuma de truísmos
           - e chama-me mãe, confiadamente.
Do interior do solo as engrenagens que movem as plataformas
transgridem as linhas de força que me unem ao sol
e às estrelas da adivinhação da vida:
agora ou séculos à frente,
planeia-se um apocalipse manso e mudo,
a rigidificação do mundo
donde eu estarei distante.


Nuno Félix da Costa (n. 1950), in Panfletarium (1996). Psiquiatra de profissão, divide desde cedo o seu ímpeto criativo entre a fotografia e a poesia. Publica poemas que revelam uma atenção aos problemas sociais, filosóficos, políticos, culturais do seu tempo, superando as delimitações da situação através de uma análise crítica dos pilares civilizacionais e da cultura ocidental. Em certo sentido, podemos dizer que é um poeta whitmaniano empenhado em subverter qualquer noção épica da poesia. Fá-lo através de uma forte tendência aforística e um claro descomprometimento estético que o levam a praticar uma poesia ora advinda de observações práticas sobre o real, ora adoptando uma postura mais reflexiva e se desenvolvendo no sentido de uma discursividade refractária ao lirismo cuja maior preocupação seja a musicalidade das palavras, o ritmo dos versos, a sugestibilidade imagética. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

THE HATEFUL EIGHT (2015)



Em The Hateful Eight/Os Oito Odiados (2015), Quentin Tarantino (n. 1963) volta a apostar na figura clássica do “bounty hunter” (caçador de prémios) para construir uma história acerca do desmoronamento social de uma nação. Assistir a um filme de Tarantino é como assistir à implosão de um edifício, o espectador aguarda o momento da detonação para poder deliciar-se com o espectáculo da derrocada. É assim desde Reservoir Dogs/Cães Danados (1992), e se em algum momento fomos tocados pela redenção nos seus filmes isso foi apenas para nos certificarmos de que depois da bonança vem a tempestade. Essa tal bonança é meramente estética, pode resumir-se ao plano do Cristo crucificado que aparece logo no início do seu mais recente western. Havendo nisto uma perspectiva pessimista, ela é de um pessimismo divertido, ou seja, fundamenta-se naquele tipo de humor negro que fez as delícias dos surrealistas e alimenta muita da melhor criação artística que a humanidade deu ao mundo. Os Oito Odiados resulta, pois, como uma Divina Comédia que arrasta os seus protagonistas do Inferno gélido de uma tempestade no Wyoming para um purgatório sob a forma de retrosaria. Apoiado numa mão cheia (e mais uns dedos) de actores que oferecem garantias a partir de experiências anteriores, e embalado pela música de Ennio Morricone, maestro cujas composições definiram certo tipo de western, Tarantino explora novamente aquilo que melhor o define: diálogos. Do leque de actores fetiche, sublinhamos Samuel L. Jackson (Pulp Fiction, Jackie Brown, Django Unchained) no papel de “bounty hunter” implacável, major reformado do Exército da União, perseguido e odiado pelos sulistas que torturou e trucidou sem dó nem piedade. Do lado oposto, com a farda cinzenta dos Estados Confederados, o velho Bruce Dern (Django Unchained) é a figura perfeita de um general derrotado e acabado, carregando no rosto cerrado um ódio racista, permanecendo todo o filme sentado à beira de uma lareira. É o homem que já não se põe de pé. Entre estes, Tim Roth (Reservoir Dogs, Pulp Fiction), Michael Madsen (Reservoir Dogs, Kill Bill) e Walton Goggins (Django Unchained) têm cada um as suas particularidades, exageradas pelo olhar de um realizador que é também exímio caricaturista. Kurt Russell (Death Proof) é outra das figuras proeminentes, interpreta o “bounty hunter” desconfiado e ambicioso, tão desconfiado que por duas ocasiões, numa delas fatalmente, acaba traído por uma imprópria ingenuidade. É a figura pessimista por excelência. Nas duas únicas ocasiões em que manifesta algum tipo de crença, falha. Levado ao pormenor, o Jesus Cristo crucificado do início, enterrado na neve, é bem a imagem de uma fé e de uma esperança congeladas, que saúda os amantes de finais felizes com um irónico bem-vindos ao Inferno. Exímio a filmar diálogos, o realizador de Pulp Fiction (1994) é igualmente um mestre da prestidigitação. Daí que tanto Django Libertado (2012) como Os Oito Odiados (2015), inserindo-se no universo de um género cinematográfico essencialmente norte-americano e popular, rompem com o paradigma do western transportando-nos para dimensões simbólicas onde a atitude palavrosa e desbocada das personagens confere uma estranha dimensão literária a cada uma das sequências. Dessa dimensão ressalta um tratado impiedoso sobre as fracturas de uma América dividida racialmente, mal resolvida na sua violenta história de uma justiça alicerçada na vingança, uma justiça imoral, afundando-se num pântano de esquemas e de manigâncias, de desconfianças e de ludíbrios, onde os fracos sobrevivem como ratos e a os fortes acabam inevitavelmente traídos pelo egocentrismo que os caracteriza. Tudo isto é genial, pelo que não admira a controvérsia.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

OS ZELADORES

No que toca às leis do meu país, estou-me cagando para as opiniões da igreja. Não quero saber, não me importa minimamente. Julgo até insultuoso insistir-se em escutar padres, bispos e querubins como se as nossas vidas num estado laico, corrijo, num Estado onde a separação da Igreja é um saudável princípio democrático, devessem ser orientadas pelos preconceitos bíblicos de uma gentalha que, queira Deus, há-de ficar eternamente cativa no Inferno pelo mal e pelo sofrimento que impôs na Terra. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O DESFAZER DAS COISAS E AS COISAS JÁ DESFEITAS



   De que falamos quando falamos de poesia política? Falamos seguramente de um chavão alimentado pelo engajamento partidário de alguns autores e dos movimentos a que pertenceram, ou pela submissão da estética à doutrina sectarista, ou ainda pela inclinação para os chamados temas sociais, atentos à actualidade e a formas de perspectivar o momento histórico que fazem da criação artística uma arte do testemunho. Mas a poesia jamais poderá ser reduzida a instrumento ao serviço de um único valor. Enquanto expressão delimitada pela força dos signos, sejam eles linguísticos, de ordem visual ou sonora, a poesia fractura o campo instrumental da linguagem, permitindo que esta se liberte e assuma formas onde a comunicação, e através desta o testemunho, resulta mais do esforço levado a cabo por quem interpreta do que de uma vontade de valorar aspectos circunstanciais da existência humana. Ora, se a política procurar dar valor ao humano a partir de premissas englobantes (os apelos à união são disso a prova mais cabal), a poesia faz exactamente o contrário: desvaloriza o humano a partir da exaltação do indivíduo, das suas dores e das suas frustrações, do seu desespero e da sua comédia, da sua situação precária ante um mundo que o ameaça naquilo que tem de mais seu, a sua singularidade, a sua individualidade, a sua pessoalidade. 
   Assim sendo, não admira que desde cedo tenham os poetas sido obrigados a viver à margem das repúblicas ideais. Num certo sentido, podemos daqui concluir que o poeta não só não tem república como, ao contrário do que tantas vezes se apregoa, vive muito abaixo da idealização da república denunciando, lá está, as fragilidades e os vícios do ideal. A poesia de Nuno Félix da Costa (n. 1950) coloca-se neste posto de observação das coisas do mundo para, a partir dessas observações, relativizar o próprio papel da poesia e, por consequência, de toda a arte, chamando-nos a atenção para algo nem sempre lembrado como devia: a poesia não salva, a poesia não serve, a poesia liberta-nos de ilusões quanto à possibilidade de mundos perfeitos e paraísos recuperados. Fazendo isso, já faz muito. De um livro como O Desfazer das Coisas e as Coisas já Desfeitas (Companhia das Ilhas, Novembro de 2015), podemos tomar como exemplo este poema:

duas mil quatrocentas e noventa e oito formigas

Acreditamos nas formigas e na sua definição de ordem — uma alvura lógica
que ainda não atingimos — Transportam ovos para um novo formigueiro
Cremos terem razões válidas — Nós temos problemas obstétricos individuais
e não deslocamos ovos de uma democracia para outra embora nos pertençam
e não a uma rainha-mãe que nos pôs a todos — Dizemo-nos irmãos e já não nos
matamos — jogamos a juventude contra as muralhas do casulo — Formigueiros
escuros as bibliotecas onde aprendemos a ler e escrever e a desviarmo-nos
do carreiro da normalidade — Encontramos um autor — Cumprimentamo-lo
Esfregamos narizes e prosseguimos com a mesma incerteza social mau grado
o amor que os poetas nos dedicam — No formigueiro não há poesia
mas o açúcar venenoso do anonimato — Exército dizimado do tirano louco
que procura a luz do pirilampo — Que caminhos estranhos não nos levem
à morte agora que abandonámos a orquestra de irmãos desmiolados
e felizes como computadores na secção de finanças — Teremos uma razão
para aniquilar o formigueiro — uma eugenia universal?

   O tom geral deste livro, um extenso volume de mais de 200 páginas dividido em dois conjuntos de poemas, pode ser exemplificado a partir deste poema na página 74. O recurso à figura da formiga oferece-lhe um cunho efabulatório algo vulgar, mas reforça perante um imaginário cultural colectivo a ideia de submissão a uma ordem e a um tipo de organização, a uma normalidade comunitária por oposição à alienação do indivíduo, neste caso o sujeito poético que caminha à margem da ordem ou, se preferirem, em sentido paralelo ao que a organização espera de si. Repare-se como ao longo do poema surgem diversos termos evocativos dessa mesma ordem: rainha-mãe, irmãos, formigueiro, biblioteca, exército, tirano, orquestra… todos eles por oposição ao «amor que os poetas nos dedicam», sendo que nesse amor devemos compreender precisamente o que exclui o ser da ordem, o que lhe outorga singularidade, o que o liberta da «eugenia universal». 
   Aniquilar o formigueiro é neste caso como que uma espécie de missão levada ao extremo com uma poesia que não encarrilha, que sai dos eixos e explora uma hipótese de expressão aforística próxima do ensaio, rompendo com qualquer preocupação rítmica ou preconceito estético. A preocupar-se com alguma coisa, Nuno Félix da Costa parece preocupar-se com um compromisso perscrutador da poesia e das suas possibilidades no contexto de uma decadência das utopias, investigando os domínios da palavra poética a partir de uma penetração da consciência que torna visíveis as patologias que podem ameaçá-la. Deste modo, quando se refere a gestos quotidianos banais ou quando, por diversas vezes, enuncia elementos culinários, fá-lo com o propósito de quem observa e investiga uma herança cultural que lhe é inerente — «A culinária é então um modelo cultural» (p. 192) — para daí retirar num tom crítico o sentido da inutilidade e a inutilidade do sentido para a poesia nestes tempos de fachada democrática:

a selva

A poesia aprendeu muito com Disney
No futuro os prémios de poesia incluirão uma visita guiada
para que os poetas compreendam a utopia que nos reúne numa praça
de punho erguido e gritando — Como ela andamos à roda — estontamos
Tombamos e nada sucede — No resto do mundo a felicidade revolucionária
é uma caricatura num marketing de perfumes e sabonetes e ideais de pureza
diversos em canções que ninguém já canta — A utopia é o repouso infantil
do amor que está para vir com as borbulhas e as dores menstruais
da democracia — Que já não refere a direitos mas a estados de um sistema
dado a achaques a crises a interrupções que não são golpes de estado
porque Disney suavizou a biologia das palavras com uma lógica de
animais felpudos que ora matam ora são felizes para sempre na selva
onde vivem dando lições de moral darwinista uns aos outros —
a utopia com a selva naturalizada num poema refrescante

domingo, 14 de fevereiro de 2016

B DE BEIJOS

Em dia de namoros, recupero duas velhas histórias com protagonistas diferentes. O primeiro é francês, chama-se Émile-Hortensius-Charles Cros e nasceu a 1 de Outubro de 1842. Morreu com 45 anos de idade, legando à humanidade inúmeras experiências das quais resultaram, por exemplo, o Paleophone (aparelho capaz de reproduzir um som gravado). Dotado de uma imaginação imperturbável, escreveu alguns poemas aos quais os especialistas se encarregaram de colar o rótulo de humorísticos. Mas Cros, que tinha a mania das invenções extravagantes, elevou a fasquia do humor a um ponto em que este quase deixava de ser humorístico para se tornar engenhoso. Breton reparou no talento, incluindo-o na Antologia do Humor Negro (editada, por cá, pelas Edições Afrodite, nos idos de 1973). É precisamente daí que retiro esta passagem acerca de uma impagável invenção, um contador de beijos:

Os resultados do contador de beijos são particularmente curiosos. Este instrumento de minha invenção não é maior do que o aparelho que é costume os saltimbancos meterem na boca para fazer falar o Polichinelo e se designa pelo nome de prático. Mal se fazia terno o diálogo e a situação se anunciava oportuna, escondia, é claro, o aparelho entre os meus dentes.

Até então experimentara um desdém imenso por essa expressão «mil beijos» que aparece no fim das cartas de amor. Dizia a mim próprio que mais não era do que uma hipérbole passada a linguagem vulgar por certos poetas de mau gosto como Jean Second, por exemplo. Pois bem, muito feliz me sinto por contribuir com uma verificação experimental a respeito dessas fórmulas instintivas que, antes de mim, bastantes sábios haviam achado quiméricas ao máximo. No espaço de pouco mais ou menos hora e meia o meu contador registou novecentos e quarenta e quatro beijos.

Colocado na boca, o instrumento magoava-me; sentia-me preocupado com as minhas investigações e, além disso, nunca as actividades fingidas igualam as reais. Levando em conta tudo isto, veremos que o número de novecentos e quarenta e quatro poderá ser ultrapassado frequentes vezes nas pessoas violentamente apaixonadas.


944 beijos é muito beijo, mas não tantos quantos os tipos possíveis de beijos que uma lista séria revelaria. Apoio-me nas teses desenvolvidas por Diane di Prima nas suas Memórias de Uma Beatnik. Para quem desconheça, esta Diane (n. 1934), ainda viva, é uma das princesas do movimento Beat. Com um primeiro livro de poemas publicado às 24 primaveras, foi na ressaca do Maio de 68 que resolveu registar as memórias de um período de dez anos intensamente divididos entre a exibição de uma obscenidade voluntarista e o erotismo poético de experiências limite no território alucinante da cena beatnik. O primeiro capítulo das memórias é fortemente exemplificativo, desviando-se apenas dos conteúdos de bola vermelha quando a matéria é o beijo:

   Há tantos tipos de beijos como de pessoas ou das suas variantes e combinações à face da Terra. Não há duas pessoas que beijem da mesma maneira nem duas pessoas que fodam da mesma maneira — mas de certo modo, beijar ainda é mais pessoal e individualizado do que foder.
   Há pessoas que dão beijos intensos e sérios, de lábios tensos e apertadas línguas duras enfiadas com determinação o mais longe possível na boca do outro; há aqueles que beijam com uma languidez afectada, fortuitamente, com languidez, de lábios moles, a esfregar ao de leve, com as línguas quase desiguais com o esforço do impulso. Há as pessoas que beijam com astúcia, cujos beijos começam por parecer inócuos, mas se vão abrindo em amplas explosões de prazer. Há as pessoas que beijam de maneira insinuante, cujos beijos são tão lascivos que nos deixam vagamente repugnados, como se tivéssemos dado uma queca rápida no chão da casa-de-banho; e as pessoas cujos beijos virginais parecem pegar-nos castamente na mão, enquanto nos viram praticamente a boca do avesso. Há aqueles que beijam como se estivessem a foder: com a língua a bombear freneticamente para a frente e para a trás entre os lábios do parceiro a um ritmo de tirar o fôlego. Há muitos, muitos outros tipos de beijos — pelo menos doze vieram-me à mente assim de repente. Façam a vossa lista:




Precavendo-me contra perigos eminentes em matéria tão sensível, nunca avancei na listagem. Mas sugiro que pensemos um pouco sobre o assunto. Talvez alguns leitores desconheçam o prurido das prostitutas no que toca ao beijo, não sendo rara a recusa de língua na língua por não haver dinheiro que pague tais intimidades. Desenganem-se os néscios, nada disto tem que ver com a mania de proteger os mamilos das vistas do mundo, quando tudo o resto está à mostra sem preconceito nem pudor. A ter alguma coisa que ver, diríamos que o mamilo está para a mama como o beijo para a alma. A verdade é que por mais voltas e teorias que se dê à questão fornicar não é o mesmo que beijar. O segundo verbo é essencialista, o primeiro é materialista. Através de um beijo partilha-se a alma, pelo que uma foda sem beijos é mera foda, ou seja, é como ir a algum lado de passagem. Nos seus múltiplos tipos, com máquinas que os contem ou não, os beijos são o desabrochar de uma semente a que os românticos chamam amor. E com o amor não se brinca. Digo eu. Charles Cros aparece traduzido pelo inevitável Aníbal Fernandes, Diane di Prima por Maria Augusta Júdice.