segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

#75


Será possível ouvir Blackstar (2015) desligando-o do desaparecimento imprevisto do seu autor? Há não muito, colocámo-nos a mesma questão quando líamos A Morte Sem Mestre de Herberto Helder.  Mas já antes a questão se colocou. Como reagir, por exemplo, a um livro como Horto de Incêndio, de Al Berto? Serão assinaturas testamentais? Nada parece ser por acaso em Blackstar, nem o facto de serem sete as canções que compõem um álbum cheio de enigmas, constelações de enigmas. E dessas constelações emerge uma dimensão oculta tão difícil de esquematizar como o saxofone delirante de ‘Tis a Pity She Was a Whore depois da viagem iniciática, saída algures de uma mitologia onde crenças nórdicas parecem fundir-se com os rituais de O Livro dos Mortos do Antigo Egipto. Escute-se com atenção Dollar Days, uma canção capaz de redefinir a pop por estes dias. É um disco exigente do ponto de vista musical, um disco onde a sedução foi substituída por um ocultismo ácido, delirante, mas ao mesmo tempo hipnótico e algo melancólico. Neste disco Bowie deambula no purgatório em busca de um paraíso perdido. Lazarus, não só pela imagética oferecida pelo vídeo teatral, é uma canção quase torturante de tão bela. São apenas sete, como sete são as notas musicais, as cores do arco-íris, os dias da semana, são apenas sete canções a soltarem-se de um coração moribundo. Mas se a morte é colocada no centro efervescente da encenação, a vida acaba por ser a dimensão mais afirmativa deste testemunho. Por isso nos diz o autor, lá do fundo das suas convicções, «seeing more and feeling less». Assim seja:


4 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Que vontade de traduzir o teu texto para inglês e publicar com o link para o original no meu outro blogue.

hmbf disse...

Qual é o teu outro weblog?

Claudia Sousa Dias disse...

é muito recente:

https://claudiasousadias.wordpress.com/

hmbf disse...

obrigado