quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

#76


Não sei se os fãs dos Portishead estarão a par da extraordinária revelação, mas Beth Gibbons (n. 1965) é uma rapariga do campo com mãos de costureira, trabalhou numa quinta de família a fazer o que fazem as pessoas que trabalham em quintas e se tem a voz que tem isso dever-se-á, muito provavelmente, ao ar puro que respirou no meio rural. As cidades dão cabo da saúde às pessoas. Dito isto, e sem pretender ofender ninguém, estou há muito convencido de que Out of Season (2002) é, sem o ser, o melhor álbum dos Portishead. Simplesmente porque não é dos Portishead, é fruto de uma parceria abençoada de Beth Gibbons com Rustin Man (Paul Webb de baptismo, ex-baixista dos lendários Talk Talk). As paisagens delineadas pela dupla permitem à voz de Gibbons revelar-se em todo o seu esplendor, sem artifícios a remediar tons nem paredes sonoras a omitir tonalidades (há uma excepção). É um registo onde sentimos que nos canta ao ouvido, beneficiando de arranjos serenos e de um bom gosto indiscutível. Coros angelicais, orquestrações neo-românticas, uma piscadela de olho ao jazz mais coolness, violas acústicas, pianos, harmónica, órgãos, precursões singelas repercutindo mais a respiração de quem canta do que impondo ritmos de corações alheios. Nos momentos obscuros, que também os há, estas canções parecem sonhos de criança. E quando pronunciam despedidas, memórias, abandonos e separações, fazem-no com aquela melancolia colorida que tinge as tardes de Outono com a cor das folhas caídas. Enfim, dão razão a quem diz que o melhor de se estar apaixonado é poder apaixonar-se de novo.


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