sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

ARTE PATOLOGIA



   Mais ou menos de há um ano a esta parte o mundo foi invadido pelo fenómeno dos livros de pintar para adultos, entre os quais se destacam inúmeros títulos invocando funções terapêuticas, de relaxamento, anti-stress e, sejamos rebuscados, de mindfulness (explicando por miúdos, trata-se de um movimento capaz de transformar qualquer humilde mortal num génio frankensteiniano com as características de um Gustavo Santos e as propriedades, sejam elas quais forem, de uma Teresa Guilherme). Por falar em Teresa Guilherme, devemos à apresentadora de inúmeros reality shows igualmente relaxantes a autoria de um desses tais livros para pintar. Título: A Vida é a Cores. Só não sabemos em que é que se consubstanciou a autoria da apresentadora, se foi ela que produziu os desenhos, fabricou os lápis que acompanham a obra, seleccionou os mandalas ou simplesmente disse “isto é giro” e um qualquer editor com faro comercial viu na profundidade da crítica um forte argumento de venda. Enfim, não interessa. 
   Devo dizer, desde já, que nada me opõe aos livros de pintar para adultos. Antes pelo contrário, pintar, nem que seja paredes, sempre me pareceu uma actividade muito nobre. E até posso aceitar que algumas pessoas experienciem, de facto, eventuais efeitos relaxantes da actividade. Infelizmente, a mim o desenho e a pintura sempre stressaram mais do que relaxaram. E tenho vários cadernos com inúmeros desenhos, entre os quais já publiquei alguns, sendo também factual que em tempos até cheguei a expor arabescos de qualidade duvidosa. Mas eu também não interesso para nada. 
   O que me preocupa, o que de algum modo me inquieta, é a noção da arte enquanto terapia. Sabemos desde há muito que a arte serve para tudo, para fazer comércio, pousar para a fotografia, educar, conquistar favores e seduzir paixões. Por vezes até nos admiramos que a arte ainda sirva, por assim dizer, para expressar perspectivas acerca do mundo, para provocar sensações, para reinventar a realidade ou simplesmente desconstruir preconceitos estéticos. E se por um lado me agrada o conceito de catarse, por outro desassossega-me o de terapia. Fico doente só de ouvir falar. Julgo haver uma forte razão a sustentar o meu desassossego, a constatação de que inúmeros artistas, porventura os melhores, foram imensamente infelizes, eram indivíduos perturbados e atormentados, padeceram de patologias mais ou menos graves, suicidaram-se, tiveram uma relação com a arte que foi tudo menos terapêutica, ainda que possa ter sido catártica (são coisas diferentes). 
   Devo até confessar que a primeira premissa em que me apoiei quando organizei um volume intitulado Suicidas (Deriva, 2013) foi a de que a arte, e para o caso valia a literatura, não faz bem à saúde de quem a concebe e gera, não é propriamente terapêutica, pelo menos não tanto quanto tantas vezes, na expressão desabrida de uma intimidade recalcada, acaba por agravar patologias inerentes à sua erupção. Daí a conclusão final, respigada num texto de Ruy Belo: «Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras». Para o artista, a arte será uma forma de se ir matando. Para o adulto que preenche contornos previamente definidos, chamando-se arte a tal actividade apenas por eufemística justeza, o gesto de pintar até pode ser muito agradável. Mas não é arte. A arte é outra coisa. 
   Ontem, ao folhear um belíssimo volume intitulado Kurt Vonnegut Drawings voltei a sentir estes paradoxos da criação. Quem não saiba, pode ficar a saber que Kurt Vonnegut (n. 1922 – m. 2007) foi um relevante escritor norte-americano responsável por obras emblemáticas tais como Matadouro Cinco ou Cama de Gato. Com uma forte tradição artística na família, sucede também que Vonnegut foi toda a vida um artista de palcos secundários. As palavras de Peter Reed são sintomáticas: «I believe he hoped to gain some recognition as an artist, but he never had the kind of stake in it that he did in his writing, where, in his last years, he feared a falling off in his abilities as well as his energy». Nanette Vonnegut, filha do A., na introdução que faz da obra conta que um dia o pai lhe sugeriu que fizesse um desenho e depois o queimasse, como exercício espiritual. O que haverá de espiritual em destruir algo que se criou? Não sabemos, mas sabemos por interposta pessoa que Vonnegut só acreditava em duas coisas na vida: na Arte e no seu cão. E acreditava na arte a ponto de considerar que praticar artes pode salvar vidas. Um pouco como praticar exercício físico, porventura. Ou talvez não. 
   Mesmo partindo do princípio de que pintar mandalas não é necessariamente praticar uma arte, podemos aceitar uma dimensão lúdica e divertida em ambas as actividades. Todavia, o verdadeiro exercício espiritual consiste em queimar o rabisco depois de ter sido rabiscado. Ora minimalistas, ora de inspiração cubista, mesmo quando se aproximam de uma figuração mais realista, os desenhos hão-de ter sido em grande parte para Kurt Vonnegut o que os livros de pintar são para populações inteiras de adultos à procura de uma distracção para o espírito. Por outro lado, somos levados a pensar que não eram mero entretenimento, que neles reside obscuramente um exercício espiritual que transborda os limites do humorístico. Sobretudo nos desenhos que foram queimados, aqueles que nos é impossível observar. Apenas os podemos intuir. Quem sabe se não eram os melhores.


2 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

Como dizes, pintar mandalas não é arte. Por isso mesmo pode ser relaxante, como qualquer outra atividade que não requeira despendio de energia mental e seja agradável a quem a faz. Nunca experimentei os mandalas mas em tempo idos gastei muitas horas a pintar telas e apesar de ter um jeito nulo para a pintura, aquilo fazia maravilhas pelo meu stress.
E concordo contigo. A arte, quando é arte, não é boa forma de terapia e até tende a agravar a doença.

hmbf disse...

Não quero abusar nem ir demasiado longe, mas por vezes tendo a pensar que a arte é em si mesma uma anomalia. Olha para o desenho do Vonnegut que reproduzi no final. É uma espécie de auto-retrato, o escritor (figura em rolos de papel) a olhar para a jarra onde já só restam uns ramos secos. O homem esqueceu-se de regar as flores. Andava tão metido com os papéis que se esqueceu do essencial, e o essencial são sempre coisas pequeninas como regar flores.