quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

FORA DE TI

Arranjem um lugar para o Eleutério, um cantinho no mundo, um ponto por mais que ínfimo no universo, encontrem-lhe esse sítio que ele merece. Sempre que calha nos cruzarmos, irrompe numa vozearia de queixas intermináveis. A terra é o seu alvo principal, a terrinha, com seus hábitos rígidos e costumes fechados, sempre as mesmas caras sorumbáticas fazendo de cumprimentos circunstanciais uma aventura diária. Pobreza de espírito, tacanhez, uma pasmaceira onde nada que valha a pena recordar acontece. Digo-lhe que devia sair mais, olhar para o mundo com outros olhos, caminhar a pé até ao mar. Nada mais apaziguador do que uma caminhada solitária. Sugiro-lhe que se meta num autocarro e vá até à capital matar ânsias de cultura. E ele vai, mas regressa pior, mais desanimado, num desalento flagelante. Ele é o trânsito, a falta de civismo, as pressas, a avidez das gentes, a feira de vaidades. A capital, Henrique, diz-me Eleutério, só é boa para gajos sem coração, um ninho de víboras comendo-se umas às outras enquanto deixam escapar a presa. Matilhas de cães a debaterem-se pelo mesmo osso, pobreza de espírito. E Eleutério tomba os olhos sobre a calçada, enfia as fuças na lama, deprime, é a tristeza em pessoa a tentar aguentar-se sobre duas pernas. Da capital salta rapidamente para o país, julgo que vai buscar algum ânimo às críticas. Este país é um mito, não existe, este país acabou, séculos de história perdidos pelo ralo da Europa. Olha bem para este país, um circo de plutocratas a fazerem do povo um teatro de marionetas. Uma tristeza com batina de padres e cabeça de pobre, de patetas alegres a disfarçar a miséria em que vivem com bola, telenovelas, milagres e música pimba. Tudo postiço, tão postiço e requintado como as fadistas de saia curta e decote robusto que à falta de voz exibem tatuagens. Este país não existe, é uma ilusão. Já olhaste bem para este país? Respondo-lhe que sim, que vi coisas boas, positivas, que sempre temos a gastronomia, o vinho, alguns lugares onde a mão especulativa não cravou as unhas, mas logo me contraria com desmentidos. Que esses lugares estão inacessíveis porque alguém os transformou em reservas ecológicas e nas reservas ecológicas nem os gatos miam, só os jipes da guarda-florestal. A que existe. Que o vinho não é melhor do que o francês ou o argentino, a gente é que tem a mania. Que o cozido à portuguesa devia ser elevado a património da vulgaridade, que o que não falta pelo mundo é culinária sofisticada e elaborada capaz de meter os nossos melhores pratos a um canto. E os portugueses, o pior de Portugal, são o que sempre foram, saloios sem horizontes encalhados no fim do mundo. Os mais ricos não passam de pobretanas quando comparados com os de fora, os mais pobres podem gabar-se de serem desenrascados mas estarão entre os mais incivilizados e incultos e, por isso mesmo e bem merecidamente, entre os que mais consentem ser estropiados, enganados, roubados, ludibriados, violados nos mais básicos direitos, até porque nem sequer sabem o que são direitos e sempre que alguém lhos tenta explicar ficam desconfiados e confundem-nos com privilégios. Os portugueses? Em suma, uma miséria. Há-de existir um lugar para ti, Eleutério, há-de haver um sítio onde a felicidade te brilhe e o encanto das coisas simples te espante. Não é na Europa, continente assassino, vulcão virótico do mundo, reino da hipocrisia como alguns dos seus melhores, poucos e esquecidos, o toparam e denunciaram. Erasmo de Roterdão, Tomás Moro… poucos mais. A Europa? Olha bem para a Europa, Henrique. O que vês? Aceno com a cabeça, encolho os ombros, aponta-me o dedo, estende-me a mão hirta como se fosse dar-me uma chapada. Acorda, rapaz, não te resignes. A Europa dos refugiados, dos alemães, dos russos, do Clube de Bilderberg, dos maçons, da Opus Dei, do Vaticano, a Europa que invadiu as Américas e chacinou os índios, a Europa que transformou a África num caos e espalhou pretos pelos quatro cantos do mundo, e escravizou e matou, a Europa de Hitler e dos gulags, a Europa colonialista que quer impor ao mundo regras, normas, leis que ela própria desrespeita a todo o momento, a Europa incapaz de receber e de integrar milhões de desgraçados que fogem aos problemas que, em parte, ela própria gerou. A Europa é uma H-I-P-O-C-R-I-S-I-A!!! E nem me falem de progresso e de evolução, da conquista de direitos e de valores, a Europa dos valores e dos direitos e do progresso e da evolução está há muito enterrada pelo pescoço no pântano de Wall Street e nos paraísos fiscais (por que lhe chamam paraísos?) e no tráfico de órgãos e no tráfico de droga e nas redes de tráfico sexual… A Europa é uma pocilga, um conceito de humanidade falido e falhado. Um lugar ameno onde morrer de tédio será um mérito e explorar os outros uma inevitabilidade. Mas há-de haver um sítio para ti no mundo, Eleutério, um ponto minúsculo no universo, um lugar, tu não és homem de lugar nenhum, há-de haver um lugar para ti. Talvez no mar alto, na Oceânia ou na Gronelândia.  Um lugar, não sei, arranja-te um lugar, quem sabe se fora de ti, sim, um lugar fora de ti, Eleutério, atira-te para fora de ti, estou certo de que fora de ti aprenderás a sorrir, creio que sim, fora de ti, fora de ti.

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