quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

PELO MENOS UMA VEZ DISSE

Por vezes arrependo-me de tudo quanto fiz, disse, queria começar de novo, desde o princípio, mas nem sei quando tudo isto começou e sei que é impossível apagar o que ficou para trás, disse, não gosto da vida que levo, envergonho-me de não gostar da vida que levo, tenho a vida que mereço, é certo, mas queria outra vida, uma vida diferente de tudo isto, uma vida que não me levasse a arrepender-me de tudo como se tudo o que fiz até hoje nada valesse, disse, e não vale, de facto de nada vale tudo o que fiz até hoje, de nada me vale, nem a mim nem a ninguém, estou consciente de que sou uma nulidade, mas isso não me entristece, é quando estou mais consciente de que sou uma nulidade que consigo sentir alguma alegria, uma certa leveza, um certo alívio, disse, tudo em mim é pesado e chato e insuportável, não sei como me suporto, disse, tudo em mim é óbvio, previsível, disse, não tenho inimigos, não tenho amigos, vivo só, nem uma mulher consegui alguma vez arranjar, todas as mulheres com quem estive foram pagas para estar comigo, todas, disse, queria ter uma família, amigos, queria sair de casa e divertir-me, ter um grupo com quem falar de coisas banais sem sentir que estou a falar de coisas banais, sem me censurar por esta a perder tempo com coisas banais, disse, acho que sem querer me dou demasiada importância, por outro lado não me ligo nenhuma, não faço exercício físico, não cuido da alimentação, tenho um corpo de sessenta numa vida de trinta, disse, sinto-me cansado, saturado, incapaz de fazer o que quer que seja por mim e pelos outros, nunca tive de tomar uma decisão e todas as decisões que eventualmente poderia ter tomado deixei sempre que outros as tomassem por mim, disse, ah como eu gostava de me sentir feliz quando vou ao supermercado, quando entro num café, quando ando nas ruas, mas ando sempre com ombros carregados de preconceitos e de receios e de nojo do mundo, disse, hoje queixo-me de mim tanto quanto me queixo dos outros porque me sinto perdido, sinto que eu não sou eu nem sou um outro, sinto que sou nada, nada, nada, ouviu-me?, disse, eu sei que está aí, que está a ouvir-me, a pensar se estarei a ser honesto consigo, se estarei a ser sincero, mas não, não posso dizer-lhe que esteja porque não sei, não sei o que é ser honesto, não sei o que é ser sincero, não sei o que é ser autêntico, sei que nem você nem eu temos culpa de tudo o que nos está a acontecer, disse, preferia que nada disto estivesse a acontecer, preferia não me sentir tão só, tão abandonado, preferia não ter dentro de mim mil e um tormentos, mil e um pensamentos com que me atormentar, preferia que tudo fosse silêncio, disse, se ao menos tivesse coragem, mas falta-me a coragem, talvez se tivesse uma pistola na mão, ouviu, sim, se eu tivesse uma pistola na mão, então teria coragem, disse, logo eu, eu, eu que sempre reclamei de não ter sossego à minha volta, eu que sempre me queixei da falta de espaço e da falta de tempo, para quê?, para o desperdiçar, para desperdiçar o tempo com estas lamentações fúteis, para desperdiçar o espaço com queixumes sem nexo, eu, miserável num conforto que não suporto porque nada fiz por ele, foi-me tudo dado de bandeja, tudo, nunca tive de conquistar nada, absolutamente nada, foi-me tudo dado de bandeja, eu que nada fiz por mim mais não mereço de mim do que nada, sempre tive tudo o que quis, tudo, sem fazer o mínimo esforço para ter o que quer que fosse, disse, queria ser estupidamente feliz, disse, só queria não dar por isso, por isto, por nada, por me acontecer tudo sem que eu desse por isso, sem me aperceber de quão tudo é fútil, supérfluo, inútil, desnecessário, disse, por isso não tenho uma vida, tenho apenas isto que vê, repare, abra bem os olhos, veja, por favor abra os olhos, veja, não me deixe assim nesta angústia, eu merecia que pelo menos visse, que pelo menos pudesse ver e ouvir-me e sentir o que eu sinto, não, abra bem os olhos e escute-me com atenção, eu odeio-me, odeio-me por nunca ter conseguido dizer-lhe olhos nos olhos o quanto o odeio, por nunca ter conseguido dizer-lhe de homem para homem quão fraco sou, abra os olhos, escute-me com atenção, veja o meu coma, sinta o meu coma como eu sou obrigado a sentir o seu carregando o meu desde que nasci, veja o meu sofrimento porque eu não consigo mais olhar para o seu, aí deitado nessa maca como se nada fosse consigo, tão indiferente a tudo, estático, uma pedra, tal como sempre foi, uma pedra, disse, queria que pelo menos uma vez na vida não fosse uma pedra e pudesse ouvir-me e ver-me, disse, pelo menos uma vez na vida, disse, pelo menos uma vez.

4 comentários:

panaceia disse...

Boa tarde, Henrique

Vai-se lá saber porquê, ao ler este texto, lembrei-me do nosso amigo Rui Almeida.
Um abraço

Lia

hmbf disse...

Na realidade, este texto é sobre uma prisão que se chama contas para pagar. Água, luz, gás, seguros, IMI, condomínio, IUC, revisões, inspecções, essas coisas que nos deixam em coma, que nos roubam a vida.

panaceia disse...

Pois, reli o texto com mais atenção. E agora que sei o que te motivou a escreve-lo, consigo entende-lo dessa forma.
A mesma prisão onde todos, ou uma grande maioria, está metida. Atados de pés e mãos. Um sufoco.
Mas continuo a lembrar-me do Rui e das suas depressões tantas vezes expressas no FB.
Boa noite, Henrique.

Um abraço
Lia

hmbf disse...

Boa noite :-)