terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

SPRINGSTEEN #1

Deixem-me ser cínico. E quando Bruce Springsteen (n. 1949) nos deixar, vamos dizer o quê? Que era o rei do rock? Escuto-o como se estivesse a escutar um cronista. Um dos melhores. Quem conheça a obra para lá do óbvio entenderá o que quero dizer. Springsteen disse logo ao que vinha com Greetings from Asbury Park, N.J., assumindo cada canção como um testemunho quase fotográfico das ruas e das vidas que as atravessam. Não é fácil ser-se santo na cidade. Bowie era teatral, Springsteen é documental. Escutemos Mary Queen of Arkansas, numa versão quase a picar o ponto, consideravelmente inferior à registada em estúdio:


Os últimos versos são de um realismo brutal: «But I know a place where we can go Mary / Where I can get a good job and start all over again clean / I got contacts deep in Mexico where the servants have been seen». Quem nunca pensou em refazer a vida? As canções de Springsteen partem dos destroços da existência para como que celebrarem a vida a partir de uma perspectiva regeneradora, encontram soluções para almas amarguradas, vislumbram luzes ao fundo de túneis negríssimos, não enjeitam nenhuma descrição por mais tortuosa que possa parecer. Mas elevam-nos acima da terra com um foco na mudança, na transformação, na partida, num ideal de liberdade naturalmente associado à capacidade que cada indivíduo conquista de se ir fazendo à medida que se vai abandonando. Um outro excelente exemplo do primeiro álbum, agora com piano de companhia, é este The Angel:


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