quarta-feira, 9 de março de 2016

AS ELITES

Gostam deveras uns dos outros, fazem questão de marcar presença, lêem-se uns aos outros para poderem escrever uns sobre os outros, comparam-se aos melhores, vestem-se a preceito, querido para cá, caríssimo para lá, são uma espécie de máquinas coprofágicas do elogio, amigo tantos de tal de não sei quem, frete aqui, frete acolá, aperto de mão, abraço, já está. Leio muito por aí, e reconheço alguma razão ao discurso, que o mal de Portugal foi desde muito cedo a tacanhez de espírito das elites. Acreditei durante alguns anos que quem assim acusava fosse diferente, cultivasse aquela dignidade moral que vem de ser pela palavra e pela prática indefectível defensor de uma certa ética, a ética natural de quem não julga os outros tanto quanto se ocupa a julgar-se a si próprio. Rapidamente se me foi a fé pelo ralo quando molhei o primeiro dedo do pé nos vastos mares da cultura. São mares poluídos e sujos, tanto ou mais que os outros, são mares de capitães e de piratas, é certo, com suas hierarquias estabelecidas pelo respeito, são mares igualmente expostos à mesquinhez humana, à trepidação dos valores, mares de regateios e de cumplicidades interesseiras, não mais dignos, nobres ou estimáveis que os charcos onde o poder exerce coercivamente os seus desígnios. No fundo, esse meio a que chamam meio é a cloaca maxima onde o humano dejecta pobres e podres ambições veladas pela vaidade, pela soberba, pelo orgulho avarento de uma ilusão: a de que valemos qualquer coisa acima da lama onde enterramos os pés. Mera e triste ilusão. Que nada nos decepcione já é apenas um sinal, porventura positivo, de que atingimos uma certa maturidade, aquela que nos permite desconfiar de tudo quanto seja humano, previsível e provavelmente egoísta, calculista, certamente nojento. Sempre assim foram os homens, do mesmo nos andamos a queixar, alguns de nós, há uma imensidão de tempo. Não esperemos dos homens mais do que nos podem dar, o gozo arquetípico do falhanço, o erro inerente à presunção de um valor que se não tem. Por isso digo, como outros disseram antes de mim, que quanto menos sociais, mais capazes seremos de sobreviver à influência negativa de uma comunidade fundada no desprezo do outro, egocêntrica, ensimesmada, voltada para si mesma como se não houvesse nada mais à volta, como se tudo o que existe para lá dos círculos em que me movimento fosse o espaço vazio onde o lixo medra. Sociais? Comunitários? Tribais? Qual a melhor forma, então, de viver entre os outros escapando aos males de todos? Convenhamos que o artista tem a seu favor, apesar de tudo, o fruto da criação. Pode não ser grande coisa enquanto homem, pode até não ser grande coisa enquanto artista, mas a obra desculpa-lhe a mediocridade. Porque a obra, mesmo sendo má, é sempre discutível. A obra é já um distanciamento, é um afastamento do ser. Nunca acreditei nas leituras que olham para a obra como manifestação do ser, como expressão do ser, como se houvesse nelas escondido o magma corrompido de quem a criou. Não há ser senão na carne e a obra é o que mais se afasta da carne. Num mundo perfeito valeria por si só, sem autor, sem nome nem designação, sem rótulo, sem a fantasmagoria insuportável dos certificados e dos abonos. Talvez a melhor forma de vivermos entre os outros seja transformando-nos em obra, isso mesmo, fazermos da nossa vida uma permanente, constante, inesgotável criação de nós próprios, vivendo sem nome, sem rótulo, sem autoria, rasurando em cada gesto, em cada acção, em cada momento a insuportável fantasmagoria dos certificados e dos abonos. Talvez assim pudéssemos apresentar-nos ao mundo sem a necessidade dos prefácios, sem o certificado de habilitações conferido pelo mestre. Mestres de nós próprios, auto-suficientes, aprendizes solitários de uma razão comum. O sentido daquele que resiste contentando-se com o seu próprio descontentamento, amparado pelas vielas do sonho, autor de si mesmo, feliz por não ter que dizer sim quando a vontade lhe exigia um não. Livre. Enfim livre.

2 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Sim, nada que se compare a ser-se livre. Mas paga-se um preço. E bem caro. Eu que o diga. E alguns amigos meus, também.

hmbf disse...

Como diria o mestre: para o preço que temos a pagar, os bolsos estão cheios.