terça-feira, 15 de março de 2016

MANHÃ DE MEMÓRIAS

Passados oito anos sobre a última aula, regressei à escola. Uma escola especial. Embora completamente diferente de quando a frequentei, era a mesma escola onde cumpri seis anos lectivos. A escola da terra onde nasci. Fui convidado pela Associação de Pais para, integrado num programa de incentivo à leitura, falar sobre livros. Talvez fosse suposto que falasse sobre os meus, mas prefiro sempre falar sobre os livros dos outros. Foi o que fiz. Entre duas balizas, representadas pelo último livro que li e um comando de PlayStation, falei dos livros que me marcaram quando ali era estudante. Livros marginais aos currículos escolares, livros aos quais cheguei por acaso e por uma curiosidade imensa. Tinha uma intenção inicial, há sempre uma intenção inicial, desmistificar três declarações que me tenho fartado de ouvir ao longo dos anos: não gosto de ler, não tenho tempo para ler, os livros são caros. Assumindo que o mundo hoje é diferente daquele que eu experienciei há 25 ou 26 anos, não posso deixar de constatar que no essencial muita coisa se mantém. E o essencial é a curiosidade que aguça o engenho. Ou nos limitamos a aceitar tudo tal como nos é apresentado ou nos atiramos às coisas e procuramos pensá-las, olhá-las de outras perspectivas, desconstruí-las. Os livros, por exemplo, podem ser olhados e pensados sob várias perspectivas. Tinha na plateia duas ex-professoras a quem devo para a vida as primeiras lições de inglês e algumas boas horas sobre língua portuguesa. Foram importantes pelas bases que disponibilizaram, foram essenciais pelas raízes que regaram, mas não mais importantes do que as sementes lançadas por um mundo que gira à nossa volta e do qual jamais retiraremos proveito se não soubermos estar atentos. Talvez a distracção e a indiferença sejam os nossos maiores inimigos, talvez a atenção e uma permanente humildade face ao saber, porque de garantido temos apenas uma incomensurável ignorância que a todos basta, sejam as portas para novos e fortificantes mundos. Os mundos dos nossos amigos imaginários, os livros, esses mesmos amigos que nos acompanham para onde quer que voltemos o olhar deixando marcas que por vezes nem chegamos sequer a notar. Por isso comecei pelos meus quinze anos, comecei pela música, comecei pelo CD An American Prayer e pela descoberta de que afinal aquele CD era um livro, não era só os acordes iniciais da versão ao vivo de Roadhouse Blues que nos levavam ao delírio nas festas da escola. Contei como essa descoberta me levou a uma biografia dos The Doors onde encontrei, pela primeira vez, numa cidade conservadora de província referência às mentes mais revolucionárias de outros tempos, Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire, escritores beat… Encontros capazes de mudar uma vida, como modificada foi uma vida depois de serem lidos os primeiros aforismos do filósofo alemão que matou Deus. E da Origem da Tragédia fomos aos gregos antigos, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, a obras com mais de 2400 anos onde a vida era já o que sempre foi: uma sucessão de equívocos, destinos cruzados, uma tensão de paixões onde entre o dever e o ser o homem se afirma. Édipo Rei, traduzido por Agostinho da Silva, permitiu-me falar sobre as Conversas Vadias, lembrar-me como era fascinante ficar a ouvir duas pessoas conversarem inteligentemente sobre os mais diversos temas num cenário tão austero como o principal interveniente daquelas conversas. Agostinho da Silva foi para mim, durante muitos anos, um símbolo de liberdade, de liberdade de pensamento e de acção. Daí que não tenha sido difícil passar das Sete Cartas a um Jovem Filósofo aos autores lidos, cantados e interpretados pelo Mário Viegas no Palavras Ditas. Um hattrick de mários, à guisa de homenagem: Viegas, Cesariny e Mário-Henrique Leiria. Um conto deste, um poema daquele, porque a poesia não são apenas rios translúcidos a atravessar paisagens primaveris com passarinhos a cantar, e tomem lá o Rimbaud traduzido pelo de Vasconcelos. Os livros são mesmo como as cerejas. Quem estiver interessado que descubra o Rimbaud por si mesmo. Um rapaz raro, como diria Llansol, não se esmiúça, simplesmente se encontra inesperadamente. Eis-nos encalhados na badana de um livro. Mais um nome se anuncia: Henry David Thoreau, pensador para quem desobedecer era uma virtude, inspirador de jovens aventureiros tais como o malogrado Christopher McCandless, ou Alexander Supertramp, Thoreau isolado no meio de um bosque, irritado com a sociedade mercantilista que lhe vinha destruindo a paisagem, auto-suficiente, amigo de indígenas e de algum modo ele próprio um índio. Pois bem, porque entre o último livro que se leu e o comando de PlayStation o jogo vai longo, falemos de indígenas, regressemos ao princípio do mundo, quando alguém nos mandou dominar a Natureza e todos os animais à face da Terra. O Papalagui, pois claro, o homem branco, esse génio tão genial que ao olhar-se reflectido nas águas acabou por morrer afogado, génio distraído, tão cheio de cultura que flutua muitos metros acima do chão e se esquece do fundamental, ou seja, que é débil, que é frágil, que é efémero, em suma, que são idiotas as suas pretensões. Espreitemos um pouco a vida de Geronimo Por Ele Próprio, escutemos a Fala do Índio, é um vento que vem das profundezas do ser e nos trespassa o corpo com a vibração de uma voz silenciosa, não é poesia nem religião, é o canto de um pássaro, é o voo de um pássaro, é um raio de sol a atravessar as águas do rio, é a natureza selvagem, sim, o animal que caminha e sobrevive em conformidade consigo próprio. Ah, que esse homem tenha terminado os seus dias viciado no álcool, a representar peças ridículas em feiras de variedades, diz muito mais sobre o que nós somos do que sobre o que ele foi. Diz-nos, por exemplo, que entre o último livro que lemos e o comando da PlayStation ainda há muito a fazer, há todo um jogo que mal começou e que não faz sentido interromper por julgarmos que não gostamos de ler quando nunca nos aventurámos na leitura, ou que afastamos por pensar que não temos tempo para os livros quando o temos para tudo quanto não nos é proveitoso, ou porque são caras as obras quando à mão de semear temos ao nosso alcance todo um mundo novo por explorar. Ora experimentem lá googlar Geronimo. Agora aventurem-se sem temer consequências. No final, o preço mais caro que podemos vir a pagar é o da nossa ignorância. O preço da aventura desperdiçada, da viagem perdida, das asas cortadas ainda antes de o voo ter levantado. Que fique aqui registada a manhã de regresso à escola, com poemas que julgo ter escrito espalhados pela sala sob a forma de marcadores, com um livro que julgo ter publicado a chegar às mãos dos leitores 10 anos depois de ter visto pela primeira vez a luz do dia, com simpáticos presentes que guardarei entre as mais comoventes das minhas memórias. Uma manhã de memórias, portanto. Uma manhã contra o esquecimento.

8 comentários:

Manuela Dâmaso disse...


Como professora de Português, desde que me conheço apaixonada pela magia das palavras, e, acreditando que as mesmas (em livro, em conversa, em filme) podem mudar a vida, tive o privilégio de partilhar, ou melhor, de vivenciar, o momento aqui descrito pelo Henrique (permita que o trate assim).
Muito obrigada. Os nossos alunos não esquecerão a viagem de um livro a uma playstation.
Bem haja pela partilha.

Manuela

hmbf disse...

Muito obrigado.

MJLF disse...

Bela manhã! :)

hmbf disse...

:-)

Paula Henriques disse...


Como professoras desta escola e da equipa da Biblioteca Escolar, foi com grande pesar que não pudemos participar no evento tão bem descrito pelo Henrique, ainda que tenhamos colaborado para que aquele momento único acontecesse.
Sabemos que os momentos inolvidáveis são irrepetíveis, não obstante esperamos que, no próximo ano letivo, seja possível mais um encontro que, decerto, ficará gravado nas nossas memórias.

Bem haja

Margarida Santana e Paula Ribeiro

Claudia Sousa Dias disse...

Adoro.

Paula Henriques disse...

Lendo o texto que surgiu do seu "regresso à escola", fiquei com uma pena imensa por não ter podido estar presente na palestra "Os livros são como as cerejas". Um texto belíssimo que nos dá uma pequena ideia do quão gratificante foi o encontro com o Henrique . Uma memória a reter, uma experiência a repetir.
Agradeço a iniciativa louvável da Associação de Pais desta escola e a generosidade do Henrique.
Prof. Paula Henriques

hmbf disse...

Grato estou eu pelo convite. Saúde a todos,