segunda-feira, 28 de março de 2016

NAU DOS INSENSATOS

Os meus amigos andam muito preocupados com o mundo, não vão para os fóruns discutir a crise brasileira, nem sequer já frequentam cafés, mas formulam as mais incríveis teorias sobre os atentados na Europa, estão profundamente informados sobre os métodos de propaganda do Daesh, sabem tanto sobre conspirações que chega a parecer ridículo falar-se de conspiração. Não precisam de ouvir ninguém sobre o assunto, pelo menos não tanto quanto precisam de se fazer ouvir. Por isso não discutem, manifestam. Os meus amigos olham-me nos olhos, apontam o dedo indicador, gesticulam muito enquanto partilham as suas teses sobre a Turquia, sobre a intervenção Russa na Síria, sobre a crise ucraniana, entretanto ultrapassada e esquecida por assuntos mais graves e urgentes, eles conhecem coisas incríveis sobre as quais eu nunca ouvira falar. Por exemplo, falam muito de impeachment acerca do Brasil, denotam um conhecimento invejável do Código Penal brasileiro, sabem tudo sobre escutas e sobre a legitimidade com que se divulgam as mesmas, conseguem até analisar os problemas comparativamente. Não só estão a par dos trâmites legais brasileiros como os interpretam em comparação com a lei portuguesa. Quase que aposto que também conhecem, sabem, estão informadíssimos sobre os diversos códigos da lei italiana e da lei inglesa e da lei francesa e de outros países porventura mais obscuros tais como o Butão, o Togo ou o Burkina Faso. Os meus amigos são muito inteligentes, têm uma cultura incomensurável e uma capacidade de raciocínio invejável. Eles conseguem, por exemplo, perceber quem está inocente e quem está culpado ainda antes de alguém ter sido julgado, lêem imensos jornais e revistas da especialidade nas mais diversas línguas, fartam-se de viajar, lêem livros de 500 páginas numa tarde, tratam por tu a actualidade e todos os seus inerentes opinion makers. Confesso alguma inveja de certos meus amigos, eu que apenas leio poemas inofensivos e ainda hoje não sei a diferença entre a National Security Agency e a Central Intelligence Agency, embora esteja convencido de que ambas desempenham papéis deveras relevantes na organização do mundo. Fico igualmente espantado com tudo aquilo que os meus amigos conseguem ser. Numa semana são Charlie, na outra são belgas, sem deixarem de ser todos os dias pelos refugiados, presumo que por todos os refugiados, incluindo aqueles que se refugiam deste mundo carregado de opiniões que delicia os meus amigos. Que mundo vertiginoso! Que frenesim! Não sei como têm andamento para tal mundo os meus queridos amigos. Temo pela sua saúde. Terão tempo para comer? Trabalharão? Estarão desempregados? Certo é que não têm descanso, trezentos canais à disposição, um labirinto interminável de soundbites a circular na internet, twitters, posts, facebook, feeds, toda uma nova linguagem processada com a rapidez e a eficiência do mais perfeito dos computadores, um tsunami constante de emoções, um vulcão permanente de sensações, um arrastão de crenças, pareceres, presunções, suposições e convenhamos ideias que atordoaria qualquer sábio Pré-socrático mas delicia o génio dos meus amigos. Não escuto a nenhum dos meus amigos qualquer confissão de ignorância, não lhes pressinto qualquer dúvida, raramente lhes escuto uma declaração de desconhecimento. De resto, declarações de desconhecimento já só ouvimos aos criminosos ou a quem está por dentro dos assuntos e, para se esquivar às perguntas, afirma, responde, reage: desconheço. Os meus amigos nada desconhecem porque, reconheçamos, estão inocentes. Nada desconhecem precisamente porque estão fora, não foram implicados nem acusados, vivem no miradouro privilegiado de quem apenas olha para a paisagem sem nela intervir com o mínimo de prejuízo. Por vezes, lamento que usem todos óculos de sol, que sejam incapazes de olhar para as coisas directamente, de as observar sem intermediários. Por vezes, lamento até que insistam em manter uma certa distância. Mas não posso exigir mais dos meus amigos do que o divertimento da sua alta sabedoria e sobre isso escrever poemas, posts como este, ficar a observá-los sem óculos de sol, deliciado com a sua ingénua sabedoria, tão excitados que andam com os problemas do mundo, com os atentados na Europa, com a crise brasileira, com a desgraça dos refugiados, tão excitados por detrás dos monitores da televisão e do computador, enquanto alguém algures há-de também estar a divertir-se com a minha indolência. Os meus amigos são todos uns tipos porreiros, fazem parte de um quadro que Hieronymus Bosch não viveu para pintar mas, fosse ele vivo, teria pintado mais ou menos como pintou a nau dos insensatos.

5 comentários:

manuel a. domingos disse...

eu, teu amigo, me confesso. apesar de nunca ter sido charlie, ou belga. apesar de saber a diferença entre NSA e a CIA. apesar de nunca ler livros de 500 páginas numa tarde. confesso-me. confesso-me um pouco como os amigos que aí descreves.

Cuca, a Pirata disse...

Desconheço. Desconheço tudo.

hmbf disse...

Grato pela vossa cumplicidade. :-)

Susana Rodrigues disse...

Foi um prazer ler este post. E um alívio. Afinal sempre há alguém que pensa como eu.
Obrigada, hmbf.

Anónimo disse...

Afinal o mundo continua igual! Quando era mais nova achava isso péssimo. Hoje é das poucas coisas que me dá alento. Alentemos todos. Sofia