quarta-feira, 9 de março de 2016

BEM-ME-QUER


Que não te apoquente a efemeridade de tudo quanto existe. Radicalmente breve é a beleza. Pensa que se não pensasses tudo faria mais sentido. As nuvens seriam apenas nuvens, a terra apenas terra, e o que a teus olhos não se vislumbrasse simplesmente não existiria. Os homens constroem moinhos no alto de uma impenetrável ausência. Isso a que chamam Deus não é mais do que um verme a mover-se por entre ossadas.


Se olhares para o horizonte poderás avistar pequenos ilhéus, abrigos onde a vida se completa. Vêm da distância os sonhos e a esperança, a brisa ligeira de um tempo infindo. Arranca os ponteiros aos relógios, arranca-lhes os números como quem despega as pétalas de um crisântemo. Bem te quer este lugar veloz de ilhéus ao longe, neles a vida se completa por estar rodeada de inevitabilidades. 


Nem tudo tem um nome, sabias? A isso que não tem nome podes dar voz com olhos contemplativos. Talvez o segredo esteja em não procurar razões para a sombra, em não exigir da terra senão que nos acolha, e sobre o vento lançar sementes de satisfação. Ah, tão boa literatura vomita a tristeza, tanta eloquência inspira a tragédia. Da paz intuída colheremos consolos breves mas proveitosos, tudo quanto nos apraz dizer sobre a morte. 


Nenhuma hesitação poderá então atrapalhar aquele que caminha sobre as ervas, nenhuma teoria poderá servir-lhe tanto quanto lhe servem boas solas. E nos movimentos simples de um corpo, no ritmo instintivo dos músculos, tudo se torna muito mais claro e evidente. A única razão que desperta o espírito é, pois, este instinto de caminhar buscando consolo e satisfação nas coisas breves. Porque nenhuma improvável eternidade se apresenta mais bela aos nossos olhos do que o pássaro sem nome, o arbusto seco, a erva verde, a lama onde enterramos os olhos, o vasto mar onde sepultamos a melancolia.


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