Publicado em 1959, N.º 2 foi, se bem sei, o segundo álbum
de Serge Gainsbourg. A capa é uma encenação perfeita das obsessões que irão
percorrer a obra subsequente, com um ramo de rosas e um revólver sobre uma
secretária a evocarem o amor e a morte, a paixão e o crime, Eros e Thanatos
enquanto forças motrizes da existência, a qual reconhecerá na figura bem
vestida de cigarro na mão uma encarnação sublime da marginalidade e da
decadência. Esse culto, se assim lhe podemos chamar, ou essa inclinação, é a
nuvem que paira sobre todo o percurso do cantautor francês, sendo recorrente
nas suas letras referências a poetas e marginais famosos por desafiarem a
normalidade. O preço a pagar pelo desafio é alto, estabelecendo Gainsbourg um
valor que oscila algures entre o declínio e o suicídio.
Logo em 1958, numa
canção intitulada Le Poinçonneur des Lilas, primeiro sucesso incluído no álbum
de estreia Du chant à la Une!, conta-nos a história de um revisor, vulgo pica,
que entediado com a monotonia da vida sonha com o dia em que fugirá para a
natureza selvagem, não enjeitando porém dar um tiro na cabeça se a mudança não
suceder. Repare-se nesta interpretação do tema, e no gesto de Gainsbourg ao
minuto 2:43:
Estamos no início da carreira, o gesto ameaçador
revelar-se-á um oráculo, um prenúncio, uma espécie de profecia levada a peito
ao longo de uma vida que foi toda ela uma peregrinação pela natureza selvagem. É o caminho das consciência atormentadas. Muitos
anos depois, em 1984, cantará em Sorry Angel:
C'est moi qui t'est suicidée
Mon amour
Je n'en valais pas la peine
Tu sais
Sans moi tu as décidé
Un beau jour
Décidé que tu t'en allais
Como traduzir este C'est moi qui t'est suicidée? Trata-se da segunda canção de Love on the Beat, um dos
mais polémicos discos da carreira de Gainsbourg. Razão para tal: Lemon Incest,
parcialmente interpretada por Charlotte Gainsbourg, fruto da relação de Serge
com Jane Birkin, que com apenas 12 anos aparece no teledisco deitada com o pai
numa cama a cantar o tema. É provável que existam motivos biográficos
associados à evocação do suicídio no início de Sorry Angel, ecos do término numa
relação luxuriante com Birkin. Jamais alguém logrou tratar o tema com tamanha aparência kitsch, embora o gesto surja no contexto
pessoal mais como uma vontade adiada, uma ameaça, do que como um facto a
consumar racionalmente para lá das emoções. Podemos também interpretá-lo como
um desafogo, a respiração sufocada do malogrado amante, o romântico traído pela
sua própria inconsequência a lamentar alvos falhados.
Chatterton, magnífico tema da década de 1960,
convoca o assunto a partir da referência a várias personalidades históricas que
se suicidaram. O título recorda o poeta Thomas Chatterton, que se suicidou com
apenas 17 anos. No final de cada estrofe, Serge Gainsbourg coloca-se entre as
personalidades convocadas e confessa: «Quant à moi, quant à moi, ça ne va plus
très bien». O resultado é profundamente intimista, revelador de um estado de
alma na simplicidade indulgente do confessionário. Afasta-se da comparação por uma
espécie de distanciamento métrico entre o não ir lá muito bem e a decisão
derradeira de se matar. Pesa-se nestas canções um capricho emocional,
porventura sentimental, com um enraizamento profundo na romantização da vida.
No fundo, os sussurros, os suspiros, as palavras arrastadas ao longo dos versos
são como pingos de chuva a escorrer no vidro de uma janela fechada, o
desnudamento de uma espécie de melancolia capaz de aprisionar o pensamento tanto como de
libertar a imaginação.
Recordemos, só para terminar, Quand mon 6.35 me fait les
yeux doux. O 6.35 é um revólver, o revólver faz olhinhos ao proprietário, o
proprietário olha-se ao espelho e sobre um ritmo jazzístico típico de film noir
leva-nos a crer que o alvo poderá estar entre a fechadura pela qual alguém
espreita e o espelho ao qual alguém se olha, embora no final o tiro seja consumado
sobre quem espreita pela fechadura. Será outra forma de suicídio, esta tentação
de disparar sobre quem nos espreita, sobre quem tenta invadir o espaço da nossa
mais solitária intimidade, afastando para longe os outros que, afinal, como entendeu
o filósofo, são sempre o inferno. Os outros. Os outros que somos nós. Não é
assim Rimbaud?

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