quinta-feira, 12 de maio de 2016

RESPIRAR É ARRISCADO

«Sinceramente, não sei como é que alguém ainda arrisca fazer leituras críticas de livros de poesia e publica essas mesmas leituras críticas de livros de poesia.» A dúvida do manuel a. domingos é legítima, embora me pareça algo precipitada. Coloquemos a questão deste modo: por que não fazer leituras críticas de livros e publicá-las? Em parte, respondi a isto num desabafo com quase 5 anos. Explicava então como comecei a escrever sobre livros, por onde arrepiei caminho e nos trabalhos em que me meti. Posso hoje confessar que, passados 13 anos de partilhas cibernéticas, tive um convite para escrever para um jornal. Recusei. Fui convidado a integrar uma primeira equipa de um portal chamado PNETliteratura, o que acabou por não suceder por ter sido essa putativa equipa substituída por outra. A convite do Pedro Sena-Lino escrevi dois ou três textos para um tal Canal de Livros. E há os textos para o extinto Rascunho. São centenas de textos sobre livros que li e sobre os quais me apeteceu opinar, sendo certo que nunca chamei crítica às leituras assumidamente impressionistas que partilhei com quem estivesse interessado em ler-me. Detesto que chamem crítica literária a esses meus textos, precisamente porque o não são. O que me parece, voltando às questões aludidas pelo manuel, é que se dá demasiada importância à escrita sobre livros. De resto, dá-se demasiada importância aos livros eles mesmos. Mais ainda se os livros forem de poesia, porque o país é da dimensão que é, não tem práticas críticas, toda a gente se conhece ou é próxima e a chamada capacidade de encaixe é muito limitada. Sobretudo a dos poetas, que são pessoas geralmente muito sensíveis e um bocado histéricas. Sempre me estive nas tintas para o que pensam sobre o que eu escrevo, e escrevo sobre o que os outros escrevem como se estivesse a falar com um amigo num café sobre determinado objecto. Para o caso é um livro, mas podia ser um filme, um disco, uma peça de teatro, um prato de culinária, uma treta qualquer. Escreve-se sobre livros como se escreve sobre mil e um assuntos neste mundo. Não me parece que exista risco nisso e o facto de se ver nisso um risco é, hélas, sintomático da tal falta de cultura crítica que graça na sociedade portuguesa onde é tudo tão exíguo que chega a ser claustrofóbico. Portanto, continuarei a escrever sobre livros e sobre o mais que me der na real gana sem sequer supor que estou a arriscar o que quer que seja. Arriscado mesmo é respirar. Escrever, seja sobre o que for, pode ser desconfortável. Mas para mim nunca foi um risco.

2 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Chama-lhe o que quiseres, à tua escrita sobre livros: crítica, opinião, desabafo, o que for. O nome não importa. Importa é que é bom. Isso, sim.


CSD

hmbf disse...

Seja como for, obrigado.