segunda-feira, 20 de junho de 2016

#80


A estreia de Kamasi Washington (n. 1981) em disco começa por impressionar pela ambição desmesurada, com um tripo CD repleto de músicos, labirintos sonoros ecuménicos como há muito não se ouvia, ousadia estética e testemunho político. Não sendo caso único nos tempos que correm, uma big band é por si só aposta arriscada. Mais ainda se assumir a configuração de uma orquestra clássica, com secções de cordas e coros vocais a esvoaçarem por entre os tradicionais instrumentos do universo jazzístico.
The Epic (2015) extravasa as delimitações de género, fazendo confluir com extraordinária elegância a improvisação típica do jazz com arranjos eruditos, abrindo ainda as portas a formas populares oriundas da soul music e do funk. A cada CD foi atribuída uma cor e um subtítulo: bordô para The Plan, preto para The Glorious Tale, dourado para The Historic Repetition. O caleidoscópio parece indiciar uma narrativa onde é possível detectar andamentos e tonalidades distintas na direcção da mensagem final, a qual assume igualmente a confluência do político com o espiritual. 
À excepção de Cherokee (standard de Ray Noble), de Claire de Lune e de Malcolm’s Theme todas as composições são da autoria de Kamasi Washington. Pela excepcionalidade, o tema de Claude Debussy é um diálogo perfeito e equilibrado entre dois universos musicais separados pelo homem mas aqui reaproximados pelo génio. Malcolm’s Theme, por sua vez, é puro statement, com a voz de Malcolm X a ecoar no final num discurso centralizador do sentimento religioso, defendendo a sua inclinação islâmica sem para tal necessitar de se opor a qualquer outra forma religiosa. Sendo Kamasi cristão, a opção pelo discurso de X releva a assunção de um só Deus, de uma só raiz, de uma só fonte, de uma mesma luz para diversas cores. E o que The Epic sonda, como é de esperar em qualquer épico, é a expressão da raiz, da fonte, desse deus simbólico capaz de se desdobrar em inúmeras encarnações. 
O universalismo aqui proposto não deve, porém, ser confinado a propostas fusionistas precedentes. Bitches Brew (1970), de Miles Davis (n. 1926 – m. 1991), é a mais tentadora das comparações, pese embora as barreiras melódicas que ainda impõe a um público vasto e pouco familiarizado com o jazz. Neste sentido, The Epic busca aproximar-se do grande público oferecendo-lhe peças perfeitamente acessíveis. Destaque para os temas onde aparece a voz de Patrice Quinn, pelo tom Motown a que associamos o talento de músicos tais como Marvin Gaye ou Stevie Wonder. 
Importa salientar a influência determinante do órgão ao longo dos três tomos, a enviar-nos aqui e acolá para as obras de grandes organistas porventura menos conhecidos fora do continente jazzístico tais como Reuben Wilson ou Richard “Groove” Holmes. Noutras ocasiões são os dois baixos a tomar a dianteira, sobretudo os solos irrepreensíveis de baixo eléctrico levados a cabo por Stephen Bruner (o xamânico Thundercat). Neste contexto, o saxofone tenor de Kamasi Washington é a batuta de um maestro que não só não pretende ofuscar o talento alheio como se esmera em elevá-lo ao zénite das suas capacidades através do espaço aberto para improvisações sucessivas. 
É óbvia a evocação de John Coltrane (n. 1926 – m. 1967), o tenor que nos fez acreditar não ser possível fazer mais com tal instrumento do que o que por ele foi realizado em A Love Supreme. Também nesse disco o sentimento ecuménico ecoava como agora ecoa. Sucede que agora o saxofone liberta tonalidades até então desconhecidas, provenientes de décadas de experimentação musical, resultantes de um cruzamento apurado onde se misturam os mais nobres elementos da música afro-americana. Não só pela referência cinematográfica, deixo como exemplo The Magnificent 7 chamando especial atenção para o solo de baixo que começa a desenhar-se ao minuto 9:



2 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

Eu, que não posso ver nada, já fui a correr comprar isso.

hmbf disse...

:-)

ainda por cima tem uma caixinha toda lunar :-)