A estreia de Kamasi Washington (n. 1981) em disco começa
por impressionar pela ambição desmesurada, com um tripo CD repleto de músicos,
labirintos sonoros ecuménicos como há muito não se ouvia, ousadia estética e
testemunho político. Não sendo caso único nos tempos que correm, uma big band é
por si só aposta arriscada. Mais ainda se assumir a configuração de uma
orquestra clássica, com secções de cordas e coros vocais a esvoaçarem por entre
os tradicionais instrumentos do universo jazzístico.
The Epic (2015) extravasa
as delimitações de género, fazendo confluir com extraordinária elegância a
improvisação típica do jazz com arranjos eruditos, abrindo ainda as portas a
formas populares oriundas da soul music e do funk. A cada CD foi atribuída uma
cor e um subtítulo: bordô para The Plan, preto para The Glorious Tale, dourado
para The Historic Repetition. O caleidoscópio parece indiciar uma
narrativa onde é possível detectar andamentos e tonalidades distintas na
direcção da mensagem final, a qual assume igualmente a confluência do político
com o espiritual.
À excepção de Cherokee (standard de Ray Noble), de Claire de
Lune e de Malcolm’s Theme todas as composições são da autoria de Kamasi Washington.
Pela excepcionalidade, o tema de Claude Debussy é um diálogo perfeito e
equilibrado entre dois universos musicais separados pelo homem mas aqui
reaproximados pelo génio. Malcolm’s Theme, por sua vez, é puro statement, com a
voz de Malcolm X a ecoar no final num discurso centralizador do sentimento
religioso, defendendo a sua inclinação islâmica sem para tal necessitar de se
opor a qualquer outra forma religiosa. Sendo Kamasi cristão, a opção pelo
discurso de X releva a assunção de um só Deus, de uma só raiz, de uma só fonte,
de uma mesma luz para diversas cores. E o que The Epic sonda, como é de esperar
em qualquer épico, é a expressão da raiz, da fonte, desse deus simbólico capaz
de se desdobrar em inúmeras encarnações.
O universalismo aqui proposto não
deve, porém, ser confinado a propostas fusionistas precedentes. Bitches Brew
(1970), de Miles Davis (n. 1926 – m. 1991), é a mais tentadora das comparações,
pese embora as barreiras melódicas que ainda impõe a um público vasto e pouco familiarizado com o jazz. Neste
sentido, The Epic busca aproximar-se do grande público oferecendo-lhe peças
perfeitamente acessíveis. Destaque para os temas onde aparece a voz de Patrice
Quinn, pelo tom Motown a que associamos o talento de músicos tais como Marvin
Gaye ou Stevie Wonder.
Importa salientar a influência determinante do órgão ao
longo dos três tomos, a enviar-nos aqui e acolá para as obras de grandes
organistas porventura menos conhecidos fora do continente jazzístico tais
como Reuben Wilson ou Richard “Groove” Holmes. Noutras ocasiões são os dois
baixos a tomar a dianteira, sobretudo os solos irrepreensíveis de baixo
eléctrico levados a cabo por Stephen Bruner (o xamânico Thundercat). Neste contexto, o saxofone
tenor de Kamasi Washington é a batuta de um maestro que não só
não pretende ofuscar o talento alheio como se esmera em elevá-lo ao zénite das
suas capacidades através do espaço aberto para improvisações
sucessivas.
É óbvia a evocação de John Coltrane (n. 1926 – m. 1967), o tenor
que nos fez acreditar não ser possível fazer mais com tal instrumento do que o
que por ele foi realizado em A Love Supreme. Também nesse disco o sentimento
ecuménico ecoava como agora ecoa. Sucede que agora o saxofone liberta
tonalidades até então desconhecidas, provenientes de décadas de experimentação
musical, resultantes de um cruzamento apurado onde se misturam os mais nobres
elementos da música afro-americana. Não só pela referência cinematográfica,
deixo como exemplo The Magnificent 7 chamando especial atenção para o solo de
baixo que começa a desenhar-se ao minuto 9:

2 comentários:
Eu, que não posso ver nada, já fui a correr comprar isso.
:-)
ainda por cima tem uma caixinha toda lunar :-)
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