quinta-feira, 30 de junho de 2016

#81



   Sofri de ataques de pânico durante vários anos. Quem já tenha experimentado tais crises sabe daquela sensação de desequilíbrio que nos obriga a meter a mão em qualquer coisa para não cairmos, o desconforto provocado pela socialização, a intolerância ao ruído. Chamo estribos às bengalas. Quando me sentia a tombar, apoiava-me numa parede, nas costas de uma cadeira, no tampo de uma mesa e era como se todo o meu corpo aí se apoiasse para que eu pudesse manter-me vertical. Muitas vezes, quando ia jantar fora, acabava a fechar-me na casa de banho do restaurante, passava água fria pelo rosto, respirava fundo, tentava descontrair. Tive ocasiões em que foi mais o tempo que passei isolado do que à mesa a fazer sala, como se costuma dizer. Não sei como consegui superar os medos, as fobias, nem sei que medos ou fobias eram. Certo dia, o mesmo médico que me tinha tentado tratar as insónias, aconselhando-me a não me esforçar para adormecer, disse-me que só havia uma forma de eu superar os ataques, e essa forma consistia em atacá-los de frente, encará-los como sendo naturais e dizer a mim próprio, estás parvo, pá, isto é só um ataque de pânico. Em suma, desimportantizar. Segui à risca a prescrição, ajudou-me. Mas estou em crer que o estribo fundamental, o medicamento mais eficaz, sem efeitos secundários, foi a música. 
   Ao deixar-me andar à deriva no vasto oceano da música aprendi a aceitar-me como sou, e sobretudo a aceitar os outros tal como são. O mais recente álbum dos Radiohead tem uma canção sobre isto mesmo, uma canção acerca das imagens mentais que construímos sobre os outros, a forma como concebemos dentro de nós personalidades alheias e como tantas vezes nos deixamos levar pela tentação de acreditar ser esse retrato uma síntese da identidade. Não é. O outro sempre nos escapa. Não escaparmos nós a nós próprios já é uma conquista. O ensinamento socrático continua a ser válido, conhece-te a ti mesmo. Devemos talvez acrescentar que só esse conhecimento nos permitirá chegar ao outro: se quiseres conhecer os outros, então começa por conhecer-te a ti próprio. A Moon Shaped Pool (2016) também reflecte estes paradoxos da identidade, é coisa mental como, de resto, sempre foi o universo dos Radiohead. Tratando-se de uma espécie de compilação de temas perdidos, alguns com dez ou mais anos de maturação, esse lado desde sempre (psic)analítico fica ainda mais manifesto no percurso da banda. É um álbum sombrio, como sombria é a consciência de cada um de nós. Em cada canção adivinhamos um mergulho nas profundezas do espírito humano, uma viagem que nos leva da sombra à luz, como queria Platão, o idealista, mas eivada de perscrutações míticas. Objectos voadores não identificados, monstros, sombras, são elementos de uma mesma história de terror, a daquele que parte em busca de si próprio e tenta apoiar-se na matéria orgânica mais à mão, numa rocha, no tronco de uma árvore, para não se afundar definitivamente na loucura. 
   Será solução o isolamento? As linhas invertidas de Daydreaming, balada lindíssima erguida sobre um piano minimalista, são um pouco dessa panorâmica que podemos observar quando nos sentimos à beira da loucura, a perder o pé a uma normalidade que nos transforma em contradição insolúvel: sendo nós parte integrante do tecido social, não nos revemos nele, não nos reduzimos a ele, é fora dele que mais nos sentimos autênticos, íntegros, nós próprios. Esta dimensão sombria que a voz arrastada e frágil de Thom Yorke tão bem encarna é uma das expressões mais pungentes que a música pode oferecer das zonas cinzentas em que a consciência procura equilibrar-se, mesmo quando acompanhada de secções de cordas minimais e repetitivas, programações remanescentes de um krautrock neo-depressivo ou simples linhas de viola acústica em compasso matemático. Há quem acuse nos últimos trabalhos dos Radiohead uma abstracção indecifrável, um hermetismo fastidioso e desconfortável. Discordo. Trata-se de rock do mais concreto que alguma vez se escreveu, sendo perfeitamente legítimo reivindicar para esta noção de concreto a mesma organicidade que em tempos certos poetas reivindicaram para a palavra. Sirva de exemplo o vídeo concebido por Paul Thomas Anderson para Daydreaming:

2 comentários:

Ivo disse...

Enquanto lia o post ocorreu-me a Courtney Barnett que há uns dias ouvi dizer "the paramedic thinks I'm clever cause I play music, I think she's clever cause she keeps people living" e também Hercules & Love Affair há uns minutos "be yourself like there's nobody else".

Ivo disse...

E já agora, muito obrigado por mais um texto cativante.