sexta-feira, 10 de junho de 2016

A PIOR DAS DEFESAS

Não sei se Portugal é muito pequenino, tenho as minhas dúvidas e prefiro analisar a realidade confrontando escalas. Mas essa ideia de que no país se detesta o sucesso alheio soa-me sempre a emenda, ou seja, é pior do que o soneto. Eu detesto o sucesso de livros tais como os assinados por Pedro Chagas Freitas ou Gustavo Santos, detesto-o declaradamente. Não porque tenha algo contra os autores. Como já tenho escrito e dito preferiria até que fossem livros sem autor. Detesto o sucesso desses livros, não das pessoas que por detrás deles amealham os lucros, porque esse sucesso é um indicador óbvio de pobreza espiritual. Pode isto ser confundido com inveja? Julgo que não. A inveja é outra coisa. Não invejo o Freitas nem o Santos e jamais farei o mínimo esforço na direcção de um sucesso similar. Um grave problema português é precisamente este de, na ausência de uma prática crítica instalada, tender a considerar inveja tudo o que ressoe a crítica. A aludida pequenez do país manifestar-se-á muito mais nestes tiques mesquinhos do pensamento. Bem sei que muitas vezes há uma certa tendência elitista para considerar mau tudo o que seja popular, talvez por culpa de um preconceito acerca da cultura popular. Caberá, porém, a quem decreta ausência de virtudes num determinado objecto mostrar onde estão os vícios e, já agora, quais poderiam ser as virtudes. A título de exemplo, eu considero viciosas estas afirmações de Maria do Rosário Pedreira: «Neste país, que é muito pequeno, acho que isso acontece sempre que as pessoas aparecem mais, têm mais sucesso. Portugal é muito pequenino e detesta o sucesso alheio. Tem inveja do sucesso alheio». São afirmações proferidas a propósito de uma crítica a um livro de valter hugo mãe. Há críticas mal-intencionadas, é um facto. Não obstante, é um erro crasso generalizar essas críticas reduzindo a sentimentos baixos toda e qualquer manifestação de desagrado perante uma obra. Não vejo ninguém detestar o sucesso de Gonçalo M. Tavares ou a popularidade de Elena Ferrante, há diversas semanas entalada nos tops portugueses entre José Rodrigues dos Santos e Pedro Chagas Freitas. Esse sucesso não choca ninguém, mas só esse sucesso é invejável (num bom sentido). Não quero com isto dizer que a inveja do sucesso alheio não seja uma realidade, quero apenas sublinhar que ela não é um exclusivo português e não se pode misturar ou confundir com o direito e até com o dever à crítica. Suponho muito mais português e até mais mesquinho essa mania de considerar invejoso todo o discurso crítico. Sobretudo quando ele se refere a alguém que nos é próximo. É mais português por uma simples razão há muito apontada, a ausência de espaços abertos de discussão, de debate, de crítica, a carência de uma formação filosófica profunda onde a força e a frieza das ideias supere a literatice à flor da pele.

2 comentários:

Anónimo disse...

É por causa de textos como este que venho a este blogue. Obrigado.

Anónimo disse...

A sra Pedreira faz afirmações que, a meu ver, são pobres. O blog é apenas um veículo para o seu trabalho, nada de mal viria daí se, a sua vista tivesse mais alcance.