terça-feira, 28 de junho de 2016

MELHOR JOGADOR EM CAMPO

   Uma vez também fui o melhor jogador em campo, contra todos os prognósticos imagináveis e declaradamente em conflito com as mais simpáticas probabilidades. Antes de mais, diga-se em abono da verdade que nunca fui tão bom de pés como de cabeça. Era menos mau a rasteirar do que a driblar, tinha pulmão e garantia segurança no meio campo. Mas sempre me faltou criatividade, imaginação. Em suma, fui uma espécie de neo-realista da bola. Jogava para ganhar, quase sempre perdia, era bom a defender, péssimo a atacar. Quem ataca precisa de fazer cálculos, está obrigado a variantes que me são estranhas, o bom atacante é como o cata-vento, o defesa é mais do género tapa-vento. 
   Mas nesse dia em que fui o melhor jogador em campo nada, mesmo nada, o fazia prever, nem as qualidades do atleta, nem as circunstâncias propriamente ditas. Não ia aos treinos há semanas, depois de ter entrado em conflito com o treinador. Aconteceu que não havia jogadores suficientes para garantir uma equipa. Lá recebi de véspera o recado, por um amigo, de que o treinador contava comigo para a deslocação a Riachos. Mítico jogo de Riachos. Nessa noite fui para os copos, deitei-me tarde, bebi como já à época era hábito beber, muito. Na manhã seguinte fui acordado pelo mesmo amigo que me trouxe o recado, vinha arrastar-me directamente da cama para a carrinha. 
   Era uma carrinha de caixa fechada, com ripas no interior da caixa a improvisarem bancos. Tivemos que parar uma boa meia dúzia de vezes pelo caminho para que eu pudesse vomitar. O caminho era péssimo, curvas que pareciam cornucópias, buracos que me lembravam vulcões. Sem conseguir aguentar os solavancos, de vez em quando batia na chapa a dar sinal de que precisava vomitar. 
   À chegada, estava branco como uma parede acabada de caiar. Chovia torrencialmente. O treinador trouxe-me um Sumol de ananás, deu-mo para a mão e ordenou: bebe isto. Nunca mais me esqueci do ar confiante com que o disse. Ainda hoje, sempre que estou de ressaca é o que gosto de beber: Sumol de ananás, o doping ideal. Foi como se o Popeye tivesse engolido uma lata de espinafres. Fiquei pronto para a guerra. 
   Éramos onze contra onze dentro do campo, mas nós não tínhamos banco. Éramos onze e nenhuma hipótese de fazer sequer uma substituição. Campo pelado, de terra batida transformada em lama. Em suma, não era um campo. Era um lamaçal. Vejo como se fosse hoje as chuteiras a pisarem o terreno de jogo e a enterrarem-se na lama, deixando apenas a descoberto as pontas dos atacadores. Conseguem imaginar o que é jogar um jogo de futebol naquelas condições? Já alguma vez tentaram correr em neve fofa, com as pernas a enterrarem-se na neve? É mais ou menos a mesma coisa. A bola praticamente não anda, os jogadores praticamente não se mexem. Ou seja, o jogo ideal para mim. 
   Chamem-lhe força, raça, mau feitio, o que bem entenderem. A verdade é que fui sem dúvida o melhor em campo, não só por ter sido dos poucos que, apesar da ressaca, e talvez por ela, conseguia mexer-me, mas também porque marquei o único golo da partida (o único, de resto, da minha malograda carreira futebolística). Golo de raiva, a chutar a bola sem qualquer nexo e a pensar de mim para comigo, completamente furioso, foda-se, mas por que caralho fui eu meter-me nisto? Acho que queria chutar a bola para longe, a verdade é que ela acabou dentro da baliza. E eu nem queria acreditar. Os meus camaradas de equipa riam desbragadamente, o treinador tinha as mãos à cintura e abanava a cabeça, os adversários cantavam em couro: grande chouriçada. E foi. Mas valeu. 
   Quem gosta de futebol sabe que por vezes, muitas vezes, o jogo resume-se precisamente a isto. Por mais tácticas, técnicas, triângulos invertidos, diagonais e afins que pretendamos explorar, o que conta no final é o golo. Para este aparecer, também é preciso uma de duas coisas: que o adversário falhe, que a sorte o determine. Caso contrário, todos os jogos acabariam empatados. E eu jamais poderia ter sido, pelo menos uma vez na vida, o melhor jogador em campo.

2 comentários:

RFF disse...

Estamos sempre a reinar com a história dos riachos mas eu não sabia que tinhas mesmo marcado o golo que determinou a vitória no jogo...
https://youtu.be/Tgcc5V9Hu3g

hmbf disse...

Há pois é.

Amigo, e o cântico dos Islandeses? Até arrepia a espinha.