segunda-feira, 18 de julho de 2016

#82



Quando a 11 de Setembro de 2001 alguém disse que o mundo nunca mais seria o mesmo, poucos foram os que compreenderam a veracidade da profecia. Tínhamos acabado de entrar no século XXI, o mundo continuava a flutuar num espaço sem fim. Os Talibã já vinham provocando estragos, sob a indiferença de meio mundo e a complacência de grande parte da outra metade. A destruição dos Budas de Bamiyan em Março de 2001 foi uma espécie de preliminares para o que sucederia seis meses depois. Incrédulos, impotentes, algures entalados entre o atónito e o irado, arrumámos dentro, cada um de nós, o que a percepção respigava da realidade. Fogachos de horror. Curiosamente, quase em cima do acontecimento Polly Jean Harvey havia editado um belíssimo conjunto de histórias, muitas delas tendo Nova Iorque como cenário, de uma sensualidade sem ponta de raiva mas com muitas dúvidas acerca da complexidade da vida e um teor existencial que a afastava dos registos metafóricos anteriores. Entretanto, o Ocidente declarou guerra ao terrorismo com operações desastrosas tanto no Afeganistão como no Iraque. Desde então, a História parece estar a fazer uma espécie de curva regressiva. Temos vindo a perder direitos e liberdades que dávamos como garantidos, o terror vem ganhando terreno fazendo uso das tecnologias de informação para se disseminar pelo mundo como uma praga. O Terror, um vírus incontrolável, manipulador. À repercussão do horror corresponde uma indiferença crescente, porventura como autodefesa. Um homem não aguenta tanta tortura seguida, precisa desligar-se do mundo, fingir que tudo o que é mau está longe de si O medo é o nosso mais frequente companheiro, divorciados que estamos do amor, da solidariedade, da liberdade, da esperança. Uma mentira suavizante é mais eficaz do que uma verdade perturbadora. Por todo o lado se exibem tragédias cujos palcos, apesar de reais, parecem encenados, é difícil distinguir a verdade da mentira, perspectivamos a realidade através de uma espécie de monóculo que filtra o significado e tudo contemplamos na base de sensações superficiais e tão anódinas quanto possível. Para ferir menos. Parecendo secundários, os efeitos revelar-se-ão primários. Pelo menos assim se vai constatando, tal o estado de paranóia colectiva que abre as portas do ódio, da desconfiança, da incapacidade de olhar para o outro como um de nós. Não são, apontam alguns, preferindo ver monstros onde afinal existem apenas homens, maus homens, claro, homens de consciência deformada, por certo, mas homens, simplesmente homens, homens que talvez tivéssemos podido evitar fossem outras, lá está, as políticas. A Primavera Árabe revela-se cada vez mais um tempestuoso Outono, um Outono feio, de incertezas e afrontas, guerra de extremos, com uns em busca do famigerado conflito civilizacional enquanto outros insistem em tratar gangrenas com algodão em rama. O mundo encontra-se em marcha à ré. Os dois últimos álbuns de P. J. Harvey retratam impiedosamente o movimento. The Hope Six Demolition Project (2016) é uma continuação natural do manifesto ensaiado em Let England Shake (2011). Como interpretar hoje, depois do Brexit, a exclamação inicial em The Last Living Rose: «Goddam’ Europeans!»? As canções mais recentes teimam nos versos controversos, politizando o discurso ao nível de um panfleto contra uma sociedade de zombies, encerrada sobre si própria, fechada ao mundo, e mesmo dentro de si própria construindo-se em camadas de miséria sobrepostas. Deixado de lado qualquer sentido alegórico, The Hope Six Demolition Project foca-se na actualidade sem temer as circunstâncias, ou seja, ultrapassando a barreira tantas vezes castradora da situação. Ecos de uma América assimétrica, pegadas de um percurso que nos transporta do Afeganistão aos Balcãs, ressoam nas letras, pronunciadas ao sabor de ritmos que tanto podem lembrar marchas militares como espirituais negros. Crianças desaparecidas e desamparadas, populações indígenas marginalizadas, reportagens de uma sociedade colapsada resumidas no impacto de um grafito: «these are the words written under the arch / scratched in the Wall in biro pen: / This is how the world will end». Talvez a intuição apocalíptica seja exagerada, talvez. Ainda assim, quem se atreve a contestar a pertinência do diagnóstico? Não será exagerado, porém, chamar rainha do rock a P. J. Harvey, conquanto isso nos conforte e traga, vá lá, algum ânimo pela sintonia:


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