sexta-feira, 22 de julho de 2016

O CARÁCTER INSUPORTÁVEL DAS DIFERENÇAS


De onde virá o ódio? Será que vem de onde vem o amor? Nasceremos já a saber amar e a odiar? Consigo imaginar um homem em estado bruto, quero dizer, um homem de consciência vazia, animal, mero animal, a uivar à lua em noites claras, maravilhado com o sol que atravessa as nuvens, temendo a trovoada. Penso nesse homem e imagino-o isolado, só entre outros animais, rodeado de altas árvores, dormindo quando o cansaço lhe pede que durma, matando quando a fome lhe pede que coma. Nenhum ódio, nenhum amor descubro nesse homem. Apenas paixões, desejos, vontade. Percebo a frustração que sente quando perde uma presa, compreendo que dentro dele se forme uma espécie de cólera, mas a vontade aclara-lhe de um modo espontâneo a raiva. Ele sabe que o sucesso não surgirá da raiva, sabe que para conseguir o que pretende deve obedecer apenas à sua vontade. E a sua vontade determina a importância de matar para que possa ser satisfeita a necessidade de comer. Mas em que momento se formam dentro dele o ódio e o amor? Não pode ser no momento de jogar com a situação a sua própria natureza. 



Num livro intitulado O Filósofo e As Paixões (Edições ASA, Janeiro de 1994), Michel Meyer afirma que «O homem esforça-se por vencer o destino (o azar, no jogo, a moral conjugal e social, na paixão amorosa) e por afirmar a sua liberdade, o seu poder (daí o orgulho de que é acusado) através da paixão» (trad. Sandra Fitas). Suponho que tal afirmação preveja no destino a percepção da morte, na liberdade a noção de interdependência, no poder uma necessidade de afirmação quer face à morte, quer face às circunstâncias que levam o homem a sentir-se dependente. Neste sentido, para que possa ser homem este ser tem de começar por se negar, ele tem que aprender a dizer a si próprio que não está recluso da sua natureza. Vai e exerce o teu poder sobre os outros animais da terra, dizem que disse Deus, querendo com isso também dizer vai exercer o teu poder sobre ti próprio. O autodomínio advém de um autoconhecimento que exige àquele que pensa algo mais do que a mera satisfação das necessidades, uma força que lhe permita vencer o destino, ou pelo menos que lhe ofereça essa ilusão, afirmando a sua liberdade e o seu poder, o poder de ser algo mais do que apenas um entre os outros. É no confronto com o Outro, aqui entendido como seu semelhante, que o homem medirá forças e disputará territórios, que engendrará fronteiras. Vivesse isolado, sozinho no mundo, não exercitaria tanto a imaginação nesse sentido, limitar-se-ia a uivar à lua, a saudar o sol, a dançar como quem emita o movimento das árvores à passagem do vento. Frente ao Outro, seu semelhante, o Eu encontrará uma vontade similar à sua. 



Quase à guisa de conclusão, Meyer diz que «O problema da paixão é, em última análise, o problema do Outro: o Outro em nós, o Outro que somos para nós próprios e o Outro que somos para os outros». Talvez assim seja porque das duas, uma: ou amamos o Outro ou o odiamos. A paixão não será tanto um problema, pelo menos não tanto quanto nós próprios o somos. O problema que em nós finaliza a relação com o outro surge de uma autopercepção, isto é, do modo como nos entendemos a partir da relação com o Outro. Esse Outro é um espelho onde projectamos a nossa imagem. Deus aparece entre o Eu e o Outro para que nenhum dos dois se sinta superior, para que ambos aceitem a sua pequenez face à grandeza do Criador. Mas Deus, enquanto conceito, falha redondamente, é uma anomalia no desenvolvimento natural do pensamento, pois logo um dos dois, o Eu ou o Outro, tenderão a considerar-se mais próximos do divino por vias que apenas cada um deles saberá. Assim nascem os profetas, sempre envoltos em mantos tecidos pelo discurso da desgraça. 
O problema não está, então, nas paixões, mas na incapacidade manifesta de conviver com as paixões, na incapacidade de sentir mal no mal, ao mesmo tempo que se procura justificá-lo com, por exemplo, um saber dos ditames de Deus que, para todos os efeitos, é capcioso, falso, meramente retórico, é um exercício de domínio sobre o Outro, não sobre o Eu. Por que hão-de estas ou aquelas palavras ser mais palavra de Deus do que outras? Por que há-de o meu livro ser mais sagrado do que o teu? Deus não tem palavra, eis uma verdade irrefutável que o homem de fé recusa. Para mal de todos. Ao substituir a Natureza por Deus, o homem de fé cometeu um erro terrível: quis o sentido para o seu destino quando o sentido do seu destino está em si mesmo, em ser destino do homem afirmar-se apenas enquanto homem, homem na Terra, ser finito, limitado, perecível, a uivar à lua, a saudar o sol, sobrevivendo entre os outros que com ele pretendam conviver. Eis o homem, um minúsculo e insignificante ponto na vastidão do Universo. 
Tanto o amor como o ódio terão surgido, pois, à medida que Deus foi surgindo, acompanharam a concepção de Deus na cabeça da humanidade, são cada um deles um braço de Deus, são as suas ramificações, e desses ramos surgem frutos, uns doces, outros amargos, frutos que apodrecem, frutos que alimentam, um estrume que fortalece as raízes do desespero. Em nenhum momento Deus devia ter surgido na cabeça dos homens, foi e é um erro, uma falha que tem saído caríssima à humanidade. No seu lugar deveríamos ter a Natureza, mais não era preciso, apenas o desfiladeiro, a tormenta, o oceano revoltoso, a floresta enigmática. Deus é uma perda de tempo. Tanto pode produzir amor como ódio, mas gera ódio, isso é inegável. E o simples facto de assim ser torna o conceito absolutamente nefasto e desprezível. Há muito que Deus deveria estar morto na cabeça dos homens. Não está, paguemos pelos nossos pecados. O maior de todos, mantê-lo vivo enquanto ideia, disseminando-o pelos corações e pelas mentes dos nossos filhos, poluindo o mundo com a sua triste história. Que podemos esperar da Natureza senão curiosidade e temor? Tudo quanto basta para que nos amemos uns aos outros. Ensinem isto aos fanáticos, ensinem isto aos zeladores, ensinem isto às pessoas desde pequeninas, e jamais alguém pretenderá suspender a convenção dos direitos humanos como se há muito não tivesse suspendido já os direitos eles mesmos.


Nota: as fotografias são de Edward S. Curtis.

3 comentários:

maria disse...

opah!, tá aqui um grande texto para reflexão...

Anónimo disse...

Mais um texto extraordinário.
Obrigada pela partilha, pelo desassombro transparente, pela beleza cruel da verdade.

Manuela Dâmaso

hmbf disse...

Grato a ambas pelos comentários.