quarta-feira, 6 de julho de 2016

TRÊS TRÊS


Sábado, dia 9, a partir das 18h, irei apresentar o n.º 6 da revista Três Três. Tema: marginal. A apresentação terá lugar no espaço Raízes, Parque D. Carlos I, Caldas da Rainha. Fiquem os preliminares: 


1. Pensar o marginal pode ser em si mesmo uma actividade marginal, já que o marginal resiste à lei. Logo, resistirá igualmente ao pensamento. Como pensar então o marginal senão marginalizando o pensamento?

2. Há aquela anedota sobre uma parada militar. A família de um recruta foi assistir ao desfile. Observando que o recruta marchava no sentido contrário ao do restante batalhão, o pai do recruta comentou orgulhosamente:
— Entre tantos militares, o nosso filho é o único com a marcha certa.

Daqui se conclui a força do afecto, capaz de obnubilar a razão contra todas as evidências. O marginal é aquele que caminha em sentido contrário, não nos cabendo tanto denunciá-lo como nos cabe apreciá-lo e do seu gesto retirarmos proveito. 

3. Tome-se de exemplo Buddy Bolden, célebre trompetista nascido em Nova Orleães a 6 de Setembro de 1877. Qualquer melómano familiarizado com a história do jazz já ouviu falar de Buddy Bolden. Foi um entre os muitos que estiveram na origem de uma música diabólica que é hoje património erudito da humanidade. Talvez gostassem de sentir o sopro que esse barbeiro de profissão, mulherengo e alcoólico, imprimia no seu instrumento. Morreu prematuramente num manicómio, como quase sempre sucede aos melhores. Dele se dizia «que a sua forma de tocar era tão forte que, numa noite clara, fazia-se ouvir a 14 milhas de distância». Numa noite clara. Por certo, gostariam de ouvir Buddy Bolden. Impossível, porém, ouvir esse ou outro dos marginais que estiveram na origem de um género musical sem sequer saberem ler música. Nenhum registo fonográfico ficou da música por eles produzida, muitos recusavam gravar receando futuros plágios por músicos rivais. Sobretudo se fossem brancos a tocar em noites escuras.

4. É precisamente na obscuridade que o marginal brilha, causando em nós o espanto que o absurdo sempre promove. O marginal define-se por não estar no meio, a sua situação é um não-lugar até que o meio o absorva e integre a partir dos seus oportunistas processos de integração. Jean-Michel Basquiat saltou das ruas para as galerias, morreu com 27 anos, vítima de integração.

5. A forma como interpretamos os comportamentos desviantes está quase sempre viciada pela relação moral que mantemos com o social. Somos educados para moralizar, desviarmo-nos desse caminho implica uma forma de exílio, um sentimento de exclusão sem norma nem método. Na melhor das hipóteses, o sistema acolhe-nos com desconfiança; na pior, diagnostica-nos uma qualquer doença que nos identifique como coisa anómala, aberração, monstruosidade, anormalidade.

6. Veja-se como os cínicos foram varridos para debaixo do tapete pela historiografia oficial. Ninguém como o filósofo Michel Onfray se tem esforçado para recuperar o legado deixado por Diógenes, Crates, Hiparquia. Reduzidos a anedota da cultura clássica, com Antístenes relegado para o plano dos socráticos menores, os cínicos caíram no esquecimento como se não fosse relevante o papel que tiverem no combate às ilusões sociais, na oposição às leis tirânicas da cidade, na renúncia à fama e na defesa de um despojamento que diríamos hoje de tipo libertário. Diógenes de Sínope percorria os caminhos de Atenas com uma lanterna acesa em pleno dia, queria encontrar o homem autêntico. Não lhe interessava definir o homem, interessava-lhe que o homem se definisse a si próprio pela sua autenticidade, sem o peso das leis castradoras que o falseiam.

7. Ser marginal não é necessariamente ser excêntrico. Talvez devêssemos começar por recusar uma geometria da marginalidade. Está-se sempre entre os outros, entre os quais também se é. Trata-se de uma inevitabilidade que nem o anacoreta do deserto logra superar. Ele não existe por si só, a sua existência depende do confronto com o mundo que o rodeia. Podemos dizer que o marginal justifica o meio, é a existência de um meio que permite o marginal. Mas este não está necessariamente fora do meio, o seu lugar é o do confronto, ele faz um toma ao meio.

8. Quando lhe falavam em marginalidade, Vítor Silva Tavares preferia dizer-se editor paralelo. E isto é verdadeiramente marginal. Façamos uma pausa para cinema:

9. Villon, Sade, Rimbaud, e quem sabe Artaud, Jarry, Genet… Tantos francófonos! Por que chamamos marginais a certos autores? Talvez por terem vivido à margem da maioria, talvez por terem optado pelo exercício de uma liberdade individual em detrimento do dever social, talvez pela resistência a tudo quanto é regrado, talvez por terem experienciado como ninguém as situações limite que definem a existência, talvez pela solidão a que foram condenados… Mas hoje todos eles são peças de museu. Imagine-se um museu da marginalidade. Que configuração teria um museu da marginalidade? Uma prisão?

10. Um exemplo português: Maria Gabriela Llansol. A escrita de Llansol não se desvia dos cânones, transcende-os naturalmente. Estudos serão feitos e escritos, exercícios, ensaios, variações serão elaboradas, assim como teses, mas nada esgotará a escrita de Llansol, a qual se ergue a partir de um lugar desconfortável para toda e qualquer hermenêutica, é uma escrita que resiste à domesticação académica, e por isso mesmo podemos dizê-la marginal sem cairmos no cliché da censura, da miséria, da fome, das drogas, da indigência e do andrajoso. Indómita escrita = escrita marginal. A flor que rebenta solitária no centro da estrada larga.

11. Não confundir marginal com o culto do recolhimento. Herberto, Elena Ferrante, Teresa Veiga ou mesmo B. Traven são personagens de si próprios, o que neles pode haver de marginal não é tanto a obra em si como será a recusa da aparição. Isto é, num mundo onde a existência se define cada vez mais pelo aparecer, estes autores assinam-se pela ausência. O meio está preparado para eles, de algum modo até lhes convém a atitude e o gesto. O meio precisa das suas excepções.

12. Banksy.

13. E na década de 1970 surgiu no Brasil, entre um clima de censura, o denominado grupo dos poetas marginais. A designação tem a sua origem em factores geográficos e noutros ligados à produção, divulgação e disseminação das obras publicadas. Em alternativa ao circuito oficial, estes autores faziam a sua poesia chegar aos leitores através de fanzines, fotocópias, publicações alternativas distribuídas à margem da “indústria cultural”. Em certo sentido foram industriosos. Um dos nomes a reter desta geração é o de Ana Cristina Cesar. Ao que julgo saber, ainda hoje parte da epistolografia da poeta mantém-se censurada por orientação da família. A família. É precisamente aí que o marginal começa por se afirmar, é quando deixa de ter família, o deserdado sem herança, família poética, política, estética… Que enorme contradição falar-se de “grupo dos poetas marginais”. Poderão ser grupo, os marginais?

14. Tal como as margens do rio, uma em cada ponta, assim os marginais, um em cada ponto. Entre eles, porventura algumas pontes. Mas sempre e inevitavelmente o isolamento determina a margem e a margem determina o isolamento.

15. Ainda do Brasil, um vídeo que é possível revisitar no YouTube. Paulo Leminski elege como poema do ano em Curitiba, no ano tantos de tal (1972?), um grafito: «PQNA / VOLTE» - escrito ao longo de um muro a caminho da rodoviária. Percebo o entusiasmo. É um poema sem autor, totalmente à margem, um poema proibido como proibidos eram os grafittis, como ainda hoje são mal vistos e censurados pela sociedade. É um poema marginal que de algum modo representa o conceito.

16. A censura favorece a marginalidade. Devemos pensar nisto sempre que advogamos a censura dos censores.

17. O termo marginal é, pois, deveras discutível. É-se marginal dependendo de onde se está. Entre poetas, a palavra assume um cunho algo patético. Reclamando para si certo estatuto, o poeta tende a afunilar-se, vive entre os seus, tem a sua microssociedade muito bem delimitada, com os seus rituais de iniciação mais ou menos informais todos bem definidos. Num país como o nosso, de poetas, o ambiente é quase sempre de confraria. Não vejo mal nisso, nem vejo bem. A maior parte das vezes prefiro mesmo não ver nada, ser cego.

18. Vem-me à memória aquele epigrama batido de Goethe:

Não me posso admirar de Cristo Nosso Senhor ter gostado
De viver com putas e pecadores. Pois se o mesmo se passa comigo!


Excluindo a referência a Cristo, Charles Bukowski disse praticamente o mesmo. Mas não se limitou a dizê-lo e a escrevê-lo. Viveu de facto.

1 comentário:

MJLF disse...

Banksy faz arte cívica :)<3