Num ano de boa safra, como tem sido o de 2016, com
originais de Nick Cave & The Bad Seeds, P.J. Harvey, Radiohead, David
Bowie, não deixa de ser irónico que um dos melhores momentos musicais do ano
surja no formato de antologia. Em Acoustic Recordings 1998-2016, Jack White reúne
um vasto conjunto de canções colhidas da discografia realizada com os The White
Stripes, com os The Raconteurs e a solo. O álbum mais representado é, precisamente,
Blunderbuss (2012), estreia a solo de um dos mais carismáticos cultores do rock’n’roll
surgidos nas últimas décadas. O formato acústico reforça-lhe a aura de escritor
de canções, a qual, sendo evidente desde os primeiros anos, arriscava passar
despercebida aos menos atentos. Além de temas respigados dos álbuns originais,
temos uma mão cheia de canções com proveniências diversas e um original que
ficou de fora do álbum Get Behind Me Satan (2005):
Espantosa constatação do talento de Jack White para a
escrita de canções, City Lights é também um excelente cartão-de-visita para o
que encontramos em Acoustic Recordings. A raiz fundadora deste universo é a
folk music norte-americana, mormente na sua variante de folk blues. Em toada
revivalista, White alcança um despojamento que evidencia o
carácter lírico das composições, que tanto podem partir de meros apontamentos
humorísticos como desembocar em lamentos amorosos, retratos fotográficos da
vida quotidiana, passando pela murder ballad e pela confissão de cariz intimista. Ainda
que não esteja completamente ausente, a canção de protesto é talvez a dimensão
mais lacónica nesta recolha, onde encontramos também lados B para singles dos
álbuns Icky Thump (2007), Consolers of the Lonely (2008) e Blunderbuss (2012),
assim como uma versão acústica de Just One Drink, do álbum Lazaretto (2014), e
um tema escrito para a banda sonora do filme Cold Mountain (2003), de Anthony
Minghella. Outra curiusidade é o tema Love Is The Truth, belíssima balada
concebida para um anúncio da Coca-Cola:

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