terça-feira, 13 de setembro de 2016

KURTZ

Há muito que andava para rever Apocalypse Now depois de uma leitura de O Coração das Trevas. Aconteceu ontem. Não posso afirmar que tenha sido uma experiência deveras enriquecedora. A opinião que tinha sobre o filme mantém-se, não havendo muito a acrescentar ao que foi escrito. Mas a leitura do livro sai reforçada pelo diálogo com o filme. É daqueles casos em que ambas as obras podem coexistir sem se negarem uma à outra. Joseph Conrad, ucraniano de nascença, ensaiou a sua poética do horror no início do século XX. Francis Ford Coppola recuperou-a passadas mais de sete décadas, deslocando a viagem narrada por Conrad do Congo colonizado para o Vietname em guerra. As circunstâncias, neste caso, não são determinantes para a força dos argumentos. Quem leia o filme ou veja o livro pode abstrair-se da paisagem, transcender o envolvimento material das personagens, optando por uma descida aos infernos da mente humana. Cosa mentale? Não diria. Independentemente das perspectivas que alicercem as nossas convicções acerca do humano, e até da noção histórica que tenhamos da barbárie, é reconhecível em ambos os casos uma inquietação acerca da tal barreira ténue que separa a loucura da normalidade e, por consequência, coloca em campos opostos, mas com medidas bem distribuídas no espaço da consciência moral, isso a que damos o nome de bem e de mal, os pólos que Empédocles dizia serem fundadores do mundo, o amor e a discórdia (podemos chamar-lhe ódio que não vem mal ao mundo por isso). Que rio é, porém, aquele que atravessa tanto o livro como o filme? Sinto-me tentado a decalcar o poeta, trazendo à liça aquele grande rio Eufrates. Nas águas correntes é precisamente aí que vislumbramos o coração das trevas, o horror encenado no apocalipse lento de uma humanidade à beira do abismo. Não dêmos, porém, razão às teses apocalípticas propagandeadas e alimentadas pelos discípulos do terror. Há pelo menos uma falha nos seus raciocínios, o apocalipse da humanidade não é de agora, é de sempre. Bem vistas as coisas, o horror acompanha-nos como a sombra acompanha o corpo e, fôssemos nós pessimistas, seria porventura conveniente aceitar a axiomática do desastre. Sucede que sobre o Kurtz a resgatar para a civilização d’O Coração das Trevas não pesa o mesmo fado do Kurtz a abater em Apocalypse Now. Talvez não seja por acaso este nome de Kurtz. Em nota de rodapé, somos informados de que Kurtz significa efémero em alemão (a palavra alemã é Kutz, mas pronuncia-se kurtz). Neste sentido, entre ambas as obras há uma espécie de bifurcação que acabará por desembocar num mesmo efeito: o ódio à mentira. Qual? A de uma vida eterna. Tudo quanto é humano é efémero, por isso mesmo estão obrigados os homens a respeitarem a sua efemeridade. Já não está em causa uma tese sobre a origem boa ou má do ser humano. Somos feitos de carne e de osso (cada qual que descubra o que nisso há de bom e de mau). Estão antes em causa duas soluções diferentes para a barbárie: num caso desce-se à treva (que é o mesmo que subir aos primórdios do mundo) para dela submergir com a experiência do horror, o qual só poderá ser superado através de uma consciência da lógica que o sustenta; no outro caso, arrasta-se para o interior do horror a tal loucura da normalidade que sustém a razão, procurando-se aniquilá-lo com os seus próprios métodos. A páginas 70: «A mente do homem é capaz de tudo: porque ela contém tudo, todo o passado, assim como todo o futuro. O que havia ali? Alegria, medo, mágoa, afecto, valentia, raiva — quem poderia sabê-lo? —, mas havia certamente verdade, sim, havia verdade  despida do seu manto de tempo» (Joseph Conrad, in O Coração das Trevas, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Dom Quixote, 2009). Feitas as contas, pouco mais nos resta do que esta busca incessante da verdade. Não se faz sem dor porque, em suma, será invariavelmente um confronto com o horror da efemeridade, em situação limite o próprio horror da inutilidade. A verdade é horrível, monstruosa, tem feições de morte e de tortura, revista-se de barbárie ou de civilidade, assuma as configurações morais que assumir, é sempre, sempre e invariavelmente um pesadelo, uma insónia, a verdade é, por isso mesmo, aquilo de que a maioria foge, o cancro varrido para debaixo do tapete, a imagem desagradável e desconfortável que impele o comum dos mortais a desviar o olhar na direcção da luz, do artifício, do disfarce. A verdade fere, magoa. Ninguém quer saber da verdade até se encontrar no lugar da vítima, até ser golpeado por ela. Até sentir de facto que na vastidão do universo não vale mais do que uma formiga.

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