Há dias, mais propriamente há dez dias, recebi do meu
amigo Ricardo um e-mail com o título “la poésie est morte”. Consistia na foto-reportagem
pessoal de uma visita ao cemitério Père Lachaise, onde estive, vai para 18
anos, com uma máquina fotográfica descartável que perdi algures no decorrer da
viagem. O mundo então era diferente, o mundo está sempre a mudar. Mas ao olhar as fotografias agora recebidas, com inúmeras campas, túmulos, monumentos
erguidos a poetas maiores de um tempo findo, assaltou-me uma perturbadora
visão. A poesia morreu, a poesia está morta, são afirmações que venho
proferindo com tanto de convicção como de leviandade. Uma fotografia como a
reproduzida ao alto nada prova, senão que vivemos num tempo em que seria
impossível ressuscitar o que possibilitou a execução de tais figuras. A poesia pode ter morrido, mas nós ainda a vivemos. Há mais
duas fotografias de que gosto imenso no conjunto:
Olho para elas com frieza, os gatos nem me encantam particularmente. O que me agrada é a presença de algo vivo sobre a laje, o modo como retira
solenidade às palavras incrustadas no mármore. A minha geração é a primeira a
experimentar às cegas os efeitos da mais universal das
revoluções, crescemos a ouvir falar de globalização e de clones, aguentámos os
mitos do fim da história e procuramos entender a noção de futuro pós-humano,
somos filhos do artifício, do virtual, do cibernético, o nosso mundo é deveras
diferente do mundo conhecido e representado e transfigurado por Proust, Apollinaire, Delacroix,
Gérard de Nerval, Honoré de Balzac, Raymond Roussel, Eluard… Experimentamos e vivenciamos a realidade como nunca antes ela foi experienciada. O desconhecido
deixou de encantar e de espantar pela deslocação material dos corpos, a viagem
reduz-se ao risco mínimo de um vírus em rede. Parece que o planeta encolheu,
tornou-se pequeno, o que nos resta de verdadeiramente selvagem cabe num bloco
de apontamentos onde garatujamos poemas sofríveis.
Há porém algo de imutável e perene entre nós, as dores que sentimos
são as mesmas, a crueldade continua humana. Se recuarmos até aos tempos mais
antigos, facilmente constataremos que no essencial mantemo-nos agrilhoados e ignorantes, ínfimos e insignificantes face ao turbilhão incansável do
universo. Valemos isto, ainda que nem de valor devêssemos falar. Que ilusões
podemos ou devemos alimentar? A de uma vida eterna seria um enfado, a de
glória uma trabalheira inútil, a do prazer em terra e em vida apresenta-se
impossível. Só alguém completamente insensível e ignaro pode almejar uma vida
feliz e plena. Sobra-nos o ir vivendo com maior ou menor vontade, com paixão ou
por dever, com uma espécie de sentimento de obrigação ou em conformidade com a
liberdade que advogamos para os outros. Valerá a pena manter a ilusão de um
mundo melhor? Valerá a pena trabalhar por um mundo melhor produzindo coisas
boas? Que sentido vislumbrar nas vidas de Chopin, Chabrol, Petrucciani,
Rossini, Beckett, senão o que vislumbramos na figura do gato? Perfil vigilante
a cumprir o seu ser, o animal interpela-nos e redime-nos ao mesmo tempo. Ele é
o único e autêntico ramo de buxo que poderemos vir a merecer por termos
cumprido a ilusão de que vale a pena ter um corpo, ser alguém, fazer coisas,
porque no gato não há a angústia parva de ser gato. Há apenas um ser vigilante a cumprir o seu ser, como outra coisa não é o poeta, o artista. Só um humano pode dizer "como seria bom ser gato", jamais um gato dirá "como seria bom ser humano". Cumprir o ser, manter-se vigilante. E é tudo.



6 comentários:
A poesia não está morta. Está apenas a dormir.
Ainda bem para ela, a mim dava-me jeito.
Um gato não dirá nada mas fará "miau". Presumir o que esse "miau" quer dizer já é arrogância da parte dos homens.
A poesia não está morta, quando muito banalizada. O mundo está mais pequeno, é verdade. Mas não é a primeira vez que diminui de tamanho. Ficou mais pequeno há dois mil anos atrás, voltou a ficar mais pequeno há quinhentos anos, voltará a ficar mais pequeno daqui a mais umas centenas de anos. A poesia sobreviveu e sobreviverá.
Sofia
Parece-me que arrogante seria não querer entender o sentido do miar. De gatos não sei, mas quanto a cães posso dizer que humildemente tento compreendê-los para poder responder às suas necessidades. Em resposta, espero que agitem a cauda com entusiasmo.
A banalização da poesia resulta da sua morte, os mortos são banais.
Quanto às dimensões do mundo, não se trata bem de ter encolhido mas da sensação que temos desse encurtamento de distâncias, quer pela facilidade de deslocação, quer pela circulação imediata de notícias acerca dos factos, acompanhadas de imagens que conferem um realismo brutal à percepção dos mesmos, quer ainda pela facilidade de comunicação. O que temos hoje não é minimamente comparável com o que tivemos no passado. A revolução tecnológica em curso terá os seus efeitos, que não sabemos quais porque não somos adivinhos. Mas já podemos garantir que não tem comparação possível com outras grandes revoluções mundiais do passado.
Provavellmente já não deveria comentar mais, mas o meu optimismo não o permite, por isso queria dizer ainda que:
Talvez sim, seja arrogante presumir que os gatos que nos rodeiam pensem mais do que nos dão a entender.
Os vivos são banais. A banalização da poesia resultará na sua sobrevivência.
Quanto às revoluções, sei que hoje, a de hoje, é mais importante que a de ontem. Amanhã, como hoje passará a ser ontem, a de hoje será como todas as de ontem e tudo o que interessará será a de amanhã.
Obrigado por me ir fazendo pensar ao longo dos dias. Miau
Provavelmente o seu optimismo ser-lhe-à proveitoso. Grato pelo comentário.
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