quarta-feira, 21 de setembro de 2016

SUICIDAS

É o título de um livro que publiquei pela Deriva há 3 anos. José do Carmo Francisco refere-se-lhe agora aqui. Diga-se, em abono da verdade, que a aludida viagem ao Surrealismo é directamente copiada de Mário Cesariny. Cito:

Num dos poemas em prosa surge esta curiosa definição: «A poesia é um lugar perigoso, é um carrossel sem rede, a filha tem febre e tu não te vacinaste, nas escolas perdura o medo, o mundo é um lugar perigoso.» Não interessa, portanto, discutir se o poema em prosa vem de Rimbaud ou de Baudelaire ou mesmo de Aloysius Bertrand ou até de Novalis. Ao inscrever o nome dos suicidas numa espécie de inventário sentimental, o poeta adverte: «Ninguém sabe da vida de ninguém, evidentemente.» Ou dito de outra maneira: «Isto não é o paraíso (…) o mais provável é não haver nenhum paraíso para lá desse caudal onde pensas mergulhar, o mais provável é ficar-te o corpo pendurado pelo pescoço a servir de ponteiro em mais uma rasteira do tempo, o mais provável é nem sequer virem a dar pelo teu desaparecimento» Entre o pó (mais que certo) e a posteridade (relativa) o poema pode ser esse teimoso intervalo de memória contra o esquecimento: «Dizem que era um bom rapaz, amigo dos animais, sensível, ia ao teatro, não era como os outros, amava a filha que Deus lhe roubou, era um bom rapaz, morreu-se». Henrique Manuel Bento Fialho escreve para juntar de novo tudo o que a morte separou e confirma uma ideia de Camilo Castelo Branco sobre a Poesia: «Ela não tem presente; ou é sonho ou é saudade».

Os sublinhados são meus.

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