segunda-feira, 31 de outubro de 2016

THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD (2007)



Começar por onde? Talvez por um termo de comparação. Erguido a partir do espírito voluntarioso de colonos e de pioneiros, em conflito original com as raízes indígenas, o Novo Mundo necessitava de uma mitologia própria como de pão para a boca. A velha Europa tinha os gregos e os romanos, os nórdicos, tinha toda uma tradição pagã expurgada pela aculturação judaico-cristã. Rastos dessa tradição seguiram até à América, desbravando caminho para uma abrupta odisseia com os seus heróis e os seus vilões muito peculiares. Jesse Woodson James (1847-1882) virá a ocupar um lugar especial nessa parafernália de semideuses saídos já do Oeste norte-americano, gerando-se acerca dele uma aura de fora-da-lei com princípios inabaláveis. Para tal contribuíram sobremaneira os meios naturais de difusão popular em vigor à época, nomeadamente os livros de short stories e as canções folk.



A tal propósito, talvez seja relevante ouvir o que o mais recente Nobel da Literatura tem para nos contar: «Billy Gashade, o homem que presumivelmente escreveu a balada do Jesse James, consegue levar-nos a crer que Jesse roubava aos ricos para dar aos pobres e foi morto a tiro por um «cobardolas de meia leca». Na canção, Jesse rouba bancos e dá o dinheiro aos necessitados e no final é traído por um amigo. Ainda assim, e de acordo com a opinião geral, James era um assassino sanguinário e era tudo menos o Robin dos Bosques de que a canção fala. Mas é Billy Gashade quem tem a última palavra e leva-a aos quatro cantos do mundo» (Bob Dylan, in Crónicas – volume I). A passagem tem o propósito de fazer sobressair a força da canção popular enquanto estrume de uma mitologia, levando as pessoas a acreditar em personificações elaboradas muito aquém de um pressuposto de fidelidade ao real e à verdade. Não por acaso, numa das melhores sequências do filme de estreia do grande Samuel Fuller, precisamente intitulado I Shot Jesse James (1949), somos transportados para um tempo em que os trovadores andavam de bar em bar a cantar e a tocar a troco de tostões. Era, para todos os efeitos, uma forma honesta de ganhar a vida. Sequência de tal modo pertinente que Andrew Dominik (n. 1967) não hesitou em aproveitá-la, com variantes muito próprias, no seu surpreendente The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford/O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford (2007). Nick Cave, responsável com Warren Ellis pela banda sonora, aparece agora no papel de trovador onde dantes aparecia o actor Robin Short. Apesar de no filme de Dominik não existir nenhuma troca de palavras entre o intérprete da balada de Jesse James e Bob Ford, assassino de Jesse James cruelmente retratado na canção, a tensão estabelecida entre a letra e o seu objecto é deveras impressionante. Essa sequência assinala o momento em que Bob Ford compreende ter falhado no seu propósito final, é uma espécie de marco na psicologia de uma personagem.  




Superiormente interpretado por Casey Affleck, o Robert Ford desenhado por Andrew Dominik é uma figura em si mesma tão ambígua quanto o Jesse James materializado por Brad Pitt. Nele se misturam Édipo e Judas. O jovem admirador de James não busca nenhuma recompensa, não age por respeito à lei, não colabora com a justiça por supor ser essa a única saída. No seu íntimo convivem o temor do discípulo face ao profeta e uma admiração obsessiva que o leva a imaginar-se na pessoa de quem admira. Jesse diz que não sabe se Ford quer ser ele ou como ele, mas Ford sabe. Ford quer os aplausos, quer ser admirado pelos outros como Jesse James era. Não por inveja, nem por ambição, antes por uma complexa intuição de inferioridade que o arrasta e destrói. Tanto o filme de Samuel Fuller como o de Andrew Dominik se concentram mais na figura de Robert Ford do que em Jesse James. É irrelevante saber se Jesse James era o Robin Hood da balada ou o assassino sanguinário exibido pela ordem e pela lei estabelecidas. Sabemos que roubava bancos e assaltava comboios depois de ter lutado ao lado dos derrotados da Confederação, dizem-nos que matou inocentes sem dó nem piedade. Inocentes assassinados sem dó nem piedade é prato diário para servir nos banquetes do virginal poder. Certa e indiscutível é a desgraça de quem o matou pelas costas, um homem que lhe foi fiel e a quem serviu com militante admiração. Talvez esta seja apenas mais uma história de traição como outra qualquer, não sendo por isso inesperada a antipatia reflectida sobre o traidor. Mas este não é definitivamente um filme como outro qualquer. Acompanhada de cenários naturais deslumbrantes, a psicologia das personagens surge à superfície dos rostos como a imagem do peixe que se agita debaixo do gelo. É sempre um reflexo inacessível aquele que o gelo das palavras permite observar, sublinhadas em voz off por uma melancolia que trespassa toda a narrativa e nos permite falar de cinema como quem fala de poesia. 

ARTE POÉTICA


"Le silence est notre langue maternelle"
Samuel Beckett

A poesia esburaca o tecido da linguagem.

A escrita deserta perpétuamente do seu espaço.

Cada palavra que escolhemos é a renúncia de outra
que nos teria escolhido.

A verdade é apenas uma partilha de ilusões.

Há fronteiras interditas ao homem, há lugares
onde a vida e a morte trocam os seus atributos.

Homem-ponte, passo de uma memória a outra.

E se Deus fosse a sua própria vítima?

O homem criou o tempo para justificar a sua presença.
Para justificar a sua ausência, criou a eternidade.

Deus existe fora do esquecimento, fora da memória,
mas a ambos atravessa.

O silêncio é o encontro que a palavra recusa.

Quanto mais se ama, mais a gravitação diminui.


Anise Koltz (n. 12 de Junho de 1928, Eich, Luxembourg, in Cantos de Recusa, tradução colectiva (Mateus, Maio de 1993), revista e apresentada por Casimiro de Brito, Quetzal Editores, 1994.

A BALADA DE JESSE JAMES

aqui me referi à estreia do realizador Samuel Fuller com I Shot Jesse James, sublinhado a beleza de uma das sequências finais. O actor Robin Short surge no papel de trovador a interpretar The Ballad of Jesse James, sem saber que entre a audiência se encontra Bob Ford. Ford, que pertenceu ao gang de James, acabou por ficar para a história como o cobarde traidor que assassinou o seu camarada. A canção eterniza Jesse James como um outlaw simpático, à medida de Robin Hood. Não é provável que assim tenha sido, mas não deixa de ser curioso como no imaginário popular a figura do fora-da-lei se eternizou com uma moralidade negada a um colaborador do sistema judicial como foi Bob Ford. Recordemos a cena:


The Ballad of Jesse James acabou por se transformar numa das mais populares canções da folk norte-americana, sendo inúmeras as versões que podem hoje ser encontradas no Youtube. Entre anónimos e famosos, sugiro as variações de Ry Cooder para o tema (aqui), a versão punk rural dos The Pogues (aqui) ou esta interpretação ao vivo de Bruce Springsteen. No filme The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007), reaparece a cena que conhecíamos do filme de Samuel Fuller. Nick Cave é agora o trovador. Vale a pena ver e comparar:


domingo, 30 de outubro de 2016

EU VI A LUZ. ERA DE CANDEEIRO.

Crentes, agnósticos, ateus, fanáticos, fundamentalistas, coloquem só por hipótese, por mera hipótese, que o Messias ainda não chegou. Imaginem que ele está entre nós, no corpo de Rodrigo Duterte ou Donald Trump. Que razões temos nós para acreditar que Jesus era mesmo o filho de Deus? Por que não Trump e Duterte? Hitler era filho de Deus. Assim como todos os judeus, ciganos, comunistas, anarquistas, que foram incinerados nos campos de extermínio nazi. Deus tem “bué da” filhos e uns tomates do tamanho de Júpiter. A questão é que se criou em torno da figura de Jesus uma narrativa, alimentou-se a narrativa e ergueu-se uma fábrica de fantasias em torno dessa mesma narrativa. A Igreja Católica Apostólica Romana é a mãe de todas as Disney, a mais poderosa e bem-sucedida. Que tanta gente a venere não admira nada, a maioria das pessoas adora mentiras, detesta verdades, ama ilusões, foge da realidade, a maioria das pessoas sente-se confortável com a possibilidade de uma vida eterna, mesmo que seja por demais evidente não haver vida eterna alguma, e viveria amargamente sob a luz da finitude e da efemeridade. Envelhecer é tramado. Isto é que interessa, não interessa Deus, nem o filho, nem o espírito santo, nem uma virgem Maria (foda-se, que mentes mais lunáticas!), nem aparições, nem milagres… São enfeites de Natal, patranhas que reforçam a narrativa. O que interessa é o conflito vida/morte. Enquanto olharmos para a morte com temor, encontraremos sempre o que a desminta a nossos olhos atemorizados. Retirem a morte do cenário e Deus deixará de fazer sentido, seja ele qual for. 

GRANDE MASTURBAÇÃO

Pavlov, galardoado com o Nobel da Medicina em 1904 (talvez a designação fosse outra à época) ficou popularmente conhecido pelas experiências levadas a cabo com animaizinhos. Dos animaizinhos, concluiu Pavlov algumas teses relevantes acerca do comportamento humano. Por exemplo, a tese do reflexo condicionado. Sempre que vê comida, um cão saliva. Se associarmos a comida a uma sineta, então ele passará a salivar também quando ouvir a sineta. Não será sequer necessário que veja comida. Lembrei-me disto ontem, ao constatar que no shopping onde trabalho já estão a montar enfeites de Natal. A dois meses do mais ignóbil bacanal consumista do ano, o comércio começa a chocalhar as suas sinetas para que a manada de animaizinhos consumistas salive com a perspectiva da grande fantasia burguesa: consumir, gastar, desperdiçar. Preparemo-nos para a Grande Masturbação das massas, o Natal está a chegar. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

APLICAÇÕES PARA VARRER O MUNDO

A política aborrece-me cada vez mais, esta política de intriga que entusiasma painéis de comentadores e atiça hostes em fúria. Convertida num entretenimento como outro qualquer, um circo de palhaços todos de bem com a vida, a política já nem pode ser transfigurada na grande porca. A grande porca tinha tetas e aleitava leitões. Isto agora é uma espécie de quintal de cucos, todos a comerem os ovos uns aos outros, numa algaraviada sem sentido onde se vislumbram penas de rancor por nenhuma cabeça trazer ao alto a crista desejada. Sem paciência e enojado, afasto-me e desligo com o pior dos sentimentos no olhar: pena. Pelos que precisam e não têm quem lhes acuda, nem sequer têm quem com eles se preocupe. O mundo anda entretido com ninharias, vaidades, presunções. O resultado vem ficando deveras explanado neste ano des-iludido. Primeiro no Brasil, com o espectáculo deplorável do impeachment. Juras a deus, cuspidelas, elogios à ditadura, de tudo se viu e ouvir. Para quê? Entretanto, as eleições na maior potência do mundo estendem-se no tempo como um tapete de porcaria. A escolha do melhor entre os piores não deixa sequer opções. É tudo tão baixo e medíocre naquela gigantesca potência que da lição só podemos concluir não haver entre anões e gigantes diferença que não seja os maiores produzirem mais dejectos. Para quê acrescentar as derivas europeias, a Rússia de Putin, a miséria desamparada dos refugiados, o terror sírio? Para quê? De que nos vale? Política. Alguém que no tal Web Summit apresente uma aplicação que varra do planeta toda essa gente instalada, merecerá o meu total, incondicional, inquestionável aplauso. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

DIÁRIOS

Assim como me repugna a ideia da confissão, julgo pueril a convicção de que o ser se revele pela escrita. O ser é sempre um mistério em construção, escapa-nos como areia entre os dedos. Quando muito, os diários serão apenas exercícios de autoconhecimento. Jamais de revelação, até porque nada há a revelar. Mistério revelado deixa de ser mistério. Há uma parte de nós que é inalcançável como o horizonte. O exercício mais exigente da vida é tentar alcançar essa parte, conhecê-la, percebê-la, mas jamais nos será possível revelá-la ou confessá-la senão aceitando perante nós e todos o que à partida já temos de evidente: somos nada. Pode a filosofia tentar encontrar nomes para isto, podem cientistas da alma humana apregoar as mais disparatadas teses sobre um inconsciente e uma essência que no final redundarão sempre em morte. Ora, julgo muito mais valiosa esta perspectiva do que outra qualquer. Obriga-nos a estar atentos à vida e a aprender a retirar proveito dela. Miguel Torga arrisca traçar nos seus diários traços do perfil de uma existência, mas adverte-nos desde o início para a noção de que um perfil não encerra um rosto. Ainda assim, há entradas que lemos com a sensação de que estamos a tocar a esfera mais íntima de uma vida humana:

De Diário I:
Coimbra, 14 de Janeiro de 1937 — A maior desgraça da vida, vistas bem as coisas, acaba por não ser a morte. Salvo aqueles casos catastróficos, que sob o ponto de vista do aniquilamento são uma perfeita maravilha, morre-se quando esta coisa que se chama corpo, por uma razão ou por outra, está podre. Quando, afinal, a ele próprio já não lhe apetece viver. A desgraça verdadeira é esta de nós andarmos aqui a namorar o céu, a pisar a terra, a investir contra o mar — e nem o céu, nem a terra, nem o mar saberem sequer que a gente existe.

De Diário II:
Açor, serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 — Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ou quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor. Falar de uma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

De Diário III:
Gerês, 6 de Agosto de 1944 — Disse hoje isto a uma destas senhoras que vem aqui tratar da icterícia:
   — Olhe, eu tenho mais respeito por um animal do que por vocês. Ao menos uma cadela pare, amamenta os filhos, não tem vícios e é natural. Vocês passam a vida a levantar ou a abaixar a saia conforme as ordens de Paris, a pôr na cabeça quantas parvoíces vos lembram, e, sobretudo, a exibir um sexo imundo que, para limpeza da humanidade, devia ser cosido com uma agulha de albarda.

De Diário IV:
Lisboa, 26 de Março de 1949 — Depois da manta de farrapos do caminho — tiras de verdura sobre o vermelho das terras —, o Chiado, esta vitrina única do mundo, onde se pode ver a arte e a inteligência em compota, dentro de frascos transparentes. Que náusea e que lição! Aqui o poeta Inácio, em ponto de lágrima; ali o romancista Teodoro, em molho leve; acolá o ensaísta Fagundes, em geleia carregada. Todos na bem-aventurança da glória! Nenhum se lembrou nunca de que está morto dentro da sua calda. Cuidam que vêem a vida verdadeira através da redoma que os limita, e que a vivem, mesmo afogados em melaço. Esqueceram não só as leis da óptica, como os efeitos da esterilização. E toda a gente sabe que a luz sofre um desvio quando passa pelo vidro e que tudo sucumbe dentro de uma autoclave.
   Não. Portugal não tem, nem terá nunca uma literatura digna e viva enquanto não vier outro terramoto de 1755. Só quando cair e arder esta viela da embófia, e o Tejo varrer de uma vez para sempre o cadáver destes frutos humanos mirrados e embalsamados, poderá surgir uma arte que tenha as raízes na sua pátria e dê flores capazes de serem admiradas em qualquer parte do mundo.



Miguel Torga, in Diário – Vols I-IV (1941-1949), Círculo de Leitores, Março de 2001.

LAS MENINAS


A Selecção Nacional de Futebol Feminino conseguiu um feito histórico ao apurar-se pela primeira vez para uma competição que nunca antes disputou. Não sei pormenores porque os desportivos ignoraram o assunto. Assisti, no entanto, a vários vídeos com intenções motivacionais em que alguns campeões europeus cá do burgo se dirigiam às jogadoras tratando-as por meninas. Ora, na minha terra meninas são as moças que trabalham na Casa da Mãe Kikas. Ainda que possam estar familiarizadas com bolas, duvido que o futebol seja o forte delas. Mais me intrigou escutar o próprio seleccionador nacional referir-se às suas atletas nos mesmíssimos termos, as meninas. Soou-me estranho. Talvez tenha andado distraído, mas nunca ouvi ninguém chamar menino ao Bruno Alves e afins. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

EM FORMA

Mens sana in corpore sano, advogavam os antigos e com toda a razão. Alguém que passe a vida a ler Kant não poderá ser saudável se não fizer corresponder ao exercício físico o esforço aplicado no exercício mental. Por cada livro que lemos, uma caminhada, por cada CD que ouvimos, alongamentos, por cada ida ao cinema, três piscinas, por cada concerto, alteres, por cada peça de teatro, vinte flexões… O espírito deveria ser este, tem de ser este, para garantirmos que aos 60 também poderemos exibir-nos em forma. 
A lei não é, porém, unilateral. Os ginásios deviam ser apetrechados de bibliovideoaudiotecas. Só desse modo podemos garantir que os vigoréticos equilibrem a saúde mental oferecendo ao espírito o que exigem do corpo. Os viciados do exercício físico que passam a vida em ginásios poderiam, deste modo, acompanhar as passadeiras de leituras dos clássicos gregos. Por cada peso levantado, uma página de Suetónio. Aulas de zumba? Lições de Camões. Já aos fisiculturistas de passeio, parque, ar livre, devia ser imposta uma condição: por cada hora despendida em correrias, o equivalente à mesa de uma biblioteca a ler nobéis. Parece-me justo e equilibrado. 
Corpore sano en mens sana, advogamos nós agora com os olhos postos no futuro.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

HORA DA MORTE


Isto está pela hora da morte
espero permanecer até ao meu próximo aniversário
não peço nem mais.
Depois
com um pouco de insistência
virei a ter certas regalias
um desconto nos comboios suburbanos
(oh, que não me minta a memória
tudo começou com o foguete Porto-Lisboa
roçaram-se nos corredores os peitos
nem sempre da mesma altura
ainda sou daquela idade)

Espero qualquer túnel
que resgate a esperança
de sustos da escuridão
nos faça falar por todos.
De noite,
tudo se apanha em voo, vai-se aos sentidos mais aguçados
aqueles que encontramos nos nossos desenhos de criança
quando não sabíamos do que se tratava:
Se não se trata de perigo
de que temos medo na hora da morte?
Do escuro da morte?

Da morte? Só se define a morte por ela ir ser indefinível
não se define o que estará,
o nosso passo será de gigante
comparado com a timidez da vida
(a nitidez da vida)

Agora directos à morte
sem preparação específica
atlas, conselhos
ou um vislumbre de estratégia que nos faça largar de uma para outra frase
assim, sem transição:
A vida é bela. A morte.
Qual é o perigo?

Eis as duas frases que referia, aliás três.


Sérgio Godinho (n. 1945), in O Sangue Por Um Fio (2009). Celebrizado enquanto escritor de canções, Sérgio Godinho assinou igualmente livros de ficção, histórias infantis, um volume de poemas. Ainda que entre as suas canções e a sua poesia possamos encontrar variadíssimos nexos, nos poemas as palavra libertam-se dos espartilhos métricos e da coerência narrativa. Voluntariamente elípticos, por isso mesmo algo enigmáticos, os poemas de Sérgio Godinho propõem uma revisitação do vivido guiada pela perspectiva da morte. A tensão entre as duas dimensões da existência impele a uma interrogação crítica, uma espécie de exame a partir de uma inquietante desfiguração de medos, receios, memórias, ilusões.

MEDALHAR O EVERESTE

Um texto de João Lisboa para ler na íntegra: aqui. Excerto:

Naturalmente, letras de canções (sem deixarem de ser matéria literária) são letras de canções e poesia é poesia. Mas, no caso de Dylan (como acontece também, de formas diversas, com Cohen, Brel, Buarque, Caetano) essa distinção começou a deixar de fazer sentido, pelo menos desde 1965, quando escreveu e gravou "Like A Rolling Stone". Num dos textos que acompanham a recente compilação The Cutting Edge, explica-se que foi por essa altura que Dylan abandonou a ideia de publicar um livro de poesia que começara a escrever no início dos anos 60 ao aperceber-se que uma canção poderia conter tantas ideias como um romance ou um poema. Na mesma época, numa entrevista com a realizadora e argumentista Nora Ephron (então jornalista do “New York Post”), esta perguntou-lhe se os textos dele sobreviveriam no papel, sem música. A resposta foi “Claro que sim. Mas eu não os leio. Prefiro cantá-los”. “Muito mais importantes do que entertenimento ligeiro”, as canções eram, para Dylan, “uma república diferente, uma república libertada” e, enquanto, ingenuamente, o mundo continuava a classificá-las como rock (ou folk rock) o que os ouvidos iam escutando eram, sim, os sucessivos capítulos da mítica “Great American Novel”.

domingo, 23 de outubro de 2016

DOIS LIVROS DE CATARINA COSTA



Dois livros de Catarina Costa (n. 1985) publicados quase em simultâneo reclamam para a sua poesia uma atenção que seria indevido não oferecer. Chiaroscuro (Douda Coreria, Julho de 2016) e A Ração da Noite (Setembro de 2016) estão longe de ser estreias, apesar da juventude da autora. A estreia sucedeu em 2008, com Marcas de Urze (Cosmoroma), ao qual seguiram-se Dos Espaços Confinados (Deriva, 2013) e Síndrome de Estocolmo (Textura, 2014). A poesia de Catarina Costa revelada nestes dois últimos livros oferece continuidade a um trabalho de apuramento da relação estabelecida entre palavra e imagem, problematizando em consequência desse labor as possíveis conexões do texto com a realidade. O próprio título Chiaroscuro remete para um jogo de contrastes entre luz e sombra, sendo perceptível nos poemas que estes contrastes incluem, por sugestão e comparação, oposições do presente face à memória, dos espaços físicos e materiais face aos espaços da imaginação, em suma da realidade face à palavra.
Ambos divididos em três partes, não é apenas esse pormenor organizacional que aproxima os dois livros. Neles reconhecemos igualmente uma obsessão pelo anómalo. Se no primeiro conjunto de A Ração da Noite, intitulado Neoplasias, são as disformidades da matéria corporal que estão em evidência, sendo os poemas ocupados por termos tais como verruga, inchaço, tumor, ferida, chagas, doença, dor, num complexo lexical que reforça com extrema violência e de um modo algo perturbador a dimensão patológica que enforma os poemas, já em Chiaroscuro as disformidades da matéria dão lugar a um outro plano do anómalo, o qual seja o da desfiguração e da desfocagem do olhar. A ideia de desfocagem que percorre os textos faz-se acompanhar das opacidades que dificultam a relação do ser com a memória, da memória com a realidade, da realidade com o pensamento, deste com a linguagem, instalando entre todas estas dimensões um factor desorientador da verdade, a qual resultará invariavelmente sob a forma fantasmagórica de uma indefinição e de um desfasamento.
Deste modo, seja quando observa uma fotografia de um jornal antigo, quando recorda as impressões causadas pela observação de Las meninas aos 10 anos, quando recorda o bolo de aniversário aos seis anos ou quando revê o registo fotográfico de uma máscara de carnaval aos 11 anos, as memórias aparecem invariavelmente «envoltas num manto nevado» e o que emerge desse manto é a declaração de uma mentira: «São mentiras infantis, pequenas coisas / que me vejo na obrigação de esconder: / por exemplo um espelho que quebrei / e que agora distorce de tal modo o que espelha / que não mostro a ninguém, / apesar de não querer que os meus dedos / sejam os únicos a tocarem o rebordo». Sublinhe-se nesta estrofe, além do mais, a “obrigação de esconder” a par de um desejo de partilha acompanhado por uma vontade: «não querer que os meus dedos / sejam os únicos a tocarem o rebordo». Não por acaso, a segunda pessoa que surge a espaços nos dois livros parece assumir, por vezes sem sucesso, esse papel de confidente, ao qual caberá contribuir para o degelo (título do terceiro conjunto do livro A Ração da Noite) de uma intimidade recalcada, o das memórias «envoltas num manto nevado».
Eminentemente psicanalítica, a linguagem destes poemas extrema as faltas de um sujeito poético marcado pela carência e pelo insucesso da poesia enquanto catarse, pois também o poema detém filtros que obstaculizam a revelação: «és carne desamparada / enquanto o sono não desce» — diz-se assim mesmo, a páginas 43, no poema que oferece título ao volume A Ração da Noite. Não obstante, sobressai destes trabalhos do olhar uma problematização do ser que de algum modo realça a sua natureza complexa. Ainda que a espaços a densidade de alguns poemas dificulte essa percepção, desviando-nos ou distraindo-nos daquele que possa constituir o seu principal foco, a impressão final é a de uma viagem mais reflexiva do que contemplativa pelos interstícios da mente humana. Porventura num comboio por baixo da terra:

Um comboio por baixo da terra

vamos num comboio por baixo da terra
anunciaste, e eu incrédula, a imaginar
uma locomotiva feita máquina escavadora
a esburacar a terra à sua passagem

temia não um descarrilamento, acidente
demasiado técnico, não um despenho,
sendo ainda cedo para imaginar o primeiro,
mas que a aceleração nos projectasse
para onde fôssemos soterrados

hoje parada à beira das linhas assisto
a um enterro de cada vez que passa o comboio,
um repisar infernal ao fundo da terra,
e resguardada estou da intempérie dos céus

o que quer que tenha caído já foi esmagado
mil vezes em síncope cronometrada,
o metropolitano todo ele uma mesma escavação,
ao nível dos mortos

vamos num comboio por baixo da terra
e eu com medo, sem ainda saber que não haveria
viagem mais segura do que a dessa manhã

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

ISTO É UM POEMA OU UMA CANÇÃO?


José Mário Branco pegou num soneto de Camões e musicou-o, acrescentando-lhe versos, repetindo outros. É um poema ou uma canção? O soneto de Camões deixou de ser um soneto de Camões quando se transformou numa canção de José Mário Branco?

POETA, TRADUTORA, DRAMATURGA


Dia 21 de Outubro, pelas 22h, no Teatro A Barraca
lança-se Lançamento


Sobre Margarida Vale de Gato, neste weblog, uma leitura do livro Mulher ao Mar (aqui), um poema (aqui), uma referência à peça Desligar e Voltar a Ligar (aqui), outro poema (aqui), uma sequência de Mulher ao Mar - Retorna, seguida de apontamento crítico por António Guerreiro (aqui), e mais um poema (aqui). E muitas traduções, entre as quais, por exemplo, esta e esta e mais esta. Além da Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe (aqui).

HOW THE WEST WAS WON (1962)



À entrada da segunda metade do séc. XX, a indústria cinematográfica enfrentou um dos seus maiores desafios. Do outro lado da barricada estava uma pequena caixa de ilusões que viria a tornar-se um potencial inimigo do cinema. A disseminação de televisores pelos domicílios da nação exigia de Hollywood inovações técnicas que voltassem a seduzir público para as salas de cinema. Surgiu então o Cinerama, composto por «três projectores, um écran triplo, côncavo, com 300 metros quadrados, e seis pistas de som e uns vinte alti-falantes». Quem assistiu, garante que o efeito de relevo era impressionante. Um dos primeiros filmes especificamente preparados para serem exibidos em Cinerama foi How the West Was Won/A Conquista do Oeste (1962). 
Épico dos épicos, How the West was Won conta com um elenco difícil de imaginar, repleto de gigantes do cinema em papéis fugazes. John Wayne aparece, mas quase não damos por ele. O mesmo com Richard Widmark, Henry Fonda, Gregory Peck, James Stewart, Walter Brennan ou Eli Wallach… Não há desempenho individual que se sobreponha ao objecto final, uma História do Old West assinada por três colossos que há muito vinham cimentando a mitologia norte-americana através da arte cinematográfica: John Ford (n. 1894 – m. 1973), Henry Hathaway (n. 1898 – m. 1985) e George Marshall (n. 1891 – m. 1975). 
Nenhum dos três realizadores de serviço terá apreciado sobremaneira as exigências técnicas do Cinerama, tendo o écran triplo sido posto de lado rapidamente. Visto hoje à luz do inimigo televisor, um filme destes perde muito do seu impacto visual. Mantém, porém, a essência das epopeias e a imponência de uma atitude ambiciosa que, apesar de ter amealhado meras três estatuetas douradas, outorgou à humanidade um objecto deveras relevante tanto para a história do cinema como para a história da própria América. Do cinema: não só por marcar uma época, mas também por questionar de um modo latente a sua própria raiz. Não percamos de vista que o primeiro filme propriamente dito era um western intitulado The Great Train Robbery (1903). Não por acaso, o segmento final de A Conquista do Oeste reproduz o assalto a um comboio. O que esse segmento dirigido por Henry Hathaway nos oferece é uma espécie de retrospectiva sobre o percurso da indústria cinematográfica. Assim sendo, a pergunta “como chegámos aqui?”, que acompanha todo o filme, não se refere apenas à América do Norte e à ocupação dos seus territórios, não se refere apenas ao voluntarismo dos pioneiros e dos colonos, refere-se igualmente à indústria cinematográfica. 
No fundo, A Conquista do Oeste reflecte o cinema ao projectar parte da história da América, com os seus heróis e vilões, com os seus estereótipos e conflitos, desde logo pautados pelas distintas duas irmãs que acompanham toda a narrativa. Eve, interpretada por Carroll Baker, é o lado romântico e transcendentalista de uma América arreigada à Natureza e aos seus mais profundos valores. É a América de Ralph Waldo Emerson e de Henry David Thoreau. Lilith, uma impagável Debbie Reynolds, é a América que acabará por vingar, a América pragmática e materialista, a América que Walt Whitman se encarregou de eternizar com versos longos e modernistas, à medida que registava os efeitos do progresso numa humanidade em busca de futuro. 
Dos caçadores de peles solitários, habitantes isolados das montanhas, mais índios que os próprios índios, aos jovens sonhadores que a Guerra Civil chamou à terra, dos jogadores trapaceiros, vigaristas, oportunistas e embusteiros aos fora da lei, da guerra entre cowboys e pastores à concorrência que traçou sobre a paisagem as duas linhas da ferrovia, do modo de vida indígena à viciosa hegemonia de cidades caóticas, fez-se a conquista do Oeste. Contada em cinco segmentos ligados por três gerações de uma mesma família, esta história não encerra de modo algum o potencial crítico de um género como o western
Em 1962, talvez o seu efeito fosse de tipo catártico. O efeito que hoje produz é outro, semelhante ao que sentimos quando relemos Leaves of Grass. É o efeito de estarmos perante obras que fundam o imaginário popular na exacta medida em que nos reenviam para um tempo iniciático, uma era que obrigava a uma determinação e a um voluntarismo que hoje nos são estranhos. Se são estranhos, é porque já nascemos num tempo em que tudo parece ter sido conquistado, em que sobre o desconhecido caiu um terrível manto de previsibilidade. Outros foram os tempos quando havia mato por desbravar e no horizonte reluzia a esperança e o desejo de um mundo melhor. Se chegámos lá, essa é outra questão.  

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

«ESTÃO PODRES AS PALAVRAS»


A Jorge de Sena

Estão podres as palavras, Jorge,
de passarem por sórdidas mentiras...
Assim o dizes e não pões nem tiras,
ao rijo inventário do teu denso alforge
de palavras talhadas em duro corno,
a doçura de uma vírgula que pudesse
iludir a corrupção que aqui se tece,
minando de cuspo a pureza em torno.
Mentem os que falam e os que se calam,
mentem os que ficam e os que se vão,
agitam-se os cobardes em nova encarnação
desta coragem com que já abalam.
Que merda de gente, ó filho de Camões!
Junto de um seco, fero, estéril monte,
para onde me retiro, olho e vejo a ponte,
por onde fogem os sonoros campeões!
Usá-las puras, as palavras — dizes...
Que pureza a desta língua envilecida
por mil flexões de prostituta ardida?
Língua coleante, dupla, rica de matizes...
Possam as palavras ficar enfim erguidas,
um dia, como torres, entre céus e terra!
Faremos, então, com elas, a nossa guerra
aos heróis que hoje confundem as saídas.

Lourenço Marques, 1974


Eugénio Lisboa (n. 1930), in A Matéria Intensa (1985). «Crítico e ensaísta dos mais lúcidos, argutos, desassombrados e escrupulosos de toda a nossa história literária (...), Eugénio Lisboa só recentemente, com estes densos poemas de A Matéria Intensa — livro em boa hora galardoado com o Prémio de Poesia Cidade de Lisboa — se revelou também um poeta já e doravante inconfundível, cuja pessoalíssima voz — a um tempo áspera e calorosa, austera e fremente, patética e todavia com inesperados acentos lúdicos — como que de há muito fazia falta (disso agora nos apercebemos) no coral da poesia contemporânea, aliás bem rico de outros valores, mas onde não costumam abundar os referidos atributos» (David Mourão-Ferreira, in Colóquio Letras). 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

IDADE DO SILICONE

Acerca de quê poderá alguém pensar em escrever que não veja todos os dias nos noticiários e nas televisões? As emoções humanas básicas permanecem as mesmas mas são os media que as dirigem... Rimbaud, Shelley, William Blake, Byron, quem são eles? Apenas poetas que temos a liberdade de conhecer mas que ninguém escuta na televisão. Os media acabaram de vez com a poesia e a literatura. Ninguém está disposto a desempenhar o papel de Kafka, de escrever para não haver ninguém que o leia. Quem escreve quer ser visto e lido. Ter, pelo menos, uma reacção. E é disso que os media se encarregam. Não se pode esperar melhor poesia do que a que se vê nos noticiários. Aí mostram-nos tudo o que é possível existir e mesmo aquilo com que nunca fomos sequer capazes de sonhar. O que pode fazer alguém que escreve? Todas as ideias são exibidas nos media muito antes de podermos aproximar-nos delas. Vivemos num mundo de ficção científica. A Disney conquistou o mundo. Este é um mundo de ficção científica Disney. Parques temáticos, ruas da moda, é tudo ficção científica. Por isso, se um autor tiver algo para dizer, deve fazê-lo fora disso. Fora do 'mundo real' que se transformou no mundo da ficção científica. Quer tenhamos consciência disso ou não. Tivemos a idade do oiro que terá sido a de Homero, depois a da prata, a do bronze, e, agora, somos bem capazes de estar a viver na idade da pedra. Ou na do silicone...

Bob Dylan, citado por João Lisboa, aqui.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

«NENHUM LUGAR ERA LONGE QUE BASTASSE.»

«Eu nunca tinha gostado lá muito de livros e escritores, mas gostava de histórias. Histórias do Edgar Rice Burroughs, que escreveu sobre a África mítica — Luke Short, dos contos míticos do Oeste — Júlio Verne — H. G. Wells. Eram os meus favoritos antes de descobrir os cantores folk. Os cantores folk conseguiam cantar, em apenas alguns versos, canções que valiam por um livro inteiro» (p. 35).

«Tinha-me deixado do hábito de pensar em canções com ciclos curtos e comecei a ler poemas cada vez mais longos, para ver se me lembrava de alguma coisa do que tinha lido no princípio. Treinei a minha mente para isso, pus de parte os hábitos melancólicos e aprendi a aplicar-me. Li o Don Juan de Lord Byron e concentrei-me completamente nele do princípio ao fim. Assim como no Kubla Khan de Coleridge. Comecei a atafulhar o meu cérebro com todo o tipo de poemas profundos» (p. 48). 

«As canções folk são vagas, falam da verdade acerca da vida,  a vida é mais ou menos uma mentira, mas mais uma vez é assim mesmo que queremos que seja. Não estaríamos confortáveis nela de uma outra forma» (p. 59).

«(Archibald) MacLeish disse-me que me considerava um poeta a sério e que o meu trabalho seria uma pedra de toque para as gerações seguintes, que eu era um poeta do pós-guerra da Idade do Ferro  mas que aparentemente tinha herdado algo metafísico de tempos idos. Apreciava as minhas canções porque se envolviam com a sociedade, porque tínhamos muitos traços e ligações em comum, e porque eu não ligava às coisas do mesmo modo que ele também não lhes ligava importância» (p. 87). 


Bob Dylan, in Crónicas — volume I, tradução de Bárbara Pinto Coelho, Ulisseia, Outubro de 2005.

PARA QUE SIRVO EU?



Para que sirvo eu se sou como todos os outros
Se simplesmente me afasto ao ver como te vestes
Se me fecho em mim mesmo pra não te ouvir chorar
Para que sirvo eu?

Para que sirvo eu se sei e não ajo
Se vejo e não digo, se através de ti contemplo
Se me faço de surdo ao céu troante
Para que sirvo eu?

Para que sirvo eu enquanto choras suavemente
E escuto na minha mente o que dizes durante o sono
E logo regelo como os que nada fazem
Para que sirvo eu?

Para que sirvo eu então aos outros e a mim
Se tive todas as chances e falhei mesmo assim
Se tenho as mãos atadas e não me interessa
Quem as atou nem porquê nem onde devia eu estar?

Para que sirvo eu se digo disparates
E rio na cara do que a tristeza traz
E apenas volto as costas enquanto morres em silêncio
Para que sirvo eu?


Versão de HMBF.


What Good Am I? é uma das canções emblemáticas do álbum Oh Mercy (1989). Bob Dylan tinha há muito recusado o título de cantor de protesto, colado por uma imprensa ávida de rótulos num tempo em que os profetas eram muitos e para todos os gostos. Colocando-se à margem desse caudal messiânico tão profuso no mundo artístico das décadas de 1960 e de 1970, Dylan optou por uma postura cada vez mais recolhida, isolada e enigmática. No entanto, os seus discos da década de 1980 ficaram altamente marcados por letras de teor religioso. Esta é uma delas, encenando um diálogo íntimo e autocrítico consigo mesmo ou com as forças exteriores que o habitam. Optei pelo verbo servir respeitando esse mesmo contexto confessional, do servo de uma causa que se questiona a si próprio acerca do valor e da eficácia das suas acções. Assim sendo, o sentido da bondade confunde-se com o da utilidade. É-se bom na medida em que se é útil enquanto servo de uma causa. 

domingo, 16 de outubro de 2016

UM SONHO DE BOB DYLAN


Enquanto seguia num comboio para oeste
Deixei-me adormecer para descansar
Tive um sonho que me entristeceu
Sobre mim e os primeiros poucos amigos que tive

Com os olhos meio húmidos encarei o quarto
Onde eu e os meus amigos passámos várias tardes
Onde juntos resistimos a inúmeras tempestades
Rindo e cantando até às primeiras horas da manhã

Junto ao velho fogão a lenha onde pendurávamos os chapéus
As nossas palavras eram ditas, as nossas canções cantadas
Por nada ansiávamos e sentíamo-nos satisfeitos
A brincar e a conversar sobre o mundo lá fora

De corações assombrados pelo calor e pelo frio
Jamais nos ocorria que podíamos vir a envelhecer
Pensávamos que podíamos divertir-nos para sempre
As apostas eram realmente de uma para um milhão

Tão fácil quanto nos era distinguir o branco do preto
Era-nos igualmente fácil distinguir o bem do mal
Eram poucas as escolhas e jamais julgaríamos
Que o caminho que seguíamos podia separar-se e dividir-se

Enquanto um ano passa e se vai
Também as apostas se perdem e se ganham
E muitos são os trilhos tomados pelos primeiros amigos
E todos os outros que nunca mais vi

Desejo, desejo, desejo em vão
Que novamente possamos sentar-nos naquele quarto
Dez mil dólares eu daria com prazer e sem qualquer discussão
Se as nossas vidas pudessem voltar a ser como eram.


Versão de HMBF. 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Justiça para Bob Dylan? Em nome de quê? Admirando o seu trabalho ou denegrindo-o, em que medida é que o seu Nobel pode (ou deve) ser avaliado em termos de justiça? Desde quando a Academia Sueca é uma entidade legislada pela gritaria "social" dos que detêm o poder e a inteligência de recolocar o mundo numa ordem ideal e, pelos vistos, inquestionável e compulsiva?

Perguntas de João Lopes a que o próprio tenta responder: aqui.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

RUI ALMEIDA


Entradas sobre a poesia de Rui Almeida neste weblog: leitura do livro Lábio Cortado (aqui), leitura do livro Leis da Separação (aqui), apresentação do livro Temor Único Imenso (aqui), um poema do livro Lábio Cortado (aqui).

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

RETARDAÇÃO

Dou uma volta pelos weblogs e respectivas caixas de comentários, salto aos jornais para averiguar reacções. Pasmo. Pode-se apreciar mais ou menos o género musical praticado por Dylan, pode-se até duvidar da excelência das suas letras. Para o caso, é essa dimensão das letras que importa. O Nobel da Literatura não é atribuído ao tom de voz nem aos acordes que podem acompanhar um texto, é atribuído a textos. Pois bem, o que para mim é impensável é haver quem inferiorize uma canção a ponto de não a julgar literatura. Supunha que tais preconceitos haviam sido há muito ultrapassados. Discordar-se deste Nobel por ter sido atribuído a um escritor de canções é absolutamente ridículo. Uma sugestão: leiam Era um redondo vocábulo, do José Afonso. Depois mostrem-me quantos poemas melhores do que os versos dessas canção foram escritos na segunda metade do séc. XX português. Afinal, esta questão das classes é mais preocupante do que eu julgava. Sugiro uma busca no Google por "Disease of Conceit".

Adenda: acrescentar este post de contra mundum: «Persiste à nossa volta o erro de confundir os livros com a literatura. De confundir o suporte com o discurso. Nem a literatura é redutível ao livro, nem o livro se esgota na literatura.» A sério que estou estupidamente estupefacto com as reacções por aí encontradas: gente de esquerda, supostamente progressista, com comentários conservadores ao nível do mais obtuso direitista; pessoas que acredito serem inteligentes a menosprezarem o que claramente desconhecem; mentalidades de burgesso em literatos do universo underground. A minha alma está parva, mas ao mesmo tempo esclarecida. Foda-se, queixem-se dos taxistas…

O MEU PRIMEIRO BOB DYLAN


Não me recordo de viver sem música por perto. A hipótese disso vir a acontecer é-me mais insuportável do que a ideia da morte. Se há agradecimento que devo à família, foi desde muito cedo ter-me rodeado de música. Nem sempre boa, quase sempre razoável para cima. Mas música. Lá por casa havia, por exemplo, umas caixas com sucessos compilados que as Selecções do Reader’s Digest se encarregavam de fazer chegar à província. Eu tinha menos de 10 anos e passava muitas horas a ouvir rádio ou à volta desses discos, que fazia rodar na primeira aparelhagem que houve em casa: um prato isolado directamente ligado a duas colunas. Numa dessas colectâneas da década de 60 ouvi, pela primeira vez, House of  the Rising Sun, na versão dos The Animals, Mr. Tambourine Man, na versão dos The Byrds, e All Along The Watchtower, na versão da The Jimi Hendrix Experience, todas atribuídas a Bob Dylan. Na realidade, a primeira é um tradicional de New Orleans, lamento pelo percurso da pobreza à prostituição que Dylan incluiu no álbum de estreia. Além dessas versões, havia uma canção do próprio: Lay Lady Lay. O nome daquele escritor de canções repetia-se várias vezes, era impossível não atrair atenções. Acresce que os temas se distinguiam dos demais por razões que só a intuição infantil consegue compreender. Não tinham a ligeireza melódica dos The Beatles nem o imediatismo rockeiro dos The Rolling Stones (magnífica, a versão que anos mais tarde a banda de Mick Jagger e Keith Richards ofereceu a Like a Rolling Stone). A voz de Dylan era diferente, os arranjos eram diferentes, havia em seu redor a estranheza provocada pelo génio. Não posso garantir a data exacta em que aportou na Rua de Santa Bárbara a dose dupla de More Bob Dylan Greatest Hits, mas sei que por essa altura (14, 15 anos) era rapaz que ouvia The Doors, Neil Young, Dire Straits, Simon & Garfunkel… 



Bob Dylan reunia dois universos que sempre me agradaram, o das canções folk acompanhadas por guitarra acústica e harmónica, o dos blues inclinados, aqui e acolá, para o rock and roll da velha escola. Watching The River Flow, porta de abertura para More Bob Dylan Greatest Hits, é na sua essência uma vulgar canção rock and roll. Mas se lhe pegarmos pela letra, então a vulgaridade esvai-se para dar lugar a uma extraordinária crónica social sobre o passar do tempo e a inutilidade de esforços absurdos, testemunho existencial sobre inevitabilidades que denunciam a fragilidade do humano sem dissiparem por completo a utopia: «If I had wings and I could fly / I know where I would go / But right now I'll just sit here so contentedly / And watch the river flow». De facto, Dylan começa a parecer invulgar quando paramos para o ler, quando lhe prestamos atenção às letras e nele descobrimos um poeta extraordinário que, não por acaso, foi produzindo ao longo de décadas inúmeras canções emblemáticas. Independentemente das polémicas em que se envolveu, algumas delas contribuindo para uma deterioração da imagem de singer/songwriter socialmente empenhado, vislumbramos na sua obra um compromisso de raiz humanista, desinteressado dos radicalismos que à esquerda e à direita marcaram a sua geração. 
A páginas tantas do primeiro volume de Crónicas, afirma: «A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida». A alusão aos comboios e aos sinos não é acidental neste maná sonoro. Os comboios são um dos símbolos maiores da unidade americana, estão associados à transformação de uma paisagem que foi dobrada à custa de muita exploração humana e lançou para a miséria e para o desamparo inúmeros cidadãos. Mas os comboios estão igualmente associados à facilidade de deslocação, a um certo nomadismo em que as metamorfoses líricas de Bob Dylan embarcaram desde muito cedo. Essa ideia de deslocamento e de mudança, que arrasta consigo dor e sofrimento, mas ao mesmo tempo gera expectativas e alimenta a esperança dos homens, é um dado concreto da canção dylaniana que não podemos negligenciar. Daí também os sinos, elemento que aponta para uma das fases mais mal-amadas e incompreendidas de uma longa carreira. Ocorre-me um álbum como Saved (1980), polémico registo a abrir a década de 1980, com aproximações ao universo religioso através de uma apropriação particular da música gospel e dos espirituais negros. A verdade é que nesse álbum elabora-se uma outra aproximação, a qual seria deveras pertinente à luz dos acontecimentos actuais como o foi à época. Trata-se de uma aproximação entre raízes étnicas que vem ferindo de morte a tal unidade da América enquanto nação, segregando estirpes em função da cor da pele ou das crenças religiosas. 
Eis-nos perante uma obra que congrega, cuja característica mais evidente e porventura mais vertebral é precisamente a de reclamar a humanidade como um todo. Ultrapassada a fase do vinil, recordo-me que o primeiro CD de originais de Dylan que adquiri foi Oh Mercy (1989). Em retrospectiva, é o ano da retirada da União Soviética do Afeganistão, ano de manifestações em Pequim, ano da queda do Muro de Berlim… Apesar dos temas algo melancólicos superiormente produzidos por Daniel Lanois, dos mais bonitos, por assim dizer, que conhecemos na longa carreira de Dylan, o álbum abre com um perturbador testemunho dos tempos. A canção Political World foi a banda sonora ideal para o que estava a acontecer e se adivinhava enquanto efeito dos acontecimentos de então. Volto a escutá-la hoje, em época de Trump, de Erdoğan, de Daesh e afins. Infelizmente, uma canção destas não morre:


BOB DYLAN NAS LIVRARIAS

Devo dizer que me estou nas tintas para o Prémio Nobel da Literatura. Nunca li um escritor nem procurei um livro por lhe terem sido atribuídos prémios. Este ano há um mas, um aspecto menos convencional que me agrada. E além do mais gosto muito de muitas canções de Bob Dylan, foi a tentar tocá-las que aprendi a tocar guitarra, isto é, a arranhar uns acordes numa guitarra. Depois há o lado profissional da coisa, aquele que me obriga a desiludir o Xilre quando na sua pergunta traz implícita uma resposta ilusória: Imagino a cara dos editores & livreiros. O que irão colocar nas montras, nas estantes, nos destaques?



É verdade que há pouca literatura de e sobre Dylan em Portugal, como, aliás, muitas vezes acontece quando o autor galardoado é escritor de poemas ou de romances ou de peças de teatro… Basta recordar que o Nobel de 2011, Tomas Tranströmer, não tinha um único livro traduzido para português à data do anúncio da atribuição do prémio. Com Dylan não haverá semelhante problema. Desde logo porque são inúmeros os livros sobre ele disponíveis no mercado de importação, alguns até acerca de facetas artísticas menos conhecidas do autor de Like a Rolling Stone. Mas já por cá existe matéria traduzia que pode chegar muito rapidamente aos escaparates. Desde logo, as Crónicas – Volume 1, publicadas pela Ulisseia em Outubro de 2005 com tradução de Bárbara Pinto Coelho. Trata-se de uma espécie de memórias concentradas na chegada a Nova Iorque, já com a intenção clara de se tornar escritor de canções: «Não era nem de amor nem de dinheiro que andava à procura. Tinha um sólido sentido de consciência, sabia o que queria, mas não era pragmático e ainda por cima era um utópico» (p. 14). Valeu. 





Menos provável será a recuperação do velho volume publicado pela Centelha na Colecção Rock On. Data de Março de 1985 e foi dos primeiros livros de poemas que li com forte entusiasmo. Em edição bilingue, com tradução de Graça Nazaré, podemos aperceber-nos da maestria lírica latente nas canções de Bob Dylan. Dois versos de Blowin’ in The Wind: «Quantos anos pode uma montanha existir / antes de ser arrastada para o mar?» Ou os versos de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, canção que é toda ela um poema repleto de imagens e de alusões à boa maneira beat. O Dylan da canção de protesto que no meio de uma história podia declarar amor a Fidel Castro, o Dylan onírico, surrealista, que em Mr Tambourine Man canta: «faz-me desaparecer pelos círculos de fumo da minha mente, / pelas enevoadas ruínas do tempo, bem além das folhas geladas, / das assombradas árvores temerosas», o Dylan trovador pode e deve e será exposto nas livrarias, pois é um poeta ao nível dos melhores e de algum modo limpará de um qualquer recanto mercantilista um pouco da tralha que atola hoje os espaços livreiros. Portanto, a breve trecho é muito provável que venhamos a ver disponibilizada uma antologia do género.



E há ainda e sempre os acordes, os livros de acordes, como este que tantas vezes tenho aberto para ensaiar All Along The Watchtower ou I’ll Be Your Baby Tonight. Portanto, motivos de regozijo para a indústria livreira não faltarão. Verdade que edições recentes de Adonis na Porto Editora e na Dom Quixote hão-de ter deixado de monco caído alguns apostadores natos, mas desengane-se quem julgar que a surpresa trairá os piores hábitos de quem singra pelo negócio. O Nobel da Literatura foi para Bob Dylan? Pois bem, publique-se Bob Dylan.


Adenda: por justiça, refiram-se igualmente os dois volumes de canções editados pela Relógio D'Água - Canções - volume I (1962-1973) e Canções - volume II (1974-2001) - em 2006 e 2008, assim como a única obra de ficção publicada por Bob Dylan até hoje, de seu título Tarântula, dada à estampa pelas Quasi Edições em 2007.