É uma das boas surpresas que 2016 tinha para nos
reservar, esta incursão “a solo” do belga Maarten Devoldere. Membro fundador
dos Balthazar, Devoldere surge agora sob a designação de Warhaus. We Fucked a
Flame Into Being (2016) reúne dez canções que é impossível não associar de imediato
à pop luxuriante deixada de herança por Serge Gainsbourg, embora a espaços
sejamos recordados de projectos menos óbvios tais como os Black Box Recorder de
John Moore (The Jesus & Mary Chain) ou os The Apartments, do australiano
Peter Milton Walsh. Referências de bom gosto inquestionável, às quais devemos
acrescentar igualmente uma certa névoa coheniana que Maarten Devoldere cultiva
arrastando as sílabas como se estivesse a murmurá-las e buscando tons mais
graves para palavras onde o erotismo se faz acompanhar de versos cínicos, tiradas provocadoras. Arranjos de cordas e de sopros exóticos, sobre um apurado sentido
melódico, garantem a estas dez canções uma sonoridade cativante, para a qual,
de resto, contribuíram outros elementos já conhecidos dos Balthazar: Christophe
Claeys (bateria), Patricia Vanneste (violino) e Simon Casier (baixo, guitarra
acústica, piano). Mas a articulação de toda esta massa instrumental com a voz
feminina de fundo oferecida por Sylvie Kreusch é talvez o elemento mais
eminentemente gainsbourguiano de um registo que sobressai pelo arrojo
lírico de belíssimas canções como esta Bruxelles:

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