quinta-feira, 27 de outubro de 2016

#85



É uma das boas surpresas que 2016 tinha para nos reservar, esta incursão “a solo” do belga Maarten Devoldere. Membro fundador dos Balthazar, Devoldere surge agora sob a designação de Warhaus. We Fucked a Flame Into Being (2016) reúne dez canções que é impossível não associar de imediato à pop luxuriante deixada de herança por Serge Gainsbourg, embora a espaços sejamos recordados de projectos menos óbvios tais como os Black Box Recorder de John Moore (The Jesus & Mary Chain) ou os The Apartments, do australiano Peter Milton Walsh. Referências de bom gosto inquestionável, às quais devemos acrescentar igualmente uma certa névoa coheniana que Maarten Devoldere cultiva arrastando as sílabas como se estivesse a murmurá-las e buscando tons mais graves para palavras onde o erotismo se faz acompanhar de versos cínicos, tiradas provocadoras. Arranjos de cordas e de sopros exóticos, sobre um apurado sentido melódico, garantem a estas dez canções uma sonoridade cativante, para a qual, de resto, contribuíram outros elementos já conhecidos dos Balthazar: Christophe Claeys (bateria), Patricia Vanneste (violino) e Simon Casier (baixo, guitarra acústica, piano). Mas a articulação de toda esta massa instrumental com a voz feminina de fundo oferecida por Sylvie Kreusch é talvez o elemento mais eminentemente gainsbourguiano de um registo que sobressai pelo arrojo lírico de belíssimas canções como esta Bruxelles:


Sem comentários: