A primeira dúvida que um álbum como Skeleton Tree (2016) nos
coloca é acerca do papel que ocupa no percurso de Nick Cave & The Bad
Seeds. Por consequência, como devemos posicionar-nos face a objecto tão
perturbador? Sabendo do luto que o alicerça, jamais essa noção será indiferente à
percepção das 8 canções alinhadas com evidente intuito catártico. Assim sendo,
parece-me que estamos num interregno sob a forma de expiação. Nick
Cave perdeu um filho. Como muitos outros artistas fizeram antes dele,
resolveu expressar a dor da perda exercitando-a no contexto da sua arte. Se
tivermos em conta o percurso de Nick Cave enquanto singer/songwriter não
podemos senão ficar algo decepcionados com o sentimentalismo patente neste
conjunto de canções, arquitectadas sobre loops arrastados por orquestrações e
arranjos com um único propósito: oferecerem às palavras proferidas, cantadas,
murmuradas, o ambiente geral de uma prece. Estendidos como uma passadeira de
vento sob a voz, as palavras ecoam como uma espécie de uivo. A voz feminina em
Distant Sky é confrangedoramente redentora, assim como a toada rotativa,
mântrica, terapêutica das palavras. Skeleton Tree é um álbum difícil por nos forçar
a uma complacência que não estaríamos dispostos a ter noutras circunstâncias. Note-se
como em I Need You a súplica anunciada no título é acompanhada ao longo das
estrofes pela renunciação induzida na frase “nothing really matters when the
one you love is gone”. Para que algo volte a ter importância é necessário o
regresso do objecto amado desaparecido. Sabendo-se inexequível tal regresso, que
relevância atribuir agora às canções?

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